A MÁQUINA DE CULPAR

5 mai
Imagem 3D de Antonio Cavalcante inspirada no conto

Imagem 3D de Antonio Cavalcante inspirada no conto “Na colônia penal”, de Franz Kafka.

A MÁQUINA DE CULPAR

Das páginas dos meus Diários

São Paulo, 1994

O sentimento de culpa diante do pobre povo sofredor continua a devorar o intelectual populista, que, para punir-se de seus privilégios, escolhe, como os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes, o caminho da participação no poder. Assumindo cargos no Estado, ao invés de elaborar livremente um caráter que o comprometeria na sua situação de intelectual, ele rejeita a própria liberdade, esvaziando sua situação de qualquer caráter político.

Este intelectual não encontra dimensão política em sua situação e decide, para atuar politicamente, suicidar-se como intelectual, escapando de sua condição pelo ingresso num partido.

O partido, instituição sem caráter é a instituição preferida pelos homens que descaracterizam suas situações particulares. Submissos aos preceitos do Estado, às regras do sistema parlamentar, à estrutura fixa e particular das eleições periódicas, aos protocolos, às formalidades, às burocracias, ao programa do partido, à sua hierarquia e à sua organização, os intelectuais descaracterizados e partidarizados passam a separar todas as coisas de seu caráter circunstancial.

Essa divisão, primeiro, e, depois, a repressão que movem contra esse caráter resultam na necessidade de compensação que só o partido pode oferecer, pela concentração da política em seus limites, concentração obtida com o esvaziamento prévio dos limites políticos das coisas.

Descaracterizadas, as coisas serão analisadas pelo partido de um ângulo estritamente político-partidário. Daí o recurso à propaganda, aos esquemas, às análises congeladas de conjuntura, às palavras de ordem, aos chavões e aos espantalhos.

Dedicando-se, movidos pela culpa de seus privilégios, a combater a miséria, os intelectuais populistas passam a amar os miseráveis em sua própria miséria, saboreando a sujeira, respirando com delícia o suor gorduroso do “homem do povo”. A pobreza é santificada, a feiura celebrada, a miséria glorificada. “O homem do boteco é quem sabe das coisas”, escreveu a filósofa Marilena Chauí num de seus livros profundos.

Na campanha eleitoral de 1978, um cartaz da oposição mostrava dois pés descalços, velhos, sujos, rachados, como que necrosados: o candidato combatia a condição da existência destes pés mas, em dado momentos, esses pés tornavam-se, eles próprios, a condição da existência do candidato, que já necessitava da persistência da exploração para justificar sua luta. Por isso o populista é sempre e cada vez mais culpado – aos olhos do poder, que o ameaça se se aproxima demais do povo, e aos olhos do povo, que o despreza se se aproxima demais do poder.

Pouco a pouco, o intelectual participante aprende a sobreviver sob esses dois fogos, a dançar na corda bamba. Se antes desejava sinceramente uma transformação social, agora, corrompido pelo poder, tenta adiar ao máximo o fim do sofrimento justificador, prestigioso ou bem remunerado. Torna-se velhaco, manipulador hábil; caminha a passos largos para a ruína moral, abandonando a cada paragem um escrúpulo, um ideal, um traço de sua antiga humanidade. Por fim, volta para trás um rosto macilento e triste de palhaço, cuja expressão parece dizer: “Eis o que a vida fez de mim: um político profissional”.

Mas o caminho do sofrimento possui duas mãos – e uma lava a outra. No universo populista, quanto mais alguém se humilha, mais é exaltado; quanto mais se rebaixa, mais se eleva. Sucessivamente Ministro da Educação, Vice-Governador e Secretário da Educação, o antropólogo Darcy Ribeiro martirizou-se pelo povo como talvez nenhum outro intelectual, absolutamente convencido de que “o ruim deste país são os ricos”.

No Ministério da Economia, a economista Maria da Conceição Tavares expurgou o fiasco do Plano Cruzado chorando ao vivo, na televisão, num clímax que arrebatou a todos sem reduzir a inflação.

Atacando a competência do saber, Marilena Chauí passou de filósofa de esquerda a ideóloga do Partido dos Trabalhadores, e de crítica da cultura a Secretária da Cultura [1].

Depois de rodar o mundo com sua “pedagogia do oprimido”, o educador Paulo Freire chegou, santificado pelas bases, à Prefeitura de São Paulo, onde dedicou especial atenção às então chamadas “crianças populares”.

Com fervor franciscano, o bem-nascido professor de Economia Eduardo Matarazzo Suplicy engajou-se no Partido dos Trabalhadores submetendo-se a penosos rituais de iniciação, que incluíam amolações em mesas de botecos com pedidos humildes de voto e distribuição manual de santinhos, até a completa abdicação como militante-estrela – sacrifícios que lhe proporcionaram o cargo, praticamente vitalício em seu caso, de Senador da República.

Contagiando as Universidades, as Artes e as Mídias, o populismo ganhou também o mercado. Assim, quando Fernando Morais lançou A Ilha, uma reportagem muito positiva sobre a Cuba de Fidel Castro, foi imediatamente aplaudido por sua suposta objetividade.

Numa segunda leitura, a objetividade do best-seller cai por terra: as perseguições aos dissidentes, aos intelectuais, aos homossexuais, a censura e a dependência econômica da URSS eram fatos omitidos deliberadamente ou tratados com complacência bovina pelo autor. “Qualquer dia liberaremos Cem anos de solidão, de nosso amigo Gabo…”, disse-lhe Fidel Castro, sorrindo.

Fernando Morais sorri de volta, Gabriel Garcia Marques sorri, todo o povo cubano sorri e o leitor também é levado a sorrir. Oscar Wilde já dizia: a pior forma de autoritarismo é a que se exerce com benevolência, porque corrompe. O mal, praticado por amigos, torna-se apenas um pecadilho.

