OS INVASORES

20 jan

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No seriado de TV The Invaders (Os Invasores, 1967–1968), criado por Larry Cohen e produzido por Quinn Martin para a rede ABC, ao voltar para casa depois de uma jornada estafante, o arquiteto David Vincent (Roy Thinnes) busca um atalho, que não encontra, deparando-se com um restaurante de beira de estrada abandonado. Ele estaciona o carro em frente ao local para cochilar antes de seguir viagem quando, do nada, surge uma nave espacial, de outra galáxia, pousando diante dele.

Os invasores estavam deixando um planeta agonizante, querendo fazer da Terra o planeta deles. Para isso, substituíam os humanos por clones de mesma aparência, mas frequentemente – não sempre – com um “defeito de fabricação”, que os denunciava a quem sabia do segredo: o dedo mindinho da mão esquerda dos falsos humanos apresentava uma estranha rigidez.

Ninguém mais poderia estar seguro da humanidade de seus interlocutores: qualquer um poderia ser agora um alien disfarçado. E como o dedinho duro não era um defeito generalizado dos  aliens – alguns não tinham esse defeito, outros o corrigiam com uma operação – a identificação dos mesmos era sempre problemática. Pior: alguns humanos se aliavam aos aliens e serviam aos seus planos, por um misto de interesses megalomaníacos e estúpida revolta contra a humanidade devida a forte recalque.

David Vincent, um arquiteto que raramente vemos trabalhando em sua profissão, tornava-se um obcecado com os invasores e acabava descobrindo, um a um, os segredos desses aliens: além da rigidez de seus mindinhos, o prazo de validade de suas formas humanas; a necessidade de regeneração de seus organismos dentro de grandes tubos; a ausência de coração e, portanto, de batimento cardíaco e de pulso; a morte deles sempre seguida de autocombustão.

Percebendo os aliens como seres malignos, David tenta convencer o mundo cético de que a invasão do nosso planeta começara. Mas seus relatos parecem aos demais tão fantásticos que ele é sempre desacreditado e ridicularizado. Todos o tomam por louco. Já no episódio piloto, do qual existem duas versões, a que foi ar, e outra mais extensa, de uma hora, Vincent chega a ser internado num hospício. Mas o tough guy não desiste e se torna um especialista em aliens, e seu mais feroz caçador.

Os aliens, porém, não facilitam a missão de Vincent, pois a cada tentativa frustrada de exterminar a humanidade, as sinistras criaturas, cuja verdadeira forma jamais é mostrada, destroem seus equipamentos, suas armas, suas naves e tomam pílulas de veneno, desaparecendo sem deixar traços. Desse modo, Vincent não consegue obter nenhuma prova material para mostrar aos demais e convencê-los de que ele não está louco, mas sim dizendo a verdade.

Embora o “inimigo” visado simbolicamente pela série seja o comunista (os aliens são desprovidos de sentimentos; ameaçam destruir o humano no homem; incineram-se envoltos num luminoso halo vermelho), o padrão totalitário que eles encarnam também os aproxima dos nazistas: as drágeas de suicídio, as farsas montadas para ludibriar os humanos, seus planos e métodos de extermínio em massa, etc.

Como notou Marc Augé, “a solidão do herói, aumentada a cada dia pela miopia de alguns e a mentira de outros, tinha uma dimensão trágica”, mas “cada episodio terminava de uma maneira mais ou menos satisfatória. David Vincent escapava milagrosamente das situações mais perigosas. E quanto aos seres extraterrestres, felizmente se mostravam vulneráveis à ação das armas de fogo, pois se liquefaziam e desapareciam quase instantaneamente pelo impacto das balas.”

A realidade da visão paranoica é uma das bases da ficção científica, e o criador da série, Larry Cohen, inspirou-se em dois clássicos do gênero: Invaders from Mars (Os invasores de Marte, 1953), de William Cameron Menzies, e Invasion of the Body Snatchers (Vampiros de almas, 1956), de Don Siegel – seus dois filmes prediletos quando ele era criança.

O fato de Vincent ser tomado por um paranoico, que “vê extraterrestres em toda parte” coincide com a ridicularização dos anticomunistas feita pelos comunistas, e frequentemente adotada pelos liberais ingênuos de que os anticomunistas “vêm comunistas em toda parte”. Ainda que isso possa ser verdade, não quer dizer que os comunistas não estejam mesmo em toda parte, assumindo postos de comando.

A visão racional, neste caso, é uma aliada do mal. Vincent não estava louco e nada indicava que o que ele via, e nós com ele, era uma alucinação sua. Como notou ainda Augé, o arquiteto testemunhava o estabelecimento de uma nova ordem: “Os verdadeiros alucinados eram na verdade seus detratores que, ao confundir a realidade com as aparências, tomavam os extraterrestres por bons norte-americanos, gato por lebre.” [1]

Esse aspecto inquietante de sensatos que são verdadeiros otários, cegados pela razão numa realidade tornada paranoica, é mais intenso na Primeira Temporada do seriado. Na Segunda Temporada, aumenta o número dos que testemunham os aliens morrendo em autocombustão e Vincent, até então um guerreiro solitário, passa a integrar o grupo ‘The Believers’, patrocinado por um grande industrial, com ramificações em Washington, e que monitora o movimento dos discos voadores para sabotar as missões alienígenas.

