OS PINÓQUIOS DO HAMAS FAZEM SUCESSO NO BRASIL

24 jul
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Ilustração de Attilio Mussino (1878-1954) para Avventure di Pinocchio, de Carlo Collodi, edição R. Bemporad e figlio, de 1911.

O MEMRI traduziu do árabe para o francês (que verto aqui para o português) um documento de extremo interesse para quem acompanha o conflito entre o Estado de Israel e os terroristas do Hamas, que controlam o território de Gaza, fazendo do povo palestino uma vítima das conhecidas barbáries perpetradas pelo fundamentalismo islâmico travestido de “resistência”:

MENSAGEM PARA OS ATIVISTAS DO FACEBOOK NO SITE DO MINISTÉRIO DO INTERIOR DO HAMAS

EXCERTOS DAS DIRETRIZES DO DEPARTAMENTO:

Toda pessoa morta ou caída como mártir deve ser chamada de “civil de Gaza ou Palestina”, antes de especificar o seu papel na Jihad ou posto militar. Não se esqueçam de sempre acrescentar as palavras “civis inocentes” ou “inocentes”, referindo-se às vítimas dos ataques de Israel em Gaza.

Comecem [seus relatórios sobre] as ações de resistência pela expressão “em resposta ao cruel ataque israelense” e concluam com a frase: “essas numerosas pessoas são mártires desde que Israel lançou sua agressão contra Gaza.” Sempre se certifique de manter o princípio: “o papel da ocupação é atacar, e nós na Palestina estamos sempre no modo reativo.”

Tenham cuidado para não espalhar boatos de porta-vozes israelenses, especialmente aquelas que afetam o front interno. Cuidado para não adotar a versão [dos acontecimentos] da ocupação. Vocês devem sempre emitir dúvidas [sobre a versão deles], refutá-la e considerá-la como falsa.

Evitem postar fotos de ataques de foguetes sobre Israel a partir dos centros da cidade de Gaza. Isso [serviria] de pretexto para atacar áreas residenciais da faixa de Gaza. Não publiquem ou não partilhem fotografias ou clipes de vídeo mostrando locais de lançamento de foguetes ou [as forças] do movimento de resistência na faixa de Gaza.

Para os administradores de páginas de informações no Facebook: não publiquem fotos de homens mascarados com armas pesadas em grande plano, para que sua página não seja fechada [pelo Facebook] sob o pretexto de incitamento à violência. Em suas informações, certifique-se de especificar: “os obuses localmente manufaturados usados pela resistência são uma resposta natural à ocupação israelense que deliberadamente dispara foguetes contra civis na Cisjordânia e em Gaza”…

Além disso, o Ministério do Interior preparou uma série de sugestões destinadas aos ativistas palestinos que interagem com os ocidentais através das mídias sociais. O Ministério sublinha que essas conversas devem diferir das trocas com outros árabes:

Quando vocês falam para o Ocidente, devem usar um discurso político, racional e convincente e evitar o palavreado emotivo choramingas da empatia emocional. Alguns ao redor do mundo estão dotados com uma consciência; vocês devem manter contato com eles e usá-los em benefício da Palestina. O papel deles é provocar vergonha pela ocupação e expor suas violações.

Evitem entrar numa discussão política com um ocidental para convencê-lo de que o Holocausto é uma mentira e uma enganação; por outro lado, associe-o aos crimes de Israel contra civis palestinos.

A narrativa da vida em comparação com a narrativa do sangue: [falando] para um amigo árabe, comecem com o número de mártires. [Mas falando] para um amigo ocidental, comecem com o número de mortos e feridos. Certifiquem-se de humanizar o sofrimento palestino. Tentem retratar o sofrimento dos civis em Gaza e na Cisjordânia durante as operações da ocupação e seus bombardeios de cidades e vilas.

Não postem fotos dos comandantes militares. Não mencionem seus nomes em público, não louvem os sucessos deles nas conversas com amigos estrangeiros! [1]

A “Mensagem para os ativistas do Facebook” postada no site do Ministério do Interior do Hamas revela com clareza que esse grupo terrorista possui uma estratégia de propaganda digna de um Josef Goebbels, mesclada, contudo, a uma ingenuidade que chega a ser infantil (Goebbels jamais divulgava publicamente suas estratégias de propaganda), que a torna ainda mais fascinante para os que sofrem de esquerdismo, essa “doença infantil do comunismo” (nas famosas palavras de Lenin) e que adotam a estratégia proposta pelos terroristas islâmicos mesmo sabendo tratar-se de mentiras puras, distorções da verdade e falsificação dos fatos.

