SERGIO PAULO ROUANET E OS TERRÍVEIS SIMPLIFICADORES

15 fev

 

Pilhas de ossos: Holocausto

No artigo “Os terríveis simplificadores” [1], o ensaísta Sergio Paulo Rouanet exercitou sua retórica liberal esclarecida recordando o historiador Jacob Burckhardt, que disse no final do século XIX que o século seguinte seria o dos “terríveis simplificadores”. A profecia de Burckardt teria se realizado com Adolf Hitler e Josef Stálin, que simplificaram a história, reduzindo-a a um confronto maniqueísta entre o bem e o mal, com o resultado da produção em massa de “seres humanos radicalmente simplificados, convertidos em cinzas e ossadas”.  Rouanet alertava que os simplificadores não haviam desaparecido. Ele os percebia operando por meio da “distorção holística”, ou seja, “a tendência a ver o todo como um conjunto indiferenciado, sem perceber que qualquer totalidade é tensa, que qualquer harmonia é aparente, que todo conjunto é fraturado por forças contraditórias”.

O ensaísta afirmava ser preciso opor aos simplificadores o que Edgar Morin chamava de “pensamento complexo”, para evitar generalizações espúrias. Para Rouanet, os simplificadores de hoje atuariam em várias frentes, mas, sobretudo, na relação com os Estados Unidos e com Israel. Na primeira frente, a distorção holística teria como foco uma totalidade abstrata que eles ignoravam ser composta de duas esferas que muitas vezes se opunham: governo e sociedade. Para os simplificadores, só existiria um conjunto homogêneo de “americanos”, representado por Bush. Rouanet qualificava, contudo, o atual governo norte-americano como um “grupo de extrema direita (sic) que tomou o poder (sic) na Casa Branca e no Pentágono, composto por fanáticos religiosos, por acadêmicos neoconservadores e por representantes de interesses empresariais”.

Rouanet solidarizava-se com os simplificadores que criticava ao confundir a “posição anti-Bush” (que compartilhava) com uma “posição anti-americana” (que supostamente não compartilhava). Aqui Rouanet destacava o movimento pacifista norte-americano, em radical oposição aos que “fizeram e apoiaram a guerra contra o Iraque” e que hoje se “opõem à ocupação daquele país”. Para Rouanet, a identificação da administração Bush com os EUA também tornava “invisível o corte qualitativo que ela representa com o passado”. Ou seja, “há uma enorme diferença entre a antiga política externa herdada do período da Guerra Fria, que bem ou mal reconhecia a existência do resto do mundo, e a nova doutrina estratégica dos EUA, que proclama a legitimidade de todos os meios considerados necessários para manter a hegemonia mundial de Washington”. Como se vê, Rouanet também usava a palavra “EUA” para definir o atual governo norte-americano, e ao considerar sua política externa como fascista, não distinguia entre EUA e Bush, tal como acusava os “simplificadores”.

Assim, logo ele adiantava que os “simplificadores” de esquerda (como ele) não constituíam um problema: “Os piores simplificadores vêm do campo dos que apóiam Bush, porque cometem duas vezes a distorção holística, e não apenas uma”. Aqui, a retórica de Rouanet dava mais uma entortada. Ele afirmava que os “Estados Unidos” eram um universal vazio (sic), sendo a atitude positiva com relação a esse universal vazio a primeira distorção; além disso, os partidários de Bush (que ele identificava aos “Estados Unidos”) consideravam todos os críticos não-americanos de Bush culpados de antiamericanismo:

