ACABANDO COM O MUNDO

25 set

Imagem da Internet em 2006, a partir de pesquisas do Projeto Dimes, em: http://www.netdimes.org/new/

Tese: A Internet acaba com o mundo. Antítese: A Internet é livre. Síntese: Os internautas acabam livremente com o mundo.

De fato, ao receber, há tempos, por e-mail, o divertido artigo da jornalista Marli Gonçalves, “Você já teve vontade de sumir?”, chamou-me a atenção o último parágrafo, que citava um poema de Mario Quintana:

Quando se vê, já são seis horas;

quando se vê, já é sexta feira;

quando se vê, já terminou o ano.

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê, já passaram-se 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas (…)

Gostei tanto do verso “a casca dourada e inútil das horas” que desejei ler o poema na íntegra. Para poupar tempo (tenho o livro em algum lugar de minha biblioteca, mas onde?), fiz uma pesquisa na Internet. De imediato encontrei, além do que imagino ser uma transcrição fiel do poema, seis outras versões diferentes, postadas por blogueiros que amam tanto Mario Quintana que se acham no direito de modificar o sinistro título do poema “Seiscentos e sessenta e seis” para “Vida”, “A vida”. “Novo Ano”, “A casca dourada inútil das horas”, “O tempo”, “19 Ago”; acrescentar versinhos piegas de auto-ajuda sobre perda de amor e necessidade de “segurar” os namorados; recordar oportunamente Natal e Fim do Ano; diminuir a idade crítica de 60 anos – justificada no poema desde o título – para arbitrários 50 anos; trocar o simples jogar pelo caminho por um manhoso jogar pelos cantos; destruir, enfim, com suas baboseiras, o poema que tanto “amam”.

And all men kill the thing they love – “E todos os homens matam a coisa que amam”, escreveu o profeta Oscar Wilde. Como os consumidores de DVDs e CDs piratas que vão minando, por amor ao cinema e à música, o mercado videográfico e fonográfico, também os blogueiros assassinam os poemas que exaltam manipulando seus versos, deteriorando seus sentidos, reduzindo a visão dos autores ao seu próprio estreito universo mental. Milhões de blogueiros difundem a literatura que falsificam para milhões de outros que a tomam por autêntica, deturpando-a ainda mais, edificando coletivamente uma Babel já carcomida antes mesmo de nascer, um inferno virtual repleto de boas intenções. Mallarmé sonhou que o mundo existia para acabar num livro. A Internet agora existe para acabar com o livro e para acabar com o mundo.

POEMA ORIGINAL: “Seiscentos e sessenta e seis”, de Mário Quintana, conforme transcrito aqui.

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas: há tempo…

Quando se vê, já é sexta feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem –

um dia – uma outra

oportunidade,

eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

VERSÃO ADULTERADA 01: “19 Ago”, de Mario Quintana, publicado aqui.

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano… A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

VERSÃO ADULTERADA 02: “A vida”, de Mario Quintana, publicado aqui.

A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira…

Quando se vê, já é Natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida…

Quando se vê, passaram-se 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava

o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca

dourada e inútil das horas…

Seguraria o meu amor, que está a muito à minha frente, e diria

EU TE AMO…

Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido

à falta de tempo.

Não deixe de ter alguém ao seu lado

por puro medo de ser feliz.

A única falta que terás será desse tempo que infelizmente…

não voltará mais.

VERSÃO ADULTERADA 03: “A casca dourada inútil das horas”, de Mario Quintana, publicado aqui.

A vida são deveres que trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê, passaram-se 50 anos!

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada inútil das horas…

Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo.

A única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.

VERSÃO ADULTERADA 04: “O tempo”, de Mario Quintana, publicado aqui.

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…

E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.

Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

VERSÃO ADULTERADA 05: “Novo ano”, de Mario Quintana, publicado aqui.

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando de vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…

VERSÃO ADULTERADA 06: “Vida”, de Mario Quintana, publicado aqui.

Vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê já são seis horas.

Quando se vê já é sexta feira.

Quando se vê já terminou o ano.

Quando se vê passaram-se 50 anos…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e ia jogando pelos cantos a casca dourada inútil das horas.

