A POLITIZAÇÃO DO OSCAR

1 mar

A maior gafe da história do Oscar foi cometida na sua 89ª edição em 2017, quando os veteranos atores de Bonnie and Clyde (Bonnie e Clyde – Uma rajada de balas, 1967), de Arthur Penn, Warren B…

Fonte: A POLITIZAÇÃO DO OSCAR

Galeria

Repercussão Artística da Condição Humana

14 jan

Luiz Nazario (O Espírito do Tempo – Quadro Histórico do Período Naturalista)

O século XIX foi o século das massas e das grandes invenções da vida prática. O século dos modernos meios de comunicação – os primeiros telegramas, linotipos, rotativas, telefones, gramofones, cinematógrafos. O século dos modernos meios de transporte – os primeiros elevadores, automóveis, balões dirigíveis, aviões, submarinos, ferrovias continentais e  intercontinentais. E o século da eletricidade – da luz elétrica, do trem elétrico, do balão elétrico (dirigível), do bonde elétrico, do fogão elétrico, do forno elétrico, da cadeira elétrica. Todos os Estados europeus foram se alinhando à evolução geral da democracia burguesa, e uma sucessão frenética de invenções reformatou a vida humana: máquinas agrícolas plantavam e colhiam, reduzindo a mão de obra; ferrovias substituíam as estradas de terra; os primeiros automóveis começaram a aposentar as carruagens; dirigíveis cruzavam os céus antecipando os futuros aviões; a eletricidade substituía a…

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ELIE WIESEL (1928-2016)

4 jul
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Morreu, aos 87 anos, em Nova York, o grande escritor judeu Elie Wiesel, nascido na Romênia e sobrevivente do Holocausto, autor de mais de 50 livros, e que dedicou sua vida a promover os Direitos Humanos, denunciando injustiças e genocídios em todo o mundo.
Seu relato autobiográfico A noite, onde recorda os horrores de Auschwitz e, no último  capitulo, a terrível morte de seu pai, é uma das obras essenciais da literatura de testemunho do século XX.
Há muitos anos, assisti, acompanhado de minha mestra e orientadora, Anita Novinsky, a uma palestra que ele, Prêmio Nobel da Paz, apresentou na USP. Foi emocionante.
A escrita de Wiesel  era simples, sem rebuscamentos, quase didática, mas continha uma cultura milenar, que ele conhecia a fundo, e revelava sem alarde, em  pequenas doses, ao grande público, como nestas reflexões sobre os livros que compilei de Sinais do Êxodo:
Quando viajo, tenho sempre medo de que me faltem livros. A metade de minha bagagem se compõe de coisas para ler, a outra metade, do que preciso para escrever.
O inferno é antes de tudo um lugar sem livros. Sem um único livro. O que seria a vida sem o poder que têm os livros de despertar nossa fantasia, de metamorfosear as coisas apenas por revelar seu nome secreto?
Hitler e Stalin sabiam a importância dos livros para o judeu.
Por isto um os queimou na Alemanha e o outro os fez desaparecer na Rússia. A polícia de Stalin tomou o cuidado de quebrar os caracteres hebraicos nas gráficas judaicas de Moscou, Kiev e Odessa. Seu ódio patológico se desencadeava sobre a fé judaica e, do mesmo modo, sobre a cultura judaica. O alfabeto hebraico, o alfabeto do iídiche, o irritavam, despertavam sua fúria, eram para ele um desafio; por isto ele condenou à morte aqueles sinais tipográficos, aquelas velhas letras quadradas. Mas nisto, ele não teve sucesso. Como o rabi Hananya ben Teradyon, podemos testemunhar e dizer: Gvilin nisrafin – sim, os pergaminhos podem queimar, mas não as letras, não o espírito, não a visão, não a alma de um povo unido, devotado aos valores eternos, à eternidade.
E, no entanto, sente-se às vezes em alguns mestres alguma reticência quanto a escrever livros. Ari, “o santo”, nunca escreveu nada; nem o Besht; rabi Nahman deu ordem a seu fiel escriba rabi Nathan de queimar seus escritos, e devolvê-los ao céu. Rabi Bounam de Pschiskhe redigia uma obra intitulada O livro do homem; ele deveria conter tudo o que diz respeito à vida e ao homem, à história e à fé, ao passado e ao futuro. Projeto ainda mais grandioso e assombroso já que o autor desejava que sua obra coubesse inteira em uma só página. A cada dia, ele redigia essa página, e a cada noite a atirava no fogo.
Quanto ao ilustre e solitário visionário de Kotzk, ele explicou, um dia, por que se recusava a escrever livros. Quem os leria? Alguns aldeões. E quando teria tempo de lê-los? Certamente não durante a semana. No Shabat, então. À noite? Ah, não, ele está cansado demais. Pela manhã, então. É isto, sim, depois do ofício da manhã. Depois da refeição sabática. Ele apanharia o livro – meu livro – e se deitaria no sofá, finalmente pronto, e desejoso de ver o que tenho a dizer sobre a Torá e o Talmude. E então – ele está tão cansado que seus olhos se fecham logo na primeira página.

