DAVID BOWIE

14 Jan

David Bowie. (7)

Não me canso de ouvir os primeiros álbuns de David Bowie, sobretudo aqueles hinos do glam rock retrabalhados em Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes. Este filme tem a mesma percepção do músico que sempre tive: um cometa que levou o glam rock à glória e depois o abandonou inexplicavelmente, apagando-se numa morte lenta.

Bowie podia então se travestir e ter amantes dos dois sexos, fazer declarações chocantes, politicamente incorretas, que ninguém ousava depreciá-lo. Ele era protegido por uma aura de beleza: qualquer outra pessoa que ousasse ser como ele viraria um objeto de escárnio.

Mas em Bowie os trajes de palhaço, de odalisca, de marciano, só o tornavam mais majestoso. Seu porte era o de um príncipe, ele pairava acima dos pobres mortais, o ridículo não podia atingi-lo. Nas últimas décadas, porém, ele aposentou suas ousadias, e assumiu uma aparência de executivo fashion, compondo músicas deprimentes, mórbidas.

O sol negro sempre esteve presente em suas músicas, espreitando seus personagens sofredores, mas havia sempre também um aceno de esperança no final da agonia, como em Rock ‘n’ Roll Suicide, uma de minhas canções prediletas de Bowie.

No documentário Tally Brown – New York (1979), Rosa von Praunheim registrou, entre outras, essa performance da extraordinária Tally Brown, cantora underground e superstar verdadeiramente freak, admirada por  Andy Warhol, que desfilava seu sofisticado repertório por saunas gays e bares decadentes. Com sua voz poderosa, essa diva marginal interpretou como ninguém o Rock ‘n’ Roll Suicide de Bowie:

Outra de minhas preferidas, The Man Who Sold the World, teve a melhor de todas as performances executada ao vivo num concerto acolhedor da MTV Unplugged, por um autêntico suicida do rock: o belo e infeliz Kurt Cobain:

Uma das grandes performances de David Bowie, para mim, é esta aqui: ei-lo interpretando com raiva contida e verdadeira melancolia Five Years, essa dilacerante canção de amor desiludido –  a música, o cinema e o mundo acabaram de certa forma nos anos 1970:

Já o último álbum, Blackstar, e o musical Lazarus, que Bowie preparava com o diretor de teatro Ivo van Hove, mergulham-nos no fundo do poço, sem acenos de esperança. Os clipes são sinistros. Bowie esforçou-se para terminar os dois projetos antes de morrer, mas já tinha perdido o rumo, há décadas não era mais aquela estrela cintilante. Paga-se um preço pela traição dos ideais.

Bowie lançou Blackstar no dia 8 de janeiro ao completar 69 anos. Nesse dia Jimmy King postou no Instagram uma foto que tirou de Bowie de chapéu, sapato sem meia, soltando uma gargalhada na rua: foi seu adeus ao mundo. Wendy Leigh, biógrafa de Bowie, revelou que, além do câncer no fígado, ele teve seis ataques cardía­cos nos últimos anos.

Quando ouvimos uma boa música não sabemos bem quando foi composta. Como os desenhos animados que nos encantam, as canções mais perfeitas são atemporais, elas conseguem atravessar as gerações sem acumular poeira alguma.

Os primeiros álbuns de Bowie continuam soando modernos. Eu os considero mais atuais que os seus últimos, que já nasceram mofados. Foi graças aos seus antigos hits que ele continuou conquistando adeptos na jovem geração.

Logo após sua morte, um grupo de astrônomos belgas batizou uma constelação de sete estrelas em forma de raio com o nome de David Bowie.  E as manifestações de admiração no meio artístico que seu fim produziu nas redes sociais beiraram o endeusamento:

Elijah Wood: – Nunca imaginei um mundo sem ele. Ele ascendeu ao Cosmos de onde veio.

Kanye West: – David Bowie era uma das inspirações mais importantes; tão destemido, tão criativo, ele nos deu mágica para uma vida toda.

Kat Dennings: – Esse homem moldou meu coração e minha alma. NUNCA terá outro como ele nesse planeta estúpido […]. David Bowie foi meu norte musical minha vida inteira. […] Ele NUNCA será substituído, nunca.

Joe Manganiello: – As pessoas sempre me perguntavam com qual ator eu mais queria trabalhar, eu sempre dizia que com o David Bowie. Triste que nunca terei a chance. Eu toquei Outside no repeat por anos. Nunca saiu do meu toca-discos. Eu me lembro de implorar para a minha mãe me levar para ver os fantoches de Labirinto quando criança no museu de Pittsburgh.