Especialmente no Brasil a estratégia perversa do Hamas alcançou um alto índice de popularidade junto à população letrada, sendo adotada por toda a esquerda idiotizada pela ideologia (a “falsa consciência”, na célebre definição de Marx), pelas “mídias independentes” e muito frequentemente pelas mídias de consumo, e agora até pelo próprio governo. Numa nota divulgada a 23/07/2014, o Itamaraty fez um de seus pronunciamentos mais lamentáveis, igualmente digno de Josef Goebbels:

O Governo brasileiro considera inaceitável a escalada da violência entre Israel e Palestina. Condenamos energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças. O Governo brasileiro reitera seu chamado a um imediato cessar-fogo entre as partes. Diante da gravidade da situação, o Governo brasileiro votou favoravelmente a resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre o tema, adotada no dia de hoje. Além disso, o Embaixador do Brasil em Tel Aviv foi chamado a Brasília para consultas. [2]

Mais uma vez, por obra desse governo, o Brasil se viu exposto ao ridículo e ao vexame mundiais. Quer dizer então que um país em eterna guerra civil, onde a cada ano 50 mil pessoas morrem assassinadas, incluindo mulheres e crianças, quer se alçar como árbitro de um conflito externo sobre o qual nada entende? Chamar o embaixador do Brasil em Tel-Aviv para consultas?! O Brasil quer romper relações diplomáticas com Israel? Já fomos promovidos ao status da Venezuela?

A Chancelaria de Israel respondeu à altura: “Esta é uma lamentável demonstração de por que o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático. O relativismo moral por trás deste movimento faz do Brasil um parceiro diplomático irrelevante, que cria problemas ao invés de contribuir para soluções.”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor [3], que ironizou a derrota brasileira na Copa como exemplo de desproporcionalidade, explicando que a guerra não é uma partida de futebol, e que só não há centenas de mortos em Israel porque esse país construiu um sistema anti-mísseis eficiente, e não se desculpará por isso. [4]

O embaixador brasileiro respondeu dizendo em tom bovino que seu país reconhecia o direito de defesa de Israel, mas não aceitava a desproporção das mortes palestinas. Ou seja, Israel pode se defender dos ataques terroristas palestinos desde que morra de seu lado um número igual ou próximo. Infelizmente, Israel zela pela vida e pela segurança de seus cidadãos e, por isso, não pode oferecer centenas de mortos para satisfazer o senso de proporcionalidade dos antissemitas. 

A posição alucinada do Itamaraty foi criticada pela CONIB (Confederação Israelita do Brasil) e pela ANAJUBI (Associação de Advogados Brasil-Israel), mas louvada, é claro, na Faixa de Gaza: “O Brasil é melhor do que os países árabes, como o Egito, que não fazem nada”, reportou o correspondente Diogo Bercito da Folha de S. Paulo [5]. Estamos mal mesmo, nos alinhando com os terroristas palestinos que nem os países árabes apoiam mais, e seguindo à risca as diretrizes dos Pinóquios do Hamas…

Fontes:

[1]: http://www.memri.fr/2014/07/22/directives-du-ministere-de-linterieur-du-hamas-aux-activistes-en-ligne-parlez-toujours-de-civils-innocents/

[2]: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/07/1490447-israel-repudia-critica-do-brasil-sobre-bombardeios-na-faixa-de-gaza.shtml?cmpid=%22facefolha%22

[3] http://www.jpost.com/Operation-Protective-Edge/Brazil-recalls-ambassador-for-consultations-in-protest-of-IDF-Gaza-operation-368715

[4]: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/07/porta-voz-de-israel-reage-e-afirma-que-desproporcional-e-7-1.html

[5]: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/07/1490447-israel-repudia-critica-do-brasil-sobre-bombardeios-na-faixa-de-gaza.shtml?cmpid=%22facefolha%22

DEDICAÇÃO EXCLUSIVA: UM REGIME DE SERVIDÃO?

20 mai
Família brasileira, por Jean Baptiste Debret.