Eleito e reeleito deputado, ao tentar nova reeleição Fernando Morais foi, segundo suas próprias palavras, “escorraçado da vida pública pelo voto popular”. Mesmo assim, aceitou o convite do Governador Orestes Quércia para assumir a Secretaria da Cultura, abalada pela desastrada gestão da atriz populista Bete Mendes. Fernando Morais disse, então, só se distinguir do povo “por ter sido bem alfabetizado na infância”.

No novo cargo Morais continuou “absolutamente convencido de que se a população não estivesse satisfeita com o regime vigente em Cuba ele não teria durado”. E concluiu: “Eu defendo a existência de um Estado socialista, onde o Estado domina rigorosamente todas as atividades produtivas, inclusive as culturais.”

O atávico sentimento de culpa não é varrido pelos novos valores corruptores do conglomerado. Os limites da criação continuam colocados pela persistente indústria cultural do populismo. Uma indústria hegemônica desde que os intelectuais orgânicos alternam-se no poder, sempre ensaiando a estatização total da cultura.

Nova prova de que a inteligência brasileira mantém-se escravizada aos valores disseminados pela religião secular do populismo foi dada durante as eleições presidenciais de 1989, que revelaram o potencial explosivo do sentimentalismo como inquietante fenômeno de dessublimação repressiva daquele “vício político” condenado – teoricamente – até pelos próprios ideólogos populistas, de Francisco Weffort a Orlando Miranda.

O sentimentalismo não é uma relação autêntica com o mundo, pois provém de uma deformação da personalidade. Como visão viciada, ele rejeita a priori todo argumento racional. Diante deste argumento, o sentimental revela-se o que é preferindo a sua “certeza”, fortemente arraigada no coração.

Agindo por uma suposta bondade inata, que ele deseja expandir para o social, o sentimental tenta saldar impessoalmente, com um sacrifício pessoal ao deus Miséria, uma dívida que não é sua. Nesta ajuda voluntária e mediada, ele toma como meta de seu desempenho político o bem-estar alheio.

A atitude sentimental tem sua origem na culpa de ser um privilegiado. Ela nasce da desigualdade natural e social entre os homens – uma anomia que se projeta sobre a realidade e a torna movente de acordo com os sentimentos de cada um. Ao associar sua suposta bondade, de que está plenamente convencido, com o sentimento sacrificial, incutido em sua alma pela tradição, o sentimental rejeita a razão como aliada natural da maldade, atribuída aos seus inimigos.

Enfeitiçados pela propaganda obscurantista do Partido dos Trabalhadores, que dividiu o mundo entre pobres e ricos, os privilegiados voltaram a ser dominados pela culpa, como por efeito de um transe místico. Num programa de TV, o apresentador Fausto Silva deu a palavra ao povo para que esse fizesse uma pergunta à atriz Maitê Proença. Uma mulher de fala dura, o olhar gelado, gestos petrificados, antes afirmou que perguntou, com presunção: “A Maitê deve ter uma vida mansa, aposto que ela nem sabe fritar um ovo”.

A atriz ficou desconcertada. Embora tivesse votado em Leonel Brizola, e ainda não tivesse se decidido a votar em Luís Inácio da Silva ou Fernando Collor de Melo, pensava-se “de esquerda” e, portanto, purificada da culpa. Viu-se, porém, obrigada a dizer que trabalhava em gravações durante oito horas seguidas e que às vezes também trabalhava aos sábados, além de serviços ocasionais em teatro e cinema. A atriz confessou que de fato não sabia fritar um ovo, mas que não pensava por isso levar uma vida mansa.

Tarde demais. A máquina de culpar colocada em marcha pelo Partido dos Trabalhadores, cujo slogan era “sem medo de ser feliz”, antes mesmo de levar Lula ao poder já obrigava a todos a justificar sua felicidade. O diálogo que travei então com uma estudante universitária de classe média é ilustrativo das contradições ideológicas produzidas pela propaganda:

Em quem você vai votar?

Vou votar no Lula porque o Collor é um candidato da Rede Globo.

Mas a Rede Globo não é uma emissora melhor que as outras, que apóiam o Lula?

É, mas é porque ela tem mais dinheiro, pode ter mais produção, mais técnica.

E por que ela tem mais dinheiro?

Porque ela tem programas melhores, as pessoas assistem mais, e ela recebe mais publicidade.

E por que as pessoas não assistem às outras emissoras?

Porque elas já ligam direto na Globo, estão escravizadas pela Globo.

Quem as obriga a assistir à Globo?

Ninguém, as coisas são assim.

E por que as coisas são assim?

Ah, porque sim. A Globo tem mais dinheiro. É a grana. Por isso a Rede Globo faz tanto mal aos pobres.

Mas por que os pobres não assistem às outras emissoras?

Porque eles não têm escolha.

Não há outros canais de televisão? Por que não assistem aos outros canais?

Porque os outros canais não são tão atraentes. todos gostam de ver coisas bonitas.

Por que os outros canais não fazem, então, coisas bonitas para agradar ao povo?

Porque eles não têm dinheiro.

E por que eles não têm dinheiro?

Porque não têm audiência.

E por que não têm audiência?

Porque o povo prefere a Rede Globo.

E por que o povo prefere a Globo?

Porque ela tem os melhores técnicos, as melhores produções, é mais eficiente.

E por que as outras emissoras não se tornam mais eficientes?

Porque elas não têm dinheiro. É isso. O capitalismo faz muito mal aos pobres.

E se as outras emissoras tivessem dinheiro?

Elas fariam concorrência com a Globo.

E, aí, uma outra poderia vencer a Globo? Ter mais audiência?

Claro!

E então ela seria a mais rica e eficiente, a mais atraente, a melhor?

Certo.

E, então, ela seria a “nova” Rede Globo?

Sim… Mas seria preciso limitar o poder das redes. Nenhuma rede poderia ficar rica.

Então todos os programas deveriam ser pobres?

É, isso é melhor do que uma só ganhar das outras, o que é injusto.

Seria justo uma coisa melhor ser igualada a uma coisa pior?

