O CINEMA SEGUNDO RONALDO BRANDÃO

3 mar

INDISCRETION OF AN AMERICAN WIFE, (aka STAZIONE TERMINI), Jennifer Jones, 1953.

Hoje perdemos o crítico de cinema Ronaldo Brandão.

Tive um encontro memorável com Brandão no dia 15 de setembro de 2004, no café da Livraria Travessa. Ele estava acompanhado do jovem pintor e cenógrafo Eli. Foi quando me contou ter conhecido a reclusa diva do cinema mudo Brigitte Helm, estrela de Metropolis (Metropolis, 1927), de Fritz Lang.

Tendo abandonado o cinema em 1935 ao casar-se com um milionário suíço, Brigitte Helm estava hospedada no Hotel Del Rey, em Belo Horizonte, acompanhando o marido, industrial da Mannesman, numa viagem de negócios. Brandão soube disso ao ler uma nota no jornal e correu até o hotel para ver a estrela. Já com seus 60 anos e ainda bela, Brigitte Helm o recebeu com simpatia.

Também me contou uma deliciosa indiscrição: a de que havia namorado John Schlesinger, quando o então jovem cineasta inglês fazia um tour pelo Brasil a convite do British Council. “Sim”, Brandão me assegurou, “é verdade, o John Schlesingere me comeu e depois seguiu para Hollywood, onde rodou Midnight Cowboy [Perdidos na noite, 1969]”.

Erguendo-se da cadeira em súbitos enlevos, lançando a torto e a direito sensacionais caras e bocas, Ronaldo Brandão vibrava ao se lembrar de mil filmes maravilhosos que vira, incluindo a filmografia completa de Jennifer Jones, a diva de sua predileção.

Contou-me que Rudá de Andrade, que foi assistente de Vittorio De Sica em Stazione Termine (Quando a mulher erra, 1953), testemunhou uma Jennifer Jones apaixonada pelo galã do filme, Montgomery Clift. Mas ao saber que ele era homossexual, jogou na privada, em acesso de raiva, a estola que sua personagem usava. Como a produção não achou outra igual, a pele foi secada com secador de cabelo e a estrela teve de continuar a usá-la…

Ronaldo Brandão lera vários livros sobre Jennifer Jones e me revelou que o  modelo cinematográfico da sua diva, segundo ela mesma confessara, era a grande Silvia Sidney. Mas Brandão deixou claro não gostar de Elizabeth Taylor, que só desculpava em Cat on a Hot Tin Roof (Gata em teto de zinco quente, 1958), de Richard Brooks.

Para encerrar com chave de ouro essa noitada prateada pelas lembranças daquele cinema de estrelas que amávamos, Ronaldo Brandão recitou-me uma frase magnífica, que merece ficar registrada entre as melhores definições da sétima arte:

O cinema é a verdade 24 quadros por segundo (Jean-Luc Godard). O cinema é um sonho que sonhamos todos juntos (Jean Cocteau). Vocês são lindos, ricos e felizes? Pois vão embora daqui! O cinema é para quem não tem NADA! (Ronaldo Brandão).

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