INCÊNDIO NA CINEMATECA BRASILEIRA

23 abr

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Com grande tristeza recebi o informe sobre o incêndio que ocorreu na madrugada do dia 03 de fevereiro de 2016 na chamada “Câmara 03”, um dos quatro depósitos de filmes em nitrato da Cinemateca Brasileira.

Consta do informe que o Corpo de Bombeiros foi acionado às 05h30 e que 12 bombeiros militares, mais a Brigada de Incêndio da Cinemateca, participaram do combate ao fogo, debelado em meia hora.

Foram destruídos 1.003 rolos referentes a 731 títulos de filmes nacionais, incluindo 23 rolos referentes a 21 títulos do precioso Acervo Igino Bonfioli, doados à Escola de Belas Artes da UFMG pela família do pioneiro cineasta e que há décadas estavam depositados na Cinemateca Brasileira para sua melhor conservação e preservação.

Apurou-se que o incêndio teve origem na autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, cuja queima não pode ser parada por qualquer meio, levando à destruição total do objeto.

A Secretaria do Audiovisual e a Cinemateca Brasileira consideraram que, embora os nitratos estivessem adequadamente guardados, o incêndio foi “caso de força maior”, um “fato natural” devido à composição do material, que o sujeita à autocombustão.

As duas instituições parecem ter descartado um possível incêndio criminoso e uma eventual guarda inadequada dessas matrizes, partes da memória visual do Brasil, que se perderam nas chamas para sempre.

A Secretaria do Audiovisual e a Cinemateca Brasileira lamentaram imensamente a perda dos nitratos e se mostraram dispostas a esclarecer o que fosse necessário.

Cordialmente assinaram o informe Paulo Roberto Ribeiro, Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, e Olga Futemma, Coordenadora-Geral da Cinemateca Brasileira.

AS JÉSSICAS NO PODER

2 abr

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Foi pelos idos de 1990 que, após três anos de trabalho como crítico de cinema freelance na IstoÉ, a convite de Geraldo Mayrinck, fui sumariamente “demitido” sem justa causa. Querendo agradar Roberto Muylaert, então Presidente da Fundação Padre Anchieta, os donos da publicação pediram ao editor, Humberto Werneck, que dispensasse meus serviços para presentearem, com o posto liberado, a filhota daquele pistolão.

A jovenzinha estudara cinema na USP, mas nunca publicara nada na vida. Havia trancado a faculdade para morar em Paris, onde passou seis meses, “patrocinada pela família”. Viu ali muitos filmes, fez listas e anotações em busca “de um projeto ou de um discurso cinematográfico”. Ainda meio perdida, deve ter acabado por encontrar o que queria, pois voltou, dirigiu alguns curtas-metragens e se formou na ECA.

A colocação de crítica de cinema na IstoÉ não deve ter servido muito para dar-lhe maior visibilidade. A suposta nova voz da crítica paulista não tinha real interesse por essa atividade, e não permaneceu por muito tempo na revista, logo abandonando sua breve “carreira” jornalística para assumir sua verdadeira vocação de roteirista e cineasta.

A filha afortunada do Presidente da Fundação Padre Anchieta encontrou realmente seu destino ao trabalhar escrevendo e dirigindo programas especiais na própria TV Cultura dirigida pela Fundação presidida por seu pai. Não demorou tanto para se tornar, graças a essas experiências privilegiadas, a premiada cineasta Anna Muylaert.

