MENSEN ERNST

9 abr

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Resumo de um artigo de Bredo Bernstein, bibliotecário e autor da biografia Mensen Ernst, Koperkongen (Mensen Ernst, o rei da caminhada). Creio que o artigo, em que o autor sintetizava seu livro, foi publicado em 1982, na revista da UNESCO, mas infelizmente perdi a referência. Nos meus arquivos, encontrei apenas este resumo que fiz. (Luiz Nazario)

Em 1819, o andarilho norueguês Mensen Ernst fez, em nove horas, o percurso de 116 km de Londres a Portsmouth e, em 32 horas, os 240 km que separam Londres de Liverpool.

Através de suas andanças, Mensen Ernst tornou-se um cidadão do mundo, estudou as culturas estrangeiras, aprendeu o inglês, o francês, o alemão, noções de italiano e de turco.

Em 1832, aos 37 anos, correu de Paris a Kaiserlautern em dois dias. Declarou mais tarde: “Sentia como se minhas veias estivessem prestes a arrebentar. As pessoas que me viam passar tomavam-me por excêntrico, louco ou possuído pelo demônio”.

Sempre correndo, Ernst chegou a Moscou após 14 dias de sua partida, ganhando uma aposta de 3.800 francos. Devido ao estado precário de suas roupas, foi confundido com um mendigo.

Havia percorrido cerca de 2.500 km, ou seja, mais de 170 km diários. Alimentava-se, basicamente, de pão, queijo, verduras, e raramente de alguma carne fria. Dormia no chão, ao ar livre, ou sobre um estrado duro. Sua única fraqueza era o vinho, que bebia direto da garrafa, mesmo quando corria.

Ao voltar a Paris, Mensen Ernst já se tornara uma lenda viva, atraindo milhares de entusiastas. Em 1833, partiu de Munique em direção a Náuplia, então capital do recém-criado estado grego, levando documentos de Ludwig I da Baviera e da rainha Teresa a seu filho Otto I, rei da Grécia.

Em Montenegro, Mensen foi atacado por cinco bandidos, que por sorte não deram importância às cartas. Em Cataro, foi preso como espião, mas depois de três dias, o paxá de Janaina o libertou. Depois de 24 dias de viagem, tendo percorrido 2.700 km, ou 135 km por dia, ganhou a recompensa prometida de 1.000 guineis.

Em 1836, Mensen cobrou 150 libras para levar importantes documentos de Constantinopla a Calcutá em quatro semanas. Entre a ida e a volta, percorreu cerca de 8.300 km em 59 dias, ou seja, 150 km diários, com descanso de três dias em Calcutá.

Sua quarta jornada épica foi também a última. O conde Hermann von Pückler-Muskau propôs a Mensen Ernst descobrir a foz do rio Nilo. Partindo das terras do conde na Silésia prussiana no dia 11 de maio de 1842, ele se dirigiu a Constantinopla, depois Jerusalém, aonde chegou ao cabo de 30 dias, e percorreu, por fim, os 500 km até o Cairo.

Depois de passar alguns meses na capital egípcia, Mensen Ernst seguiu para o sul ao longo do Nilo. Mas, minado por uma disenteria, morreu em pleno deserto em 22 de janeiro de 1843, perto de Syene, hoje Assua.

A CONFUSÃO ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

17 mar
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Imagem da página ‘Pinto Crítica’. Detalhe de uma das fotos enviadas e publicadas.

Parece que a Universidade brasileira está entrando num processo de franca decadência. O caso dos trotes racistas e nazistas na UFMG soou um alerta vermelho. Não sei se houve uma resposta à altura do caso. Sei que o nível cultural dos novos estudantes é cada vez mais baixo, pois é algo que constatamos diariamente em nossas aulas. Hoje, visitando o grupo UFMG no Facebook, me surpreendi com uma fanpage intitulada “Pinto Crítica”, no endereço: https://www.facebook.com/pintocriticaufmg.

A página se dedica a receber e analisar as fotos que recebe dos pintos dos estudantes da UFMG. As fotos dos membros sexuais eretos dos jovens alunos são enviados pelos mesmos, in-box ou por e-mail, com a garantia da preservação do anonimato. Para não correr o risco de ser tirada do ar, a página assim se estrutura:

“As fotos serão postadas somente em links que direcionará [sic] vocês para a imagem. Será feito desta forma para evita [sic] que o facebook [sic] nos bloqueei [sic] como conteúdo ofensivo ou spam. Receberemos as fotos e analisaremos, e assim, divulgaremos a foto com uma analise [sic] geral. Como enviar sua foto: Vocês podem enviar suas fotos através do inbox do facebook, ou pelo e-mail: glamourufmg@yahoo.com. Quem pode participar: – Meninas e meninos estudantes da UFMG. Tudo será feito sigilosamente sem a divulgação de nomes. Pedimos que deixem a idade e o curso também. Deixamos claro também que só será divulgado [sic] o nome do curso e a idade [se] o dono da foto permitir. Esperamos a colaboração de todos!”.