E assim por diante. Poderíamos citar ainda outros casos famosos de adulterações e de falsas atribuições de autorias, como, por exemplo:

1. O “texto de despedida” inventado como se fora “de” Gabriel Garcia Marques.

2. A falsa atribuição a Jorge Luis Borges do poema “Instantes”, que não escreveu verso algum dele, mas que, de tanto circular pelo mundo com seu nome, foi publicado como sendo de Borges em centenas de blogs e até no best-seller Como chegar depressa, indo devagar, de Lothar J. Seiwert. O poema foi citado assim num desses blogs que aparecem e desaparecem da noite para o dia: “Numa dupla homenagem aos idosos, cujo mês transcorre em setembro, e a JORGE LUÍZ (sic) BORGES, que, se vivo fosse, estaria com 90 primaveras, aqui vai um texto do grande escritor argentino. Sabia que estava morrendo, o velho Borges, mas ainda teve forças para nos deixar uma mensagem sobre a existência. Se isto não é a culminância de uma vida, então não sei o que é.” Em outro blog de vida curta, o poema foi reproduzido sob o título “Nunca percam o agora”, com a seguinte apresentação: “Jorge Luis Borges, o maior escritor argentino, falecido em 1985, aos 86 anos, passa uma lição de vida, dando o seu recado em versos. Quase ao fim da vida, o escritor ditou para a esposa-secretária um texto comovente. Uma espécie de reflexão de quem espera a morte com a consciência de um poeta que sabe que a vida, principalmente, se resume em pequenas coisas. Como o simples ato de andar descalço, contemplar a alvorada e brincar com as crianças.”

3. Affonso Romano De Sant’ Anna teve seu belo poema “A implosão da mentira”, publicado pela primeira vez no JB em 1981, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor (uma transcrição fiel pode ser lida aqui) reduzido em milhões de e-mails a “uma versão pobre e estropiada” reproduzida em milhares de blogs, o que levou o autor a apelar aos internautas: “Há um ano que mando desmentidos, mas todos os dias chegam novos e-mails com o falso texto. Peço que contra-ataquem em seus blogs, sites e toda forma eletrônica de comunicação divulgando esta verdade textual. Em tempo: cuidado com os que dizem que a verdade não existe, com os que celebram a “morte do autor” e acham que a arte é a casa da mãe Joana. São mentiras a serem ex/implodidas. Grato pela divulgação.” (Affonso Romano de Sant’ Anna, Verdade textual, 25/10/2008).

Não se trata daquela velha ignorância que sempre existiu ou de lapsos de memória (Glauber Rocha, em Di Cavalcanti, recitou o verso de Augusto dos Anjos: “Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera…”, como: “Ninguém assistirá ao formidável enterro de tua última quimera…”). Erros podiam ser corrigidos nas escolas, nas universidades, nas editoras. A ignorância atual é de outra natureza, trata-se de uma ignorância informatizada, que transita livremente na rede, e ainda por cima cultivada pelas novas elites, sem possibilidade de correção, porque reproduzida instantaneamente aos milhões:

Cena 01: O Presidente do Irã nega o Holocausto e afirma, em total contradição, que no Ocidente os pesquisadores são proibidos pelos judeus de pesquisar o Holocausto, promovendo, ao mesmo tempo, um concurso de caricaturas do Holocausto, do qual artistas brasileiros participam com entusiasmo;

Cena 02: O novo Presidente dos EUA, logo após ser eleito, manifesta sua primeira preocupação: quais cachorrinhos ele levará para a Casa Branca, devido à alergia da filha. Decide, entre outros, por um vira-lata: “Um vira-lata como eu!”, ele brinca com os jornalistas embevecidos.

Cena 03: O Presidente do Brasil, discursando para sindicalistas, na Itália, a 12 de novembro de 2008, oferece, cheio de moral, porque em seu país a crise financeira é só uma marolinha, sábios palpites sobre o tsunami que atinge o resto do mundo: “Eu não sou economista… Sou um torneiro mecânico!”, sendo aplaudido intensamente.

Cena 04: O Presidente da Venezuela…

Cena 05: O Presidente do Equador…

Cena 1000: O Presidente do Mundo… (leiam O terror, de H. G. Wells).

Esse filme não tem fim. Cada vez menos as próximas gerações lerão livros, cada vez mais usarão a Internet. Não se trata da destruição física do mundo (desta, as bombas atômicas se encarregarão), mas de sua destruição mental: desde que a Internet entrou no mundo, o mundo não existe mais para acabar num livro. E como a Internet está acabando com o livro, acabará também com o mundo. “É um teorema”, diria Pasolini. Um teorema dialético.

2 Respostas to “ACABANDO COM O MUNDO”

  1. Zana 26/09/2011 às 13:46 #

    Ok Luiz o poema já está original, não o titulo, vai ficar como eu postei.

    Qualquer coisa que achares…..é só falar…escrever, fazer sinal de fumaça..

    Abraço.
    Valeu🙂

  2. Carlos Costa Aguiar 05/10/2011 às 09:08 #

    Caro Nazario,
    Este seu texto é excelente. Você verá: em pouco tempo ele virará corrente na internet e será assinado pelo Veríssimo.
    Já vejo até o cabeçalho do SPAM:

    “Amigos, vejam só que texto interessante o Luis (Luíz, Luiz, …) Fernando Veríssimo escreveu …”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: