A MÁQUINA DE CULPAR

5 maio
Imagem 3D de Antonio Cavalcante inspirada no conto

Imagem 3D de Antonio Cavalcante inspirada no conto “Na colônia penal”, de Franz Kafka.

A MÁQUINA DE CULPAR

Das páginas dos meus Diários

São Paulo, 1994

O sentimento de culpa diante do pobre povo sofredor continua a devorar o intelectual populista, que, para punir-se de seus privilégios, escolhe, como os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Florestan Fernandes, o caminho da participação no poder. Assumindo cargos no Estado, ao invés de elaborar livremente um caráter que o comprometeria na sua situação de intelectual, ele rejeita a própria liberdade, esvaziando sua situação de qualquer caráter político.

Este intelectual não encontra dimensão política em sua situação e decide, para atuar politicamente, suicidar-se como intelectual, escapando de sua condição pelo ingresso num partido.

O partido, instituição sem caráter é a instituição preferida pelos homens que descaracterizam suas situações particulares. Submissos aos preceitos do Estado, às regras do sistema parlamentar, à estrutura fixa e particular das eleições periódicas, aos protocolos, às formalidades, às burocracias, ao programa do partido, à sua hierarquia e à sua organização, os intelectuais descaracterizados e partidarizados passam a separar todas as coisas de seu caráter circunstancial.

Essa divisão, primeiro, e, depois, a repressão que movem contra esse caráter resultam na necessidade de compensação que só o partido pode oferecer, pela concentração da política em seus limites, concentração obtida com o esvaziamento prévio dos limites políticos das coisas.

Descaracterizadas, as coisas serão analisadas pelo partido de um ângulo estritamente político-partidário. Daí o recurso à propaganda, aos esquemas, às análises congeladas de conjuntura, às palavras de ordem, aos chavões e aos espantalhos.

Dedicando-se, movidos pela culpa de seus privilégios, a combater a miséria, os intelectuais populistas passam a amar os miseráveis em sua própria miséria, saboreando a sujeira, respirando com delícia o suor gorduroso do “homem do povo”. A pobreza é santificada, a feiura celebrada, a miséria glorificada. “O homem do boteco é quem sabe das coisas”, escreveu a filósofa Marilena Chauí num de seus livros profundos.

Na campanha eleitoral de 1978, um cartaz da oposição mostrava dois pés descalços, velhos, sujos, rachados, como que necrosados: o candidato combatia a condição da existência destes pés mas, em dado momentos, esses pés tornavam-se, eles próprios, a condição da existência do candidato, que já necessitava da persistência da exploração para justificar sua luta. Por isso o populista é sempre e cada vez mais culpado – aos olhos do poder, que o ameaça se se aproxima demais do povo, e aos olhos do povo, que o despreza se se aproxima demais do poder.

Pouco a pouco, o intelectual participante aprende a sobreviver sob esses dois fogos, a dançar na corda bamba. Se antes desejava sinceramente uma transformação social, agora, corrompido pelo poder, tenta adiar ao máximo o fim do sofrimento justificador, prestigioso ou bem remunerado. Torna-se velhaco, manipulador hábil; caminha a passos largos para a ruína moral, abandonando a cada paragem um escrúpulo, um ideal, um traço de sua antiga humanidade. Por fim, volta para trás um rosto macilento e triste de palhaço, cuja expressão parece dizer: “Eis o que a vida fez de mim: um político profissional”.

Mas o caminho do sofrimento possui duas mãos – e uma lava a outra. No universo populista, quanto mais alguém se humilha, mais é exaltado; quanto mais se rebaixa, mais se eleva. Sucessivamente Ministro da Educação, Vice-Governador e Secretário da Educação, o antropólogo Darcy Ribeiro martirizou-se pelo povo como talvez nenhum outro intelectual, absolutamente convencido de que “o ruim deste país são os ricos”.

No Ministério da Economia, a economista Maria da Conceição Tavares expurgou o fiasco do Plano Cruzado chorando ao vivo, na televisão, num clímax que arrebatou a todos sem reduzir a inflação.