Pude ver David Bowie ao vivo num show em São Paulo, com Elaine Mansano​ e Carlos Conti, no dia 23 de setembro de 1990, no Estádio do Palmeiras. Lembro que chuviscava, mas foi um show tranquilo, sem as luzes histéricas e os efeitos estrambóticos dos atuais concertos de rock, acachapantes e ensurdecedores.

Demoramos a sair do lotado Estádio do Palmeiras, as ruas estavam tomadas pelos remanescentes do show à procura de seus automóveis, que logo bloqueariam todas as vias. Em toda minha vida só fiz uma única vez esse sacrifício, de ir a um estádio de futebol, por David Bowie. Lembro-me disso e fico triste pelo mundo que se acabou.

10 MELHORES FILMES DE 2015

3 Jan

Mad Max 2015.jpg

Não há mais obras-primas no cinema, feitas até a década de 1970 sem a necessidade dos muitos milhões de dólares gastos hoje nos blockbusters, nem vou mais ao cinema com a frequência de quando eu escrevia para as mídias de São Paulo. Há anos que, por comodismo, compro os filmes em DVD ou Bluray para ver em casa, sem ter de lidar com uma plateia que fede a pipoca amanteigada e não consegue desligar seus celulares.

Perdi muitos dos filmes que aparecem nas listas dos críticos: Birdman (Birdman ou a inesperada virtude da ignorância), de Alejandro Iñárritu; Cinderella (Cinderela), de Kenneth Branagh; The Martian (Perdido em Marte), de Ridley Scott; In the Heart of the Sea (No coração do mar), de Ron Howard; Star Wars VII – The Force Awakens (Star Wars – O despertar da Força), de J. J. Abrams; Inside Out (Divertida mente), de Pete Docter; Whiplash (Whiplash – Em busca da perfeição, 2015), de Gabriel Mascaro…

A lista que se segue é apenas a dos dez melhores filmes de 2015 que eu vi nas salas de cinema.

(1) Mad Max: Fury Road (Mad Max: Estrada da Fúria, 2015), de George Miller, com Tom Hardy e Charlize Theron. George Miller cria um universo horrendo, estilizado e povoado por monstros humanos. A ação é contínua e o filme é uma proeza de direção e de edição. Num mundo futuro desertificado, o “imperador” Immortan Joe desperdiça a pouca água que resta liberando-a para seus súditos neonazistas na forma de uma cascata artificial que ele abre e fecha. A água respinga nas panelas, caçarolas, latas e latinhas que o povo idiota estende para o alto, mas a maior parte do precioso líquido resvala pelas pedras e se perde na areia. A imperatriz Furiosa decide fugir desse reino idiota levando consigo as lindas escravas reprodutoras do Immortan Joe, que move então uma perseguição implacável à traidora que roubou seus “tesouros”. Nessa contenda automotiva estimulada pelos acordes incendiários de um guitarrista apocalíptico, as beldades em fuga são ajudadas pelo outsider Mad Max, traumatizado por não ter impedido a morte dos seus entes queridos, e por um súdito-perseguidor neonazista (Nicholas Hoult), que sonha com a morte gloriosa no Valhala, mas que acaba se convertendo à causa das neoamazonas. O 3D desse filme heavy-metal me deixou tonto e com dor de cabeça. Nos últimos 20 anos, Miller dirigiu apenas três filmes menores: Happy FeetHappy Feet Two e Babe: Pig in the City – produções dirigidas ao público infantil que nada tinham de autoral. Este é seu primeiro filme de ação desde Mad Max: Beyond Thunderdome (1985). Com um orçamento de US$150 milhões, Miller teve liberdade para fazer o filme que queria, e fez

(2) Spectre (007 Contra Spectre, 2015), de Sam Mendes, com Daniel Craig e Christoph Waltz.

(3) Mission: Impossible – Rogue Nation (Missão impossível 5: Nação Secreta, 2015), de Christopher McQuarrie, com Tom Cruise e Jeremy Renner

(4) Bridge of Spies (Ponte dos espiões, 2015), de Steven Spielberg, com Tom Hanks e Mark Rylance.

(5) The Visit (A visita, 2015), de M. Night Shyamalan, com Olivia DeJonge e Ed Oxenbould.

(6) Jurassic World (Jurassic World: o mundo dos dinossauros, 2015), de Colin Trevorrow, com Chris Pratt e Bryce Dallas Howard.