Recordo essa historieta edificante porque ela me permite entender melhor o atual engajamento político da cineasta em defesa da permanência de Dilma Rousseff no poder, em ato de solidariedade que reuniu artistas e intelectuais governistas e no qual, entregando o manifesto do grupo à Presidenta, lançou uma profecia misteriosa:

O mérito da Jéssica não é seu, e sim de Lula e Dilma, que permitiram que as Jéssicas existissem. No futuro, haverá uma Jéssica presidenta e o seu coração estará cheio de gratidão a Dilma. As Jéssicas vão tomar o poder.

Trata-se de um emotivo encorajamento à Presidenta mais incompetente e impopular da História do Brasil e também de uma inteligente jogada de marketing para promover Que horas ela volta?, o trabalho mais recente da cineasta Muylaert. Pois a citada “Jéssica” é uma das personagens desse filme, estrelado por  Regina Casé.

A atriz, que Rubem Biáfora classificaria em dia generoso como “cascuda”, interpreta Val, a nordestina que trabalha em São Paulo como doméstica para uma família de classe média, e cuja filha, a tal Jéssica, vem de Pernambuco prestar o vestibular. Pelo que li sobre o filme, a tensão que se estabelece entre os personagens é aliviada por um final feliz: Jéssica passa no concorrido curso de Arquitetura da USP.

A cineasta definiu esse final como “utópico” em coletivas no exterior, mas essa utopia parece ter se tornado magicamente a “realidade brasileira” que constatou algumas semanas depois, nas turnês que fez com o filme pelas universidades do país.

A Muylaert percebeu de súbito que, revolucionadas pelos “programas sociais” do governo, as universidades públicas haviam gerado um grande número de Jessicas. Por isso, ao agradecer o prêmio Faz Diferença / Cinema dos jornalistas de O Globo, a cineasta foi furiosamente aplaudida ao declarar:

Quero dedicar esse prêmio às Jéssicas que estão hoje na universidade e a duas pessoas que eu acredito que têm muito a ver com isso. Eu entendo essas pessoas como o pai e a mãe das Jéssicas. Não no filme, mas na vida real, que são o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.

A Muylaert e seus  fãs não acreditam em conquistas por mérito próprio, eles desdenham do que chamam de meritocracia. Sua própria trajetória convenceu a cineasta de que toda Jéssica pode ser alçada sem prévias publicações ao posto de crítica numa revista nacional, assim como ao de roteirista numa TV do governo. Basta ter um pai poderoso.

No sistema defendido pela Muylaert, com base em certo modus operandi, a ascensão ocorre “naturalmente” pelo efeito das boas influências. Por isso “o mérito da Jéssica não é seu”, um oximoro inquietante, pois anula o esforço pessoal e o atribui a terceiros poderosos, que encaminham e elevam as Jéssicas sem controle ou consciência do processo.

As Jéssicas que ascendem à classe média por meio de bolsas, sem esforço, ou à universidade através de cotas, sem mérito, seguem o velho modelo populista brasileiro, no qual filhinhos de papai tudo conseguem por indicação. O slogan “As Jéssicas vão tomar o poder” resume o sentido dos “programas sociais”: uma carteirada aplicada em massa.

Os menos privilegiados agora dispõem do seu “Você-sabe-com-quem-está-falando?” simbólico: o cartão do beneficiário das “políticas públicas” do governo populista, brandido por todo empoderado filhinho de pai Lula ou mãe Dilma, como garantia de seu “direito” de furar as filas da História e receber benefícios imediatos.

Nesse sistema de favores, a vitória não pertence ao vencedor: todo bem adquirido deixa de ser do seu dono, que só o conseguiu no tapetão, pelas mãos do generoso pai e da generosa mãe dos pobres. Um dia, é claro, os beneficiários serão cobrados por esses favores, porque é dando benefícios que se recebem votos e apoios.

Não se trata da gratidão sempre devida ao mestre que ensina o aprendiz a pescar o peixe – uma gratidão cada vez mais rara no Brasil. Trata-se da anulação da individualidade e de seu projeto de liberdade pela adulação do poder por “beneficiários” que comem da mão dos governantes, uma exaltação da coletividade e de seu projeto de submissão.