Atacando a competência do saber, Marilena Chauí passou de filósofa de esquerda a ideóloga do Partido dos Trabalhadores, e de crítica da cultura a Secretária da Cultura [1].

Depois de rodar o mundo com sua “pedagogia do oprimido”, o educador Paulo Freire chegou, santificado pelas bases, à Prefeitura de São Paulo, onde dedicou especial atenção às então chamadas “crianças populares”.

Com fervor franciscano, o bem-nascido professor de Economia Eduardo Matarazzo Suplicy engajou-se no Partido dos Trabalhadores submetendo-se a penosos rituais de iniciação, que incluíam amolações em mesas de botecos com pedidos humildes de voto e distribuição manual de santinhos, até a completa abdicação como militante-estrela – sacrifícios que lhe proporcionaram o cargo, praticamente vitalício em seu caso, de Senador da República.

Contagiando as Universidades, as Artes e as Mídias, o populismo ganhou também o mercado. Assim, quando Fernando Morais lançou A Ilha, uma reportagem muito positiva sobre a Cuba de Fidel Castro, foi imediatamente aplaudido por sua suposta objetividade.

Numa segunda leitura, a objetividade do best-seller cai por terra: as perseguições aos dissidentes, aos intelectuais, aos homossexuais, a censura e a dependência econômica da URSS eram fatos omitidos deliberadamente ou tratados com complacência bovina pelo autor. “Qualquer dia liberaremos Cem anos de solidão, de nosso amigo Gabo…”, disse-lhe Fidel Castro, sorrindo.

Fernando Morais sorri de volta, Gabriel Garcia Marques sorri, todo o povo cubano sorri e o leitor também é levado a sorrir. Oscar Wilde já dizia: a pior forma de autoritarismo é a que se exerce com benevolência, porque corrompe. O mal, praticado por amigos, torna-se apenas um pecadilho.

Eleito e reeleito deputado, ao tentar nova reeleição Fernando Morais foi, segundo suas próprias palavras, “escorraçado da vida pública pelo voto popular”. Mesmo assim, aceitou o convite do Governador Orestes Quércia para assumir a Secretaria da Cultura, abalada pela desastrada gestão da atriz populista Bete Mendes. Fernando Morais disse, então, só se distinguir do povo “por ter sido bem alfabetizado na infância”.

No novo cargo Morais continuou “absolutamente convencido de que se a população não estivesse satisfeita com o regime vigente em Cuba ele não teria durado”. E concluiu: “Eu defendo a existência de um Estado socialista, onde o Estado domina rigorosamente todas as atividades produtivas, inclusive as culturais.”

O atávico sentimento de culpa não é varrido pelos novos valores corruptores do conglomerado. Os limites da criação continuam colocados pela persistente indústria cultural do populismo. Uma indústria hegemônica desde que os intelectuais orgânicos alternam-se no poder, sempre ensaiando a estatização total da cultura.

Nova prova de que a inteligência brasileira mantém-se escravizada aos valores disseminados pela religião secular do populismo foi dada durante as eleições presidenciais de 1989, que revelaram o potencial explosivo do sentimentalismo como inquietante fenômeno de dessublimação repressiva daquele “vício político” condenado – teoricamente – até pelos próprios ideólogos populistas, de Francisco Weffort a Orlando Miranda.

O sentimentalismo não é uma relação autêntica com o mundo, pois provém de uma deformação da personalidade. Como visão viciada, ele rejeita a priori todo argumento racional. Diante deste argumento, o sentimental revela-se o que é preferindo a sua “certeza”, fortemente arraigada no coração.

Agindo por uma suposta bondade inata, que ele deseja expandir para o social, o sentimental tenta saldar impessoalmente, com um sacrifício pessoal ao deus Miséria, uma dívida que não é sua. Nesta ajuda voluntária e mediada, ele toma como meta de seu desempenho político o bem-estar alheio.

A atitude sentimental tem sua origem na culpa de ser um privilegiado. Ela nasce da desigualdade natural e social entre os homens – uma anomia que se projeta sobre a realidade e a torna movente de acordo com os sentimentos de cada um. Ao associar sua suposta bondade, de que está plenamente convencido, com o sentimento sacrificial, incutido em sua alma pela tradição, o sentimental rejeita a razão como aliada natural da maldade, atribuída aos seus inimigos.

