A CHAMA QUE CONSOME A BELA ALDEIA NÃO É BELA

15 fev
Bela aldeia, bela chama (1996).

Notas sobre uma premiada propaganda da limpeza étnica”. [1]

O artigo “Retratos da guerra civil nos Bálcãs”, de Rodrigo Arco e Flexa, publicado no Jornal da USP nº 369, sobre o filme Lepa sela lepo gore (Bela aldeia, bela chama, 1996), de Srdjan Dragojevic [2] , refletiu os mesmos sentimentos do público da 20ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que o indicou para o prêmio Bandeira Paulista; e do seu corpo de jurados (Rubens Ewald Filho, Godfrey Reggio, Jos Sterlling, Eizo Sugawa e Laila Eloui) que, entre outros onze filmes indicados, escolheu este como o melhor do festival. Lamentamos discordar do público, do júri e de Rodrigo Arco e Flexa. A premiação de Bela aldeia, bela chama constitui, mais que um erro, um escândalo e uma vergonha. Rodrigo Arco e Flexa elogiou o enfoque “crítico” de Dragojevic e chegou a concluir, mistificado pela violência das imagens: “O retrato do conflito que o filme constrói não é maniqueísta, não existe um lado bom contra um lado ruim”. É justamente essa a missão do propagandista de guerra, cumprida com eficiência por Dragojevic: convencer a opinião pública de que é preciso desculpar os genocidas.

Em 1980, o croata muçulmano Halil (Nikola Pejakivic, também co-roteirista do filme) brinca com o amigo sérvio Milan (Dragan Bjelogrlic) perto do  Túnel da União e da Fraternidade, que começou a ser construído na década de 1970 e que deveria ligar Zagreb a Belgrado,  como símbolo da nação unida. Ele permaneceu inacabado, como uma caverna moderna, “cheia de ogros, de fantasmas e de monstros” na visão dos personagens infantis. Doze anos mais tarde os dois amigos de infância encontram-se em lados opostos na guerra da Bósnia. Soldados sérvios embriagados queimam aldeias inteiras, assassinando seus moradores, até que um batalhão é emboscado no velho túnel pelos muçulmanos, num cerco que dura vários dias. Sem água ou comida, mantendo uma jornalista americana como refém, os soldados matam o tempo discutindo capitalismo e comunismo, sonhos de juventude e guerra dos sexos, num clima de crescente tensão.

O catálogo da Mostra Internacional de Cinema informava sobre Srdjan Dragojevic: “Iugoslavo, 33 anos. Seu filme começou a ser financiado pelo líder sérvio Radovan Karadzic. A esposa de Karadzic chegou a emprestar seu próprio revólver Magnum ao diretor para filmar uma cena. Logo que perceberam o tom crítico e irônico do enredo diante da guerra da Bósnia, as autoridades sérvias boicotaram-no de todas as formas. O filme, porém, foi um sucesso de público em seu país e recebeu boas críticas no exterior.” Durante o debate que se seguiu à apresentação do filme no Cine Paulistano (25/10/1996), questionei o diretor Dragojevic sobre isso: ele então negou que o casal Karadzic o tivesse ajudado. O texto do catálogo estaria errado. (Ou talvez o diretor não quisesse mais comprometer-se com o líder sérvio acusado de genocídio..,). Mas Bela aldeia, bela chama permanece uma propaganda da “limpeza étnica”.

Dragojevic justificou, com este filme – o primeiro a mostrar “o lado sérvio” do conbflito, a diversão de seus compatriotas queimando aldeias, saqueando e assassinando civis muçulmanos. Ele adota, de fato, a ótica dos agressores, que se imaginam as grandes vítimas da guerra. No filme, os pacifistas são caricaturados como farsantes e drogados; as enfermeiras como prostitutas que se divertem com um “capacete azul”; e a jornalista americana como uma intrusa que se rende à causa da “Grande Servia” pouco antes de ser morta pelos invisíveis “circuncidados”, que ainda estupram a professora e chacinam os “heróis” cercados no túnel.