O “Pinto Crítica” já recebeu e publicou diversas fotos de pênis eretos de supostos estudantes da UFMG, com o logo da UFMG ao qual acrescentou a palavra Glamour, acompanhadas com as respectivas “análises gerais” sobre a forma do membro e dos pelos, a qualidade da foto etc. A administradora anônima da página também incita seus seguidores a revelar fofocas, casos e escândalos sexuais envolvendo os acadêmicos da UFMG: “Vocês sabiam que aceitamos baphos [sic] também? Envia-nos os melhores baphos sexuais da UFMG.”

“Pinto Crítica” divulga, finalmente, outras iniciativas “culturais” dos estudantes da UFMG, como o grupo fechado “UFMG – sexo casual”, cuja missão é ser um “Lugar para facilitar contatos, entre pessoas que frequentam a UFMG, e procurem algo mais… O grupo deve crescer conforme as pessoas ficarem com menos preconceito em participar.”: https://www.facebook.com/groups/699345466777942/.

Preconceito é a palavra mágica brandida contra qualquer reação à sabotagem das instituições. Não, nada tenho contra sexo e pornografia entre estudantes, muito pelo contrário. Não vejo nenhum problema em estudantes exibirem seus sexos para quem eles quiserem, entre quatro paredes, ou, se preferirem, em sites pornográficos, ou em praticarem sexo, casual ou não: isso é da conta deles apenas. Mas associar o logotipo e o nome da UFMG a atividades de bordel é confundir o público com o privado, perder a noção da ética no meio acadêmico e macular a instituição com objetivos escusos.

OS INVASORES

20 jan

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No seriado de TV The Invaders (Os Invasores, 1967–1968), criado por Larry Cohen e produzido por Quinn Martin para a rede ABC, ao voltar para casa depois de uma jornada estafante, o arquiteto David Vincent (Roy Thinnes) busca um atalho, que não encontra, deparando-se com um restaurante de beira de estrada abandonado. Ele estaciona o carro em frente ao local para cochilar antes de seguir viagem quando, do nada, surge uma nave espacial, de outra galáxia, pousando diante dele.

Os invasores estavam deixando um planeta agonizante, querendo fazer da Terra o planeta deles. Para isso, substituíam os humanos por clones de mesma aparência, mas frequentemente – não sempre – com um “defeito de fabricação”, que os denunciava a quem sabia do segredo: o dedo mindinho da mão esquerda dos falsos humanos apresentava uma estranha rigidez.

Ninguém mais poderia estar seguro da humanidade de seus interlocutores: qualquer um poderia ser agora um alien disfarçado. E como o dedinho duro não era um defeito generalizado dos  aliens – alguns não tinham esse defeito, outros o corrigiam com uma operação – a identificação dos mesmos era sempre problemática. Pior: alguns humanos se aliavam aos aliens e serviam aos seus planos, por um misto de interesses megalomaníacos e estúpida revolta contra a humanidade devida a forte recalque.

David Vincent, um arquiteto que raramente vemos trabalhando em sua profissão, tornava-se um obcecado com os invasores e acabava descobrindo, um a um, os segredos desses aliens: além da rigidez de seus mindinhos, o prazo de validade de suas formas humanas; a necessidade de regeneração de seus organismos dentro de grandes tubos; a ausência de coração e, portanto, de batimento cardíaco e de pulso; a morte deles sempre seguida de autocombustão.

Percebendo os aliens como seres malignos, David tenta convencer o mundo cético de que a invasão do nosso planeta começara. Mas seus relatos parecem aos demais tão fantásticos que ele é sempre desacreditado e ridicularizado. Todos o tomam por louco. Já no episódio piloto, do qual existem duas versões, a que foi ar, e outra mais extensa, de uma hora, Vincent chega a ser internado num hospício. Mas o tough guy não desiste e se torna um especialista em aliens, e seu mais feroz caçador.

Os aliens, porém, não facilitam a missão de Vincent, pois a cada tentativa frustrada de exterminar a humanidade, as sinistras criaturas, cuja verdadeira forma jamais é mostrada, destroem seus equipamentos, suas armas, suas naves e tomam pílulas de veneno, desaparecendo sem deixar traços. Desse modo, Vincent não consegue obter nenhuma prova material para mostrar aos demais e convencê-los de que ele não está louco, mas sim dizendo a verdade.