(7) Everest (Everest, 2015), de Baltasar Kormákur. Com Jason Clarke, Jake Gyllenhaal e Josh Brolin. Filme baseado em fatos reais ocorridos em 1996, quando dois grupos de alpinistas amadores inscrevem-se em dois pacotes de duas agências de “turismo radical” que prometem levá-los com segurança ao topo do Everest, a mais alta montanha do mundo. A aventura exaltante termina numa terrível tragédia.

(8) La Vénus à la fourrure (A pele de Vênus, 2013), de Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner e Mathieu Amalric, a partir de uma peça de David Ives. Apenas dois atores sustentam o mais recente huis-clos do cineasta. Após uma linda abertura pelas ruas de Paris sob um céu de chumbo, a ação transcorre toda dentro de um pequeno teatro, numa fria noite de tempestade. Vanda Jordan (Emmanuelle Seigner), uma atriz que já beira a decadência sem ter conseguido destacar-se, chega atrasada ao teste de atores para a nova peça do diretor Thomas (Mathieu Amalric), que adaptou para o teatro o romance Vênus em casaco de pele, de Leopold von Sacher-Masoch. Abusando do visual punk-gótico-sadomasô, Vanda pensa ser a pessoa ideal para encarnar Wanda von Dunayev. O diretor já encerrou as audições, sem encontrar os atores certos, e não vê na candidata retardatária nenhuma qualidade especial que o comova, apressando-se em despachá-la. Com truques que apelam à vaidade e ao fetichismo do diretor, Vanda consegue, contudo, convencê-lo a mudar de ideia. Thomas acaba ensaiando com a atriz quase a peça inteira, assumindo o papel do pervertido aristocrata Severin, que deseja ser dominado por Wanda, num jogo sadomasoquista de entra-e-sai da pele dos personagens. Apenas no final, quando Thomas deixar cair suas defesas, Vanda revela seus verdadeiros e sinistros propósitos. Primeiro filme realizado por Polanski após ser preso em 2009, na Suíça, aonde fora receber um prêmio, devido ao infindável processo em curso nos EUA desde 1974, pelo abuso sexual de uma menor – que já o perdoou –, La Vénus à la fourrure alude a esse último pesadelo de sua vida. Os outros pesadelos: o nazismo no gueto de Lodz, o comunismo na Polônia do pós-guerra e o assassinato da primeira esposa, Sharon Tate, grávida, pelos psicopatas de Charles Mason no exílio americano. Seigner, esposa de Polanski, que estrelou outros filmes seus, para o injusto desgosto da crítica, que nunca reconheceu seu talento (ela está ótima no papel da atriz azarada) contracena com Amalric, parecido com o cineasta, e cujo personagem cai, como o diretor na vida real, numa armadilha sexual armada pela sanha do politicamente correto, a nova peste totalitária a minar a liberdade individual pela imposição de sentimentos de culpas sociais pelas “minorias oprimidas”, numa empresa de equalização forçada. Polanski mostra-se em forma, agora com o apoio de sua Polônia natal, mas ainda limitado ao limbo da produção independente europeia, sem perspectivas de reinserir-se no panteão de Hollywood. O filme é de 2013, mas estreou no Brasil em 2015.

(9) Victor Frankenstein (Victor Frankenstein, 2015), de Paul McGuigan, com Daniel Radcliffe, James McAvoy e Jessica Brown Findlay.

(10) Irracional Man (Homem irracional, 2015), de Woody Allen, com Joaquin Phoenix e Emma Stone. Abe Lucas, professor de filosofia, é um homem depressivo e deprimente, que professa um niilismo atraente para certas mulheres, apesar da barriga crescente e do ar decadente. Transferido para a universidade de uma pequena cidade, Abe seduz Rita, uma colega desamparada pelo marido, e a brilhante aluna Jill. Esses relacionamentos se desarranjam, contudo, quando Abe e Jill ouvem a conversa de estranhos numa lanchonete sobre um juiz que impede o divórcio de uma infeliz mulher. Para provar suas teorias niilistas, Abe decide “brincar de Deus” e fazer um casal feliz envenenando o café que o malvado juiz toma sempre a certa hora no parque que ele também frequenta. Quando Jill passa a suspeitar de seu mestre, este se vê obrigado a eliminar também a pupila.

