INCÊNDIO NA CINEMATECA BRASILEIRA

23 abr

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Com grande tristeza recebi o informe sobre o incêndio que ocorreu na madrugada do dia 03 de fevereiro de 2016 na chamada “Câmara 03”, um dos quatro depósitos de filmes em nitrato da Cinemateca Brasileira.

Consta do informe que o Corpo de Bombeiros foi acionado às 05h30 e que 12 bombeiros militares, mais a Brigada de Incêndio da Cinemateca, participaram do combate ao fogo, debelado em meia hora.

Foram destruídos 1.003 rolos referentes a 731 títulos de filmes nacionais, incluindo 23 rolos referentes a 21 títulos do precioso Acervo Igino Bonfioli, doados à Escola de Belas Artes da UFMG pela família do pioneiro cineasta e que há décadas estavam depositados na Cinemateca Brasileira para sua melhor conservação e preservação.

Apurou-se que o incêndio teve origem na autocombustão de um rolo de nitrato de celulose, cuja queima não pode ser parada por qualquer meio, levando à destruição total do objeto.

A Secretaria do Audiovisual e a Cinemateca Brasileira consideraram que, embora os nitratos estivessem adequadamente guardados, o incêndio foi “caso de força maior”, um “fato natural” devido à composição do material, que o sujeita à autocombustão.

As duas instituições parecem ter descartado um possível incêndio criminoso e uma eventual guarda inadequada dessas matrizes, partes da memória visual do Brasil, que se perderam nas chamas para sempre.

A Secretaria do Audiovisual e a Cinemateca Brasileira lamentaram imensamente a perda dos nitratos e se mostraram dispostas a esclarecer o que fosse necessário.

Cordialmente assinaram o informe Paulo Roberto Ribeiro, Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, e Olga Futemma, Coordenadora-Geral da Cinemateca Brasileira.

10 Respostas to “INCÊNDIO NA CINEMATECA BRASILEIRA”

  1. Alberto Kremnitzer 23/04/2016 às 06:38 #

    Além de tomar todas as medidas de segurança, nunca se pensou em fazer cópia de backup em *.mp3, *.mp4 ou similar de todas as peças do acervo? É inviável tecnicamente? O custo é demasiadamente alto ou é falta de um projeto moderno de preservação da memória?

    • Luiz Nazario 23/04/2016 às 11:26 #

      Ainda não sabemos se cópias de segurança foram feitas. É obrigação das cinematecas copiar seus nitratos para um suporte em acetato, mantendo as matrizes apenas caso sejam necessárias novas cópias, no caso de desgaste ou destruição destas. Mas fazer cópia de tudo num acervo de milhares de filmes é quase impossível, sobretudo num país que não valoriza a cultura, então as cinematecas são obrigadas a fazer escolhas. Nem tudo é copiado. Mesmo a digitalização é cara e trabalhosa. Essa tragédia ainda não foi totalmente esclarecida. Mas este é apenas o quarto incêndio da Cinemateca Brasileira, que já perdeu mais de um terço de seu acervo nessas ocorrências. Outros virão, com certeza.

  2. Camila Silva 23/04/2016 às 13:44 #

    Infelizmente o descaso torna essas situações comuns, ainda que não devessem ser. A falta de planejamento e de interesse dos órgãos superiores, que não se preocupam com as condições de trabalho e dificuldades passadas pelos funcionários de nossas instituições de preservação não podem ser denominadas “caso de força maior” ou “acidente”. Estas situações acontecem quando não é possível evitá-las através de um planejamento estratégico, viabilizando ações para que cubram as áreas de maior necessidade e visualizem todos os cenários possíveis para que não haja problemas não previstos. O que aparentemente nossos gestores públicos não fazem, já que, se fizessem, não haveria tantas ocorrências desse tipo. Sobre a situação de perigo eminente na Cinemateca, recupero duas notícias publicadas:

    http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/05/1634867-em-crise-cinemateca-perde-50-dos-funcionarios.shtml

    http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,ministerio-da-cultura-nao-tem-plano-para-evitar-novos-incendios-na-cinemateca-brasileira,10000014848

    Ou seja, não foi um “caso de força maior”.