Justiça é igualdade de oportunidades.

Mas depois da igualdade de oportunidade os melhores não se sobressaem mais que os piores?

É preciso limitar os desempenhos dos melhores para não se distanciarem dos piores. Não se pode permitir o crescimento dos melhores.

O sonho mórbido da igualdade retornou com a força de um irracionalismo contagiante, supressor da existência de qualquer valor além do dinheiro, equalizador mágico de todas as forças em desequilíbrio na sociedade. Durante as campanhas eleitorais, nem as piores metáforas biológicas vulgarizadas pelo nazismo foram evitadas.

Num debate televisionado, um militante do PT comparou o eleitor de Fernando Collor a um “chagásico”, que não conseguia impor-se numa roda, por representar “a estrutura carcomida das elites”, enquanto ele e seus iguais já “chegavam falando, entusiasmados, sobre a importância das eleições, das lutas populares, apaixonados pela causa, contagiando a todos”.

E quando a atriz Marília Pera e seu público foram constrangidos a permanecer duas horas presos no teatro, enquanto a turba petista gritava na rua “Marília Pera colloriu, vai pra puta que pariu”, o coordenador nacional da campanha de Lula, Wladimir Pomar, declarou, com o cinismo de um aprendiz de Goebbels: “Se isso aconteceu, era uma manifestação popular. Marília Pera tem que levar em conta que a vaia e o xingamento do povão fazem parte da vida democrática”.

Num amplo movimento de adesismo, quase toda a mídia apoiou o candidato Lula, que premiado pelo trucidamento da língua, passou a errar sistematicamente, voluntariamente, prazerosamente, enquanto psicanalistas, psicólogos e professores de psicodrama debruçavam-se sobre a personalidade de Collor, unânimes em diagnosticar seu autoritarismo, narcisismo, arrogância e demência. Em atitude submissa e corrupta, intelectuais e artistas manifestavam-se nos jornais, na televisão, em shows e comícios pela Frente Brasil Popular.

Sobre Collor projetavam os velhos espantalhos do populismo: elitista, burguesinho, candidato dos ricos, continuísta, homem de dinheiro, “filhote da ditadura”. Esqueciam que a ditadura também havia gerado Lula.

Um jornalista sugeriu uma analogia entre Collor e Hitler por ter aquele feito um gesto de “banana” a alguém que o agredia, como se a essência do nazismo estivesse num gesto de autodefesa e não em partidos altamente organizados, com militância aguerrida e fanática, que apedreja opositores e ostenta distintivos, em líderes que surgem da massa, em políticos que pregam a estatização, a expropriação e o poder popular.

O slogan “Arame farpado na bunda do Caiado” evocou, a propósito, a tentação totalitária das bases petistas. O arame farpado nas mãos dos adversários ideológicos de um proprietário rural adquiria um sentido pleno de ressonâncias sadomasoquistas, tanto mais quanto o instrumento destinado a infligir dor ao “inimigo” evocava o universo dos campos de concentração e a região do corpo privilegiada para a descarga da culpa era aquela em que se circunscreve o principal tabu sexual. Nessa catarse político-sexual, o local do prazer denegado tornava-se, pelo efeito da repressão acumulada, o local privilegiado da dor imposta ao “inimigo”.

Contudo, ninguém melhor que o seringueiro, sindicalista e ambientalista Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes – um autêntico homem do povo -, exprimiu a pulsão de morte que está na base do sentimentalismo populista, através de uma nota manuscrita reproduzida nos cadernos de propaganda eleitoral do PT:

Atenção Jovem do Futuro

6 de Setembro do ano de 2.120, aniversário ou 1º sentenário (sic) da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta. Num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade.

Aqui ficam (sic) somente a lembrança de um triste passado de dor – sofrimento e morte.

Desculpem

eu estava sonhando quando escrevi (sic) estes acontecimentos; que eu mesmo não verei. Mais (sic) tenho o praser (sic) de ter sonhado.

O sonho de Chico Mendes: ver a humanidade subjugada e nivelada num só ideal e num só pensamento de unidade socialista após a destruição de todos os inimigos da nova sociedade. No século XX, talvez somente Josef Stalin, Adolf Hitler e Mao Tsé Tung tenham sonhado tão alto.

[1] Professora Titular de Filosofia pela Universidade de São Paulo com especialização em História da Filosofia Moderna, Filosofia Política e Filosofia Contemporânea, Marilena Chauí assumiu a Secretaria Municipal de Cultura da Prefeita Municipal de São Paulo entre 1989 e 1992.

DE IDEIAS, CITAÇÕES E TRADUÇÕES COPIADAS

7 abr

Publicado originalmente em IMAGINÁRIOS DE DESTRUIÇÃO:

Plágio - História e Cinema (1)

Acabo de ler “O triunfo do Reich de mil anos: cinema e propaganda política na Alemanha nazista (1933-1945)”, de Wagner Pinheiro Pereira, capítulo do livro História e cinema (São Paulo: Alameda, 2007), organizado por Maria Helena Capelato (orientadora de Pereira), Eduardo Morettin, Marcos Napolitano e Elias Thomé Saliba.

Constatei que Wagner Pinheiro Pereira resumiu no seu texto alguns capítulos de minha tese Imaginários de destruição: o papel da imagem na preparação do Holocausto (USP, 1994).

Nesse resumo, ele utiliza algumas citações que traduzi de livros em alemão e francês, que ele parece não ter lido, pois reproduz os trechos que cito com as minhas traduções dessas citações, sem referir-se uma única vez ao meu trabalho em seu texto, nem sequer para disfarçar as cópias.

Alguns exemplos:

O trecho do discurso de Goebbels de 1937 às páginas 258-259 do livro é o trecho ipsis litteris que pincei do discurso de Goebbels…

Ver original 139 mais palavras

O MISTÉRIO DE E.T. CLINT (1976-1983)

16 fev

Edmund Thomas Clint.