Enfeitiçados pela propaganda obscurantista do Partido dos Trabalhadores, que dividiu o mundo entre pobres e ricos, os privilegiados voltaram a ser dominados pela culpa, como por efeito de um transe místico. Num programa de TV, o apresentador Fausto Silva deu a palavra ao povo para que esse fizesse uma pergunta à atriz Maitê Proença. Uma mulher de fala dura, o olhar gelado, gestos petrificados, antes afirmou que perguntou, com presunção: “A Maitê deve ter uma vida mansa, aposto que ela nem sabe fritar um ovo”.

A atriz ficou desconcertada. Embora tivesse votado em Leonel Brizola, e ainda não tivesse se decidido a votar em Luís Inácio da Silva ou Fernando Collor de Melo, pensava-se “de esquerda” e, portanto, purificada da culpa. Viu-se, porém, obrigada a dizer que trabalhava em gravações durante oito horas seguidas e que às vezes também trabalhava aos sábados, além de serviços ocasionais em teatro e cinema. A atriz confessou que de fato não sabia fritar um ovo, mas que não pensava por isso levar uma vida mansa.

Tarde demais. A máquina de culpar colocada em marcha pelo Partido dos Trabalhadores, cujo slogan era “sem medo de ser feliz”, antes mesmo de levar Lula ao poder já obrigava a todos a justificar sua felicidade. O diálogo que travei então com uma estudante universitária de classe média é ilustrativo das contradições ideológicas produzidas pela propaganda:

Em quem você vai votar?

Vou votar no Lula porque o Collor é um candidato da Rede Globo.

Mas a Rede Globo não é uma emissora melhor que as outras, que apóiam o Lula?

É, mas é porque ela tem mais dinheiro, pode ter mais produção, mais técnica.

E por que ela tem mais dinheiro?

Porque ela tem programas melhores, as pessoas assistem mais, e ela recebe mais publicidade.

E por que as pessoas não assistem às outras emissoras?

Porque elas já ligam direto na Globo, estão escravizadas pela Globo.

Quem as obriga a assistir à Globo?

Ninguém, as coisas são assim.

E por que as coisas são assim?

Ah, porque sim. A Globo tem mais dinheiro. É a grana. Por isso a Rede Globo faz tanto mal aos pobres.

Mas por que os pobres não assistem às outras emissoras?

Porque eles não têm escolha.

Não há outros canais de televisão? Por que não assistem aos outros canais?

Porque os outros canais não são tão atraentes. todos gostam de ver coisas bonitas.

Por que os outros canais não fazem, então, coisas bonitas para agradar ao povo?

Porque eles não têm dinheiro.

E por que eles não têm dinheiro?

Porque não têm audiência.

E por que não têm audiência?

Porque o povo prefere a Rede Globo.

E por que o povo prefere a Globo?

Porque ela tem os melhores técnicos, as melhores produções, é mais eficiente.

E por que as outras emissoras não se tornam mais eficientes?

Porque elas não têm dinheiro. É isso. O capitalismo faz muito mal aos pobres.

E se as outras emissoras tivessem dinheiro?

Elas fariam concorrência com a Globo.

E, aí, uma outra poderia vencer a Globo? Ter mais audiência?

Claro!

E então ela seria a mais rica e eficiente, a mais atraente, a melhor?

Certo.

E, então, ela seria a “nova” Rede Globo?

Sim… Mas seria preciso limitar o poder das redes. Nenhuma rede poderia ficar rica.

Então todos os programas deveriam ser pobres?

É, isso é melhor do que uma só ganhar das outras, o que é injusto.

Seria justo uma coisa melhor ser igualada a uma coisa pior?

Justiça é igualdade de oportunidades.

Mas depois da igualdade de oportunidade os melhores não se sobressaem mais que os piores?

É preciso limitar os desempenhos dos melhores para não se distanciarem dos piores. Não se pode permitir o crescimento dos melhores.