    • Luiz Nazario 23/04/2016 às 15:53 #

      Tem razão, Camila, a situação dos acervos audiovisuais no Brasil beira a calamidade pública. Há não muito tempo tivemos o caso escandaloso da Cinemateca do MAM, reportado aqui por Rafael de Luna Freire: http://preservacaoaudiovisual.blogspot.com.br/2012/06/subsidios-para-uma-historia-recente-da.html.

      • Camila Silva 23/04/2016 às 16:48 #

        Nazario, acompanhei esse caso da Cinemateca do MAM por alto. Outro perigo, dentre as coisas que o Rafael de Luna citou na postagem dele, é a terceirização da guarda. Fui visitar duas empresas de guarda terceirizada durante minhas andanças pelas instituições públicas e fiquei escandalizada com erros banais que os funcionários e gestores delas cometem comprometendo a segurança pessoal e dos documentos sob sua guarda: o absurdo ia de latas de refrigerantes espalhadas pelos depósitos até buracos na estrutura que poderiam ocasionar a queda de funcionários durante o expediente. Na outra, o gerente não sabia que não pode limpar os depósitos com água sanitária e que não se deve passar pano molhado nas caixas! Depois disso não confio em guarda terceirizada, comum nas instituições públicas e privadas com as quais tive contato, principalmente na fase intermediária (antes de ir para a guarda permanente em arquivo público, museu etc.). Essas situações demonstram despreparo das pessoas que não trabalham diretamente com a preservação de documentos, especialmente sobre o material com o qual lidamos: desconhecem sua importância e as medidas mais básicas para sua preservação.

  3. Luiz Nazario 23/04/2016 às 18:54 #

    De fato, Camila, o despreparo é tremendo, em todos os níveis. E, além do descaso da sociedade, ainda contamos com o clima de nosso país, quente e úmido, maravilhoso para a maioria da população, mas péssimo para a conservação. Quando compro livros em antiquários, espanto-me com o estado perfeito dos livros antigos dos europeus, enquanto os dos nossos chegam sempre amarelados, sujos, com buracos de traças… Fiz uma visita à Cinemateca do MAM à época do escândalo, e fui guiado pelo Hernani Heffner. O MAM, como sabe, fica em frente ao mar, um lugar lindo, mas estratégico para acumular humidade e salinidade, sem mencionar o calor…

    • Camila Silva 23/04/2016 às 19:05 #

      Sim, a questão do clima sempre foi um complicador para papel, que dirá para película! Os padrões de temperatura e umidade estabelecidos na Europa não podem ser implementados aqui diretamente, têm que ser adaptados e não existem muitos estudos publicados sobre isso.

      • Luiz Nazario 23/04/2016 às 19:10 #

        Estamos muito atrasados nessa área. Não há cursos de conservação e restauração de filmes em nossas universidades, há apenas uma disciplina ministrada no Rio pelo Hernani Heffner.

      • Camila Silva 23/04/2016 às 19:21 #

        Acho que José Ricardo também dá uma (optativa?) na UNA. O pessoal do MIS comentou que ele levava alunos dele lá à noite para fazer a oficina de preservação de filmes que eu fiz.

        Na ECI também há uma disciplina de preservação de acervo, mas é muito básica e dificilmente aborda os acervos fílmicos. Na minha turma, abordamos porque era o Alessandro Costa (seu ex-orientando) quem a lecionou para minha turma e meu grupo ficou responsável pelo seminário sobre acervos audiovisuais. Mas foi uma aula teórica, o seminário sobre isso se limitou-se a 4h e a disciplina a 30h.

        Precisamos de disciplinas práticas e teóricas na UFMG sobre isso.

  4. Luiz Nazario 23/04/2016 às 20:11 #

    Sem dúvida, eu também já ministrei, há uns dez anos, uma disciplina teórica, em forma de seminário, com convidados externos, na Pós-graduação, “Cinema de Arquivo”. Mas o ideal é termos um curso de especialização em restauração de suportes audiovisuais.

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