Edmund Thomas Clint nasceu em Kochi, no sul da Índia, filho de Chinnamma Joseph e de Thomas Joseph. Os pais eram pessoas simples que deram ao filho o nome de Clint em homenagem ao ator preferido do pai, Clint Eastwood.

Clint praticamente nasceu desenhando. Ainda bebê começou a rabiscar o chão, desenhando círculos perfeitos. Com um ano de idade observou o artista Mohanan, amigo do pai, trabalhando num cavalete e passou a imitá-lo, usando as paredes da casa como grandes cavaletes. Sua mente parecia inundada com ideias e ele produzia cerca de 100 desenhos por dia.

Os pais do garoto, sem nenhum conhecimento de arte, não deixavam de incentivar o filho. Thomas comprou-lhe da fábrica um conjunto de lápis de cor com 75 tons. Logo Clint passou a desenhar flores e pássaros, depois paisagens, carros, aviões e, finalmente, personagens mitológicos. Ao ver suas pinturas, um artista recomendou aos pais do menino que o deixassem desenhar à vontade, pois “ele tinha algo a dizer”.

As obras do garoto pareciam incluir todas as escolas de pintura: do classicismo ao abstracionismo. Ele desenhava sem parar, durante horas seguidas. Clint também possuía um insaciável interesse científico: estudava anatomia para reproduzir a natureza o mais fielmente possível em seus desenhos, que receberam diversos prêmios.

Os pais de Clint leram para ele toda a mitologia indiana c mundial, cujos episódios o menino desenhava com admirável capacidade imaginativa. O pai providenciava tintas e lápis de cor, e deu-lhe também cinco mil caixas de papelão onde ele podia desenhar e dar asas à sua imaginação, que parecia devorar toda superfície branca com seus sonhos coloridos.

Edmund Thomas Clint - O peixe-leão.

Chinnamma, apaixonada pelas ciências naturais, leu para o filho a história do famoso ornitólogo Dr. Salim Ali. Clint ficou inspirado e passou a observar as aves com mais fascínio ainda. Doente desde os três anos, Clint pediu ao pai que lhe comprasse um binóculo para que pudesse observar os pássaros da janela do quarto.  O pai comprou-lhe um binóculo barato no bazar da Igreja e Clint passava horas a observá-los e a desenhá-los.

Edmund Thomas Clint - O periquito solitário.

Clint também tinha uma profunda relação com o pôr do sol e era sua rotina espreitar o crepúsculo da janela do quarto para admirar a infinidade de suas cores. Perguntava então ao pai: “De onde vêm todas essas cores? Como o céu e o sol realizam essa façanha todas as noites?”.

Um dos amigos de Clint apanhou um periquito e deu-lhe de presente. Sua alegria foi imensa. Ele o observou durante toda uma noite para desenhar seus movimentos. E depois pediu à mãe, de manhã, que soltasse o passarinho. Ela o fez e ele ficou extasiado ao ver seu voo livre.

Na manhã seguinte, o pai Joseph comprou-lhe um par de pombinhos. Clint observou-os de todos os ângulos para fixar em sua mente tudo o que podia sobre aquelas aves. Mas não queria mantê-las em cativeiro. Então pediu ao pai que lhe comprasse um novo par de pombinhos a cada duas semanas para que pudesse libertar o velho par. Seu pai concordou, e fez acordos com lojas de animais de estimação para um suprimento constante de pombos e comida de passarinho.

Clint observava atentamente a natureza para recriá-la em seus desenhos e pinturas. Mas suas obras não eram meras cópias do que via, e sim interpretações muito pessoais. Ao andar com a mãe pelas ruas estreitas do mercado, Clint observava as pequenas lojas de ambos os lados e uma vez deparou-se com um vigoroso açougueiro realizando sua carnificina. Ao chegar em casa, ele o desenhou como um porco.

Edmund Thomas Clint - O porco açougueiro.

Certo dia, depois de desenhar cemitérios e cruzes, Clint pediu à mãe que lesse para ele a passagem bíblica da ressurreição de Cristo. Depois, disse apenas: “Agora vou dormir. Não me chame. Se chamar pode ser que eu não acorde. Mamãe, não fique triste. Mamãe, não chore.” Logo ele sofreu uma misteriosa convulsão.

Aos seis anos e 11 meses de idade Clint morreu atacado por um mal renal jamais explicado pelos médicos que o trataram. Em sua vida breve, de maio de 1976 a abril de 1983, Clint fez 25 mil desenhos e pinturas. Ou seja, 25 mil desenhos e pinturas em apenas 2.522 dias de vida. Ninguém de sua família tinha inclinação para as artes. Seu talento é um enigma.

O cineasta inglês de origem indiana Shiva Kumar entrevistou os pais de Clint e os médicos que o trataram no documentário Clint (Clint, 1994), premiado como Melhor Filme no Festival de Cinema de Teerã e aclamado em festivais de cinema na Índia, no Brasil e no Japão, mas infelizmente até hoje nunca lançado em DVD. Um clipe sobre a vida e a obra de E.T.  Clint pode ser visto aqui:

SHIVA KUMAR

Nascido em Nova Delhi e educado na Inglaterra, Egito, Índia e EUA, Shiva Kumar formou-se no Instituto de Cinema de Pune. Dirigiu filmes institucionais e para uma multinacional. Fez dois documentários intitulados Years of Progress. Seus filmes foram exibidos nas redes PBS, The Disney Channel, BBC, Israeli Cable, Canal Plus, RAI e NHK.

Shiva traz em suas produções uma perspectiva global. Procura sempre para contar uma história única. Aperfeiçoou a arte de ouvir e perguntar até chegar ao núcleo de uma história única e comunicá-la com estilo e elegância. Sua perspectiva vem de sua formação diversificada como ator, apresentador de TV e repórter, sua cultura global e conhecimento apurado de cinematografia, iluminação, emergentes tecnologias HD e 4K e design de produção de vanguarda.