O público desavisado aplaudiu no final da projeção, porque o diretor conseguia suscitar simpatia pelos criminosos de guerra sérvios com flashs de seu passado “humano”. Pode-se entender a receptividade do público e da crítica brasileiras a esse filme dito “independente” (na verdade financiado pelo governo sérvio) pela desinformação e pelo tom de “denúncia” empregado pelo diretor em cenas de extrema violência. Mas, confrontado com os fatos, Bela aldeia, bela chama é um filme obsceno desde o título, uma propaganda de tipo nazista a distorcer, manipular e inverter a realidade: um exemplar de revisionismo cinematográfico produzido para confundir deliberadamente as platéias desavisadas e exaltar os genocidas.

Para Luiz Carlos Mertens, “o partido de Dragojevic é pela vida, contra a guerra”; para José Geraldo Couto, o filme “vibra de ferocidade e humor negro” e é “selvagem, inteligente, engraçado, terrível, refinado, vulgar”. O filme foi premiado no Brasil, em Moscou, em Fort Lauderdale. “Todos entendem que se trata de um filme contra a guerra”, argumentou Dragojevic, que declarou ainda: “O país que eu gosto tem croatas, sérvios e macedônios trabalhando juntos.” Excluía os bósnios muçulmanos. Dizia gostar “de algumas coisas” de Emir Kusturica, sem entrar em detalhes; e de Antes da chuva, de Milcho Manchevski – mas este deveria, a seu ver, “deixar Hollywood e retomar suas raízes na antiga Macedônia”. Já o então organizador do Festival de Veneza, o grande cineasta comunista Gillo Pontecorvo rejeitou o filme, por considerá-lo, como nós o consideramos, um exemplo do fascismo sérvio.

Biblioteca de Sarajevo em 1992.

Planejando a criação de uma “Grande Sérvia” após o fim do comunismo na ex-Iugoslávia, o presidente Slobodan Milosevic fez ressurgir o nacionalismo que levou à deflagração da guerra. Controlado pelos sérvios, o exército nacional atacou as repúblicas independentes da Croácia e da Eslovênia em 25 de junho de 1991. A economia fez o resto: a impressão ininterrupta de moeda pelo governo levou a inflação a 302.000.000 % ao mês. Foram emitidas notas de 500 milhões de dinares, equivalentes a onze marcos. Dez dias depois, valiam meio marco, que só comprava 500 gramas de batata que, uma semana depois, custavam 5 bilhões de dinares e, na semana seguinte, 50 bilhões. Um marco chegou a equivaler a 235 quilos de dinares. O governo precisou distribuir alimentos para a população e muitos só sobreviveram graças a parentes que cultivavam uma horta no interior.

Em janeiro de 1992, houve um cessar-fogo formal: os sérvios tomaram 30% do território da Croácia, fundando a República de Krajina. E passaram a combater na Bósnia-Herzegóvina. Ocuparam 70% do território da Bósnia, ficando o resto dividido entre croatas e muçulmanos. Em abril, Zeljko Raznajatovic – o comandante “Arkan” – liderou a perseguição aos muçulmanos de Bijeljina, desencadeando a “limpeza étnica” da Bósnia. Mas não havia aí etnias em conflito; sérvios, croatas e muçulmanos eram igualmente eslavos, casamentos mistos eram generalizados.

Em 1992 teve início o cerco a Sarajevo. Sérvios entrincheirados em edifícios abandonados criaram uma avenida de franco-atiradores que não poupavam nem as crianças. Os civis resistiram com grande coragem moral. O violoncelista Vedran Smailovic tocou, durante 22 dias seguidos, o Adagio de Albinoni em frente ao local onde, em junho, os sérvios mataram 22 pessoas que faziam fila para comprar pão. O editor Kemal Kurspahic, jornalistas e gráficos do Oslobodjenje (“Libertação”) continuaram imprimindo o jornal nos escombros de sua gráfica bombardeada. O diretor Haris Pasovic retornou a Sarajevo em 1992 para organizar um festival de cinema, e “as pessoas atravessavam a rua apressadas, correndo o risco de serem alvejadas por um franco-atirador, para aproveitar a chance de assistir a um dos 115 filmes exibidos”, conforme reportou Emma Daly ao The Independent.

O dia começava em Saravejo com o trabalho dos coveiros, protegidos dos franco-atiradores pela névoa da manhã. Dias normais: 17 buracos. O coveiro Hasim Muharemovic declarou a um jornalista: “É preciso cavar sempre. Pode estar começando um dia movimentado, uma semana movimentada.” Quando um comboio da ONU entrou pela primeira vez em Sarajevo, em 18 de junho de 1992, cadáveres apodreciam nas ruas e as pessoas comiam grama. Mais tarde, os sérvios algemaram em pontes 8 observadores da ONU para servir de escudos humanos contra bombardeios de objetivos militares, além de seqüestrar 30 soldados franceses e ucranianos e cercar outros 200 das Forças de Paz.