Família brasileira, por Jean Baptiste Debret.

A nova legislação da carreira docente tem provocado, por suas sucessivas alterações, desentendimento nas universidades. No quesito “tabu” da retribuição pecuniária do docente em regime de dedicação exclusiva (DE) por ente distinto da Instituição Federal de Ensino (IFE), a Lei nº 12.772, de 28/12/2012 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12772.htm) permitia, no artigo VIII, “a retribuição pecuniária, na forma de pró-labore ou cachê pago diretamente ao docente por ente distinto da IFE, pela participação esporádica em assuntos de especialidade do docente, palestras, conferências, atividades artísticas e culturais devidamente autorizadas pela instituição de acordo com suas regras”. O artigo não limitava em horas essa participação esporádica.

Na Mensagem nº 413, de 24/09/2013, o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão vetou esse artigo por ele não impor um limite de horas a essas atividades remuneradas esporádicas, alegando que “a ausência desta limitação não condiz com a natureza do regime destes docentes que, justamente por conta de sua dedicação exclusiva, percebem remuneração mais vantajosa do que a de outros regimes de dedicação.” (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/Msg/VEP-413.htm).

Só que a nova redação do artigo VIII na Lei nº 12.863, de 24/09/2013, publicada no DOU de 25/09/2013, não se limitou a impor uma limitação de horas às atividades remuneradas dos docentes DE fora de suas IFES (de 30 a 120 vinte horas anuais), mas também redefiniu as atividades permitidas antes definidas como “palestras, conferências, atividades artísticas e culturais” como “colaboração esporádica de natureza científica ou tecnológica em assuntos de especialidade do docente, inclusive em polos de inovação tecnológica”. (http://www.revistajuridica.com.br/norma_integra.asp?id=16237).

A nova redação da Lei, alterando o tipo de trabalho esporádico remunerado permitido aos professores em regime DE deu margem a todo tipo de ilação. De fato, a nova redação desse quesito da Lei é um retrocesso. Parece haver uma tentativa de inibir as atividades extramuros dos professores das áreas de Humanas, Letras e Artes, como se o regime de dedicação exclusiva desses servidores fosse mesmo um regime de servidão, e a cultura pessoal, adquirida a elevados custos pelos docentes, devesse ser dada de graça à comunidade, ao contrário de outros serviços, de outras categorias profissionais.

Padeiros, encanadores ou taxistas teriam mais direitos que os docentes das IFEs, que ficam proibidos de “enricar”, ou seja, de ganhar uns trocados fora de seu salário fixo – fixo por anos a fio, independentemente da inflação que o devora, levando essa categoria a um endividamento que rende juros e mais juros a bancos públicos e privados? (Outras categorias se endividam, mas não estão proibidas de “enricar”).

E os professores das áreas de ciência e tecnologia teriam mais direitos que os professores das áreas de humanas, letras e artes – estes impedidos de cobrar por seus serviços, o que fere o princípio da isonomia universitária e inviabiliza as atividades artísticas e culturais (que não têm “natureza científica ou tecnológica”) dos docentes nos eventos programados por instituições que solicitam seus talentos e expertises?

Perguntas que não querem calar…

MENSEN ERNST

9 abr

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Resumo de um artigo de Bredo Bernstein, bibliotecário e autor da biografia Mensen Ernst, Koperkongen (Mensen Ernst, o rei da caminhada). Creio que o artigo, em que o autor sintetizava seu livro, foi publicado em 1982, na revista da UNESCO, mas infelizmente perdi a referência. Nos meus arquivos, encontrei apenas este resumo que fiz. (Luiz Nazario)

Em 1819, o andarilho norueguês Mensen Ernst fez, em nove horas, o percurso de 116 km de Londres a Portsmouth e, em 32 horas, os 240 km que separam Londres de Liverpool.

Através de suas andanças, Mensen Ernst tornou-se um cidadão do mundo, estudou as culturas estrangeiras, aprendeu o inglês, o francês, o alemão, noções de italiano e de turco.

Em 1832, aos 37 anos, correu de Paris a Kaiserlautern em dois dias. Declarou mais tarde: “Sentia como se minhas veias estivessem prestes a arrebentar. As pessoas que me viam passar tomavam-me por excêntrico, louco ou possuído pelo demônio”.

