APENAS UM LIVRO

6 set

Storm Center

Produzido pela Columbia, com créditos iniciais de Saul Bass, Storm Center (Ao despertar da tormenta, 1956) foi o único filme dirigido por Daniel Taradash, roteirista de clássicos como Rancho Notorious (1952), Don’t Bother to Knock (1952), From Here to Eternity (1953) e Picnic (1955).

Considero Storm Center um dos filmes mais impactantes sobre a formação de comunidades moralmente linchadoras, alimentadas pela crença irracional largamente compartilhada numa ideologia “incontestável”.

Toda ideologia cobra sacrifícios periódicos de bodes expiatórios. Esses sacrifícios garantem a manutenção de seus dogmas, geradores dos padrões de comportamento. Trata-se, aqui, da ideologia anticomunista. Mas poderia ser um filme sobre qualquer outra ideologia que tenda ao totalitarismo.

A impecável bibliotecária Alicia Hull (Bette Davis) dirige, com extrema correção, paixão pelos livros e devoção aos seus jovens leitores, a idílica biblioteca pública de uma cidadezinha americana, um pequeno paraíso onde tudo é organizado com amor, num prédio acolhedor, recoberto de heras.

Alicia tem o sonho de construir ali uma seção infantil para introduzir as crianças ao mundo dos livros. Um de seus protegidos é Freddie (Kevin Coughlin), filho perturbado de um casal disfuncional, que vive mergulhado nos livros, a ponto de confundir a realidade à sua volta com a ficção do Wonder Book que devora.

Em plena Guerra Fria, um livro de propaganda comunista intitulado The Communist Dream (O sonho comunista) torna-se objeto da ira de grupos anticomunistas, que enviam cartas de protesto ao Conselho Municipal que rege a biblioteca, solicitando providências contra  o “perigo vermelho”. O Juiz Ellerbe (Paul Kelly) pede à sua amiga bibliotecária o empréstimo do livro para exame.

Após a leitura do livro, os conselheiros solicitam a Alicia que retire The Communist Dream do catálogo da biblioteca e atire aquele exemplar ao lixo. Chocada, a bibliotecária diz que nunca havia sido antes pressionada para remover um livro e que iria pensar numa maneira mais adequada de descarte.

Depois de aparentemente ceder à pressão do Conselho, que a chantageou com a aprovação do seu acalentado projeto de seção infantil, a bibliotecária passa a noite em claro, remoendo sua consciência. Decide, na manhã seguinte, reconduzir o livro ao mesmo lugar que ele antes ocupava na estante.

Ao saber que The Communist Dream não fora removido, o Conselho Municipal convoca novamente a bibliotecária para apurar suas razões. Considerando a remoção de “apenas um livro” por razões políticas uma questão de princípio, intransigível, ela observa que embora o livro não a agradasse, havia toda uma seção de política na biblioteca que poderia ser questionada, e que até o repugnante Mein Kampf de Hitler deveria ser lido, pois não se combate uma ideologia ignorando-a.

Alicia invoca Thomas Jefferson e mostra-se inflexível: “Os senhores têm o poder de remover o livro, e o poder de me remover do cargo, e deverão exercer os dois poderes para obter o que desejam”. Era o que Paul Duncan (Brian Keith) desejava. Membro do conselho com ambições políticas, namorado da bibliotecária assistente, Martha Lockeridge (Kim Hunter), ele manipula a reunião e apresenta Alicia como velha comunista.

Com a ingênua colaboração de Martha, que passou ao namorado informações confidenciais, Paul preparara um dossiê sobre antigos apoios de Alicia a organizações comunistas. Interrogando a incauta bibliotecária sobre doações àquelas organizações suspeitas, Paul a coloca contra a parede e consegue atemorizar os outros membros do Conselho, que votam unânimes pela demissão daquela “subversiva”.

A demissão de Alicia repercute. Os cidadãos que antes a tinham em alta conta passam a evitá-la, olhando-a de soslaio ou encarando-a com carrancas acusadoras, cheias de ódio e rancor. Ela não pode mais frequentar lugares públicos e mesmo as crianças, razão de ser de sua vida, passam a evitá-la como a própria peste.

Especialmente o perturbado Freddie, que Alicia tratava como um filho, emprestando a ele livros de sua biblioteca pessoal para o desgosto do pai inculto, revolta-se contra ela, atormentado por conversas adultas que não é capaz de entender. Alicia passa a encarnar a seus olhos uma espécie de monstro.

O Juiz Ellerbe (Paul Kelly) percebe, tardiamente, o mal terrível que fez àquela que o considerava um amigo e para reparar a injustiça feita à bibliotecária, que se preparava para deixar a cidade, convida-a para participar de uma festa na praça principal onde todos celebram o aniversário de sua bela biblioteca pública.

Durante a cerimônia, o menino Freddie é convidado a ler os títulos dos dez melhores livros infantis votados pelos leitores. Mas quando ele vê Alicia entrar na praça, fica paralisado. O mal-estar é geral. Ninguém ali deseja a presença da “comunista”. O Juiz Ellerbe insiste, porém, e concede a Alicia, autora do projeto, a honra de dar a primeira escavada no local da futura seção infantil a ser ali construída.

Alicia percebe que Freddie continua aterrorizado e o chama para que ajude sua “velha amiga” com a pá. Nesse momento, Freddie é acometido por um ataque de histeria e grita na cara dela: “Você é uma comunista, comunista, comunista…” Perdendo o controle, Alicia o esbofeteia sem dó diante de toda a cidade.

Enlouquecido, o menino foge de casa e, à noite, coloca fogo na biblioteca. Numa sequência que lembra as fogueiras da Santa Inquisição e os autos-da-fé nazistas e antecipa os incêndios do futurista Farenheit 451, vemos queimar diante de nossos olhos alguns dos livros imortais dos maiores autores da humanidade.

Diante da tragédia, os cidadãos arrependem-se de seus atos, assumindo a culpa de tudo. Mas Alicia, desistindo de deixar a cidade, diz que a culpa também é dela, pois não resistiu o bastante às pressões e injúrias e que não iria desistir agora de ajudar a construir uma nova biblioteca.

Storm Center é um clássico esquecido, um belo e raro filme de tese sobre a liberdade de expressão produzido em plena Guerra Fria. A cena em que Bette Davis estapeia Kevin Coughlin é antológica: ninguém estapeou tão bem no cinema um garoto histérico. É chocante e convincente. E a sucessão de eventos gerada pela proibição de um livro é tão bem construída que adquire uma dimensão apocalíptica.

Apesar de desprezado pela crítica e somente agora lançado em DVD nos EUA, o filme revela-se atual como nunca nesse admirável mundo novo dominado pelos “padrões de comunidade Facebook”, onde os livros tornaram-se descartáveis e as redes sociais alimentam ferozmente a mentalidade de caça às bruxas.

Saul Bass title sequence: https://www.youtube.com/watch?v=IzLJowl7-t4

Just one book: https://www.youtube.com/watch?v=Gst7BKUbObY

2 Respostas to “APENAS UM LIVRO”

  1. Valter José Maria Filho 07/09/2015 às 09:01 #

    muito bom

    Date: Mon, 7 Sep 2015 00:34:10 +0000 To: valterjose@hotmail.com

  2. Luiz Nazario 24/09/2015 às 14:41 #

    Republicou isso em CINEMA E HISTÓRIA.

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