Em fevereiro de 1994, um ataque no mercado de Trznica matou 68 pessoas e feriu 200. Mais tarde, em agosto de 1995, uma nova bomba naquele mercado matou 37 pessoas e feriu 85. Outras pessoas ficaram feridas com bombas lançadas, logo depois, no Teatro Nacional, a poucas quadras; no hospital Kosevo, onde a maioria das vítimas estava; e numa igreja ortodoxa, onde morreu um fiel.

Durante a ocupação de Srebrenica, em julho de 1995, milhares de muçulmanos “simplesmente sumiram”, segundo o porta-voz do Alto Comissariado para Refugiados da ONU, Kris Janowski. Havia 42 mil muçulmanos em Srebrenica. Os sérvios afirmaram terem expulsado 30 mil para a vizinha Potocari. Mas, destes, só 20 mil chegaram. Dez mil “desapareceram”. Relatos tenebrosos de sobreviventes falam de soldados sérvios esfaqueando mulheres e estrangulando crianças famintas. Quase toda a população masculina foi exterminada em alguns dias sob o silêncio da comunidade internacional – 2.500 homens e meninos muçulmanos foram de várias formas humilhados (milicianos sérvios forçaram um avô a comer o fígado de seu neto) e depois fuzilados. Os corpos foram empurrados por tratores para dentro de valas comuns.

O Acordo de Genebra (1995) estabeleceu que a Bosnia-Herzegóvina continuará sua existência legal com suas atuais fronteiras, através de duas entidades, a Federação da Bósnia-Herzegóvina como ficou estabelecido nos Acordos de Washington (1994), e a República Sprska. Ambas as entidades terão o direito de estabelecer relacionamentos paralelos especiais com países vizinhos, de acordo com a soberania e a integridade territorial da Bósnia-Herzegóvina, assumindo compromissos recíprocos de realizar eleições completas sob o patrocínio internacional; de adotar e cumprir padrões de direitos humanos e outras obrigações internacionais normais, inclusive autorizar as pessoas deslocadas a retomar a posse de suas casas ou receber uma justa indenização; e de se submeter a uma arbitragem obrigatória para resolver disputas entre si. A ONU montou um tribunal para julgar os crimes cometidos em nome da “purificação étnica”, o primeiro do gênero na Europa desde o Tribunal de Nuremberg.

Uma comissão dirigida por Tadeusz Mazowiecki fez o levantamento dos crimes de guerra. Josef Rothblat, Prêmio Nobel da Paz, questionou o conceito: “O que é crime de guerra? Em minha opinião, toda guerra é um crime”. Uma teoria bonita. Mas quando a guerra é uma de tortura e extermínio de civis, assassínio de velhos e crianças, estupro de mulheres e meninas, a guerra ganha uma dimensão ainda mais criminosa, atingindo toda a humanidade: e esse crime contra a humanidade não pode ficar impune.

Ao longo da guerra, registraram-se atos de indescritível crueldade física e moral; execuções sumárias; trabalho forçado sob a mira de fuzis; detenções em campos de concentração; destruição de mesquitas, igrejas e sinagogas. A Biblioteca de Sarajevo ardeu em chamas com seus tesouros; a mesquita de Bey, construída em 1530, o maior santuário muçulmano da Europa fora da Turquia, foi seriamente danificada; e o Instituto de Estudos Orientais perdeu sua inestimável coleção de 5.263 manuscritos desde o século XI e sete mil documentos de propriedades de terras do século XIX. Em Mostar, a famosa ponte de pedra construída em 1566 pelo imperador muçulmano Suleiman, o Magnífico, com seu arco de 30 metros, foi pulverizada no dia 9 de novembro de 1993. A histórica cidade de Tulza foi devastada.