Sempre correndo, Ernst chegou a Moscou após 14 dias de sua partida, ganhando uma aposta de 3.800 francos. Devido ao estado precário de suas roupas, foi confundido com um mendigo.

Havia percorrido cerca de 2.500 km, ou seja, mais de 170 km diários. Alimentava-se, basicamente, de pão, queijo, verduras, e raramente de alguma carne fria. Dormia no chão, ao ar livre, ou sobre um estrado duro. Sua única fraqueza era o vinho, que bebia direto da garrafa, mesmo quando corria.

Ao voltar a Paris, Mensen Ernst já se tornara uma lenda viva, atraindo milhares de entusiastas. Em 1833, partiu de Munique em direção a Náuplia, então capital do recém-criado estado grego, levando documentos de Ludwig I da Baviera e da rainha Teresa a seu filho Otto I, rei da Grécia.

Em Montenegro, Mensen foi atacado por cinco bandidos, que por sorte não deram importância às cartas. Em Cataro, foi preso como espião, mas depois de três dias, o paxá de Janaina o libertou. Depois de 24 dias de viagem, tendo percorrido 2.700 km, ou 135 km por dia, ganhou a recompensa prometida de 1.000 guineis.

Em 1836, Mensen cobrou 150 libras para levar importantes documentos de Constantinopla a Calcutá em quatro semanas. Entre a ida e a volta, percorreu cerca de 8.300 km em 59 dias, ou seja, 150 km diários, com descanso de três dias em Calcutá.

Sua quarta jornada épica foi também a última. O conde Hermann von Pückler-Muskau propôs a Mensen Ernst descobrir a foz do rio Nilo. Partindo das terras do conde na Silésia prussiana no dia 11 de maio de 1842, ele se dirigiu a Constantinopla, depois Jerusalém, aonde chegou ao cabo de 30 dias, e percorreu, por fim, os 500 km até o Cairo.

Depois de passar alguns meses na capital egípcia, Mensen Ernst seguiu para o sul ao longo do Nilo. Mas, minado por uma disenteria, morreu em pleno deserto em 22 de janeiro de 1843, perto de Syene, hoje Assua.

A CONFUSÃO ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

17 mar
a - Cópia

Imagem da página ‘Pinto Crítica’. Detalhe de uma das fotos enviadas e publicadas.

Parece que a Universidade brasileira está entrando num processo de franca decadência. O caso dos trotes racistas e nazistas na UFMG soou um alerta vermelho. Não sei se houve uma resposta à altura do caso. Sei que o nível cultural dos novos estudantes é cada vez mais baixo, pois é algo que constatamos diariamente em nossas aulas. Hoje, visitando o grupo UFMG no Facebook, me surpreendi com uma fanpage intitulada “Pinto Crítica”, no endereço: https://www.facebook.com/pintocriticaufmg.

A página se dedica a receber e analisar as fotos que recebe dos pintos dos estudantes da UFMG. As fotos dos membros sexuais eretos dos jovens alunos são enviados pelos mesmos, in-box ou por e-mail, com a garantia da preservação do anonimato. Para não correr o risco de ser tirada do ar, a página assim se estrutura:

“As fotos serão postadas somente em links que direcionará [sic] vocês para a imagem. Será feito desta forma para evita [sic] que o facebook [sic] nos bloqueei [sic] como conteúdo ofensivo ou spam. Receberemos as fotos e analisaremos, e assim, divulgaremos a foto com uma analise [sic] geral. Como enviar sua foto: Vocês podem enviar suas fotos através do inbox do facebook, ou pelo e-mail: glamourufmg@yahoo.com. Quem pode participar: – Meninas e meninos estudantes da UFMG. Tudo será feito sigilosamente sem a divulgação de nomes. Pedimos que deixem a idade e o curso também. Deixamos claro também que só será divulgado [sic] o nome do curso e a idade [se] o dono da foto permitir. Esperamos a colaboração de todos!”.

O “Pinto Crítica” já recebeu e publicou diversas fotos de pênis eretos de supostos estudantes da UFMG, com o logo da UFMG ao qual acrescentou a palavra Glamour, acompanhadas com as respectivas “análises gerais” sobre a forma do membro e dos pelos, a qualidade da foto etc. A administradora anônima da página também incita seus seguidores a revelar fofocas, casos e escândalos sexuais envolvendo os acadêmicos da UFMG: “Vocês sabiam que aceitamos baphos [sic] também? Envia-nos os melhores baphos sexuais da UFMG.”

