LIBERDADE DE EXPRESSÃO

30 dez

2012 - FDNY - Calendar of Heroes.

Os antiamericanos passaram a criticar, depois de 11 de setembro, a política “fascista” dos EUA, que estariam se tornando, com a adoção do “USA Patriot Act”, uma “ditadura”. Mas a liberdade de expressão nessa América “fascista” e “ditatorial” supera largamente a dos países nos quais prosperam esses discursos. Basta um exemplo: considerados heróis nacionais após 11.09, os bombeiros americanos não se petrificaram no orgulho, mas, sem perder tempo, capitalizaram sua popularidade produzindo, com bom humor, um Calendário dos heróis de caráter erótico fotografado por Alan Batt.

Os bombeiros americanos – a maioria deles descendentes de italianos – morreram em grande número durante os salvamentos das vítimas do atentado terrorista ao World Trade Center. Três dos bombeiros que se desnudaram para as fotos do primeiro calendário morreram logo em seguida, em mais um resgate. Posar de peito nu era, no contexto daquele massacre, uma afirmação da vida contra a morte. O calendário tornou-se coqueluche entre mulheres emancipadas, adolescentes ambíguos e gays assumidos, em mais uma prova dessa liberdade americana tão odiada pelos fanáticos do Islã.

O calendário FDNY Firefighters gerou uma série de imitações dentro e fora dos EUA, como o calendário dos bombeiros de Colorado ou o calendário dos bombeiros britânicos. Bombeiros do interior da França quiseram imitar os americanos, mas não foram tão bem sucedidos na empreitada: quinze homens e três mulheres do quartel da cidade de Ribeauvillé posaram para fotos preto e branco para um calendário que teria seu lucro destinado aos órfãos da corporação: “Posamos nus, mas de forma que não se vissem os órgãos sexuais ou os seios; as nádegas aparecem, mas não em posições ambíguas. Cobrimo-nos com material dos bombeiros ou nas sombras”, explicou Michele Bianchi, presidente da associação de bombeiros da cidade.

Mesmo assim, a iniciativa foi repudiada pelos superiores hierárquicos: “Não era a imagem que os bombeiros mereciam dar de si mesmos”, declarou o tenente-coronel Philippe Schultz, vice-diretor do serviço regional de incêndios e resgate. Para ele, as fotos teriam “aspecto antiestético”, pelo que elogiou a “sábia” decisão dos bombeiros repreendidos de destruir os 2.800 exemplares do calendário que haviam sido impressos: “Era melhor não piorar mais as coisas”, admitiu Bianchi, lamentando os três mil euros que os bombeiros pagaram do próprio bolso pela fracassada edição. Pobrezinhos!

No Brasil, os bombeiros não passaram pelo mesmo vexame que os franceses – que, apesar dos reveses de seu calendário de bombeiros, retomou, com sucesso ainda maior, a ideia do calendário de heróis usando jogadores de rúgbi como modelos. Mais liberados que os bombeiros, que seguem a disciplina militar, os atletas passaram a posar nus para a série de calendários Dieux du Stade (Deuses do estádio), inspirada na estética da cineasta nazista Leni Riefenstahl, que fez escola entre muitos fotógrafos de moda, diretores de videoclipes e publicitários em geral.

Já para emular o calendário dos bombeiros americanos, a empresa Mago Ideias assinou contrato com a corporação dos bombeiros do Rio de Janeiro, selecionando doze bombeiros “bonitos e atléticos”, dentre os quais o Capitão Albucacys (capa do calendário), fotografados por Márcio Affonso Gomes. A folhinha Heróis do Rio teve apenas duas edições: a primeira em 2003 e a segunda em 2004. Mas o blog com imagens dos calendários teve mais de oito milhões de acessos. O Capitão Albucacys, que era um “urso” esbelto em 2003, depilou-se e fortaleceu os músculos para a foto de 2004, aproximando-se da estética pornô gay americana que dita o erotismo em todas as mídias (publicidade, moda, pornografia, esportes, calendários de heróis).

A Mago Ideias prometeu doar parte da renda arrecadada com a venda das folhinhas à Casa dos Artistas em Jacarepaguá. E o fotógrafo Gomes gostou tanto do projeto que pensou em expandi-lo para outros órgãos, como a Guarda Municipal do Rio: “Lá, há verdadeiros artistas de cinema fardados”, revelou com entusiasmo. O mais atraente dos “heróis do Rio”, o Capitão Albucacys, passou a ser chamado a toda hora pelas mulheres, que descobriram em que quartel ele trabalhava, para apagar falsos incêndios. O galã bombeiro declarou que gostava disso, tendo “apagado o fogo” de muitas fãs. Prova de que foi Mário de Andrade o primeiro a desnudar o herói brasileiro em seu Macunaíma.

Desde agosto de 2012, soldados, ex-militares e civis britânicos postam no Facebook fotos em que posam nus em apoio ao Príncipe Harry, humilhado pelo vazamento das imagens em que divertia pelado numa festa privada em Las Vegas. A comunidade Support Prince Harry with a naked salute! (Apoie o Príncipe Harry com uma saudação nua!), com 40.868 seguidores, só tem duas regras: os homens devem cobrir os genitais e as mulheres, genitais e seios. Alguns encontram maneiras criativas de tapar as partes pudendas. Não há notícia de que os militares em serviço tenham sido punidos pelas postagens. O administrador do grupo aventou a possibilidade de transformar a iniciativa numa ação beneficente – algo como um “calendário de heróis anônimos” para arredar dinheiro para hospitais ou qualquer outra causa nobre.

Uma resposta to “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”

  1. i 31/12/2012 às 10:06 #

    Ótimo, Luiz Nazario, curti demais a matéria LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Grata, Irene F.

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