Filmografia parcial

Clint (Clint, 1994, 122’, cor, doc). Direção, Roteiro, Edição: Shiva Kumar. Fotografia: Madhu Ambat. Música: Pandit Raghunath Seth. Cenografia, Figurino: Nill. Som: K. S. Ravi.

Hitler’s Courts: Betrayal of the Rule of Law in Nazi Germany (Inglaterra, 2005, 35’, doc). Produção: PBS. O filme mostra a fragilidade da democracia, contando a história de sua degradação na Alemanha a partir da visão de advogados, juízes e professores de direito, que viram como sua nação governada pela Constituição foi derrubada pela retórica de Hitler.

Blessed Are the Peacemakers. Produção: World Council of Religions for Peace (WCRP).

Living Yoga: The Life and Teachings of Swami Satchidananda. Swami Satchidananda foi um dos primeiros mestres de Yoga a popularizar a tradição clássica da Yoga e sua filosofia no Ocidente. Seu papel no nascimento do movimento moderno da Yoga e seu impacto no mundo é narrada neste  documentário que informa, diverte e provoca.

Bibliografia

EDMUND THOMAS CLINT. Site: http://edmundthomasclint.com/

KEA, Basheer. Clint: Short Life of a Gifted Child.

NAIR, Ammu. A Brief Hour of Beauty.

GRANDE ATENTADO NA FRANÇA E PEQUENOS ATENTADOS NO BRASIL

10 jan

Quem não tem senso de humor devia se matar e não matar quem tem. A charge abaixo foi publicada pela revista Charlie Hebdo em 2011 depois que sua redação foi destruída por um incêndio criminoso, num primeiro atentado de islamitas fanáticos ao grupo que havia ousado republicar as famosas “caricaturas de Maomé” publicadas pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten no dia 30 de setembro de 2005, que levaram os islamitas fanáticos a desencadear uma jihad global, causando uma série de mortes, atentados e destruições de embaixadas ao redor do mundo:

Je suis Charlie. (3)O atentado de 2011 à Charlie Hebdo não fez nenhuma vítima fatal, mas a redação da revista foi toda destruída:

des-menaces-depuis-les-caricatures-de-mahomet

No dia 7 de janeiro de 2014, o atentado na redação da Charlie Hebdo matou 12 pessoas e feriu 11 (4 em estado grave). Foram mortos o editor Stephane Charbonnier (Charb), o veterano cartunista judeu tunisino Georges Wolinsky, o vice-editor, três outros cartunistas-estrela, um revisor de origem árabe, dois colunistas (uma psicanalista e um crítico literário), dois policiais (um de origem árabe) e um funcionário de um prédio vizinho.

Os dois policiais eram aqueles que sempre acompanhavam Charb depois que ele foi marcado para morrer pela Al Quaeda. Já o carro da polícia que protegia a revista igualmente ameaçada não aparecia há um mês, pois a segurança relaxara com as festas de fim de ano. Os dois irmãos terroristas islâmicos monitoravam o local e esperaram o momento certo de atacar.

No dia seguinte, em sua rota desesperada de fuga, os dois terroristas sequestraram os fregueses de um supermercado judaico, o Hyper Kacher, e ali mataram quatro judeus antes mesmo que a polícia chegasse – e talvez matassem mais alguns, mas felizmente foram abatidos numa arriscada operação policial. A namorada de um dos terroristas também matou uma policial. A França viveu seu pior pesadelo desde as bombas colocadas por islamitas nas estações de metrô nos idos de 1980.

O atentato terrorista à liberdade de imprensa na França fez esse país e todo o mundo civilizado despertar para a fragilidade dessa liberdade e da própria democracia. Subitamente, o fato brutal esvaziou, no Brasil, os discursos da esquerda fascista, que insiste em atacar a imprensa livre, chamando-a de PIG (Partido da Imprensa Golpista), emporcalhando a redação da Veja e queimando exemplares da revista, atirando coquetéis molotov contra o prédio da Rede Globo, destruindo carros de jornalistas durante manifestações de protesto, disseminando as violentas caricaturas assinadas por Maringoni e Carlos Latuff.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ao contrário da esquerda francesa, a nossa não suporta a liberdade de expressão. O cartunista Maringoni, por exemplo. Trata-se do vereador Gilberto Maringoni, do PSOL, candidato derrotado a governador no Rio de Janeiro. Para ele, a Veja é um “panfleto fascista da extrema-direita brasileira”, e o resto da imprensa livre – Folha de São Paulo, Rede Globo, Estado de S. Paulo, Zero Hora – só deferiria da Veja no tom, sendo toda ela fascista: “Eles trabalham quase que como um partido único. São sete ou oito grupos que controlam a opinião de brasileiros”, declarou em novembro de 2005 numa entrevista a Nestor Cozetti, no Boletim 79 do NPC – Núcleo Piratininga de Comunicação.

Preocupada com a coincidência do ataque terrorista contra a imprensa livre na França com os ataques esquerdistas contra a imprensa livre no Brasil, que se elevaram durante a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff (PT) em 2014, e culminaram nas repudiadas declarações do recém-empossado Ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini (PT), a revista Carta Maior publicou o artigo ATENTADO CONTRA A EXTREMA-ESQUERDA NA FRANÇA, tentando tirar o foco das atenções da questão da liberdade de imprensa e redirecionar a onda de indignação para os inimigos da extrema-esquerda:

Entender o atentado de 7 de janeiro, um dos mais graves já ocorridos na França, apenas como um ataque à liberdade de expressão é uma meia verdade e envolve um grande risco político de interpretação.

Que grande risco político é esse? Para a Carta Maior, é o de defender a liberdade de expressão que a esquerda tupiniquim quer controlar, como esquerda fascista que é. Por isso precisa definir o ataque terrorista à imprensa livre como um ataque à “extrema-esquerda”, e a liberdade de expressão de Charlie Hebdo como “meio” para outros fins mais gloriosos:

A liberdade de expressão de Charb, Cabu, Wolinski e a equipe do Charlie Hebdo era um meio para um posicionamento político radicalmente democrático e profundamente progressista, na tradição da extrema-esquerda francesa.

