AS JÉSSICAS NO PODER

2 abr

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Foi pelos idos de 1990 que, após três anos de trabalho como crítico de cinema freelance na IstoÉ, a convite de Geraldo Mayrinck, fui sumariamente “demitido” sem justa causa. Querendo agradar Roberto Muylaert, então Presidente da Fundação Padre Anchieta, os donos da publicação pediram ao editor, Humberto Werneck, que dispensasse meus serviços para presentearem, com o posto liberado, a filhota daquele pistolão.

A jovenzinha estudara cinema na USP, mas nunca publicara nada na vida. Havia trancado a faculdade para morar em Paris, onde passou seis meses, “patrocinada pela família”. Viu ali muitos filmes, fez listas e anotações em busca “de um projeto ou de um discurso cinematográfico”. Ainda meio perdida, deve ter acabado por encontrar o que queria, pois voltou, dirigiu alguns curtas-metragens e se formou na ECA.

A colocação de crítica de cinema na IstoÉ não deve ter servido muito para dar-lhe maior visibilidade. A suposta nova voz da crítica paulista não tinha real interesse por essa atividade, e não permaneceu por muito tempo na revista, logo abandonando sua breve “carreira” jornalística para assumir sua verdadeira vocação de roteirista e cineasta.

A filha afortunada do Presidente da Fundação Padre Anchieta encontrou realmente seu destino ao trabalhar escrevendo e dirigindo programas especiais na própria TV Cultura dirigida pela Fundação presidida por seu pai. Não demorou tanto para se tornar, graças a essas experiências privilegiadas, a premiada cineasta Anna Muylaert.

Recordo essa historieta edificante porque ela me permite entender melhor o atual engajamento político da cineasta em defesa da permanência de Dilma Rousseff no poder, em ato de solidariedade que reuniu artistas e intelectuais governistas e no qual, entregando o manifesto do grupo à Presidenta, lançou uma profecia misteriosa:

O mérito da Jéssica não é seu, e sim de Lula e Dilma, que permitiram que as Jéssicas existissem. No futuro, haverá uma Jéssica presidenta e o seu coração estará cheio de gratidão a Dilma. As Jéssicas vão tomar o poder.

Trata-se de um emotivo encorajamento à Presidenta mais incompetente e impopular da História do Brasil e também de uma inteligente jogada de marketing para promover Que horas ela volta?, o trabalho mais recente da cineasta Muylaert. Pois a citada “Jéssica” é uma das personagens desse filme, estrelado por  Regina Casé.

A atriz, que Rubem Biáfora classificaria em dia generoso como “cascuda”, interpreta Val, a nordestina que trabalha em São Paulo como doméstica para uma família de classe média, e cuja filha, a tal Jéssica, vem de Pernambuco prestar o vestibular. Pelo que li sobre o filme, a tensão que se estabelece entre os personagens é aliviada por um final feliz: Jéssica passa no concorrido curso de Arquitetura da USP.

A cineasta definiu esse final como “utópico” em coletivas no exterior, mas essa utopia parece ter se tornado magicamente a “realidade brasileira” que constatou algumas semanas depois, nas turnês que fez com o filme pelas universidades do país.

A Muylaert percebeu de súbito que, revolucionadas pelos “programas sociais” do governo, as universidades públicas haviam gerado um grande número de Jessicas. Por isso, ao agradecer o prêmio Faz Diferença / Cinema dos jornalistas de O Globo, a cineasta foi furiosamente aplaudida ao declarar:

Quero dedicar esse prêmio às Jéssicas que estão hoje na universidade e a duas pessoas que eu acredito que têm muito a ver com isso. Eu entendo essas pessoas como o pai e a mãe das Jéssicas. Não no filme, mas na vida real, que são o ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff.

A Muylaert e seus  fãs não acreditam em conquistas por mérito próprio, eles desdenham do que chamam de meritocracia. Sua própria trajetória convenceu a cineasta de que toda Jéssica pode ser alçada sem prévias publicações ao posto de crítica numa revista nacional, assim como ao de roteirista numa TV do governo. Basta ter um pai poderoso.

No sistema defendido pela Muylaert, com base em certo modus operandi, a ascensão ocorre “naturalmente” pelo efeito das boas influências. Por isso “o mérito da Jéssica não é seu”, um oximoro inquietante, pois anula o esforço pessoal e o atribui a terceiros poderosos, que encaminham e elevam as Jéssicas sem controle ou consciência do processo.

As Jéssicas que ascendem à classe média por meio de bolsas, sem esforço, ou à universidade através de cotas, sem mérito, seguem o velho modelo populista brasileiro, no qual filhinhos de papai tudo conseguem por indicação. O slogan “As Jéssicas vão tomar o poder” resume o sentido dos “programas sociais”: uma carteirada aplicada em massa.

Os menos privilegiados agora dispõem do seu “Você-sabe-com-quem-está-falando?” simbólico: o cartão do beneficiário das “políticas públicas” do governo populista, brandido por todo empoderado filhinho de pai Lula ou mãe Dilma, como garantia de seu “direito” de furar as filas da História e receber benefícios imediatos.

Nesse sistema de favores, a vitória não pertence ao vencedor: todo bem adquirido deixa de ser do seu dono, que só o conseguiu no tapetão, pelas mãos do generoso pai e da generosa mãe dos pobres. Um dia, é claro, os beneficiários serão cobrados por esses favores, porque é dando benefícios que se recebem votos e apoios.

Não se trata da gratidão sempre devida ao mestre que ensina o aprendiz a pescar o peixe – uma gratidão cada vez mais rara no Brasil. Trata-se da anulação da individualidade e de seu projeto de liberdade pela adulação do poder por “beneficiários” que comem da mão dos governantes, uma exaltação da coletividade e de seu projeto de submissão.

Nessa corrupta visão de mundo, não é preciso se esforçar para vencer, basta adular painho e mãeinha e manter-se ao lado deles, apoiando-os para ser por eles apoiado. É a ética do Macunaíma, herói brasileiro sem caráter; do poeta vendido de Pasárgada, que canta: “Lá sou amigo do rei, lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.”

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