Embora o “inimigo” visado simbolicamente pela série seja o comunista (os aliens são desprovidos de sentimentos; ameaçam destruir o humano no homem; incineram-se envoltos num luminoso halo vermelho), o padrão totalitário que eles encarnam também os aproxima dos nazistas: as drágeas de suicídio, as farsas montadas para ludibriar os humanos, seus planos e métodos de extermínio em massa, etc.

Como notou Marc Augé, “a solidão do herói, aumentada a cada dia pela miopia de alguns e a mentira de outros, tinha uma dimensão trágica”, mas “cada episodio terminava de uma maneira mais ou menos satisfatória. David Vincent escapava milagrosamente das situações mais perigosas. E quanto aos seres extraterrestres, felizmente se mostravam vulneráveis à ação das armas de fogo, pois se liquefaziam e desapareciam quase instantaneamente pelo impacto das balas.”

A realidade da visão paranoica é uma das bases da ficção científica, e o criador da série, Larry Cohen, inspirou-se em dois clássicos do gênero: Invaders from Mars (Os invasores de Marte, 1953), de William Cameron Menzies, e Invasion of the Body Snatchers (Vampiros de almas, 1956), de Don Siegel – seus dois filmes prediletos quando ele era criança.

O fato de Vincent ser tomado por um paranoico, que “vê extraterrestres em toda parte” coincide com a ridicularização dos anticomunistas feita pelos comunistas, e frequentemente adotada pelos liberais ingênuos de que os anticomunistas “vêm comunistas em toda parte”. Ainda que isso possa ser verdade, não quer dizer que os comunistas não estejam mesmo em toda parte, assumindo postos de comando.

A visão racional, neste caso, é uma aliada do mal. Vincent não estava louco e nada indicava que o que ele via, e nós com ele, era uma alucinação sua. Como notou ainda Augé, o arquiteto testemunhava o estabelecimento de uma nova ordem: “Os verdadeiros alucinados eram na verdade seus detratores que, ao confundir a realidade com as aparências, tomavam os extraterrestres por bons norte-americanos, gato por lebre.” [1]

Esse aspecto inquietante de sensatos que são verdadeiros otários, cegados pela razão numa realidade tornada paranoica, é mais intenso na Primeira Temporada do seriado. Na Segunda Temporada, aumenta o número dos que testemunham os aliens morrendo em autocombustão e Vincent, até então um guerreiro solitário, passa a integrar o grupo ‘The Believers’, patrocinado por um grande industrial, com ramificações em Washington, e que monitora o movimento dos discos voadores para sabotar as missões alienígenas.

As duas temporadas de The Invaders, produzidas por Alan Armer nos estúdios de Samuel Goldwyn, contaram com bons diretores, incluindo Paul Wendkos e Joseph Sargent, e muitos guest stars, como Anne Francis, Suzanne Pleshette, Diane Baker, Sally Kellerman, Susan Strasberg, Barbara Hershey e Karen Black; Gene Hackman, Roddy McDowall, Burgess Meredith, Louis Gossett Jr., Peter Graves e Ed Begley, além dos emblemáticos: Michael Rennie, o extraterrestre Klaatu de The Day the Earth Stood Still (O dia em que a Terra parou, 1951), de Robert Wise; e Kevin McCarthy, o herói “paranoico” de Invasion of the Body Snatchers.

Todos os 43 episódios da série se iniciam com a cena do “trauma original”, assim descrita pelo narrador, William Woodson, numa locução tão estupenda que não cansamos de ouviu:

The Invaders: alien beings from a dying planet. Their destination: the Earth. Their purpose: to make it their world. David Vincent has seen them. For him, it began one lost night on a lonely country road, looking for a shortcut that he never found. It began with a closed deserted diner, and a man too long without sleep to continue his journey. It began with the landing of a craft from another galaxy. Now, David Vincent knows that the Invaders are here, that they have taken human form. Somehow, he must convince a disbelieving world, that the nightmare has already begun…

Em suas tramas e nas características de seu herói paranoico encarnado por Roy Thinnes – bonito, inteligente, educado, atlético, sedutor e interessado em mulheres, mas nunca as levando para a cama, poupando suas energias para combater os extraterrestres – a série é precursora da série The X-Files (Arquivo X, 1993-2002) e de seu herói assemelhado Fox Mulder (David Duchovny). A sedução sem sexo torna o herói paranoico mais atraente. Não por acaso The Invaders foi vendido para 80 países, e ainda em 2004, no ranking da TV Guide dos 25 maiores mitos da Sci-Fi, o personagem do arquiteto David Vincent aparecia em sexto lugar.


[1] AUGÉ, Marc. Alerta! La guerra de los sueños: ejercicios de etno-ficción. Gedisa, 1998.