Alguns dos melhores filmes de 2015 eu vi, contudo, em DVD e em Bluray:

(1) Woman in Gold (A dama dourada, 2015), de Simon Curtis, com Helen Mirren, Ryan Reynolds, Daniel Brühl, Moritz Bleibtreu e Katie Holmes. Baseado no processo aberto por um jovem advogado, neto do compositor Arnold Schoenberg, envolvendo os direitos de posse do famoso quadro rebatizado de A dama dourada, de Gustav Klimt, orçado em 100 milhões de dólares, este filme emocionante recorda um dos capítulos ainda não encerrados do Holocausto: o saque das obras de arte dos judeus, estocadas em mais de 1.000 depósitos na Alemanha e na Áustria. Após a guerra e sob a coordenação do exército americano, cerca de 700 mil peças foram identificadas e restituídas aos seus países, cujos governos deveriam localizar seus legítimos donos para a devolução. Mas muitos governos e importantes museus fizeram de tudo para reter esses tesouros e, passadas sete décadas, cerca de 100 mil peças ainda não foram devolvidas.

(2) Im Labyrinth des Schweigens (Labirinto de mentiras, Alemanha, 2015). Direção: Giulio Ricciarelli. Com Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht. Em 1958, na cidade de Frankfurt, o jovem procurador Johann Radmann (Alexander Fehling) começa a investigar antigos membros da SS que teriam cometido assassinatos em Auschwitz, sendo o Holocausto algo completamente ignorado pela jovem geração, verdadeiro tabu no país. Para chegar aos culpados e levá-los a julgamento, Johann terá de empreender uma pesquisa épica nos arquivos, encarnando Teseu no Labirinto, com o fantasma do Dr. Joseph Mengele assumindo o papel do Minotauro, enfrentando ainda a pressão de seu meio, as negativas das autoridades, a dissimulação dos nazistas, o ódio dos colaboradores, as ameaças de morte, o rompimento dos seus poucos laços sociais, chegando finalmente à verdade última, que ameaça sua própria identidade.

(3) The Imitation Game (O jogo da imitação, 2014), de Morten Tyldum, com Benedict Cumberbatch e Keira Knightley. Durante a Segunda Guerra, o matemático inglês Alan Turing (Benedict Cumberbatch) é contratado pelos serviços secretos britânicos para desenvolver uma máquina capaz de decodificar os códigos nazistas. Após inúmeras tentativas frustradas, a máquina que desenvolve com um grupo de cientistas acaba conseguindo obter resultados, mas o segredo deve ser mantido para que os nazistas não suspeitem da invenção e criem outo código mais complexo. Assim, o bombardeio de um navio é permitido, mas como os pais de um dos cientistas encontram-se nesse navio, a omissão de socorro abala e divide a equipe. Turing também sofre chantagens do governo por conta de sua homossexualidade e acaba se submetendo a um tratamento cruel de “cura” de si que o faz entupir-se de remédios e afastar-se ainda mais de uma vida normal: isolado e sozinho, ele morre de depressão. A máquina que ele inventou evoluirá para os atuais computadores. O filme é de 2014, mas estreou no Brasil em 2015.

(4) Terminator Genisys (O exterminador do futuro: gênesis, 2015), de Alan Taylor, com Arnold Schwarzenegger e Jason Clarke.

(5) Snowpiercer (O expresso do amanhã, 2013), de Bong Joon-Ho, com Chris Evans, Jamie Bell e Tilda Swinton. O filme é de 2013, mas estreou no Brasil em 2015.

Veja os #fogosdeartifício que criei ao publicar em #WordPressDotCom. Meu relatório anual de 2015.

29 Dez

See the fireworks ARQUIVO PASOLINI created by blogging on WordPress.com. Check out their 2015 annual report.

Fonte: Veja os #fogosdeartifício que criei ao publicar em #WordPressDotCom. Meu relatório anual de 2015.

Veja os #fogosdeartifício que criei ao publicar em #WordPressDotCom. Meu relatório anual de 2015.

29 Dez

Veja o fogo de artifício criado por DIÁRIO CINEMATOGRÁFICO em WordPress.com., no relatório anual de 2015.

Fonte: Veja os #fogosdeartifício que criei ao publicar em #WordPressDotCom. Meu relatório anual de 2015.

ENCONTRO COM NATASHA MASHKEVICH

9 Out

A chave de Sarah.

Durante o FestiFrance BH Brasil 2015, no Sesc Palladium, participei do debate com a atriz Natasha Mashkevich sobre o filme Sarah’s Key (A chave de Sarah, 2011), de Gilles Paquet-Brenner, estrelado por Kristin Scott Thomas e premiado nos EUA, na Alemanha e no Japão.

Natasha – que imigrou de seu Quirguistão natal para Israel, depois para a Bélgica e a França, onde se casou com o produtor Roberto de Matos, mineiro radicado em Paris, razão pela qual o português é agora uma das seis línguas que ela domina – faz o papel de Madame Starzynski, a mãe de Sarah.

