DE HEINRICH HEINE A GÜNTHER GRASS

6 out

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Terminei de ler O Rabi de Bacherach, de Heinrich Heine, um fragmento de romance cuja maior parte foi destruída ainda em manuscrito inacabado num incêndio trágico na casa do escritor. Ele dedicara décadas de pesquisas para escrever o romance, e já tinha escrito umas trezentas páginas, que desapareceram assim em minutos nas chamas. O que restou e foi refeito (o fragmento tem três capítulos e 100 páginas em tipo Palton corpo 13) não é, porém, grande coisa, embora apresentado na quarta-capa como “uma enciclopédia do destino judaico na sociedade feudal”.

Embora se pretenda, acima de tudo, uma denúncia do antissemitismo, o romance de Heine é eivado de personagens-clichês (o “judeu tolo”, o “judeu covarde”, a “bela judia”, a “judia maledicente”) e ainda afirma como “verdade histórica” uma barbaridade que não se sabe de onde Heine, judeu convertido ao catolicismo para poder seguir carreira acadêmica, possa ter tirado: “[…] todo o judeu pode fazer de uma moça judia sua esposa legal se conseguir enfiar-lhe um anel no dedo e ao mesmo tempo pronunciar as palavras: – Tomo-te por minha mulher segundo os costumes de Moisés e Israel.” (p. 19).

O posfácio de Günther Grass, “Como dizer aos nossos filhos”, em que tenta ao mesmo tempo esconjurar e assumir o passado nazista da Alemanha como uma herança a ser transmitida de maneira adequada, longe da negação e da banalização, começa bem, criticando as tentativas revisionistas do nazismo pela nova direita alemã diante da ascensão espantosa de Kurt Georg Kiesinger, membro do Partido Nazista de 1933 a 1945, que trabalhou desde 1940 na seção de radiodifusão política do Ministério das Relações Exteriores, em contato estreito com o Ministério da Propaganda, e que se tornou, em 1966, o chanceler da República Federal da Alemanha, cargo que manteve até 1969. Escreve Grass:

No final dos anos sessenta, depois dos últimos momentos da era Adenauer, com sua política interna restauradora, e da Guerra Fria, apresentou-se a oportunidade, pela primeira vez n República Federal da Alemanha, para uma permuta democrática de poder. Contudo, o governo de transição da Grande Coligação, formada por democrata-cristãos e socialdemocratas, na medida em que permitiu o definhamento da oposição parlamentar, converteu-se ao mesmo tempo no primeiro desafio para a autoconsciência democrática dos alemães-ocidentais, ainda não consolidada. À esquerda, originando-se do movimento dos protestos estudantis, formou-se uma “oposição extraparlamentar”; à direita, um partido neofacista, o NPD [Nationaldemokratische Partei Deutschlands], conseguiu rápida penetração, sobretudo porque o passado político do chanceler da Grande Coligação, Kurt Georg Kiesinger, enfraquecia os argumentos dos partidos do governo contra os neonazistas: membro por muitos anos do Partido Nacional-Socialista, Kiesinger desempenhara funções diretivas no Terceiro Reich, até o fim, sem se deixar abalar pelos crimes que lhe eram conhecidos. Seu posto como chanceler era um escárnio à resistência contra o nazismo. A avaliação política do seu passado colocava em xeque tudo aquilo que os alemães-ocidentais, por vinte anos alunos exemplares em matéria de democracia escolar, haviam adquirido: consciência da responsabilidade política, retorno ao direito liberal, não apenas um bom comportamento insípido, mas também vergonha advinda do conhecimento dos crimes alemães. E até quando o antigo emigrante Willy Brandt, até então caracterizado sub-repticiamente como herege, estava como vice-chanceler e ministro do Exterior ao lado do antigo nazista Kiesinger – mesmo este fato não conseguiu escamotear o compromisso podre. Sobretudo a geração do pós-guerra, cuja consciência se sensibilizara com os protestos contra a guerra do Vietnã, recusou a desacreditada “Liga da Conciliação”. Protestos de rua, porém, não abalaram o novo cartel de poder. Somente as eleições para o parlamento, marcadas para o outono de 1969, eram apropriadas para dissolver a Grande Coligação […] Nessa campanha eleitoral para o parlamento […] eu estive também envolvido de maneira decisiva, uma vez que organizara com amigos uma iniciativa socialdemocrata de eleitores no território da Alemanha Federal. Durante sete meses estive viajando. Na segunda-feira saía de meu domicílio em Berlim e voltava no fim de semana. Partindo e chegando, eu era confrontado com as perguntas dos meus filhos: O que você está fazendo lá? Para que você faz isso? Como assim, Kiesinger era nazista? Por que motivo Willy Brandt, quando moço, precisou sair da Alemanha? O que se passou exatamente com os judeus? E o que você fez na época? Pela primeira vez estive exposto à pergunta: Como explicar isso às crianças? Foi relativamente fácil esclarecer minha biografia, a de um membro da Juventude Hitlerista que no fim da guerra está com dezessete anos e numa última convocação vira soldado: eu era demasiado jovem para tornar-me culpado. Contudo, já a pergunta – Mas e se você fosse mais velho? – não permitiu uma resposta inequívoca. Eu não podia garantir por mim. (p. 132-134)