“Pinto Crítica” divulga, finalmente, outras iniciativas “culturais” dos estudantes da UFMG, como o grupo fechado “UFMG – sexo casual”, cuja missão é ser um “Lugar para facilitar contatos, entre pessoas que frequentam a UFMG, e procurem algo mais… O grupo deve crescer conforme as pessoas ficarem com menos preconceito em participar.”: https://www.facebook.com/groups/699345466777942/.

Preconceito é a palavra mágica brandida contra qualquer reação à sabotagem das instituições. Não, nada tenho contra sexo e pornografia entre estudantes, muito pelo contrário. Não vejo nenhum problema em estudantes exibirem seus sexos para quem eles quiserem, entre quatro paredes, ou, se preferirem, em sites pornográficos, ou em praticarem sexo, casual ou não: isso é da conta deles apenas. Mas associar o logotipo e o nome da UFMG a atividades de bordel é confundir o público com o privado, perder a noção da ética no meio acadêmico e macular a instituição com objetivos escusos.

OS INVASORES

20 jan

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No seriado de TV The Invaders (Os Invasores, 1967–1968), criado por Larry Cohen e produzido por Quinn Martin para a rede ABC, ao voltar para casa depois de uma jornada estafante, o arquiteto David Vincent (Roy Thinnes) busca um atalho, que não encontra, deparando-se com um restaurante de beira de estrada abandonado. Ele estaciona o carro em frente ao local para cochilar antes de seguir viagem quando, do nada, surge uma nave espacial, de outra galáxia, pousando diante dele.

Os invasores estavam deixando um planeta agonizante, querendo fazer da Terra o planeta deles. Para isso, substituíam os humanos por clones de mesma aparência, mas frequentemente – não sempre – com um “defeito de fabricação”, que os denunciava a quem sabia do segredo: o dedo mindinho da mão esquerda dos falsos humanos apresentava uma estranha rigidez.

Ninguém mais poderia estar seguro da humanidade de seus interlocutores: qualquer um poderia ser agora um alien disfarçado. E como o dedinho duro não era um defeito generalizado dos  aliens – alguns não tinham esse defeito, outros o corrigiam com uma operação – a identificação dos mesmos era sempre problemática. Pior: alguns humanos se aliavam aos aliens e serviam aos seus planos, por um misto de interesses megalomaníacos e estúpida revolta contra a humanidade devida a forte recalque.

David Vincent, um arquiteto que raramente vemos trabalhando em sua profissão, tornava-se um obcecado com os invasores e acabava descobrindo, um a um, os segredos desses aliens: além da rigidez de seus mindinhos, o prazo de validade de suas formas humanas; a necessidade de regeneração de seus organismos dentro de grandes tubos; a ausência de coração e, portanto, de batimento cardíaco e de pulso; a morte deles sempre seguida de autocombustão.

Percebendo os aliens como seres malignos, David tenta convencer o mundo cético de que a invasão do nosso planeta começara. Mas seus relatos parecem aos demais tão fantásticos que ele é sempre desacreditado e ridicularizado. Todos o tomam por louco. Já no episódio piloto, do qual existem duas versões, a que foi ar, e outra mais extensa, de uma hora, Vincent chega a ser internado num hospício. Mas o tough guy não desiste e se torna um especialista em aliens, e seu mais feroz caçador.

Os aliens, porém, não facilitam a missão de Vincent, pois a cada tentativa frustrada de exterminar a humanidade, as sinistras criaturas, cuja verdadeira forma jamais é mostrada, destroem seus equipamentos, suas armas, suas naves e tomam pílulas de veneno, desaparecendo sem deixar traços. Desse modo, Vincent não consegue obter nenhuma prova material para mostrar aos demais e convencê-los de que ele não está louco, mas sim dizendo a verdade.

Embora o “inimigo” visado simbolicamente pela série seja o comunista (os aliens são desprovidos de sentimentos; ameaçam destruir o humano no homem; incineram-se envoltos num luminoso halo vermelho), o padrão totalitário que eles encarnam também os aproxima dos nazistas: as drágeas de suicídio, as farsas montadas para ludibriar os humanos, seus planos e métodos de extermínio em massa, etc.

