PATRICIA HIGHSMITH

23 out

Patricia Highsmith.

Patricia Highsmith nasceu em 1921, em Fort Worth, no Texas, e cresceu em Nova York. Seus pais – Mary e Jay Bernardf Plangman – divorciaram-se meses antes que ela nascesse. Quando Patricia tinha três anos de idade, a mãe, uma artista comercial, casou-se novamente com Stanley Highsmith. A menina só descobriu que Stanley não era seu pai, mas seu padrasto, quando tinha dez anos de idade. Quis então conhecer Jay, seu pai verdadeiro, que encontrou pela primeira vez aos doze anos. Durante a infância, recebia mais cuidados da avó materna que da mãe. Tudo isso deu a Patricia Highsmith um senso confuso da própria identidade.

Educada no Barnard College, Patricia estudou inglês, latim e grego. Tinha dons artísticos, pintava e esculpia com talento, mas preferiu seguir a carreira literária. Começou escrevendo contos e tramas para histórias em quadrinhos para a editora Western Comics (1945-1947). Passou por pequenos empregos, como o de vendedora numa loja de Nova York, antes de estabelecer-se como escritora. Isto se deu após uma viagem à Europa em 1949, com o sucesso de seu primeiro policial: Strangers on a Train (O desconhecido no Norte Expresso)[1], escrito por instigação de Truman Capote, e que foi publicado em 1950, sendo logo adaptado por Alfred Hitchcock em Strangers on a Train (Pacto sinistro, 1951).

Um bem sucedido arquiteto cruza com um estranho num trem; o estranho é um charmoso psicopata que lhe observa que todos gostariam de eliminar alguém de sua vida e propõe que eles troquem os seus crimes ideais, mantendo seus álibis perfeitos: o psicopata mataria a mulher do tenista, que não queria dar-lhe o divórcio, impedindo-o de casar-se com a mulher que ele amava; e o tenista mataria, em troca, o odiado pai do psicopata, que o critica por levar a vida de um vagabundo, sendo ele rico e não precisando trabalhar para viver. Tempos depois, o psicopata procura o tenista: ele matara a mulher dele, e cobrava agora do tenista que ele matasse seu pai.

No filme de Hitchcock, o personagem que troca de crime com o psicopata não é mais um arquiteto, mas um tenista, um tipo esportivo, supostamente mais saudável, que chega a ir até a casa do pai do psicopata com uma arma no bolso, mas não chega a matá-lo. No livro, o arquiteto fica mais envolvido emocionalmente com o psicopata que no filme, pois vai até as últimas conseqüências do jogo, e acaba realmente matando o pai do outro. Patricia Highsmith não acreditava em finais felizes nem em bons mocinhos; tampouco punia moralmente seus criminosos psicopatas. Seus personagens flutuavam na ambigüidade moral e refletiam sua ambigüidade sexual, numa literatura fortemente influenciada pelo existencialismo.

Em Those who walk away (Os fugitivos)[2], Edward Coleman é um pintor obcecado pelo suicídio da filha Peggy, aos vinte e um anos de idade, então casada com Ray Garret, filho de um milionário petroleiro, cuja fortuna, sentida como um incômodo, ele gasta financiando artistas e fazendo caridade. Coleman culpa Ray pela morte da filha e tenta matá-lo, mas Ray sobrevive ao tiro de raspão; segue o sogro até Veneza, onde novamente é vítima de nova tentativa de assassinato, desta vez por afogamento. Ao invés de denunciar o sogro à polícia, Ray esconde-se e tenta, mentindo a todos, e até mesmo à polícia, uma nova aproximação com o sogro. E novamente ele fracassa: numa terceira tentativa de homicídio, o sogro o fere com uma pedrada na cabeça. Depois de uma investigação, o sogro é preso. Mas logo é libertado, e Ray acredita que o sogro tenha aprendido a lição. Nesse romance policial, o que há de mais estranho é o obscuro sentimento que move Ray, sexualmente dúbio, quase impotente; ele protege o sogro, sexualmente ativo, que tenta, incessantemente, matá-lo. Ray age movido por um masoquismo mascarado de sentimento de culpa pela morte da esposa, suicídio pelo qual não é realmente responsável. Seu interesse pelo sogro, seguindo-o e protegendo-o, é doentio, irracional.