Foto de Julien Bonet.

Natasha Mashkevich no papel de Madame Starzynski. Foto de Julien Bonet.

A história da chave de Sarah é tão tremenda que duvido que alguém, depois de ver o filme, se esqueça dela até a morte. No debate, Natasha disse que o filme foi bem recebido na França, apesar do tema incômodo da Colaboração.

Observei que embora houvesse muitos filmes sobre o Holocausto, Sarah’s Key era dos primeiros a mostrar de forma realista, com uma reconstituição exata, a deportação dos judeus organizada pela polícia francesa, que aprisionou 76 mil judeus no Velódromo de Inverno em julho de 1942 antes de enviá-los para os campos de concentração nazistas.

No debate, observei que a recusa da França em assumir o passado colaboracionista, escancarado pela primeira vez em Le Chagrin et la Pitié (A dor e a piedade, 1969), de Marcel Ophüls, substituída na cultura francesa do pós-guerra pela memória seletiva de exaltação à Resistência, ligava-se a dois fatores.

Primeiro, à vergonha de milhões de franceses terem sido dominados durante a Ocupação por apenas alguns milhares de alemães. Segundo, à tradição do antissemitismo francês, que vem da Idade Média, passa pelo caso Dreyfus e pela Colaboração, e permanece forte até hoje.

Há quem negue haver antissemitismo hoje na França. Mas basta lembrarmos de Alain Soral e Dieudonné – processados e condenados em seu país por antissemitismo – e as passeatas contra Israel onde se proferiram gritos de “judeus para as câmaras de gás”, para entendermos porque muitos judeus franceses estão atualmente deixando o país.

Quando fui visitar o Memorial da Shoah em Paris, meio perdido nas paralelas do Sena, pedi informações a uma francesa esclarecida, que estranhou o nome do museu, e depois, ao ver o mapa que eu trazia, disse: “Ah, é o Memorial da Guerra, eles o chamam de Memorial da Shoah, mas para nós é o Memorial da Guerra.”

O antissemitismo francês atual manifesta-se nessas sutilezas. Outro exemplo: os acadêmicos franceses celebram em peso um escritor medíocre, colaboracionista, notoriamente antissemita: Céline. Suas obras foram há tempos imortalizadas pela Pléiade. Já a grande escritora Simone de Beauvoir ainda não foi posta nesse cume.

Segundo Pierre-André Taguieff em La nouvelle judéophobie (A nova judeufobia, 2002), a nova judeufobia manifesta-se mais violentamente entre os imigrantes das ex-colônias que aderiram à radicalização político-religiosa. Mas eles encontraram incentivo e solidariedade junto aos novos movimentos antiglobalização.

Franceses já são os filhos dos imigrantes nascidos na França que manifestam antijudaísmo; e os nativos de velha cepa apropriam-se indiretamente da nova judeufobia através da  palestinofilia contagiante e do antirracismo focado apenas na islamofobia e que mantém, assim, a boa consciência dos militantes.

Após o debate conversei com a bela e simpaticíssima Natasha, que me disse que tinha escrito um roteiro e desejava dirigi-lo. Perguntei sobre a história e ela me revelou apenas que girava em torno de dois temas: a escolha e o abandono. Mais ela não podia dizer… Pedi-lhe, claro, um autógrafo para a minha coleção.

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No dia seguinte assisti à peça Nossa Senhora do Perpétuo Donuts, um monólogo de Jordan Beswick, com Natasha Mashkevich encarnando a personagem real Edna Howard, uma mulher comum que tinha tudo para ser deprimida, infeliz e até se matar, mas que escolheu ser alegre, feliz, e viver sem remoer o passado.

Estuprada noite após noite pelo pai, com a cumplicidade da mãe e dos dois irmãos, que fingiam nada saber do que ocorria, teve forças de fugir de casa para se casar com seu “príncipe encantado”, que logo se revelou um alcóolatra, que a surrava dia sim dia não.

A maternidade e os filhos eram o refúgio de Edna, até que, esgotada, disse ao marido que, se ele não mudasse, o abandonaria. O machista psicopata então quase a matou de pancadas. Foi quando Edna decidiu procurar um advogado e conseguiu o divórcio.

Liberta do jugo do marido, obteve dele sua loja de donuts, mas sem capital e estoque nem o serviço de limpeza, antes feito pela “namorada” dele, quase teve que fechar as portas. Ela confessa então seu maior pecado: apesar de tudo o havia sofrido, deixou os filhos com os pais, esperando que nada lhes acontecesse, mesmo sabendo o que poderia acontecer-lhes.