Como notou Marc Augé, “a solidão do herói, aumentada a cada dia pela miopia de alguns e a mentira de outros, tinha uma dimensão trágica”, mas “cada episodio terminava de uma maneira mais ou menos satisfatória. David Vincent escapava milagrosamente das situações mais perigosas. E quanto aos seres extraterrestres, felizmente se mostravam vulneráveis à ação das armas de fogo, pois se liquefaziam e desapareciam quase instantaneamente pelo impacto das balas.”

A realidade da visão paranoica é uma das bases da ficção científica, e o criador da série, Larry Cohen, inspirou-se em dois clássicos do gênero: Invaders from Mars (Os invasores de Marte, 1953), de William Cameron Menzies, e Invasion of the Body Snatchers (Vampiros de almas, 1956), de Don Siegel – seus dois filmes prediletos quando ele era criança.

O fato de Vincent ser tomado por um paranoico, que “vê extraterrestres em toda parte” coincide com a ridicularização dos anticomunistas feita pelos comunistas, e frequentemente adotada pelos liberais ingênuos de que os anticomunistas “vêm comunistas em toda parte”. Ainda que isso possa ser verdade, não quer dizer que os comunistas não estejam mesmo em toda parte, assumindo postos de comando.

A visão racional, neste caso, é uma aliada do mal. Vincent não estava louco e nada indicava que o que ele via, e nós com ele, era uma alucinação sua. Como notou ainda Augé, o arquiteto testemunhava o estabelecimento de uma nova ordem: “Os verdadeiros alucinados eram na verdade seus detratores que, ao confundir a realidade com as aparências, tomavam os extraterrestres por bons norte-americanos, gato por lebre.” [1]

Esse aspecto inquietante de sensatos que são verdadeiros otários, cegados pela razão numa realidade tornada paranoica, é mais intenso na Primeira Temporada do seriado. Na Segunda Temporada, aumenta o número dos que testemunham os aliens morrendo em autocombustão e Vincent, até então um guerreiro solitário, passa a integrar o grupo ‘The Believers’, patrocinado por um grande industrial, com ramificações em Washington, e que monitora o movimento dos discos voadores para sabotar as missões alienígenas.

As duas temporadas de The Invaders, produzidas por Alan Armer nos estúdios de Samuel Goldwyn, contaram com bons diretores, incluindo Paul Wendkos e Joseph Sargent, e muitos guest stars, como Anne Francis, Suzanne Pleshette, Diane Baker, Sally Kellerman, Susan Strasberg, Barbara Hershey e Karen Black; Gene Hackman, Roddy McDowall, Burgess Meredith, Louis Gossett Jr., Peter Graves e Ed Begley, além dos emblemáticos: Michael Rennie, o extraterrestre Klaatu de The Day the Earth Stood Still (O dia em que a Terra parou, 1951), de Robert Wise; e Kevin McCarthy, o herói “paranoico” de Invasion of the Body Snatchers.

Todos os 43 episódios da série se iniciam com a cena do “trauma original”, assim descrita pelo narrador, William Woodson, numa locução tão estupenda que não cansamos de ouviu:

The Invaders: alien beings from a dying planet. Their destination: the Earth. Their purpose: to make it their world. David Vincent has seen them. For him, it began one lost night on a lonely country road, looking for a shortcut that he never found. It began with a closed deserted diner, and a man too long without sleep to continue his journey. It began with the landing of a craft from another galaxy. Now, David Vincent knows that the Invaders are here, that they have taken human form. Somehow, he must convince a disbelieving world, that the nightmare has already begun…

Em suas tramas e nas características de seu herói paranoico encarnado por Roy Thinnes – bonito, inteligente, educado, atlético, sedutor e interessado em mulheres, mas nunca as levando para a cama, poupando suas energias para combater os extraterrestres – a série é precursora da série The X-Files (Arquivo X, 1993-2002) e de seu herói assemelhado Fox Mulder (David Duchovny). A sedução sem sexo torna o herói paranoico mais atraente. Não por acaso The Invaders foi vendido para 80 países, e ainda em 2004, no ranking da TV Guide dos 25 maiores mitos da Sci-Fi, o personagem do arquiteto David Vincent aparecia em sexto lugar.