Nessa corrupta visão de mundo, não é preciso se esforçar para vencer, basta adular painho e mãeinha e manter-se ao lado deles, apoiando-os para ser por eles apoiado. É a ética do Macunaíma, herói brasileiro sem caráter; do poeta vendido de Pasárgada, que canta: “Lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.”

O CINEMA SEGUNDO RONALDO BRANDÃO

3 mar

INDISCRETION OF AN AMERICAN WIFE, (aka STAZIONE TERMINI), Jennifer Jones, 1953.

Hoje perdemos o crítico de cinema Ronaldo Brandão.

Tive um encontro memorável com Brandão no dia 15 de setembro de 2004, no café da Livraria Travessa. Ele estava acompanhado do jovem pintor e cenógrafo Eli. Foi quando me contou ter conhecido a reclusa diva do cinema mudo Brigitte Helm, estrela de Metropolis (Metropolis, 1927), de Fritz Lang.

Tendo abandonado o cinema em 1935 ao casar-se com um milionário suíço, Brigitte Helm estava hospedada no Hotel Del Rey, em Belo Horizonte, acompanhando o marido, industrial da Mannesman, numa viagem de negócios. Brandão soube disso ao ler uma nota no jornal e correu até o hotel para ver a estrela. Já com seus 60 anos e ainda bela, Brigitte Helm o recebeu com simpatia.

Também me contou uma deliciosa indiscrição: a de que havia namorado John Schlesinger, quando o então jovem cineasta inglês fazia um tour pelo Brasil a convite do British Council. “Sim”, Brandão me assegurou, “é verdade, o John Schlesingere me comeu e depois seguiu para Hollywood, onde rodou Midnight Cowboy [Perdidos na noite, 1969]”.

Erguendo-se da cadeira em súbitos enlevos, lançando a torto e a direito sensacionais caras e bocas, Ronaldo Brandão vibrava ao se lembrar de mil filmes maravilhosos que vira, incluindo a filmografia completa de Jennifer Jones, a diva de sua predileção.

Contou-me que Rudá de Andrade, que foi assistente de Vittorio De Sica em Stazione Termine (Quando a mulher erra, 1953), testemunhou uma Jennifer Jones apaixonada pelo galã do filme, Montgomery Clift. Mas ao saber que ele era homossexual, jogou na privada, em acesso de raiva, a estola que sua personagem usava. Como a produção não achou outra igual, a pele foi secada com secador de cabelo e a estrela teve de continuar a usá-la…

Ronaldo Brandão lera vários livros sobre Jennifer Jones e me revelou que o  modelo cinematográfico da sua diva, segundo ela mesma confessara, era a grande Silvia Sidney. Mas Brandão deixou claro não gostar de Elizabeth Taylor, que só desculpava em Cat on a Hot Tin Roof (Gata em teto de zinco quente, 1958), de Richard Brooks.

Para encerrar com chave de ouro essa noitada prateada pelas lembranças daquele cinema de estrelas que amávamos, Ronaldo Brandão recitou-me uma frase magnífica, que merece ficar registrada entre as melhores definições da sétima arte:

O cinema é a verdade 24 quadros por segundo (Jean-Luc Godard). O cinema é um sonho que sonhamos todos juntos (Jean Cocteau). Vocês são lindos, ricos e felizes? Pois vão embora daqui! O cinema é para quem não tem NADA! (Ronaldo Brandão).

DAVID BOWIE

14 jan

David Bowie. (7)

Não me canso de ouvir os primeiros álbuns de David Bowie, sobretudo aqueles hinos do glam rock retrabalhados em Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes. Este filme tem a mesma percepção do músico que sempre tive: um cometa que levou o glam rock à glória e depois o abandonou inexplicavelmente, apagando-se numa morte lenta.

Bowie podia então se travestir e ter amantes dos dois sexos, fazer declarações chocantes, politicamente incorretas, que ninguém ousava depreciá-lo. Ele era protegido por uma aura de beleza: qualquer outra pessoa que ousasse ser como ele viraria um objeto de escárnio.

Mas em Bowie os trajes de palhaço, de odalisca, de marciano, só o tornavam mais majestoso. Seu porte era o de um príncipe, ele pairava acima dos pobres mortais, o ridículo não podia atingi-lo. Nas últimas décadas, porém, ele aposentou suas ousadias, e assumiu uma aparência de executivo fashion, compondo músicas deprimentes, mórbidas.