MINHAS 33 PEÇAS DE TEATRO FAVORITAS

10 jan

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  1. A destruição de Numância, de Miguel de Cervantes (1547-1616).
  2. Macbeth, de William Shakespeare (1564-1616).
  3. Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616).
  4. Romeu e Julieta, de William Shakespeare (1564-1616).
  5. Otelo, de William Shakespeare (1564-1616).
  6. As preciosas ridículas, de Molière (1622 -1673).
  7. Guilherme Tell, de Friedrich Schiller (1759-1805).
  8. Frei Luís de Sousa, de Almeida Garret (1799-1854).
  9. A morte de Danton, de Georg Büchner (1813-1837).
  10. A mais forte, de August Strindberg (1849-1912).
  11. Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello (1867-1936).
  12. Vestir os nus, de Luigi Pirandello (1867-1936).
  13. Gás, de Georg Kaiser (1878-1945).
  14. R.U.R, de Karel Čapek (1890 -1938).
  15. Terror e miséria no Terceiro Reich, de Bertolt Brecht (1898-1956).
  16. Galileu Galilei, de Bertolt Brecht (1898-1956).
  17. A voz humana, de Jean Cocteau (1889-1963).
  18. Entre quatro paredes, de Jean-Paul Sartre (1905-1980).
  19. As mãos sujas, de Jean-Paul Sartre (1905-1980).
  20. Noite de 16 de janeiro, de Ayn Rand (1905-1982).
  21. Ideal, de Ayn Rand (1905-1982).
  22. Pense duas vezes, de Ayn Rand (1905-1982).
  23. Esperando Godot, de Samuel Beckett (1906-1989).
  24. As bocas inúteis, de Simone de Beauvoir (1908-1986).
  25. A cantora careca, de Eugène Ionesco (1909-1994).
  26. Rinocerontes, de Eugène Ionesco (1909-1994).
  27. As criadas, de Jean Genet (1910-1986).
  28. De repente, no último verão, de Tennessee Williams (1911-1983).
  29. À margem da vida, de Tennessee Williams (1911-1983).
  30. Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues (1912-1980).
  31. O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues (1912-1980).
  32. Os físicos, de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990).
  33. A torre de Babel, de Fernando Arrabal (1932-).

O LEGADO DE UMA NULIDADE

21 dez

Eva Braun.

Originalmente publicado no extinto caderno Sabático, de O Estado de S. Paulo, no dia 18 de junho de 2011 numa versão reduzida a 5000 caracteres sob o título: Sem lugar próprio na cena da história. Segue a versão integral.

Seguindo uma tendência da historiografia alemã de reinserir no panteão da História toda a galeria dos criminosos de massa do nazismo, à maneira de Der Untergang (A queda: as últimas horas de Hitler, 2004), de Oliver Hirschbiegel, com seu singelo crédito final dando conta do destino de cada um dos “heróis” que protagonizaram o pesado dramalhão do Bunker, a acadêmica Heike Görtemaker, doutora em germanística pela Universidade de Indiana e professora da Universidade Livre de Berlim, dispôs-se a exaltar com uma alentada biografia a vida da suposta amante de Hitler.

Uma tarefa bastante ingrata. Afinal, como biografar uma nulidade? E mais: para quê? Hannah Arendt já havia se escandalizado com a moda que viu despontar com o Hitler (1973), de Joachim Fest, de celebrar o ditador em livros-mamutes “à inglesa”, que esmiuçavam em detalhes a vida daquele genocida. Que dizer então do empreendimento de Görtemaker, de esmiuçar em Eva Braun, a vida com Hitler a apagada sombra da estéril acompanhante do genocida?

Nenhum feminismo justifica a empreitada. É um sentimento mal definido que leva a autora a tentar “virar a mesa” da historiografia clássica, que a seu ver só ressaltou a insignificância de Eva Braun. Mas, apesar de sua intensa pesquisa – suas notas, fontes, bibliografia e índices ocupam 100 das 400 páginas do livro –, a autora não encontrou nada de novo que pudesse modificar o quadro.

Eva Braun tinha para Hitler a mesma importância que seu cachorro predileto, o pastor alemão Blondi, no qual ele testou a fatal ampola de cianureto de hidrogênio que daria à “amante” no dia seguinte, a 30 de abril de 1945, quando ambos se mataram no Bunker cercado pelo Exército Vermelho (depois de tomar sua cápsula, o Führer também meteu uma bala na cabeça, para garantir-se um suicídio sem chance de fracasso).

Embora Heike Görtemaker tente provar que Eva Braun seria bem mais que uma criatura fútil e mesquinha, deslumbrada por um poder criminoso, só conseguiu reforçar a tolice de sua personagem, cuja vida se resumiu a esperar pelo ditador, que a tratava como uma privilegiada empregada doméstica ou cadela de estimação.

