POLITICAMENTE CORRETO

3 fev

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A propósito da cartilha Politicamente Correto: ao contrário de João Ubaldo Ribeiro[1] não sou contra o politicamente correto: temo apenas o uso tendencioso desse conceito. Nenhuma das matérias que li sobre a cartilha, que é mais um pequeno dicionário de termos que se deve evitar usar em sociedade, mencionava o verbo “judiar”, que tanto agride os judeus, e é usado com a maior naturalidade pelos brasileiros (o termo foi incluído na cartilha).

Ribeiro tem razão em temer o controle do pensamento pelo controle da língua. Por outro lado, o brasileiro precisa ser mais educado nas suas relações com o Outro e tentar controlar, sim, sua língua, quando ela expressa seu racismo, seu antissemitismo, seu machismo, sua homofobia – sobretudo essas duas últimas paixões assassinas têm atingido níveis assustadores enquanto aparentemente diminui o racismo contra os negros, graças às cotas, às inclusões sociais, etc.

A mulher é vilipendiada na subcultura de massa (funk, rap, etc.) sem que ninguém nada faça a respeito pelo terror da pecha de racismo contra “legítimas manifestações culturais da raça negra”! É comum ouvir professores fazendo piadinhas gratuitas em salas de aula sobre “veados”, agredindo, com seu “bom humor”, alunos homossexuais que não protestam por medo de sofrerem represálias e perseguições. Em universidades privadas, alguns alunos manifestam abertamente sua admiração pela figura de Adolf Hitler.

Na PUC-MG, professores, muitos deles juízes, contestaram, em 2005, a decisão do STF, que considerou, ao julgar o revisionista S. E Castan, o antissemitismo como uma forma de racismo e, portanto, crime inafiançável, alegando não se poder proibir a livre expressão do ódio, reivindicando “o direito de odiar”. É claro: o direito de odiar judeus…

É medonho para qualquer minoria ouvir dezenas de milhões de brasileiros expressando diariamente, abertamente, impunemente, seu ódio primitivo ao “outro”, seu desprezo selvagem pelos diferentes, seu orgulho arrogante de ser “como todo mundo”. Uma cartilha é necessária, desde que seja mesmo politicamente correta e não politicamente orientada.


[1] João Ubaldo Ribeiro. Governo lança manual Politicamente Correto, jornal Folha de S. Paulo, 1º de mai. 2005.

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