Do seu ponto de vista, não deixam de ter razão, porque, se de fato o governo Bush se identifica com o país, atacar Bush é ser antiamericana. Mas, com isso, seu campo visual exclui a percepção dos outros críticos, dos que não somente não são antiamericanos, mas criticam Bush exatamente por levarem a sério os valores de liberdade e democracia embutidos no Iluminismo norte-americano. Esses simplificadores pró-Bush floresceram na França, na esteira dos atentados do 11 de Setembro. Os ‘novos filósofos’, hoje não tão novos assim, fizeram questão de dizer que as críticas à invasão do Iraque nada mais eram que a ressurreição dos velhos clichês do ‘antiamericanismo vulgar’, endêmico entre os intelectuais europeus desde os tempos da Guerra Fria. Jean-François Revel publicou um livro deplorando o que ele considera a ‘obsessão’ antiamericana. A verdade é que, se muitos críticos de Bush se enquadram nessa categoria, em sua maioria os críticos da invasão do Iraque estavam simplesmente condenando uma guerra imoral e ilegal, o que era seu direito e, quase diria, seu dever.

Defendendo, em última análise, o antiamericanismo como dever legítimo dos esquerdistas, Rouanet acabava por considerar intelectuais como André Gluksman, Bernard Henri-Levy e Jean-François Revel como os mais perigosos “simplificadores” –  comparáveis aos dois “terríveis simplificadores”– Hitler e Stalin. Mas o antiamericanismo foi apenas um preâmbulo para o verdadeiro alvo da retórica de Rounaet: Israel. Aqui, ele identificava a segunda frente da distorção holística que compreenderia o governo de Israel, a sociedade israelense e o povo judeu como um “todo”. Essa homogeneização fazia com que “uma crítica em si legítima ao governo de Ariel Sharon possa degenerar numa contestação a Israel – e mesmo numa posição antissemita – e no risco simétrico de que qualquer crítica a Sharon, mesmo sem essas características, possa ser interpretada, erroneamente, como anti-israelense e antissemita”. O objetivo dos contor4cionismos retóricos de Rouanet tornava-se mais claro: ele queria criticar Sharon (“Israel”) à vontade, sem medo de ser tomado por um antissemita.

Rouanet reconhecia que “boa parte da esquerda mundial está indo além da crítica a Sharon: ela está demonizando o próprio Estado de Israel. E está fazendo algo de infinitamente grave: pelo menos por omissão, está sendo cúmplice de uma nova onda antissemita, a mesma que tem incendiado sinagogas na França e na Turquia”. Ele observava que o antissemitismo de cunho fascista, latente no Brasil desde o Estado Novo, e difundido no tempo de Vargas por figuras como Gustavo Barroso, estava mudando de lado, que um antissemitismo que se pretendia de esquerda se generalizava cada vez mais: “Um partido socialista tem entre seus quadros um editor neonazista que nega a realidade do Holocausto. O direito desse neonazista de divulgar suas opiniões foi defendido, em nome da liberdade de expressão, por um juiz cuja origem ideológica era aparentemente de esquerda. Tenho ouvido jovens entusiastas, com impecáveis credenciais petistas, exprimirem seu repúdio a Sharon dizendo coisas que poderiam ter saído dos Protocolos dos sábios de Sion.”

Mas Rouanet identificava também “simplificadores no campo oposto”. Para ele, “muitos defensores de Israel concluem que qualquer crítica às atuais políticas governamentais daquele país tem características anti-israelenses e antissemitas. Vêem antissemitas em toda parte, como os antissemitas vêem judeus em toda parte”. Rouanet apontava que esses eram os piores “simplificadores”, já que suas simplificações “são também direta ou indiretamente responsáveis por terríveis catástrofes humanas”. Teria sido uma simplificação desse tipo, “inspirada por um anti-americanismo primário”, que teria levado ao atentado contra as Torres Gêmeas, que teria por sua vez alimentado “a alegria obscena com que milhares de pessoa comemoraram esse ato de barbárie, e que fez com que muitos intelectuais no fundo se regozijassem com o ataque”.