Ao contrário do que Görtemaker sugere, o sonho evidente de Eva Braun era mesmo viver casada com Hitler após sua “aposentadoria” no planejado palacete de Linz. O ditador só se casou com a suposta “amante” ao ter absoluta certeza de que ela se mataria imediatamente após a cerimônia, conforme haviam diversas vezes ensaiado, para nada saísse errado.

Hitler ditou à secretária Traudl Jung em seu Testamento: “Como, nos anos de luta, eu não me julgava em condições de contrair matrimônio, agora, no fim desta trajetória terrena, decidi desposar a moça que, depois de muitos anos de leal amizade, entrou na cidade já quase sitiada para compartilhar seu destino com o meu. Por desejo meu, é na qualidade de esposa que ela vai comigo para a morte.” (Hitler, apud Görtemaker, p. 298).

Embora a razão disso seja óbvia, Heike Görtemaker insiste em negar que a relação de Hitler com Eva Braun fosse apenas a de um amor platônico, como diversos membros do círculo íntimo do poder nazista asseguraram. Görtemaker mostra-se alheia às teorias sensacionalistas que ressaltaram os problemas sexuais de Hitler: ausência do testículo esquerdo, impotência sexual de fundo psicológico, homossexualidade recalcada, etc. Nenhuma referência a nada disso há em seu livro.

Görtemaker tampouco aborda a visão do amor heterossexual que o futuro ditador expôs na juventude ao seu único amigo, August Kubizek, conforme este relatou em Adolf Hitler, mein Jugendfreund (Adolf Hitler, meu amigo de juventude, 1953), e que se resume no conceito que ele definia como “A Chama da Vida”, em nome da qual os amantes deviam permanecer virgens até o casamento.

A autora prefere acreditar (seu livro é, aliás, cheio de suposições) que Hitler mantinha relações sexuais com Eva Braun, afastando, a partir desse seu parti pris, todos os testemunhos contrários como intrigas da oposição. Interpretando a seu modo a relação entre Hitler e sua “leal amiga”, Görtemaker não percebe o verdadeiro horror da vida de sua “heroína”.

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A jovem feiosa ou no máximo “bonitinha”, mas cheia de saúde, estava cegamente apaixonada por um ser repugnante, mas poderoso, e sonhava em casar-se para ser satisfeita e fecundada, realizando o ideal nazista da esposa-mãe proliferante, sendo mantida justamente por aquele que proclamava esse ideal num estado permanente de desejo insatisfeito, esterilizada pela ausência de sexo, sob a vigilância constante da Gestapo, que a impossibilitava de qualquer aventura sexual, dentro ou fora de sua gaiola dourada.

É esse drama digno do mais vetusto e “picante” romance naturalista do século XIX, atualizado para um universo totalitário, cercado de campos de concentração e filmes nazistas vistos e comentados com entusiasmo todas as noites após o jantar, tendo assassinos de massa como companhia, que explica a histeria de Eva Braun, suas duas tentativas de suicídio, seu freqüente mau humor, suas distrações medíocres como fazedora de álbuns de sua vida privada com Hitler. Hoje ela seria uma fanática do Facebook…

Fotógrafa e cineasta amadora de fim de semana, cujos filmes coloridos em 16mm, desprovidos de imaginação, rodados no “ninho de águia” do Berghof em Obersalzberg, foram retomados nos controversos documentários Swastika (Suástica, 1974), de Philippe Mora, e Hitler: Eine Karriere (Hitler: uma carreira, 1977), de Joachim Fest, Eva Braun exibia constrangedora ascendência sobre o homem mais amado e temido da Alemanha, refletindo em microcosmo um regime de extremo sadomasoquismo coletivo.

O poderoso ditador, que se recusava a ficar nu até para uma consulta médica, sentia-se vulnerável diante daquela tolinha que ele amava, e que sabia demais sobre sua intimidade, pelo que a jovem Braun era mantida escondida do público, excluída das recepções oficiais, constantemente vigiada e protegida, quer dizer, isolada, como uma refém, uma presidiária, do mundo exterior.

Por isso também a indiferença patológica de Eva Braun em relação ao sofrimento alheio, ao mundo à sua volta, ao seu próprio fim desgraçado. Depois de viver no luxo sórdido de um poder criminoso, esperando em vão por um sonho impossível, as últimas semanas no fétido Führerbunker de Berlim a fizeram quase feliz, ligada definitivamente ao seu dono, em franca degeneração física e mental: “Estou no lucro”, ela afirmou, ao se fechar naquela claustrofóbica antessala do inferno.