No ensaio Reflexões sobre a questão judaica, escrito logo após a Segunda Guerra, Jean-Paul Sartre abordou um tipo de crime indefinido, cometido por homens de personalidade distorcida; para Sartre, o antissemitismo não era uma opinião entre outras, que deveria ser tolerada em nome da liberdade de expressão, mas uma paixão criminosa, cuja meta final era a morte do judeu[3]. Também em El crimen contra la humanidad, André Frossard refletiu sobre a então recente definição do crime contra a humanidade: “Há crime contra a humanidade”, ele resumiu, “quando se mata alguém sob o pretexto de que nasceu”[4]. De fato, o genocídio do povo judeu, levado a cabo pelos nazistas ao longo dos anos de 1941-1944, teve uma longa preparação cujo início poderia ser situado bem antes de 1933, com a tomada do poder por Hitler: a base do Holocausto foi o antissemitismo de fundo antropológico que se encontrava espalhado na Europa desde as teorias raciais do século XIX e, antes ainda, desde o antijudaísmo da Igreja Católica e sua Inquisição a partir do século XV e, ainda antes, desde as Cruzadas do século XI…

A característica mais singular da obra policial de Patricia Highsmith é o crime cometido por personalidades distorcidas, entre a normalidade e o patológico, de modo que o criminoso pode passar por uma pessoa de bem, e seu crime freqüentemente não ser passível de punição pela Justiça – como no caso da espetacular e surpreendente novela A Dog’s Ransom (O preço de um cão)[5], onde o psicopata que seqüestra o cão de um casal de velhos judeus queima na pia de seu apartamento o dinheiro que recebeu do resgate, destruindo a prova do ato criminoso, sem o que não pode ser condenado pela Justiça: a “prova” de sua “inocência” é a inexistência da prova que ele mesmo se encarregou de destruir (queimando o dinheiro), contra a lógica do crime comum, o motivo aparente do seqüestro, supostamente movido por interesse, na inexistência de outros motivos (vingança por alguma ação cometida pelo casal ou qualquer ódio pessoal).  

Neste sentido, o universo da escritora, considerada por muitos críticos como “amoral”, ao tornar alguns de seus criminosos charmosos os heróis de suas tramas e outros, odiosos e psicopatas, passíveis de não serem punidos pelas leis humanas, e sequer pelas leis divinas – pois eles continuam a viver normalmente, livres de tragédias e desgraças – é um universo pós-Holocausto, no qual se descobriu uma criminalidade ainda não definida pelas leis humanas. Highsmith é das poucas escritoras policiais que incorporou, em suas narrativas e em seus personagens, o saber que veio à tona em 1945, com a abertura dos campos nazistas de extermínio, e que Denis Rousset assim definiu em L’univers concéntrationaire: “Os homens normais não sabem que tudo é possível”[6].

Politicamente, contudo, Patricia Highsmith não deu mostras de um engajamento coerente. Na única dedicatória política que fez na vida, aderiu, aparentemente sem muita reflexão, à causa palestina. Assim escreveu na abertura de People who knock on the door (Gente que bate à porta, 1983): “À coragem do povo palestino e dos seus líderes na luta pela reconquista de uma parte de sua pátria. Este livro não tem nada que ver com o seu problema”[7]. De fato, a literatura de Patricia Highsmith nada tem a ver com a causa palestina, com as escolhas do povo palestino ou  com a “coragem” de seus líderes, que tinham acabado de seqüestrar e matar atletas israelenses desarmados nas Olimpíadas de Munique, e que sempre se mostraram pouco afeitos ao existencialismo e ao lesbianismo, que marcaram a vida, a obra e as escolhas de Highsmith.

