DAVID BOWIE

14 jan

David Bowie. (7)

Não me canso de ouvir os primeiros álbuns de David Bowie, sobretudo aqueles hinos do glam rock retrabalhados em Velvet Goldmine (1998), de Todd Haynes. Este filme tem a mesma percepção do músico que sempre tive: um cometa que levou o glam rock à glória e depois o abandonou inexplicavelmente, apagando-se numa morte lenta.

Bowie podia então se travestir e ter amantes dos dois sexos, fazer declarações chocantes, politicamente incorretas, que ninguém ousava depreciá-lo. Ele era protegido por uma aura de beleza: qualquer outra pessoa que ousasse ser como ele viraria um objeto de escárnio.

Mas em Bowie os trajes de palhaço, de odalisca, de marciano, só o tornavam mais majestoso. Seu porte era o de um príncipe, ele pairava acima dos pobres mortais, o ridículo não podia atingi-lo. Nas últimas décadas, porém, ele aposentou suas ousadias, e assumiu uma aparência de executivo fashion, compondo músicas deprimentes, mórbidas.

O sol negro sempre esteve presente em suas músicas, espreitando seus personagens sofredores, mas havia sempre também um aceno de esperança no final da agonia, como em Rock ‘n’ Roll Suicide, uma de minhas canções prediletas de Bowie.

No documentário Tally Brown – New York (1979), Rosa von Praunheim registrou, entre outras, essa performance da extraordinária Tally Brown, cantora underground e superstar verdadeiramente freak, admirada por  Andy Warhol, que desfilava seu sofisticado repertório por saunas gays e bares decadentes. Com sua voz poderosa, essa diva marginal interpretou como ninguém o Rock ‘n’ Roll Suicide de Bowie:

Outra de minhas preferidas, The Man Who Sold the World, teve a melhor de todas as performances executada ao vivo num concerto acolhedor da MTV Unplugged, por um autêntico suicida do rock: o belo e infeliz Kurt Cobain:

Uma das grandes performances de David Bowie, para mim, é esta aqui: ei-lo interpretando com raiva contida e verdadeira melancolia Five Years, essa dilacerante canção de amor desiludido –  a música, o cinema e o mundo acabaram de certa forma nos anos 1970:

Já o último álbum, Blackstar, e o musical Lazarus, que Bowie preparava com o diretor de teatro Ivo van Hove, mergulham-nos no fundo do poço, sem acenos de esperança. Os clipes são sinistros. Bowie esforçou-se para terminar os dois projetos antes de morrer, mas já tinha perdido o rumo, há décadas não era mais aquela estrela cintilante. Paga-se um preço pela traição dos ideais.

Bowie lançou Blackstar no dia 8 de janeiro ao completar 69 anos. Nesse dia Jimmy King postou no Instagram uma foto que tirou de Bowie de chapéu, sapato sem meia, soltando uma gargalhada na rua: foi seu adeus ao mundo. Wendy Leigh, biógrafa de Bowie, revelou que, além do câncer no fígado, ele teve seis ataques cardía­cos nos últimos anos.

Quando ouvimos uma boa música não sabemos bem quando foi composta. Como os desenhos animados que nos encantam, as canções mais perfeitas são atemporais, elas conseguem atravessar as gerações sem acumular poeira alguma.

Os primeiros álbuns de Bowie continuam soando modernos. Eu os considero mais atuais que os seus últimos, que já nasceram mofados. Foi graças aos seus antigos hits que ele continuou conquistando adeptos na jovem geração.

Logo após sua morte, um grupo de astrônomos belgas batizou uma constelação de sete estrelas em forma de raio com o nome de David Bowie.  E as manifestações de admiração no meio artístico que seu fim produziu nas redes sociais beiraram o endeusamento:

Elijah Wood: – Nunca imaginei um mundo sem ele. Ele ascendeu ao Cosmos de onde veio.

Kanye West: – David Bowie era uma das inspirações mais importantes; tão destemido, tão criativo, ele nos deu mágica para uma vida toda.

Kat Dennings: – Esse homem moldou meu coração e minha alma. NUNCA terá outro como ele nesse planeta estúpido […]. David Bowie foi meu norte musical minha vida inteira. […] Ele NUNCA será substituído, nunca.

Joe Manganiello: – As pessoas sempre me perguntavam com qual ator eu mais queria trabalhar, eu sempre dizia que com o David Bowie. Triste que nunca terei a chance. Eu toquei Outside no repeat por anos. Nunca saiu do meu toca-discos. Eu me lembro de implorar para a minha mãe me levar para ver os fantoches de Labirinto quando criança no museu de Pittsburgh.

Pude ver David Bowie ao vivo num show em São Paulo, com Elaine Mansano​ e Carlos Conti, no dia 23 de setembro de 1990, no Estádio do Palmeiras. Lembro que chuviscava, mas foi um show tranquilo, sem as luzes histéricas e os efeitos estrambóticos dos atuais concertos de rock, acachapantes e ensurdecedores.

Demoramos a sair do lotado Estádio do Palmeiras, as ruas estavam tomadas pelos remanescentes do show à procura de seus automóveis, que logo bloqueariam todas as vias. Em toda minha vida só fiz uma única vez esse sacrifício, de ir a um estádio de futebol, por David Bowie. Lembro-me disso e fico triste pelo mundo que se acabou.

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