Ao se matar aos 33 anos de idade, após uma vida vazia, preenchida com fofocas palacianas e torpes fantasias românticas alimentadas pelo amado carniceiro, como bem retrata o Moloch (2000), de Aleksander Sokurov, Eva Braun não “assegurou para si um lugar na história, ainda que duvidoso”, como quer a autora, mas sim um não-lugar, incapaz de render uma biografia exclusiva, já que a quase totalidade das páginas de Eva Braun: a vida com Hitler não é dedicada a ela, mas ao ditador e ao seu círculo de assassinos de massa.

Luiz Nazario

Professor de História do Cinema da Escola de Belas Artes da UFMG, autor de Todos os corpos de Pasolini (Editora Perspectiva) e pesquisador bolsista de produtividade do CNPq com o projeto Cinema e Holocausto.

DE HEINRICH HEINE A GÜNTHER GRASS

6 out

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Terminei de ler O Rabi de Bacherach, de Heinrich Heine, um fragmento de romance cuja maior parte foi destruída ainda em manuscrito inacabado num incêndio trágico na casa do escritor. Ele dedicara décadas de pesquisas para escrever o romance, e já tinha escrito umas trezentas páginas, que desapareceram assim em minutos nas chamas. O que restou e foi refeito (o fragmento tem três capítulos e 100 páginas em tipo Palton corpo 13) não é, porém, grande coisa, embora apresentado na quarta-capa como “uma enciclopédia do destino judaico na sociedade feudal”.

Embora se pretenda, acima de tudo, uma denúncia do antissemitismo, o romance de Heine é eivado de personagens-clichês (o “judeu tolo”, o “judeu covarde”, a “bela judia”, a “judia maledicente”) e ainda afirma como “verdade histórica” uma barbaridade que não se sabe de onde Heine, judeu convertido ao catolicismo para poder seguir carreira acadêmica, possa ter tirado: “[...] todo o judeu pode fazer de uma moça judia sua esposa legal se conseguir enfiar-lhe um anel no dedo e ao mesmo tempo pronunciar as palavras: – Tomo-te por minha mulher segundo os costumes de Moisés e Israel.” (p. 19).

O posfácio de Günther Grass, “Como dizer aos nossos filhos”, em que tenta ao mesmo tempo esconjurar e assumir o passado nazista da Alemanha como uma herança a ser transmitida de maneira adequada, longe da negação e da banalização, começa bem, criticando as tentativas revisionistas do nazismo pela nova direita alemã diante da ascensão espantosa de Kurt Georg Kiesinger, membro do Partido Nazista de 1933 a 1945, que trabalhou desde 1940 na seção de radiodifusão política do Ministério das Relações Exteriores, em contato estreito com o Ministério da Propaganda, e que se tornou, em 1966, o chanceler da República Federal da Alemanha, cargo que manteve até 1969. Escreve Grass:

No final dos anos sessenta, depois dos últimos momentos da era Adenauer, com sua política interna restauradora, e da Guerra Fria, apresentou-se a oportunidade, pela primeira vez n República Federal da Alemanha, para uma permuta democrática de poder. Contudo, o governo de transição da Grande Coligação, formada por democrata-cristãos e socialdemocratas, na medida em que permitiu o definhamento da oposição parlamentar, converteu-se ao mesmo tempo no primeiro desafio para a autoconsciência democrática dos alemães-ocidentais, ainda não consolidada. À esquerda, originando-se do movimento dos protestos estudantis, formou-se uma “oposição extraparlamentar”; à direita, um partido neofacista, o NPD [Nationaldemokratische Partei Deutschlands], conseguiu rápida penetração, sobretudo porque o passado político do chanceler da Grande Coligação, Kurt Georg Kiesinger, enfraquecia os argumentos dos partidos do governo contra os neonazistas: membro por muitos anos do Partido Nacional-Socialista, Kiesinger desempenhara funções diretivas no Terceiro Reich, até o fim, sem se deixar abalar pelos crimes que lhe eram conhecidos. Seu posto como chanceler era um escárnio à resistência contra o nazismo. A avaliação política do seu passado colocava em xeque tudo aquilo que os alemães-ocidentais, por vinte anos alunos exemplares em matéria de democracia escolar, haviam adquirido: consciência da responsabilidade política, retorno ao direito liberal, não apenas um bom comportamento insípido, mas também vergonha advinda do conhecimento dos crimes alemães. E até quando o antigo emigrante Willy Brandt, até então caracterizado sub-repticiamente como herege, estava como vice-chanceler e ministro do Exterior ao lado do antigo nazista Kiesinger – mesmo este fato não conseguiu escamotear o compromisso podre. Sobretudo a geração do pós-guerra, cuja consciência se sensibilizara com os protestos contra a guerra do Vietnã, recusou a desacreditada “Liga da Conciliação”. Protestos de rua, porém, não abalaram o novo cartel de poder. Somente as eleições para o parlamento, marcadas para o outono de 1969, eram apropriadas para dissolver a Grande Coligação [...] Nessa campanha eleitoral para o parlamento [...] eu estive também envolvido de maneira decisiva, uma vez que organizara com amigos uma iniciativa socialdemocrata de eleitores no território da Alemanha Federal. Durante sete meses estive viajando. Na segunda-feira saía de meu domicílio em Berlim e voltava no fim de semana. Partindo e chegando, eu era confrontado com as perguntas dos meus filhos: O que você está fazendo lá? Para que você faz isso? Como assim, Kiesinger era nazista? Por que motivo Willy Brandt, quando moço, precisou sair da Alemanha? O que se passou exatamente com os judeus? E o que você fez na época? Pela primeira vez estive exposto à pergunta: Como explicar isso às crianças? Foi relativamente fácil esclarecer minha biografia, a de um membro da Juventude Hitlerista que no fim da guerra está com dezessete anos e numa última convocação vira soldado: eu era demasiado jovem para tornar-me culpado. Contudo, já a pergunta – Mas e se você fosse mais velho? – não permitiu uma resposta inequívoca. Eu não podia garantir por mim. (p. 132-134)