Na Croácia, mais de 200 bibliotecas foram destruídas. Nem a cidade de Dubrovnik, patrimônio cultural da humanidade, foi poupada. O centro barroco de Vukovar foi arruinado, assim como os centros históricos de Osijek, Kostajnica, Otocac, Gospic e Petrinja. Outra cidade do patrimônio mundial – Split – foi gravemente atingida. Os prejuízos elevam-se a mais de US$ 3 bilhões. A destruição do patrimônio histórico e cultural da Bósnia e Croácia não foi acidental: era mesmo um dos objetivos dos sérvios. Enfim, para produzir um necessário choque moral contra essa explosão da barbárie, a Corte Internacional de Justiça, com sede em Haia, indiciou 46 sérvios, 8 croatas e também 3 muçulmanos, entre os quais Zejnil Delalic, acusado de matar 14 civis sérvios no campo bósnio de Celebici, em 1992.

Zeljko Meakic foi acusado como comandante do campo de concentração de Omarska, onde havia 3,5 mil prisioneiros, e onde a cada dia 15 morriam por tiros, espancamentos e doenças. O subcomandante do campo, Mladen Radic, foi acusado por cinco estupros. Os sérvios obrigaram ali um prisioneiro muçulmano a arrancar a dentadas os testículos de outro. Fizeram outros muçulmanos beber água de poças, como animais, espancando-os depois até o ponto de não poderem mais se mexer.

Dusan Tadic, ex-professor de caratê, proprietário de um bar e presidente do Partido Democrático Sérvio (SDS) de Prijedor, foi acusado de incendiar casas, matar, violar, torturar e surrar bósnios e croatas. Criou “listas da morte” de intelectuais muçulmanos e, com ajuda de fanáticos encapuzados, fazia incursões exterminadoras em campos de prisioneiros. Ele matou 10 muçulmanos com barras de ferro e cabos de aço, com coronhadas e facadas, além de tiros de revólver. Arrancou os testículos de três prisioneiros e obrigou um quarto a beber óleo diesel.

O general sérvio-bósnio Ratko Mladic comandou o massacre de Srebrenica, dizendo a todos: “Não temam, nada vai acontecer a vocês. Nem um único fio de cabelo desaparecerá de suas cabeças”. Mas segundo o croata bósnio Drazen Erdemovic, que lutou ao lado dos sérvios, e que confessou ter participado do assassinato de 1200 muçulmanos em Srebrenica e Mladic, seus soldados bebiam e pareciam loucos, batendo nos muçulmanos com barras de ferro; quando as vítimas caíam eram levadas para a execução. Para que tudo terminasse rápido, usavam metralhadoras. Como os soldados erravam, muitos ficavam mutilados, e imploravam que acabassem logo com eles.

O ex-guarda sérvio Pero Popovic denunciou que no campo de extermínio de Susisa, no leste da Bósnia, comandado por Mile Jacimovic, grupos de muçulmanos eram executados todas as noites: “Ao todo, três mil foram mortos. Os que sobreviveram perderam suas casas e propriedades. Eu batia nos prisioneiros com barras de ferro. O pior é que eu os conhecia”, declarou ao The New York Times. Também foi emitida ordem de prisão contra o líder sérvio na Croácia, Milan Martic, mandante do bombardeio de Zagreb em 1995.

Após o ataque sérvio de 28 de agosto de 1995 a Sarajevo, que matou dezenas de mulheres, crianças e idosos que faziam compras no mercado e feriu outras dezenas, levadas ao hospital sem mãos, pernas ou braços, a OTAN lançou a maior operação militar de sua história, com o uso de 60 caças-bombardeiros para destruir o poder militar dos sérvios. A “operação cirúrgica contra alvos estratégicos” também matou pelo menos 12 civis, incluindo cinco observadores da União Européia.

Com a permissão do Parlamento Alemão, as Forças Armadas da Alemanha participaram de sua primeira ação de combate desde o fim da Segunda Guerra, com cinco caças Tornado sobrevoando o território da Bósnia. Helmut Kohl evocou “o dever que a Alemanha unificada deve assumir no seio da comunidade internacional”. A rentrée da Alemanha nas atividades de combate ocorreu justo no dia do 56º aniversário do ataque alemão à Polônia: 1º de setembro. A Itália ficou aborrecida por não ter participado da decisão da OTAN em bombardear o sistema de defesa sérvio. Outros países aliados não gostaram de ver mísseis Cruise voando na Europa. Aliado dos sérvios, o governo de Moscou (que exterminava os chechenos) protestou contra os bombardeios da OTAN e, numa nota cínica, anunciou que retiraria as crianças sérvias das zonas ameaçadas dando “aos pequenos refugiados sérvios os melhores campos infantis no sul de nosso país, onde poderão recuperar a saúde.”