O sonho mórbido da igualdade retornou com a força de um irracionalismo contagiante, supressor da existência de qualquer valor além do dinheiro, equalizador mágico de todas as forças em desequilíbrio na sociedade. Durante as campanhas eleitorais, nem as piores metáforas biológicas vulgarizadas pelo nazismo foram evitadas.

Num debate televisionado, um militante do PT comparou o eleitor de Fernando Collor a um “chagásico”, que não conseguia impor-se numa roda, por representar “a estrutura carcomida das elites”, enquanto ele e seus iguais já “chegavam falando, entusiasmados, sobre a importância das eleições, das lutas populares, apaixonados pela causa, contagiando a todos”.

E quando a atriz Marília Pera e seu público foram constrangidos a permanecer duas horas presos no teatro, enquanto a turba petista gritava na rua “Marília Pera colloriu, vai pra puta que pariu”, o coordenador nacional da campanha de Lula, Wladimir Pomar, declarou, com o cinismo de um aprendiz de Goebbels: “Se isso aconteceu, era uma manifestação popular. Marília Pera tem que levar em conta que a vaia e o xingamento do povão fazem parte da vida democrática”.

Num amplo movimento de adesismo, quase toda a mídia apoiou o candidato Lula, que premiado pelo trucidamento da língua, passou a errar sistematicamente, voluntariamente, prazerosamente, enquanto psicanalistas, psicólogos e professores de psicodrama debruçavam-se sobre a personalidade de Collor, unânimes em diagnosticar seu autoritarismo, narcisismo, arrogância e demência. Em atitude submissa e corrupta, intelectuais e artistas manifestavam-se nos jornais, na televisão, em shows e comícios pela Frente Brasil Popular.

Sobre Collor projetavam os velhos espantalhos do populismo: elitista, burguesinho, candidato dos ricos, continuísta, homem de dinheiro, “filhote da ditadura”. Esqueciam que a ditadura também havia gerado Lula.

Um jornalista sugeriu uma analogia entre Collor e Hitler por ter aquele feito um gesto de “banana” a alguém que o agredia, como se a essência do nazismo estivesse num gesto de autodefesa e não em partidos altamente organizados, com militância aguerrida e fanática, que apedreja opositores e ostenta distintivos, em líderes que surgem da massa, em políticos que pregam a estatização, a expropriação e o poder popular.

O slogan “Arame farpado na bunda do Caiado” evocou, a propósito, a tentação totalitária das bases petistas. O arame farpado nas mãos dos adversários ideológicos de um proprietário rural adquiria um sentido pleno de ressonâncias sadomasoquistas, tanto mais quanto o instrumento destinado a infligir dor ao “inimigo” evocava o universo dos campos de concentração e a região do corpo privilegiada para a descarga da culpa era aquela em que se circunscreve o principal tabu sexual. Nessa catarse político-sexual, o local do prazer denegado tornava-se, pelo efeito da repressão acumulada, o local privilegiado da dor imposta ao “inimigo”.

Contudo, ninguém melhor que o seringueiro, sindicalista e ambientalista Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes – um autêntico homem do povo -, exprimiu a pulsão de morte que está na base do sentimentalismo populista, através de uma nota manuscrita reproduzida nos cadernos de propaganda eleitoral do PT:

Atenção Jovem do Futuro

6 de Setembro do ano de 2.120, aniversário ou 1º sentenário (sic) da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta. Num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade.

Aqui ficam (sic) somente a lembrança de um triste passado de dor – sofrimento e morte.

Desculpem

eu estava sonhando quando escrevi (sic) estes acontecimentos; que eu mesmo não verei. Mais (sic) tenho o praser (sic) de ter sonhado.

O sonho de Chico Mendes: ver a humanidade subjugada e nivelada num só ideal e num só pensamento de unidade socialista após a destruição de todos os inimigos da nova sociedade. No século XX, talvez somente Josef Stalin, Adolf Hitler e Mao Tsé Tung tenham sonhado tão alto.

[1] Professora Titular de Filosofia pela Universidade de São Paulo com especialização em História da Filosofia Moderna, Filosofia Política e Filosofia Contemporânea, Marilena Chauí assumiu a Secretaria Municipal de Cultura da Prefeita Municipal de São Paulo entre 1989 e 1992.

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