As duas temporadas de The Invaders, produzidas por Alan Armer nos estúdios de Samuel Goldwyn, contaram com bons diretores, incluindo Paul Wendkos e Joseph Sargent, e muitos guest stars, como Anne Francis, Suzanne Pleshette, Diane Baker, Sally Kellerman, Susan Strasberg, Barbara Hershey e Karen Black; Gene Hackman, Roddy McDowall, Burgess Meredith, Louis Gossett Jr., Peter Graves e Ed Begley, além dos emblemáticos: Michael Rennie, o extraterrestre Klaatu de The Day the Earth Stood Still (O dia em que a Terra parou, 1951), de Robert Wise; e Kevin McCarthy, o herói “paranoico” de Invasion of the Body Snatchers.

Todos os 43 episódios da série se iniciam com a cena do “trauma original”, assim descrita pelo narrador, William Woodson, numa locução tão estupenda que não cansamos de ouviu:

The Invaders: alien beings from a dying planet. Their destination: the Earth. Their purpose: to make it their world. David Vincent has seen them. For him, it began one lost night on a lonely country road, looking for a shortcut that he never found. It began with a closed deserted diner, and a man too long without sleep to continue his journey. It began with the landing of a craft from another galaxy. Now, David Vincent knows that the Invaders are here, that they have taken human form. Somehow, he must convince a disbelieving world, that the nightmare has already begun…

Em suas tramas e nas características de seu herói paranoico encarnado por Roy Thinnes – bonito, inteligente, educado, atlético, sedutor e interessado em mulheres, mas nunca as levando para a cama, poupando suas energias para combater os extraterrestres – a série é precursora da série The X-Files (Arquivo X, 1993-2002) e de seu herói assemelhado Fox Mulder (David Duchovny). A sedução sem sexo torna o herói paranoico mais atraente. Não por acaso The Invaders foi vendido para 80 países, e ainda em 2004, no ranking da TV Guide dos 25 maiores mitos da Sci-Fi, o personagem do arquiteto David Vincent aparecia em sexto lugar.


[1] AUGÉ, Marc. Alerta! La guerra de los sueños: ejercicios de etno-ficción. Gedisa, 1998.

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6 Respostas to “OS INVASORES”

  1. José Roitberg 21/01/2014 às 15:23 #

    Guerra Fria, caça às bruxas. Os invasores com seus “dedos duros” são uma forma do pessoal anti-comunista de Hollywood criticar os comunistas dedos-duros e a política do denuncismo na União Soviética. Comunistas estão em todas as partes, mas ninguém vê, ninguém acredita em Vincent… Run, Vincent. Run away from the reds.

  2. Aluizio Amorim 14/03/2014 às 00:23 #

    Este artigo está muito bom! E o pior é que os “aliens” estão realmente por toda a parte…rsrs…, especialmente neste século XXI no Brasil e em toda a América Latina e quiçá no resto do planeta… O quartel general desses invasores aparentemente seria a Venezuela. Mas a verdade é que a sua sede sempre foi no Brasil, infelizmente. Perdão pela ironia.
    Forte abraço

    • Luiz Nazario 14/03/2014 às 04:07 #

      Grato! De fato, estamos cercados de “invasores”… Abraço!

  3. Herberti Pedroso 14/03/2014 às 15:15 #

    Bom artigo. Parabéns. Quero apenas observar que, no caso de X Files, por exemplo, os aliens ganharam uma nítida aura mística, que não existia em The Invaders. E é por isso que alguns vilões enfrentados por Fox Mulder são, não raro, seitas ocultistas ou fundamentalistas religiosos. Isto demonstra que nos dias de David Vincent o inimigo vinha de fora. Já nos dias de Fox Mulder ele já esta dentro e muito bem integrado à sociedade. Para aquele era uma luta contra um poder que queria destruir a ordem vigente; para este a luta é expor uma elite que controla as pessoas controlando o cotidiano. Que mudança!!

    • Luiz Nazario 14/03/2014 às 15:58 #

      Grato, Herberti Pedroso. Na verdade, os aliens de ‘The Invaders’ vêm de fora, mas tentam se integrar, para melhor dominar o planeta. Muitos deles estão na Terra há décadas, pois aparecem, sobretudo na segunda temporada, infiltrados até nos mais altos postos do Exército americano, ou são heróis nacionais reconhecidos do público. ‘Arquivo X’, nesse aspecto, não inova, porque em muitos episódios de ‘The Invaders’ já se delineia aquela aliança denunciada por Fox Mulder entre o governo e os aliens. Em ‘The Invaders’, os aliens também prometem, com suas novas tecnologias, beneficiar os elementos corrompidos da Terra com lucros e poderes fabulosos. E há também alguns dementes que a eles se aliam simplesmente para se vingar dos humanos. Num dos episódios, uma jovem rica e mística foge de casa e torna-se a fiel secretária de um pastor alien, que se utiliza dos raios vermelhos que emanam dos corpos alienígenas quando eles entram em agonia-combustão para manter mistificados os fiéis da seita que ele criou: ele se envenena e agoniza para liberar os raios e impressionar os fiéis, sendo, antes de morrer, ressuscitado na máquina-tubo…

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  1. Os Invasores - 22/01/2014

    […] AQUI o artigo […]

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