Mas o discurso de Grass, que começou assim tão bem, desvirtua-se no final, com o escritor criticando a série de TV Holocaust (Holocausto), exibida na Alemanha no final de janeiro de 1979, e que teve enorme repercussão, levando as novas gerações de alemães a um questionamento até então inédito do passado nazista de seus pais:

Quando meu livro ficou pronto [Os diários de um caracol], os meus filhos estavam todos mais velhos. Então eles poderiam ler. Mas não queriam mais velhas histórias. Só o presente contava. E um futuro revolucionário foi evocado. Os grandes saltos, que sempre terminam em retrocesso. Nesse meio tempo o passado já nos tinha (mais urna vez) alcançado. Horrorizados, sentam-se diante das telas das televisões familiares os filhos entrementes adultos, os filhos adolescentes, os pais transtornados de todas as maneiras, os avós ainda atônitos, e assistem à série Holocaust. De imediato, os pesquisadores de opinião arrolam as primeiras reações: confissões, espanto, atitudes defensivas, juramentos. Uns descobrem algum detalhe histórico falso e por isso tacham tudo de mentira, outros se mostram abalados, como se até esse momento jamais tivessem ouvido, visto ou lido nada semelhante. E então se diz: Nós não sabíamos disto! Isto nunca nos foi mostrado. Por que não nos contaram isso antes? Trinta e cinco anos depois de Auschwitz, os meios de comunicação de massa comemoram o seu triunfo. Só o resultado em larga escala é que conta, a elevada taxa de audiência. O que antes foi escrito, apresentado como documento, demonstrado em cuidadosas análises, e há trinta anos estava ao alcance de todos, não tem valor, era certamente demasiado complicado. Com a palavra de ordem “esclarecimento em massa” (o reflexo de “extermínio em massa”) toda crítica a essa série televisiva tão bem-sucedida quanto questionável é despachada. E os escritores – esses pássaros raros, efetivamente ameaçados de extinção, que (incorrigíveis em seu estilo antigo) querem exigir do indivíduo e da massa a leitura como atividade humana – esses são aconselhados com insistência a se desvencilharem de sua estética elitista, largarem mão de suas complicações e se consagrarem doravante ao esclarecimento em massa. A pergunta “Como dizer aos nossos filhos?” deve, sem limite algum, encontrar sua resposta (entre anúncios comerciais) tão-somente na televisão. É contra isso que se deve falar aqui. Em toda época, os êxitos do esclarecimento trivial sempre apresentaram resultados superficiais. Tão comprovadamente (através de pesquisas de opinião) como abalam e horrorizam a massa, provocam compaixão e vergonha – e este foi o resultado de Holocaust – tais êxitos não estão em condições de revelar a estratificação das responsabilidades, a complexa “modernidade” do genocídio. Em sua raiz, Auschwitz não é expressão da corriqueira bestialidade humana, mas sim o resultado repetível de uma responsabilidade organizada, ligada somente a imposições objetivas, que foi dividida até tomar-se irreconhecível e cristalizar-se como ausência de responsabilidade. Cada um dos que se envolveram ou não no crime atuou, com ou sem conhecimento de causa, a partir de seu estreito sentido do dever. Condenados foram apenas os executores concretos – chamem-se eles Kaduk ou Eichmann -, mas aqueles que, cônscios do dever, atenderam às suas mesas de trabalho ou todos aqueles que se fizeram de mudos, que não fizeram nada a favor e nada contra, que tinham conhecimento dos fatos e deixaram que acontecesse – estes não tiveram julgamento, não sujaram um dedo sequer. (p. 138-139).