Grifemos essa barbaridade:

A liberdade de expressão de [Charlie Hebdo] era um meio para um posicionamento político radicalmente democrático e profundamente progressista, na tradição da extrema-esquerda francesa.

Uau! Então ela não valia muita coisa, era apenas um meio, algo a ser descartado após a tomada do poder… Algo semelhante ao projeto PT-Berzoini de controle social das mídias… Essa é a visão fascista de Carta Maior, que prossegue em sua hediondez:

O risco de interpretar o atentado como meia verdade é alimentar ainda mais um dos principais oponentes do semanal satírico, o fascismo europeu, e fomentar a polarização entre os extremistas de direita e do Islã.

Mas desde quando a liberdade de expressão é uma bandeira do fascismo europeu? O fascismo só defende a liberdade de expressão como meio para chegar ao poder, exatamente como a Carta Maior vê a liberdade de expressão de Charlie Hebdo.

Mas era assim que Charlie Hebdo via sua liberdade de expressão? Parece que não. Mas antes de dar a palavra a Charb, ouçamos mais uma barbaridade de Carta Maior:

Não indicar os assassinatos de Paris como um atentado à extrema-esquerda – e simplesmente contra a sociedade ocidental e a liberdade de expressão no abstrato – abre espaço para fortalecer aquilo que os jornalistas do Charlie Hebdo mais repudiavam: a extrema-direita.

Ora, afirmar que a extrema-direita era o que Charlie Hebdo mais repudiava é que é uma meia-verdade, uma vez que a própria Carta Maior, entrando em evidente contradição, cita, finalmente, Charb a igualar a Frente Nacional ao fascismo islâmico:

E como dizia Charb: “A Frente Nacional e o fascismo islâmico são da mesma seara e contra eles não economizamos nossa arte’”.

Ou seja, o inimigo do semanário era o fascismo, seja o da Frente Nacional, seja o do Islã. Podia não perceber o fascismo de esquerda, mas já percebia muito claramente o do Islã – o que a esquerda e a extrema-esquerda absolutamente não viam e não veem, ou melhor, não queriam e não querem ver.

E por isso esse reles pasquim sem grande expressão – e não outros jornais de esquerda e de extrema-esquerda mais respeitáveis, como Le Monde, L’Humanité ou Libération – foi bombardeado em 2011 e teve seus cartunistas e redatores executados em 2014.

Basta ouvir o comovido apelo de Philippe Val, ex-diretor de Charlie Hebdo, dirigido a todos, mas especialmente à esquerda omissa em relação ao fascismo islâmico:

Não podem nos deixar sós diante desse perigo que é real, e que há muito tempo denunciamos, sem que quisessem acreditar.

Val respondeu aos jornalistas de esquerda que ironizaram as denúncias do fascismo islâmico pelo Charlie Hebdo:

As ideologias de esquerda fizeram 40 milhões de mortos! E na França a extrema-esquerda é terrorista, nos anos 60 se aliou aos movimentos árabes. É preciso que os jornalistas digam a verdade sobre o que está acontecendo, as pessoas da rua esperam ouvir a verdade, ou tudo isso será recuperado pela extrema-direita. E será terrível.

Carta Maior: respeite esses mortos!

lo9go

Os mortos nem esfriaram e toda a esquerda fascista brasileira, que se bate pelo “controle das mídias”, já se realinhou contra o movimento mundial #JeSuisCharlie (#EuSouCharlie). Movimento espontâneo da decência e da dignidade humanas contra o terror que visa exterminar a liberdade, como mostram essas imagens coletadas logo após o atentado:

Este slideshow necessita de JavaScript.

O cartunista israelofóbico brasileiro Carlos Latuff manifestou-se imediatamente, como autodenominado “monitor do Oriente Médio”, contra as possíveis reações islamofóbicas do atentato islamita à liberdade de imprensa na França (alguns dos jornalistas de Charles Hebdo eram judeus e homossexuais), seguida pelo atentado antissemita no Hyper Kacher, o supermercado judaico, onde quatro judeus foram assassinados pelos dois terroristas, antes mesmo da chegada da polícia, apenas por serem judeus, caracterizando o racismo assassino do grupo:

EU NÃO TRABALHARIA NA CHARLIE

ATIRADORES CONTRIBUÍRAM COM A ISLAMOFOBIA

A caricatura que Latuff dedicou ao episódio ressalta que sua maior preocupação não era com o massacre de artistas, jornalistas e judeus perpetrado por terroristas islâmicos em Paris, mas a islamofobia – uma reação psicológica que se pode considerar como natural em uma sociedade que passa a ser alvo do terror islâmico:

Carlos Latuff, o cartunista judeufóbico brasileiro, está mais preocupado com a 'islamofobia'.

Em apenas um dia, um batalhão de blogueiros brasileiros “progressistas” passou a minar o espírito de liberdade do movimento mundial contra o terror com um movimento oposto, insidioso e nefasto: #JeNeSuisPasCharlie (#EuNãoSouCharlie).

Para essa esquerda antiocidental, antiliberal, antiamericana e antissionista, todos os argumentos são válidos para desviar o foco do terror islâmico e justificar suas ações – que se tornam sempre reações – ruins, claro, mas compreensíveis diante das provocações, malfeitos, imperialismos, terrorismos, racismos e xenofobias do Ocidente.