Os pais de Edna revelaram-se, contudo, bons avós e se redimiram pelo amor aos netos. Edna acabou por perdoá-los – era a sua natureza não guardar rancores. Além disso, quando ela mais precisou, o pai foi à sua loja e fez todos os reparos necessários para que Edna pudesse mantê-la aberta e sobrevivesse.

Os filhos também ajudaram Edna a levar adiante os negócios. A personagem narra esses tenebrosos episódios de sua vida durante a cerimônia em que recebe do Prefeito da cidade uma placa em sua homenagem, por ter abrigado vinte crianças maltratadas e abandonadas.

Natasha Mashkevich interpreta Edna com um sorriso permanente nos lábios, passando por cima dos horrores sem ser marcada por eles, feliz por viver cada novo dia. Um momento mágico do monólogo agridoce, e que bem o resume, é quando ela dança para sufocar uma má lembrança, Rock And Roll Waltz (1954).

Nossa Senhora do Perpétuo Donuts. Foto de Thomas Nguyenvan.

Natasha Mashkevich em Nossa Senhora do Perpétuo Donuts. Foto de Thomas Nguyenvan.

Nossa Senhora do Perpétuo Donuts.

APENAS UM LIVRO

6 Set

Storm Center

Produzido pela Columbia, com créditos iniciais de Saul Bass, Storm Center (Ao despertar da tormenta, 1956) foi o único filme dirigido por Daniel Taradash, roteirista de clássicos como Rancho Notorious (1952), Don’t Bother to Knock (1952), From Here to Eternity (1953) e Picnic (1955).

Considero Storm Center um dos filmes mais impactantes sobre a formação de comunidades moralmente linchadoras, alimentadas pela crença irracional largamente compartilhada numa ideologia “incontestável”.

Toda ideologia cobra sacrifícios periódicos de bodes expiatórios. Esses sacrifícios garantem a manutenção de seus dogmas, geradores dos padrões de comportamento. Trata-se, aqui, da ideologia anticomunista. Mas poderia ser um filme sobre qualquer outra ideologia que tenda ao totalitarismo.

A impecável bibliotecária Alicia Hull (Bette Davis) dirige, com extrema correção, paixão pelos livros e devoção aos seus jovens leitores, a idílica biblioteca pública de uma cidadezinha americana, um pequeno paraíso onde tudo é organizado com amor, num prédio acolhedor, recoberto de heras.

Alicia tem o sonho de construir ali uma seção infantil para introduzir as crianças ao mundo dos livros. Um de seus protegidos é Freddie (Kevin Coughlin), filho perturbado de um casal disfuncional, que vive mergulhado nos livros, a ponto de confundir a realidade à sua volta com a ficção do Wonder Book que devora.

Em plena Guerra Fria, um livro de propaganda comunista intitulado The Communist Dream (O sonho comunista) torna-se objeto da ira de grupos anticomunistas, que enviam cartas de protesto ao Conselho Municipal que rege a biblioteca, solicitando providências contra  o “perigo vermelho”. O Juiz Ellerbe (Paul Kelly) pede à sua amiga bibliotecária o empréstimo do livro para exame.

Após a leitura do livro, os conselheiros solicitam a Alicia que retire The Communist Dream do catálogo da biblioteca e atire aquele exemplar ao lixo. Chocada, a bibliotecária diz que nunca havia sido antes pressionada para remover um livro e que iria pensar numa maneira mais adequada de descarte.

Depois de aparentemente ceder à pressão do Conselho, que a chantageou com a aprovação do seu acalentado projeto de seção infantil, a bibliotecária passa a noite em claro, remoendo sua consciência. Decide, na manhã seguinte, reconduzir o livro ao mesmo lugar que ele antes ocupava na estante.

Ao saber que The Communist Dream não fora removido, o Conselho Municipal convoca novamente a bibliotecária para apurar suas razões. Considerando a remoção de “apenas um livro” por razões políticas uma questão de princípio, intransigível, ela observa que embora o livro não a agradasse, havia toda uma seção de política na biblioteca que poderia ser questionada, e que até o repugnante Mein Kampf de Hitler deveria ser lido, pois não se combate uma ideologia ignorando-a.

Alicia invoca Thomas Jefferson e mostra-se inflexível: “Os senhores têm o poder de remover o livro, e o poder de me remover do cargo, e deverão exercer os dois poderes para obter o que desejam”. Era o que Paul Duncan (Brian Keith) desejava. Membro do conselho com ambições políticas, namorado da bibliotecária assistente, Martha Lockeridge (Kim Hunter), ele manipula a reunião e apresenta Alicia como velha comunista.