O sol negro sempre esteve presente em suas músicas, espreitando seus personagens sofredores, mas havia sempre também um aceno de esperança no final da agonia, como em Rock ‘n’ Roll Suicide, uma de minhas canções prediletas de Bowie.

No documentário Tally Brown – New York (1979), Rosa von Praunheim registrou, entre outras, essa performance da extraordinária Tally Brown, cantora underground e superstar verdadeiramente freak, admirada por  Andy Warhol, que desfilava seu sofisticado repertório por saunas gays e bares decadentes. Com sua voz poderosa, essa diva marginal interpretou como ninguém o Rock ‘n’ Roll Suicide de Bowie:

Outra de minhas preferidas, The Man Who Sold the World, teve a melhor de todas as performances executada ao vivo num concerto acolhedor da MTV Unplugged, por um autêntico suicida do rock: o belo e infeliz Kurt Cobain:

Uma das grandes performances de David Bowie, para mim, é esta aqui: ei-lo interpretando com raiva contida e verdadeira melancolia Five Years, essa dilacerante canção de amor desiludido –  a música, o cinema e o mundo acabaram de certa forma nos anos 1970:

Já o último álbum, Blackstar, e o musical Lazarus, que Bowie preparava com o diretor de teatro Ivo van Hove, mergulham-nos no fundo do poço, sem acenos de esperança. Os clipes são sinistros. Bowie esforçou-se para terminar os dois projetos antes de morrer, mas já tinha perdido o rumo, há décadas não era mais aquela estrela cintilante. Paga-se um preço pela traição dos ideais.

Bowie lançou Blackstar no dia 8 de janeiro ao completar 69 anos. Nesse dia Jimmy King postou no Instagram uma foto que tirou de Bowie de chapéu, sapato sem meia, soltando uma gargalhada na rua: foi seu adeus ao mundo. Wendy Leigh, biógrafa de Bowie, revelou que, além do câncer no fígado, ele teve seis ataques cardía­cos nos últimos anos.

Quando ouvimos uma boa música não sabemos bem quando foi composta. Como os desenhos animados que nos encantam, as canções mais perfeitas são atemporais, elas conseguem atravessar as gerações sem acumular poeira alguma.

Os primeiros álbuns de Bowie continuam soando modernos. Eu os considero mais atuais que os seus últimos, que já nasceram mofados. Foi graças aos seus antigos hits que ele continuou conquistando adeptos na jovem geração.

Logo após sua morte, um grupo de astrônomos belgas batizou uma constelação de sete estrelas em forma de raio com o nome de David Bowie.  E as manifestações de admiração no meio artístico que seu fim produziu nas redes sociais beiraram o endeusamento:

Elijah Wood: – Nunca imaginei um mundo sem ele. Ele ascendeu ao Cosmos de onde veio.

Kanye West: – David Bowie era uma das inspirações mais importantes; tão destemido, tão criativo, ele nos deu mágica para uma vida toda.

Kat Dennings: – Esse homem moldou meu coração e minha alma. NUNCA terá outro como ele nesse planeta estúpido […]. David Bowie foi meu norte musical minha vida inteira. […] Ele NUNCA será substituído, nunca.

Joe Manganiello: – As pessoas sempre me perguntavam com qual ator eu mais queria trabalhar, eu sempre dizia que com o David Bowie. Triste que nunca terei a chance. Eu toquei Outside no repeat por anos. Nunca saiu do meu toca-discos. Eu me lembro de implorar para a minha mãe me levar para ver os fantoches de Labirinto quando criança no museu de Pittsburgh.

Pude ver David Bowie ao vivo num show em São Paulo, com Elaine Mansano​ e Carlos Conti, no dia 23 de setembro de 1990, no Estádio do Palmeiras. Lembro que chuviscava, mas foi um show tranquilo, sem as luzes histéricas e os efeitos estrambóticos dos atuais concertos de rock, acachapantes e ensurdecedores.

Demoramos a sair do lotado Estádio do Palmeiras, as ruas estavam tomadas pelos remanescentes do show à procura de seus automóveis, que logo bloqueariam todas as vias. Em toda minha vida só fiz uma única vez esse sacrifício, de ir a um estádio de futebol, por David Bowie. Lembro-me disso e fico triste pelo mundo que se acabou.