Mas o discurso de Grass, que começou assim tão bem, desvirtua-se no final, com o escritor criticando a série de TV Holocaust (Holocausto), exibida na Alemanha no final de janeiro de 1979, e que teve enorme repercussão, levando as novas gerações de alemães a um questionamento até então inédito do passado nazista de seus pais:

Quando meu livro ficou pronto [Os diários de um caracol], os meus filhos estavam todos mais velhos. Então eles poderiam ler. Mas não queriam mais velhas histórias. Só o presente contava. E um futuro revolucionário foi evocado. Os grandes saltos, que sempre terminam em retrocesso. Nesse meio tempo o passado já nos tinha (mais urna vez) alcançado. Horrorizados, sentam-se diante das telas das televisões familiares os filhos entrementes adultos, os filhos adolescentes, os pais transtornados de todas as maneiras, os avós ainda atônitos, e assistem à série Holocaust. De imediato, os pesquisadores de opinião arrolam as primeiras reações: confissões, espanto, atitudes defensivas, juramentos. Uns descobrem algum detalhe histórico falso e por isso tacham tudo de mentira, outros se mostram abalados, como se até esse momento jamais tivessem ouvido, visto ou lido nada semelhante. E então se diz: Nós não sabíamos disto! Isto nunca nos foi mostrado. Por que não nos contaram isso antes? Trinta e cinco anos depois de Auschwitz, os meios de comunicação de massa comemoram o seu triunfo. Só o resultado em larga escala é que conta, a elevada taxa de audiência. O que antes foi escrito, apresentado como documento, demonstrado em cuidadosas análises, e há trinta anos estava ao alcance de todos, não tem valor, era certamente demasiado complicado. Com a palavra de ordem “esclarecimento em massa” (o reflexo de “extermínio em massa”) toda crítica a essa série televisiva tão bem-sucedida quanto questionável é despachada. E os escritores – esses pássaros raros, efetivamente ameaçados de extinção, que (incorrigíveis em seu estilo antigo) querem exigir do indivíduo e da massa a leitura como atividade humana – esses são aconselhados com insistência a se desvencilharem de sua estética elitista, largarem mão de suas complicações e se consagrarem doravante ao esclarecimento em massa. A pergunta “Como dizer aos nossos filhos?” deve, sem limite algum, encontrar sua resposta (entre anúncios comerciais) tão-somente na televisão. É contra isso que se deve falar aqui. Em toda época, os êxitos do esclarecimento trivial sempre apresentaram resultados superficiais. Tão comprovadamente (através de pesquisas de opinião) como abalam e horrorizam a massa, provocam compaixão e vergonha – e este foi o resultado de Holocaust – tais êxitos não estão em condições de revelar a estratificação das responsabilidades, a complexa “modernidade” do genocídio. Em sua raiz, Auschwitz não é expressão da corriqueira bestialidade humana, mas sim o resultado repetível de uma responsabilidade organizada, ligada somente a imposições objetivas, que foi dividida até tomar-se irreconhecível e cristalizar-se como ausência de responsabilidade. Cada um dos que se envolveram ou não no crime atuou, com ou sem conhecimento de causa, a partir de seu estreito sentido do dever. Condenados foram apenas os executores concretos – chamem-se eles Kaduk ou Eichmann -, mas aqueles que, cônscios do dever, atenderam às suas mesas de trabalho ou todos aqueles que se fizeram de mudos, que não fizeram nada a favor e nada contra, que tinham conhecimento dos fatos e deixaram que acontecesse – estes não tiveram julgamento, não sujaram um dedo sequer. (p. 138-139).