Foi na Itália que ocorreu a maior mobilização civil contra a guerra: um milhão de pessoas formou, em agosto de 1995, um cordão de protesto ao longo da costa do Adriático. Para arrecadar fundos para as crianças da Bósnia, um grande concerto ao ar livre reuniu, a 12 de setembro, Bono, The Edge, Simon Le Bon, Brian Eno, Michel Bolton, Meatloaf e Cranberries ao redor de Luciano Pavarotti, em Modena. Quinze mil pessoas pagaram de US$ 20 a US$ 155 o ingresso. A princesa Diana, de Gales, foi à Itália prestigiar o evento. Declarou Pavarotti: “Acreditamos que quando a guerra estiver acabada para as crianças, elas também vão querer cantar. Sei disso porque eu tinha dez anos quando a guerra aqui terminou, e a primeira coisa que quis fazer para mostrar que estávamos vivos foi cantar”.

O cerco a Sarajevo deixou um saldo de dez mil mortos e 57 mil feridos. Não pode ser equiparado ao cerco a Stalingrado, onde mais de um milhão de pessoas morreram em 900 dias de sítio mantido pelos nazistas. Mas se, como afirmou um jornalista, “nunca houve um cerco igual ao de Sarajevo”, a singularidade desse cerco está em que, tendo durado mais de 1200 dias, foi transmitido para todo o mundo pela televisão, descrito ao vivo em reportagens internacionais, documentado em vídeo e cinema. A Guerra da Bósnia foi o mais longo e sangrento surto totalitário na Europa desde o fim do nazismo. Cerca de 300 mil pessoas morreram nos conflitos que provocaram um êxodo de 4,5 milhões de pessoas das diversas repúblicas – um quinto da população da ex-Iugoslávia, o maior número de refugiados provindo da Bósnia-Herzegóvina: 2,7 milhões ou 60% de sua população original.

As maiores vítimas das guerras de extermínio são sempre as mulheres e as crianças. Segundo Tadeusz Mazowiecki, Investigador de Direitos Humanos, que se afastou do cargo em protesto contra a impotência da ONU, a “purificação étnica” não era o resultado de ações militares, mas o objetivo principal da guerra. Os sérvios usaram o estupro sistematicamente como uma arma de terror para obrigar a população civil a deixar a região. Mais de 20 mil muçulmanas foram violentadas. Houve casos de mulheres inválidas torturadas com tesoura e cacos de vidro antes de serem mortas.

Segundo o relatório O Progresso das Nações – 1995, da UNICEF, 72% das crianças de Sarajevo tiveram suas casas bombardeadas; 91% delas viveram experiências de tiroteios; 40% sofreram ataques; 41% presenciaram pessoas sendo mortas ou feridas; e 19% testemunharam um massacre. As fotos do menino Aladin Hodzic, de quatro anos, que teve a perna direita arrancada; e de Sanje Aleksic, de sete anos, que teve a perna esquerda amputada em conseqüência das bombas caídas em Bihac, tornaram-se as imagens mais trágicas da “limpeza étnica”.

Os chefes de Estado europeus assistiram a tudo indiferentes, prestando apenas “ajuda humanitária”. Mais de dois milhões de explosivos permaneceram enterrados no território da ex-Iuguslávia. Robert Frasure, principal negociador americano na Bósnia, e os diplomatas Joseph Kruzel e Samuel Nelson Drew, morreram quando o blindado que os transportava na única estrada de acesso a Sarajevo derrapou num campo minado. Para saber se havia minas, “capacetes azuis” holandeses atiravam caramelos às crianças bósnias, que inocentemente corriam para buscá-las.

Somente por iniciativa americana foi assinado um tratado de paz, que definiu a manutenção da Bósnia como um único Estado, formado por duas entidades: a República Sérvia de Srpska e a Federação Muçulmano-Croata. Os líderes de Srpska continuavam esperançosos em unir sua república à Sérvia e Montenegro para formar a “Grande Sérvia”. Durante as negociações, rebeldes sérvios apedrejaram o carro da embaixadora dos EUA na ONU, Madeleine Albright, chamando-a de “prostituta” e “fascista”.