[1] AUGÉ, Marc. Alerta! La guerra de los sueños: ejercicios de etno-ficción. Gedisa, 1998.

MINHAS 33 PEÇAS DE TEATRO FAVORITAS

10 jan

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  1. A destruição de Numância, de Miguel de Cervantes (1547-1616).
  2. Macbeth, de William Shakespeare (1564-1616).
  3. Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616).
  4. Romeu e Julieta, de William Shakespeare (1564-1616).
  5. Otelo, de William Shakespeare (1564-1616).
  6. As preciosas ridículas, de Molière (1622 -1673).
  7. Guilherme Tell, de Friedrich Schiller (1759-1805).
  8. Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret (1799-1854).
  9. A morte de Danton, de Georg Büchner (1813-1837).
  10. A mais forte, de August Strindberg (1849-1912).
  11. Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello (1867-1936).
  12. Vestir os nus, de Luigi Pirandello (1867-1936).
  13. Gás, de Georg Kaiser (1878-1945).
  14. R.U.R, de Karel Čapek (1890 -1938).
  15. Terror e miséria no Terceiro Reich, de Bertolt Brecht (1898-1956).
  16. Galileu Galilei, de Bertolt Brecht (1898-1956).
  17. A voz humana, de Jean Cocteau (1889-1963).
  18. Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre (1905-1980).
  19. As mãos sujas, de Jean-Paul Sartre (1905-1980).
  20. Noite de 16 de janeiro, de Ayn Rand (1905-1982).
  21. Ideal, de Ayn Rand (1905-1982).
  22. Pense duas vezes, de Ayn Rand (1905-1982).
  23. Esperando Godot, de Samuel Beckett (1906-1989).
  24. As bocas inúteis, de Simone de Beauvoir (1908-1986).
  25. A cantora careca, de Eugène Ionesco (1909-1994).
  26. Rinocerontes, de Eugène Ionesco (1909-1994).
  27. As criadas, de Jean Genet (1910-1986).
  28. De repente, no último verão, de Tennessee Williams (1911-1983).
  29. À margem da vida, de Tennessee Williams (1911-1983).
  30. Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980).
  31. O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues (1912-1980).
  32. Os físicos, de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990).
  33. A torre de Babel, de Fernando Arrabal (1932-).

O LEGADO DE UMA NULIDADE

21 dez

Eva Braun.

Originalmente publicado no extinto caderno Sabático, de O Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho de 2011 numa versão reduzida a 5000 caracteres sob o título: Sem lugar próprio na cena da história. Segue a versão integral.

Seguindo uma tendência da historiografia alemã de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira de Der Untergang (A queda: as últimas horas de Hitler, 2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de cada um dos “heróis” que protagonizaram o pesado dramalhão do Bunker, a acadêmica Heike Görtemaker, doutora em germanística pela Universidade de Indiana e professora da Universidade Livre de Berlim, dispôs-se a exaltar com uma alentada biografia a vida da suposta amante de Hitler.

Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Hannah Arendt já havia se escandalizado com a moda que viu despontar com o Hitler (1973), de Joachim Fest, de celebrar o ditador em livros-mamutes “à inglesa”, que esmiuçavam em detalhes a vida daquele genocida. Que dizer então do empreendimento de Görtemaker, de esmiuçar em Eva Braun, a vida com Hitler a apagada sombra da estéril acompanhante do genocida?

Nenhum feminismo justifica a empreitada. É um sentimento mal definido que leva a autora a tentar “virar a mesa” da historiografia clássica, que a seu ver só ressaltou a insignificância de Eva Braun. Mas, apesar de sua intensa pesquisa – suas notas, fontes, bibliografia e índices ocupam 100 das 400 páginas do livro –, a autora não encontrou nada de novo que pudesse modificar o quadro.

Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que seu cachorro predileto, o pastor alemão Blondi, no qual ele testou a fatal ampola de cianureto de hidrogênio que daria à “amante” no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no Bunker cercado pelo Exército Vermelho (depois de tomar sua cápsula, o Führer também meteu uma bala na cabeça, para garantir-se um suicídio sem chance de fracasso).

Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil e mesquinha, deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar pelo ditador, que a tratava como uma privilegiada empregada doméstica ou cadela de estimação.

