PROVA DE VIDA

3 fev

Ingrid_Betancourt

Um pequeno e poderoso livro: Cartas à mãe: direto do inferno, de Ingrid Betancourt. Nunca odiei tanto as FARC quanto ao ler essas páginas escritas com tanto amor. Embora as vítimas dos sequestros das FARC fossem, por razões óbvias, contrárias à política de Uribe, de não negociar com terroristas, o presidente colombiano não podia transigir.

Cabia ao playboy Sarkozy, ao bolivariano Chavez e ao hiperbólico Lula todo o empenho em libertar essa mulher extraordinária e os demais  sequestrados pelo grupo armado da esquerda traficante de drogas. A França exportadora de ONGs esquerdistas e os tiranetes populistas latino-americanos tinham culpas de sobra nos crimes das FARC.

Quanto a Uribe, seu papel histórico era mesmo o de esmagar, com o apoio dos EUA, essas imundas FARC – a esquerda armada latino-americana em seu momento de maior podridão moral. Num posfácio, Francisco Carlos Teixeira da Silva, historiador da UFRJ, ainda demonstra discreta simpatia pela organização criminosa:

A exigência básica das FARC – para negociar a devolução de Ingrid à vida – mantém-se a mesma desde… 2002: a desmilitarização de duas províncias e a libertação de um grande número de guerrilheiros (alguns falam em 500 homens)… Em 2004, as FARC propõem a desmilitarização [de duas regiões] para negociar uma troca de reféns por guerrilheiros presos […] O presidente Uribe rejeita a proposta […]. Como contraproposta, a guerrilha passa a exigir a retirada das forças militares [de duas outras regiões] para negociar um ‘intercâmbio humanitário’… Em 2007, as FARC avançam em sua proposta: a desmilitarização e a troca de reféns por 500 guerrilheiros presos pelo governo… [Em 2008] as FARC propõem a continuidade dos entendimentos, com a desmilitarização [de duas regiões] que deverão tornar-se, nas palavras das FARC, “o palco […] que tornará possível a libertação de todos os prisioneiros em poder das forças adversárias”. (p. 73-74).

Para o acadêmico, que não escreve na selva, mas no conforto do lar, as FARC davam “continuidade a entendimentos” e “avançavam em sua proposta” que, paradoxalmente, era sempre “a mesma desde 2002”! Já Uribe era descrito como “preso à sua estratégia de derrotar militarmente as FARC” e “inflexível, recusando qualquer princípio de acordo.”

Tudo isso lembra o conflito entre o Estado de Israel e os palestinos, e não por acaso o livro conta com um emocionado prefácio do escritor e sobrevivente do Holocausto, Elie Wiesel. O livro termina com uma desesperada carta de Ingrid à mãe, que diariamente lhe enviava mensagens pelo rádio, e que, então, poderia ser sua última prova de vida.

Do fundo da selva, vivendo há cinco anos como um bicho, acorrentada, seviciada, dormindo em buracos, tendo apenas uma Bíblia para ler (os guerrilheiros haviam negado seu pedido de um dicionário – ela desejava continuar aprendendo), a senadora insistia para que a filha, então mestranda em cinema, não parasse de estudar e fizesse o Doutorado.

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