Eis apenas alguns exemplos da febril atividade mental desviada desses defensores do indefensável em seus malabarismos lógicos para se manterem imunes à Realidade, e eternamente fiéis à Ideologia, por mais negada que ela seja pelos fatos:

Leonardo Boff:

EU NÃO SOU CHARLIE / JE NE SUIS PAS CHARLIE

Lelê Teles / 247:

JE NE SUIS PAS CHARLIE

Plínio Zúnica / Opera Mundi:

POR QUE NÃO SOU CHARLIE HEBDO / JE NE SUIS PAS CHARLIE

Mas nossa brava e corajosa esquerda fascista e antissemita não está sozinha. Ela está em muito boa companhia repudiando a liberdade ao lado da Direita Católica e dos fascistas franceses da Frente Nacional:

Dominus Est / Católicos de Ribeirão Preto:

JE NE SUIS PAS CHARLIE

Jean-Marie Le Pen / Frente Nacional:

JE SUIS DESOLÉ, JE NE SUIS PAS CHARLIE

PARA SABER MAIS:

Para jornalista da Charlie Hebdo, ataque foi ‘ato de guerra’. 

“Nous vomissons sur ceux qui, subitement, disent être nos amis», affirme l’un des dessinateurs de Charlie Hebdo.

Os números de 2014

29 dez

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 18.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 7 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

RODOLFO MONDOLFO E O DESTINO DOS JUDEUS ITALIANOS

28 set

Na obra Mondolfo e as interrogações do nosso tempo, de Djacir Menezes (Faculdade Nacional de Filosofia / Universidade do Brasil, 1963), há em anexo uma carta do filósofo italiano Rodolfo Mondolfo, em resposta a algumas perguntas do autor, que considero um importante documento sobre a perseguição dos judeus na Itália fascista, após a decretação das Leis Raciais em 1938, e que reproduzo aqui em imagens escaneadas do livro.

1

2 3

ARTISTAS BOICOTADORES DE ISRAEL – PARTE 2: A SEQUÊNCIA

4 set

 

Partners - 31a Bienal before

O obscuro artista libanês militante da causa palestina que divulgou via Facebook o manifesto dos 55 artistas boicotadores de Israel, que exigiam da 31ª Bienal de São Paulo, com orçamento total de R$24 milhões, a retirada do apoio de R$90 mil que Israel destinou à exposição de 3 artistas israelenses selecionados, cantou vitória anunciando, pela mesma via, que os 55 foram ouvidos.

Após “negociações coletivas”, a Fundação Bienal comprometeu-se a retirar o logo do Consulado de Israel como “patrocinador máster” do evento, mantendo-o apenas aos artistas israelenses apoiados. “Essa transparência será aplicada a todos os financiamentos nacionais para artistas na Bienal.”, afirmou o obscuro artista libanês.

Como essa segregação seria feita não foi explicado, mas parece que um papelote deve ser toscamente colado nos cartazes e catálogos já impressos, explicando que os apoios são específicos de cada artista/país. A grotesca solução proposta pela Fundação Bienal após as “negociações coletivas” (imagino cenas bizarras e de horror típicas de assembleias comunistas, nazistas e islamitas) satisfez os artistas boicotadores de Israel.

Segregando os três israelenses com o logo do Consulado de Israel simbolicamente convertido em “estrela amarela” pelo movimento BDS, imposta com a cumplicidade da Fundação Bienal, que “não tinha como devolver o dinheiro”, os 55 artistas boicotadores de Israel atingiram seu objetivo de confundir guerra com genocídio, autodefesa com massacre, terrorismo com resistência e arte com propaganda.

Baseados em crenças de inspiração nazista, os artistas do evento macabro que abre suas portas nesta sexta-feira em São Paulo conseguiram impor sua vontade totalitária à organização brasileira, sob o pretexto de que “o financiamento [de Israel] pode comprometer e minar a razão de existência de seus trabalhos”.

Entendemos melhor o caráter propagandístico da “arte” a ser exposta nessa Bienal islamizada ao sermos informados pelo artista libanês militante da causa palestina que “a luta por autodeterminação do povo palestino se reflete nos trabalhos de muitos artistas e participantes da Bienal, envolvidos com direitos humanos e lutas populares em escala global.”

Sabemos qual é o caráter desses “direitos humanos” e dessas “lutas populares em escala global”: ele nada tem a ver com a violação dos direitos humanos praticada na maioria dos países envolvidos com a causa palestina, mas sempre e apenas com as supostas violações cometidas por Israel.

Dois dos três artistas israelenses financiados por Israel assinaram o manifesto e participaram do Boicote BDS ao seu país. Nada como cuspir no prato em que se come! É uma atitude nobre e corajosa, que mostra o que vale a ética na sociedade global dominada pelo islamofascismo aliado às esquerdas totalitárias.

O manifesto de Facebook conclui-se com a seguinte frase de efeito: “A opressão de um é a opressão de todos.” Os 55 artistas que agora oprimem os 3 colegas israelis, que passam a ser vistos (com o colaboracionismo masoquista de 2 deles) como animais no zoo, não se sentem como opressores.

Henrique Sanchez, membro do Movimento Palestina para Tod@s (Mop@t), atuante no Brasil desde 2008, declarou que “a desvinculação do apoio de Israel à Bienal foi uma importante vitória” do movimento BDS, abrindo “precedentes para a construção de amplas ações, iniciativas e campanhas de boicote cultural no Brasil”.

O caso demonstra que ceder o mínimo que seja ao terrorismo infiltrado acarreta consequências devastadoras à democracia do país hospedeiro. Dois artistas palestinos ficaram indignados com o fato de o site do Consulado de Israel linkado na página da Bienal informar que as recentes operações militares do país em Gaza eram atos de autodefesa contra as hostilidades iniciadas pelo Hamas. Ou seja, eles se indignaram com a verdade! Querem impor a mentira palestina ao mundo inteiro, e até mesmo no site do Consulado de Israel.

Um desses paranoides afirmou que “jamais teria aceitado participar de uma mostra se soubesse que seria patrocinada por Israel”. Adepto do apartheid de Israel no mundo ele assim conclui sua arenga racista: “Eles querem nos usar por meio da arte para legitimar e purificar o genocídio que eles estão conduzindo agora na faixa de Gaza.” A visão que o Palestino Vitimado tem do mundo é um inferno, e ele não cessa de expandi-la aonde quer que esteja, até que o inferno que ele criou em sua mente tenha o tamanho da Terra.