Ao contrário do que Görtemaker sugere, o sonho evidente de Eva Braun era mesmo viver casada com Hitler após sua “aposentadoria” no planejado palacete de Linz. O ditador só se casou com a suposta “amante” ao ter absoluta certeza de que ela se mataria imediatamente após a cerimônia, conforme haviam diversas vezes ensaiado, para nada saísse errado.

Hitler ditou à secretária Traudl Jung em seu Testamento: “Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte.” (Hitler, apud Görtemaker, p. 298).

Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker insiste em negar que a relação de Hitler com Eva Braun fosse apenas a de um amor platônico, como diversos membros do círculo íntimo do poder nazista asseguraram. Görtemaker mostra-se alheia às teorias sensacionalistas que ressaltaram os problemas sexuais de Hitler: ausência do testículo esquerdo, impotência sexual de fundo psicológico, homossexualidade recalcada, etc. Nenhuma referência a nada disso há em seu livro.

Görtemaker tampouco aborda a visão do amor heterossexual que o futuro ditador expôs na juventude ao seu único amigo, August Kubizek, conforme este relatou em Adolf Hitler, mein Jugendfreund (Adolf Hitler, meu amigo de juventude, 1953), e que se resume no conceito que ele definia como “A Chama da Vida”, em nome da qual os amantes deviam permanecer virgens até o casamento.

A autora prefere acreditar (seu livro é, aliás, cheio de suposições) que Hitler mantinha relações sexuais com Eva Braun, afastando, a partir desse seu parti pris, todos os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Interpretando a seu modo a relação entre Hitler e sua “leal amiga”, Görtemaker não percebe o verdadeiro horror da vida de sua “heroína”.

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A jovem feiosa ou no máximo “bonitinha”, mas cheia de saúde, estava cegamente apaixonada por um ser repugnante, mas poderoso, e sonhava em casar-se para ser satisfeita e fecundada, realizando o ideal nazista da esposa-mãe proliferante, sendo mantida justamente por aquele que proclamava esse ideal num estado permanente de desejo insatisfeito, esterilizada pela ausência de sexo, sob a vigilância constante da Gestapo, que a impossibilitava de qualquer aventura sexual, dentro ou fora de sua gaiola dourada.

É esse drama digno do mais vetusto e “picante” romance naturalista do século XIX, atualizado para um universo totalitário, cercado de campos de concentração e filmes nazistas vistos e comentados com entusiasmo todas as noites após o jantar, tendo assassinos de massa como companhia, que explica a histeria de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu freqüente mau humor, suas distrações medíocres como fazedora de álbuns de sua vida privada com Hitler. Hoje ela seria uma fanática do Facebook…

Fotógrafa e cineasta amadora de fim de semana, cujos filmes coloridos em 16mm, desprovidos de imaginação, rodados no “ninho de águia” do Berghof em Obersalzberg, foram retomados nos controversos documentários Swastika (Suástica, 1974), de Philippe Mora, e Hitler: Eine Karriere (Hitler: uma carreira, 1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo em microcosmo um regime de extremo sadomasoquismo coletivo.

O poderoso ditador, que se recusava a ficar nu até para uma consulta médica, sentia-se vulnerável diante daquela tolinha que ele amava, e que sabia demais sobre sua intimidade, pelo que a jovem Braun era mantida escondida do público, excluída das recepções oficiais, constantemente vigiada e protegida, quer dizer, isolada, como uma refém, uma presidiária, do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio, ao mundo à sua volta, ao seu próprio fim desgraçado. Depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, esperando em vão por um sonho impossível, as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fizeram quase feliz, ligada definitivamente ao seu dono, em franca degeneração física e mental: “Estou no lucro”, ela afirmou, ao se fechar naquela claustrofóbica antessala do inferno.

Ao se matar aos 33 anos de idade, após uma vida vazia, preenchida com fofocas palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro, como bem retrata o Moloch (2000), de Aleksander Sokurov, Eva Braun não “assegurou para si um lugar na história, ainda que duvidoso”, como quer a autora, mas sim um não-lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun: a vida com Hitler não é dedicada a ela, mas ao ditador e ao seu círculo de assassinos de massa.

Luiz Nazario

Professor de História do Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, autor de Todos os corpos de Pasolini (Editora Perspectiva) e pesquisador bolsista de produtividade do CNPq com o projeto Cinema e Holocausto.

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