Com a ingênua colaboração de Martha, que passou ao namorado informações confidenciais, Paul preparara um dossiê sobre antigos apoios de Alicia a organizações comunistas. Interrogando a incauta bibliotecária sobre doações àquelas organizações suspeitas, Paul a coloca contra a parede e consegue atemorizar os outros membros do Conselho, que votam unânimes pela demissão daquela “subversiva”.

A demissão de Alicia repercute. Os cidadãos que antes a tinham em alta conta passam a evitá-la, olhando-a de soslaio ou encarando-a com carrancas acusadoras, cheias de ódio e rancor. Ela não pode mais frequentar lugares públicos e mesmo as crianças, razão de ser de sua vida, passam a evitá-la como a própria peste.

Especialmente o perturbado Freddie, que Alicia tratava como um filho, emprestando a ele livros de sua biblioteca pessoal para o desgosto do pai inculto, revolta-se contra ela, atormentado por conversas adultas que não é capaz de entender. Alicia passa a encarnar a seus olhos uma espécie de monstro.

O Juiz Ellerbe (Paul Kelly) percebe, tardiamente, o mal terrível que fez àquela que o considerava um amigo e para reparar a injustiça feita à bibliotecária, que se preparava para deixar a cidade, convida-a para participar de uma festa na praça principal onde todos celebram o aniversário de sua bela biblioteca pública.

Durante a cerimônia, o menino Freddie é convidado a ler os títulos dos dez melhores livros infantis votados pelos leitores. Mas quando ele vê Alicia entrar na praça, fica paralisado. O mal-estar é geral. Ninguém ali deseja a presença da “comunista”. O Juiz Ellerbe insiste, porém, e concede a Alicia, autora do projeto, a honra de dar a primeira escavada no local da futura seção infantil a ser ali construída.

Alicia percebe que Freddie continua aterrorizado e o chama para que ajude sua “velha amiga” com a pá. Nesse momento, Freddie é acometido por um ataque de histeria e grita na cara dela: “Você é uma comunista, comunista, comunista…” Perdendo o controle, Alicia o esbofeteia sem dó diante de toda a cidade.

Enlouquecido, o menino foge de casa e, à noite, coloca fogo na biblioteca. Numa sequência que lembra as fogueiras da Santa Inquisição e os autos-da-fé nazistas e antecipa os incêndios do futurista Farenheit 451, vemos queimar diante de nossos olhos alguns dos livros imortais dos maiores autores da humanidade.

Diante da tragédia, os cidadãos arrependem-se de seus atos, assumindo a culpa de tudo. Mas Alicia, desistindo de deixar a cidade, diz que a culpa também é dela, pois não resistiu o bastante às pressões e injúrias e que não iria desistir agora de ajudar a construir uma nova biblioteca.

Storm Center é um clássico esquecido, um belo e raro filme de tese sobre a liberdade de expressão produzido em plena Guerra Fria. A cena em que Bette Davis estapeia Kevin Coughlin é antológica: ninguém estapeou tão bem no cinema um garoto histérico. É chocante e convincente. E a sucessão de eventos gerada pela proibição de um livro é tão bem construída que adquire uma dimensão apocalíptica.

Apesar de desprezado pela crítica e somente agora lançado em DVD nos EUA, o filme revela-se atual como nunca nesse admirável mundo novo dominado pelos “padrões de comunidade Facebook”, onde os livros tornaram-se descartáveis e as redes sociais alimentam ferozmente a mentalidade de caça às bruxas.

Saul Bass title sequence: https://www.youtube.com/watch?v=IzLJowl7-t4

Just one book: https://www.youtube.com/watch?v=Gst7BKUbObY

BLOQUEADO PELO FACEBOOK

30 Ago

Já fui três vezes bloqueado pelo Facebook.

Da primeira vez, por ter postado para os meus Amigos um vídeo caseiro que fiz de uma lua que se via excepcionalmente bela no céu, certa noite de verão. O bloqueio deu-se por conta de uma música de Lou Reed que usei para realçar as imagens. Configurou-se, nessa brincadeira que fiz exclusivamente para a curtição dos Amigos, uma grave “violação dos direitos autorais”…

Da segunda vez, fui bloqueado por supostamente “violar os padrões da comunidade” ao postar um still já icônico da primeira sequência do filme Flesh (1968), de Paul Morrissey, um clássico do underground americano. A imagem de Joe Dalessandro dormindo nu foi chocante demais para o vigilante moral camuflado de Amigo que, bisbilhotando minha timeline, ficou horrorizado com a visão da beleza do corpo humano e acionou o botão “denunciar”. A equipe do Facebook, que deve ignorar a história cinema do cinema, prontamente acolheu a denúncia e censurou a foto, punindo-me com 24 horas de silêncio.