Após o exorcismo dos meios de comunicação de massa como simplificadores, em nome da suposta complexidade das explicações do Holocausto pelos intelectuais, o discurso de Grass termina numa tentativa de encontrar novos culpados, aliviando um pouco os carrascos nazistas do peso de sua culpa, distribuindo-a mais equilibradamente por toda a sociedade e, sobretudo, descarregando boa parte de seu peso nas costas das Igrejas cristãs, omissas e colaboracionistas, embora os nazistas sempre tenham abominado conceitos cristãos como piedade e caridade. Grass culpa, assim, por Auschwitz, mais as Igrejas cristãs que os carrascos nazistas, ancorando-se na teoria da “banalidade do mal” de Hannah Arendt:

Até hoje a grave parcela de culpa das igrejas católica e protestante na Alemanha não foi avaliada. Contudo, a corresponsabilidade de ambas as igrejas por Auschwitz está comprovada pela aceitação passiva do crime. Referências atenuantes ao seu compromisso com a razão de Estado deixam ainda transparecer que a cristandade clericalmente organizada, enquanto ela própria não é atingida, refugia-se na irresponsabilidade, abstraindo da coragem de indivíduos que atuaram contrariamente às instruções de suas igrejas, e da confissão de culpa da Igreja Evangélica de Stuttgart, que permaneceu um caso isolado. Desde Auschwitz as instituições cristãs (pelo menos na Alemanha) perderam sua autoridade moral. As perseguições aos judeus na Idade Média – a descrição que Heinrich Heine faz da festa de Pessach em Bacherach – e o profundo ódio cristão aos judeus penetraram no moderno antissemitismo e se deformaram modernamente em irresponsabilidade passiva. Não foram bárbaros ou bestas em figura humana que deixaram o crime acontecer, mas sim os refinados representantes da religião do amor ao próximo: estes são mais responsáveis do que o executor junto à rampa, tenha ele se chamado Kaduk ou Eichmann. Também em Danzig os bispos de ambas as igrejas olharam impassíveis para o lado quando em novembro de 1938 as sinagogas em Langfuhr e Zoppot foram incendiadas e a mirrada comunidade sinagogal foi entregue ao terror do batalhão 96 da SA. Naquela época eu tinha onze anos e, apesar de membro da Juventude Hitlerista, era, no entanto, um fervoroso católico. Na Igreja Coração de Jesus, que ficava dez minutos a pé da sinagoga, jamais ouvi até guerra adentro qualquer oração em prol dos judeus perseguidos, mas matraqueei muitas orações que pediam pela vitória dos exércitos alemães e pelo bem-estar do Führer Adolf Hitler. Tanto quanto foi corajosa a resistência de cristãos isolados e grupos cristãos contra o nazismo, as igrejas católica e protestante converteram-se, na Alemanha, em cúmplices inativos. Isso as séries televisivas não tratam. A múltipla falência moral do Ocidente cristão também não se deixaria embrulhar numa ação eletrizante, comovente, que joga com o horror. Como dizer aos nossos filhos? Vejam os hipócritas. Desconfiem de seu sorriso brando. Temam sua bênção. Os fariseus bíblicos eram judeus, os atuais são cristãos. (p. 140-141).

Embora tudo isso pareça verdade, tudo isso também parece falso. A aparentemente lúcida e esclarecedora avaliação de Grass tornou-se obscura e perturbadora depois de sua recente confissão de que havia se alistado na SS antes do fim da guerra. Também ele havia escamoteado parte de seu passado, tendo sido, além de membro automático da Juventude Hitlerista e soldado convocado, também um jovem SS. Talvez não recebesse o Nobel se tivesse revelado antes esse grau a mais de envolvimento com o nazismo, que preferiu suprimir até então de sua biografia. Com isso cai por terra seu engajado discurso sobre os hipócritas de sorriso brando e sobre os novos fariseus da Alemanha. Ele não é menos fariseu que os alvos de sua crítica, e seu desprezo pelo seriado Holocaust e sua acusação aos cristãos em nome da modernidade podem ser agora lidos também como um eco de seu velho, renegado, mas mantido parcialmente escondido, entusiasmo pelo nazismo.

PENSADORAS DO SÉCULO XX

6 set

Hannah Arendt

 

 

Simone de Beauvoir

 

 

 

 

 

Susan Sontag

 

 

Ayn Rand

 

 

 

 

 

 

 

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