Seria ainda uma simplificação, inspirada pelo ódio contra Israel, que estaria “na raiz dos abomináveis atentados suicidas praticados pelos palestinos e que faz com que muitos brasileiros que se dizem racionais dêem estatuto heróico aos mártires, ao invés de lamentarem a atrocidade do seu ato de fanatismo”. Seriam também “simplificadores terríveis” os americanos que “declararam guerra ao mundo islâmico, sem se darem conta de que a vasta maioria da população muçulmana se dissociou do terrorismo”, e os membros do governo israelense “que tratam toda a população palestina como se fosse composta de terroristas”. Seriam, enfim, “terrivelmente simplificadores os que rotulam de antiamericanos e antissemitas todos os críticos de Bush e de Sharon”.

Tendo a retórica anti-distorção holística de Rouanet provado que os americanos, os membros do governo israelense, os defensores de Bush e de Sharon são “terríveis simplificadores”, ele concluía que “chegou a hora de acabar com as simplificações”. E oferecia-nos então uma receita de “pensamento complexo”:

No caso da relação com os Estados Unidos, uma esquerda mundial que se deixe guiar pela lógica do pensamento complexo saberá distinguir entre o governo Bush e os segmentos crescentes da população americana que se opõem à política belicista da atual administração. Seus interlocutores serão Noam Chomsky, Susan Sontag e Michael Moore, e não os pastores fundamentalistas e os magnatas do petróleo que hoje em dia circulam nos corredores de Washington. No caso da relação com Israel, essa mesma esquerda saberá […] fazer a distinção entre Israel e o judaísmo e, portanto, não imaginará que os interesses do Estado de Israel sejam representados pelos partidos religiosos ultra-ortodoxos, que, invocando as promessas feitas por Deus a Abraão, se opõem a qualquer retirada dos territórios ocupados. Em conseqüência, ela se identificará com os grupos de mentalidade secular que desejam sinceramente o entendimento com os árabes, e não com a coligação de partidos de direita e de extremistas religiosos dirigida pelo primeiro-ministro Sharon. Seus interlocutores serão pessoas como o romancista Amos Oz e o cineasta Amos Gitai ou os aviadores que se recusaram a atacar territórios palestinos. Seu modelo poderá ser o plano de paz conhecido como Iniciativa de Genebra, recém-negociado entre pessoas de boa vontade, com participação de políticos israelenses. Essa iniciativa, mesmo simbólica, mostra que ainda há lugar para a razão, num conflito complexo que duas intolerâncias rivais parecem condenar à mais extrema das formas de simplificação – o extermínio mútuo.

Não poderia, é claro, haver maior simplificação. Reduzir o governo Bush a um grupo de “pastores fundamentalistas e magnatas do petróleo circulando nos corredores de Washington” e o governo Sharon a uma coligação de “partidos de direita e de extremistas religiosos ultra-ortodoxos que invocam as promessas feitas por Deus a Abraão para se opor a qualquer retirada dos territórios ocupados” é de uma ignorância assustadora. É por ignorância que Rouanet aponta, como interlocutores americanos para uma nova esquerda mundial de “pensamento complexo”, os intelectuais Noam Chomsky e Susan Sontag e o propagandista Michael Moore, e como interlocutores israelenses o escritor Amos Oz e o cineasta Amos Gitai.

Os interlocutores escolhidos a dedo já estavam, contudo, em desacordo: Sontag declarava não acreditar em nada do que Chomsky escrevia. Intelectual americano e judeu que, por razões obscuras, odeia Israel com a mesma intensidade quanto odeia os Estados Unidos, Chomsky foi desmistificado até no filme Tolerância zero, onde foi citado como útil à “nossa causa” pelos militantes neonazistas. E se Gitai ainda não percebeu como sua posição – assim como a de alguns pilotos israelenses que se recusam a cumprir ordens – é usada pelos antissemitas em todo o mundo, Oz passou a recusar a farsa do “processo de paz” mantida pelas esquerdas, não vendo mais possibilidades de diálogo com os palestinos em meio aos atentados suicidas.


[1] ROUANET, Sergio Paulo. Os terrríveis simplificadorfes. Folha de S. Paulo, 4 jan. 2004, Caderno Mais.

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