Joe Dalessandro, em 'Flesh' (1968). A

A terceira vez deu-se pela denúncia de algum fascista contra uma nota em que resumia minha complexa visão sobre a cultura indígena, inspirada pelos tratados de antropologia de Mauss, Frazer, Malinowski, Moscovici e Caillois, base da minha contestação da tese da sociedade indígena como “sociedade sem Estado” dos Clastres, que publiquei em Sexo (Brasiliense, 1986), e por “Fascinante fascismo”, de Susan Sontag, ensaio seminal que iluminou minha tese Imaginários de destruição: o papel da imagem na preparação do Holocausto (USP, 1994).

A nota bloqueada era uma reflexão sobre a polêmica sobre o infanticídio entre os índios brasileiros. A esquerda, defensora das tradições indígenas, mostra-se hostil ao tema, caro aos grupos cristãos. A discussão é complexa, mas não pode ser objeto de controvérsias maniqueístas, como quer aqueles “civilizados” que, em nome de uma ideologia coletivista, colocam, em relação aos índios, o poder do grupo acima do direito à vida, como se os Direitos Humanos não se aplicassem aos índios.

A impressionante história verdadeira de como um menino índio salvou sozinho, contra toda a tribo, a irmã menor, condenada a ser enterrada viva por ser doente, é contada no emocionante curta-metragem Hakani, uma menina chamada sorriso, de David Cunningham, narrado por Irene Ravache e interpretado por indígenas de várias tribos do Brasil, que preferiram falar em suas línguas nativas. O fato de ser uma produção de missionários americanos não tira em nada o valor de sua denúncia.

Sandra Terena, uma das raras jornalistas índias no Brasil, também quebrou o tabu e entrevistou índios assimilados que fazem uma arguta crítica aos antropólogos, que reforçam certas práticas tradicionais da cultura indígena, já superadas por aqueles, que puderam ter acesso a uma educação formal, adquirindo autonomia em relação ao “pensamento selvagem” da tribo, dominada pela sabedoria incontestável do pajé, revisando criticamente sua cultura, para reinseri-la no tempo histórico, como algo de vivo e em evolução.

Cabe uma reflexão sobre os “padrões da comunidade” do Facebook. Quem estabelece esses padrões? A comunidade. Ou seja, se vivemos numa sociedade cristã, muçulmana, comunista ou fascista, toda publicação que ofenda a moral cristã, muçulmana, comunista ou fascista pode ser bloqueada, bastando a denúncia anônima de um militante raivoso da moral dominante. Nenhum pensamento herético será permitido. A verdade não poderá mais competir com o dogma. Nenhum desvio da Norma há de ser tolerado.

Qualquer pensamento que não se conforme à visão de mundo estabelecida será taxado de “discurso de ódio” pelos novos patrulheiros da moral estabelecida e, logo, como uma ameaça à “segurança da rede”. Esse sistema totalitário, que lembra o discurso da ditadura militar, opera um dumbing down das sociedades em que foi estabelecido: o ideal Facebook revela ser o eterno compartilhamento exclusivo de receitas de bolos e poemas de Camões.

Os “padrões da comunidade” mencionam as punições adotadas (de 24 horas de bloqueio à retirada do perfil) em caso de “discursos de ódio que incitam ao crime, ofensas pessoais e ataques aos grupos protegidos da sociedade”. Como eu acreditava na objetividade desses padrões, certa vez acionei o botão de denúncia contra uma página racista de neonazistas e obtive como resposta da equipe brasileira do Facebook que aquela página de ódio exprimia apenas uma opinião, e que não violava os “padrões da comunidade”.

Bloqueando uma reflexão sobre o totalitarismo sem ódio nem ofensa pessoal, o Facebook acolhe todas as ofensas pessoais e calúnias a “inimigos”, sejam petistas (os “petralhas”) ou não-petistas (os “coxinhas”), homossexuais (os “gayzistas”), feministas (as “feminazis”), judeus (os “sionistas”), etc. São dois pesos e duas medidas. Seria interessante abrir essa caixa preta montada pela equipe brasileira do Facebook que, secretamente, sem transparência, libera, ao contrário do que fixam suas regras, todo discurso de ódio.

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