A escritora viveu por algum tempo com a novelista Ann Aldrich, em Bucks County, na Pensilvânia, no fim dos anos de 1950. Mas como o lesbianismo era menos discriminado na Europa e como seus livros eram mais apreciados lá que nos EUA, Patricia Highsmith decidiu estabelecer-se em Veneza, depois perto de Locarno, na fronteira entre a Itália e a Suíça, vivendo como expatriada. Sob o pseudônimo de Claire Morgan publicou uma novela onde explorava a homossexualidade feminina, The Price of Salt (1952), que ela reeditou apenas em 1984 como livro de sua autoria, sob o título de Carol. Segundo os críticos, esta novela seria o primeiro exemplar de pulp fiction lésbico. Também sua última novela Small G: a Summer Idyll (Small G, 1995)[8], publicada postumamente, passa-se em Zurique, com a ação concentrada num bar de homossexuais, cujos freqüentadores são atormentados por um psicopata homofóbico.

Patricia Highsmith escreveu vinte romances e sete coleções de contos. Cinco dos romances são protagonizados pelo simpático falsário Tom Ripley, personagem moral e sexualmente ambíguo, que apareceu pela primeira vez em The Talented Mr. Ripley (O talentoso Ripley, 1955)[9], e tornou-se popular através de diversas adaptações cinematográficas: Plein Soleil (O sol por testemunha, 1960), de René Clément, com Alain Delon; Der amerikanische Freund (O amigo americano, 1977), de Wim Wenders, com Dennis Hopper; Trip nach Tunis (1993), de Peter Goedel, com David Hunt; The Talented Mr. Ripley (O talentoso Ripley, 1999), de Anthony Minghella, com Matt Damon; Ripley’s Game (O retorno do talentoso Ripley, 2002), de Liliana Cavani, com John Malkovich; Ripley Under Ground (2005), de Roger Spottiswoode, com Barry Pepper.

Patricia Highsmith vivia reclusa em seu chalé, mas mantinha um diário pessoal. Seu biógrafo Andrew Wilson, que teve acesso a este diário ainda inédito, revelou que a escritora teve diversas amantes ao longo da vida, desmentindo a imagem de eremita e solitária com que se cercou, para evitar comentários. A escritora recebeu diversos prêmios: em 1957, o Grande Prêmio Francês da Literatura Policial; em 1964, o Silver Dagger da Associação Ingleses de Escritores Policiais; o Prêmio O. Henry Memorial; e o Prêmio Edgar Allan Poe. Morreu na Suíça no dia 4 de fevereiro de 1995. Seus arquivos pessoais são conservados em Berna.


[1] HIGHSMITH, Patricia. O desconhecido no Norte Expresso. Lisboa: Edição “Livros do Brasil” Lisboa, sem data.

[2] HIGHSMITH, Patricia. Os fugitivos. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

[3] SARTRE, Jean-Paul. Reflexões sobre a questão judaica, in: Reflexões sobre o racismo. São Paulo: Difel, 1968, p. 5-88.

[4] FROSSARD, André. El crimen contra la humanidad. Santiago: Hachette / Ediciones Pedagógicas Chilenas, 1990.

[5] HIGHSMITH, Patricia. O preço de um cão. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.

[6] ROUSSET, David. L’univers concentrationnaire. Paris: Les Éditions de Minuit, 1981.

[7] HIGHSMITH, Patricia. Gente que bate à porta. Lisboa: Edição “Livros do Brasil” Lisboa, 1990.

[8] HIGHSMITH, Patricia. Small G. São Paulo: Editora Mandarim, 1996.

[9] HIGHSMITH, Patricia. O talentoso Ripley. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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