BLOQUEADO PELO FACEBOOK

30 ago

Já fui três vezes bloqueado pelo Facebook.

Da primeira vez, por ter postado para os meus Amigos um vídeo caseiro que fiz de uma lua que se via excepcionalmente bela no céu, certa noite de verão. O bloqueio deu-se por conta de uma música de Lou Reed que usei para realçar as imagens. Configurou-se, nessa brincadeira que fiz exclusivamente para a curtição dos Amigos, uma grave “violação dos direitos autorais”…

Da segunda vez, fui bloqueado por supostamente “violar os padrões da comunidade” ao postar um still já icônico da primeira sequência do filme Flesh (1968), de Paul Morrissey, um clássico do underground americano. A imagem de Joe Dalessandro dormindo nu foi chocante demais para o vigilante moral camuflado de Amigo que, bisbilhotando minha timeline, ficou horrorizado com a visão da beleza do corpo humano e acionou o botão “denunciar”. A equipe do Facebook, que deve ignorar a história cinema do cinema, prontamente acolheu a denúncia e censurou a foto, punindo-me com 24 horas de silêncio.

Joe Dalessandro, em 'Flesh' (1968). A

A terceira vez deu-se pela denúncia de algum fascista contra uma nota em que resumia minha complexa visão sobre a cultura indígena, inspirada pelos tratados de antropologia de Mauss, Frazer, Malinowski, Moscovici e Caillois, base da minha contestação da tese da sociedade indígena como “sociedade sem Estado” dos Clastres, que publiquei em Sexo (Brasiliense, 1986), e por “Fascinante fascismo”, de Susan Sontag, ensaio seminal que iluminou minha tese Imaginários de destruição: o papel da imagem na preparação do Holocausto (USP, 1994).

A nota bloqueada era uma reflexão sobre a polêmica sobre o infanticídio entre os índios brasileiros. A esquerda, defensora das tradições indígenas, mostra-se hostil ao tema, caro aos grupos cristãos. A discussão é complexa, mas não pode ser objeto de controvérsias maniqueístas, como quer aqueles “civilizados” que, em nome de uma ideologia coletivista, colocam, em relação aos índios, o poder do grupo acima do direito à vida, como se os Direitos Humanos não se aplicassem aos índios.

A impressionante história verdadeira de como um menino índio salvou sozinho, contra toda a tribo, a irmã menor, condenada a ser enterrada viva por ser doente, é contada no emocionante curta-metragem Hakani, uma menina chamada sorriso, de David Cunningham, narrado por Irene Ravache e interpretado por indígenas de várias tribos do Brasil, que preferiram falar em suas línguas nativas. O fato de ser uma produção de missionários americanos não tira em nada o valor de sua denúncia.

Sandra Terena, uma das raras jornalistas índias no Brasil, também quebrou o tabu e entrevistou índios assimilados que fazem uma arguta crítica aos antropólogos, que reforçam certas práticas tradicionais da cultura indígena, já superadas por aqueles, que puderam ter acesso a uma educação formal, adquirindo autonomia em relação ao “pensamento selvagem” da tribo, dominada pela sabedoria incontestável do pajé, revisando criticamente sua cultura, para reinseri-la no tempo histórico, como algo de vivo e em evolução.

Cabe uma reflexão sobre os “padrões da comunidade” do Facebook. Quem estabelece esses padrões? A comunidade. Ou seja, se vivemos numa sociedade cristã, muçulmana, comunista ou fascista, toda publicação que ofenda a moral cristã, muçulmana, comunista ou fascista pode ser bloqueada, bastando a denúncia anônima de um militante raivoso da moral dominante. Nenhum pensamento herético será permitido. A verdade não poderá mais competir com o dogma. Nenhum desvio da Norma há de ser tolerado.

Qualquer pensamento que não se conforme à visão de mundo estabelecida será taxado de “discurso de ódio” pelos novos patrulheiros da moral estabelecida e, logo, como uma ameaça à “segurança da rede”. Esse sistema totalitário, que lembra o discurso da ditadura militar, opera um dumbing down das sociedades em que foi estabelecido: o ideal Facebook revela ser o eterno compartilhamento exclusivo de receitas de bolos e poemas de Camões.

Os “padrões da comunidade” mencionam as punições adotadas (de 24 horas de bloqueio à retirada do perfil) em caso de “discursos de ódio que incitam ao crime, ofensas pessoais e ataques aos grupos protegidos da sociedade”. Como eu acreditava na objetividade desses padrões, certa vez acionei o botão de denúncia contra uma página racista de neonazistas e obtive como resposta da equipe brasileira do Facebook que aquela página de ódio exprimia apenas uma opinião, e que não violava os “padrões da comunidade”.

Bloqueando uma reflexão sobre o totalitarismo sem ódio nem ofensa pessoal, o Facebook acolhe todas as ofensas pessoais e calúnias a “inimigos”, sejam petistas (os “petralhas”) ou não-petistas (os “coxinhas”), homossexuais (os “gayzistas”), feministas (as “feminazis”), judeus (os “sionistas”), etc. São dois pesos e duas medidas. Seria interessante abrir essa caixa preta montada pela equipe brasileira do Facebook que, secretamente, sem transparência, libera, ao contrário do que fixam suas regras, todo discurso de ódio.

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