Após o exorcismo dos meios de comunicação de massa como simplificadores, em nome da suposta complexidade das explicações do Holocausto pelos intelectuais, o discurso de Grass termina numa tentativa de encontrar novos culpados, aliviando um pouco os carrascos nazistas do peso de sua culpa, distribuindo-a mais equilibradamente por toda a sociedade e, sobretudo, descarregando boa parte de seu peso nas costas das Igrejas cristãs, omissas e colaboracionistas, embora os nazistas sempre tenham abominado conceitos cristãos como piedade e caridade. Grass culpa, assim, por Auschwitz, mais as Igrejas cristãs que os carrascos nazistas, ancorando-se na teoria da “banalidade do mal” de Hannah Arendt:

Até hoje a grave parcela de culpa das igrejas católica e protestante na Alemanha não foi avaliada. Contudo, a corresponsabilidade de ambas as igrejas por Auschwitz está comprovada pela aceitação passiva do crime. Referências atenuantes ao seu compromisso com a razão de Estado deixam ainda transparecer que a cristandade clericalmente organizada, enquanto ela própria não é atingida, refugia-se na irresponsabilidade, abstraindo da coragem de indivíduos que atuaram contrariamente às instruções de suas igrejas, e da confissão de culpa da Igreja Evangélica de Stuttgart, que permaneceu um caso isolado. Desde Auschwitz as instituições cristãs (pelo menos na Alemanha) perderam sua autoridade moral. As perseguições aos judeus na Idade Média – a descrição que Heinrich Heine faz da festa de Pessach em Bacherach – e o profundo ódio cristão aos judeus penetraram no moderno antissemitismo e se deformaram modernamente em irresponsabilidade passiva. Não foram bárbaros ou bestas em figura humana que deixaram o crime acontecer, mas sim os refinados representantes da religião do amor ao próximo: estes são mais responsáveis do que o executor junto à rampa, tenha ele se chamado Kaduk ou Eichmann. Também em Danzig os bispos de ambas as igrejas olharam impassíveis para o lado quando em novembro de 1938 as sinagogas em Langfuhr e Zoppot foram incendiadas e a mirrada comunidade sinagogal foi entregue ao terror do batalhão 96 da SA. Naquela época eu tinha onze anos e, apesar de membro da Juventude Hitlerista, era, no entanto, um fervoroso católico. Na Igreja Coração de Jesus, que ficava dez minutos a pé da sinagoga, jamais ouvi até guerra adentro qualquer oração em prol dos judeus perseguidos, mas matraqueei muitas orações que pediam pela vitória dos exércitos alemães e pelo bem-estar do Führer Adolf Hitler. Tanto quanto foi corajosa a resistência de cristãos isolados e grupos cristãos contra o nazismo, as igrejas católica e protestante converteram-se, na Alemanha, em cúmplices inativos. Isso as séries televisivas não tratam. A múltipla falência moral do Ocidente cristão também não se deixaria embrulhar numa ação eletrizante, comovente, que joga com o horror. Como dizer aos nossos filhos? Vejam os hipócritas. Desconfiem de seu sorriso brando. Temam sua bênção. Os fariseus bíblicos eram judeus, os atuais são cristãos. (p. 140-141).

Embora tudo isso pareça verdade, tudo isso também parece falso. A aparentemente lúcida e esclarecedora avaliação de Grass tornou-se obscura e perturbadora depois de sua recente confissão de que havia se alistado na SS antes do fim da guerra. Também ele havia escamoteado parte de seu passado, tendo sido, além de membro automático da Juventude Hitlerista e soldado convocado, também um jovem SS. Talvez não recebesse o Nobel se tivesse revelado antes esse grau a mais de envolvimento com o nazismo, que preferiu suprimir até então de sua biografia. Com isso cai por terra seu engajado discurso sobre os hipócritas de sorriso brando e sobre os novos fariseus da Alemanha. Ele não é menos fariseu que os alvos de sua crítica, e seu desprezo pelo seriado Holocaust e sua acusação aos cristãos em nome da modernidade podem ser agora lidos também como um eco de seu velho, renegado, mas mantido parcialmente escondido, entusiasmo pelo nazismo.

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