Ataques terroristas são legítimos; defender-se deles, não: essa é a lógica terrorista dos terroristas. Os quatro árabes (dois palestinos, um egípcio e um libanês) interessados no BDS contra a Bienal paulista que os selecionou recusaram-se a abandonar simplesmente a mostra, alegando que o contrato assinado com a Fundação os obrigava a devolver o dinheiro da produção de seus trabalhos. Que chato, hein? A dignidade tem um preço, mas esses paladinos da Justiça não estão dispostos a pagá-lo.

O mais curioso é que o artista libanês que assumiu a liderança do protesto confessou temer ser punido em seu país ao retornar de uma Bienal apoiada por Israel: “Participar dessa mostra pode ter graves consequências legais para mim”, declarou à imprensa. Como é? O campeão dos direitos humanos “violados” por Israel teme voltar ao seu país e sofrer sanções e sabe-se lá mais o quê só por ter participado de uma mostra patrocinada por Israel?

O coitado do artista que vive sob tal regime de opressão deveria boicotar, antes de tudo, seu próprio país e a si próprio, excluindo-se de todo e qualquer evento em que seu trabalho, quando financiado por seu país, é assim manipulado para legitimar graves violações de seus direitos humanos.

DOCUMENTAÇÃO

Nota emitida pelo Consulado de Israel em 8 de setembro de 2014

O Estado de Israel e seu Ministério de Relações Exteriores cooperam de longa data com a Bienal de São Paulo, e obras israelenses foram exibidas em cada uma das Bienais realizadas.

Alguns meses atrás, curadores da Bienal se dirigiram ao nosso Ministério, solicitando a participação de Israel, como sempre tem sido feito – e paralelamente examinando as possibilidades de Israel contribuir financeiramente para a Bienal. Israel propôs certa quantia, os curadores solicitaram um aporte maior e Israel acedeu a este pedido também.

Alguns dias antes da inauguração da mostra, foi publicado manifesto de um grupo de artistas em repúdio ao patrocínio de Israel, manifesto esse apoiado por determinados curadores – parte dos quais haviam anteriormente procurado Israel para solicitar sua contribuição financeira.

Israel considera a atitude dos artistas signatários e o apoio destes curadores como uma iniciativa nefasta, contraproducente, nociva e moralmente condenável, que pretende prejudicar, boicotar e discriminar um Estado participante da Bienal. Esta iniciativa é negativa para a arte e a cultura, que os artistas da Bienal deveriam apreciar e proteger, pois arte e cultura são linguagens universais, que não conhecem limites e fronteiras.

Elas podem e devem aproximar povos e segmentos sociais e políticos. A atitude dos artistas e curadores causou prejuízo a estes mesmos princípios, ao prestígio da arte e da cultura em geral e ao da Bienal, em particular.

Política e cultura não devem se misturar e não se deve utilizar e se aproveitar da cultura para atingir fins políticos. A Bienal se realiza para expressar e dar espaço adequado e importante para a arte e a cultura – as lutas políticas se devem fazer nos foros políticos nacionais e internacionais adequados, que foram constituídos para esses fins.

A inaceitável tentativa – já frustrada –  dos artistas assinantes com o apoio dos curadores de “sequestrar” a Bienal para fins políticos é contra os princípios que devem reger os importantes eventos culturais internacionais.

O Consulado Geral de Israel em São Paulo agradece ao presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Dr. Luis Terepins, ao Conselho da Bienal e a todos aqueles que se esforçaram para chegar a uma solução viável para todos e permitiram a realização da Bienal, com a participação de todos os países e patrocinadores do evento, contribuindo assim para salvaguardar a mostra dos prejuízos que a atitude daqueles artistas e curadores poderia ter acarretado.

Posição do Presidente da Bienal

Luis Terepins, presidente da Bienal, declarou: “Somos uma instituição plural, não tomamos partido”, disse à Folha de S. Paulo. “Buscamos apoio de todos sem discriminação. Esse problema que existe entre Israel e palestinos fica lá. O grande exemplo que a temos de dar é o que buscamos construir.”

Como os curadores da Bienal apoiaram o manifesto – “o tema é maior que a 31ª Bienal” -, a solução “intermediária” encontrada foi definir que o patrocínio de Israel será apenas para os quatro artistas israelenses presentes na mostra.

Resposta de Leandro Spett Spett

O jovem artista Leandro Spett Spett repudiou o manifesto, que qualificou de uma iniciativa “patética, pífia e contraproducente. […] A arte está acima de rótulos, etiquetas e plataformas políticas. Ela jamais poderia ser sequestrada por quem se julga superior. Estes artistas fizeram da arte e do evento seus reféns, eles sequestraram a Bienal. […] É justo criticar qualquer país e sua política, mas por meio da arte e não nos bastidores”:

Crítica de Sheila Lerner

Num artigo para O Estado de S. Paulo, a crítica Sheila Leiner mostrou a contradição do artista libanês boicotador de Israel, que “trabalha com o dinheiro da Bienal (já que o Líbano não patrocina o evento), ao mesmo tempo em que questiona o patrocínio”. E também destacou a essência do movimento BDS, que gera “ódio, exerce coação, ameaça, influencia pessoas e tenta impor sua vontade pelo uso da apreensão”, concluído: “Esta é exatamente a forma de ação política que define o terrorismo”.

2

FONTES

Boletim Informativo da Confederação Israelita do Brasil, 11/09/2014.

FRANCISCO NETO, José. Bienal de Arte de São Paulo não terá mais o apoio de Israel. Brasil de Fato, 01 de setembro de 2014. Disponível em: http://www.brasildefato.com.br/node/29688.

MARTÍ, Silas. Árabes ameaçam deixar Bienal por causa de patrocínio de Israel. Folha de S. Paulo, 28 de agosto de 2014. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/08/1506926-arabes-ameacam-deixar-bienal-por-causa-de-patrocinio-de-israel.shtml.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 36 outros seguidores