O Tribunal não conseguiu prender o ex-psiquiatra e fundador do SDS, Radovan Karadzic, o líder mais querido dos sérvios da Bósnia, e que somente em julho de 1996 renunciou à presidência de Srpska. Contava com o apoio de 90% dos habitantes da República Sérvia. Seu sucessor na presidência foi a bióloga Biljana Plasic, social-darwinista assumida e radical que considerava a “limpeza étnica” um “fenômeno natural”. O novo chefe do SDS, Professor de Filosofia Alemã (sic), Aleksa Buha, tinha por impossível a coexistência entre sérvios, muçulmanos e croatas: “A tradição multiétnica da Bósnia não passou de um acidente da História”, ele filosofou.

Apenas em novembro de 1996 o general Mladic foi destituído da chefia militar da República Sérvia, que continuava protegendo seus líderes acusados de crimes de guerra, impedindo que fossem colocados à disposição do Tribunal de Haia. Beijando crianças em sua campanha eleitoral, o genocida comandante “Arkan” afirmava que seus “tigres” da Guarda Voluntária Sérvia só haviam atuado em Bijeljina para “evitar um novo genocídio dos sérvios por parte dos ustashes e dos turcos” (sic). Declarou-se bonzinho: “Tenho muitos amigos muçulmanos. Costumo visitá-los e eles me visitam. Mesmo em Bijeljina tenho amigos muçulmanos”. Ele recordava o protagonista de Bela aldeia, bela chama, que mesmo depois de justificar-se perante o amigo de infância, e agonizando no hospital, só pensava em garfar o indefeso muçulmano desconhecido. Canibalismo justificado, pois para outro personagem do filme, os sérvios já comeriam com garfo enquanto outros povos ainda comiam com as mãos.

Susan Sontag, que encenou Esperando Godot na Sarajevo sitiada, reafirmou a injustiça de um tratado que legitimou a “limpeza étnica” ratificando a derrota da Bósnia: “Sou totalmente pró-Bósnia, a causa deles é justa e eles são vítimas de um genocídio – o quarto do século na Europa: depois dos armênios, dos judeus e dos ciganos, os bósnios… Muitas outras guerras como essa vão ocorrer. Guerras que parecem guerras civis, mas não são. Essa guerra foi uma agressão. A Bósnia foi invadida pela Sérvia […]. Os bósnios não podiam ganhar. Eles não são um povo guerreiro” [3].

Com a escritora, concordariam Ariane Mnouchkine, diretora do Théatre du Soleil, que permaneceu quatro semanas em greve de fome para que os franceses agissem na Bósnia; Emir Kusturica, autor do emocionante manifesto “Europa, minha cidade queima!”, publicado em abril de 1992, e do belo, imaginativo, mas algo excessivo filme Underground (Underground – Mentiras de guerra, Iugoslávia, 1995); Alain Finkielkraut, que não cessou de protestar contra o genocídio; o historiador Pierre Hassner, que acreditava que o ódio desencadeado pela “limpeza étnica” dificilmente iria cessar; Bernard Henry-Levy, que por seu filme-denúncia Bósnia! foi agredido com uma torta na cara por militantes sérvios no Festival de Cannes; da organização Médicins du Monde, que denunciou a barbárie em anúncio pago no Le Monde; os autores do filme coletivo bósnio Deus, o homem e o monstro; Juan Goytisolo, autor de Cadernos de Sarajevo e El Sitio de los Sitios, que ressaltou a cumplicidade da União Européia: “Todos estavam cientes do genocídio, da limpeza étnica e de todos os horrores que eram impensáveis na Europa depois do nazismo. Em lugar de apoiar o governo legal, os bósnios e os intelectuais sérvios e croatas que defendiam uma Bósnia multiétnica, multicultural e plurirreligiosa, colocavam-se ao lado dos que defendiam a tribo, o sangue, os valores primitivos e brutais.”

Em Veillées d’armes / The Troubles We’ve Seen: A History of Journalism in Wartime (Obserrvadores de armas, 1994) , um documentário com quatro horas de duração, Marcel Ophüls, lembrando que a verdade é primeira vítima da guerra, examinou as diversas versões dos fatos da guerra na ex-Iugoslávia procurando refletir de maneira sensata sobre o modo como a mídia a transmitia ao mundo. Instalando-se com sua câmera no Hotel Hollyday Inn, de Sarajevo, onde se hospedavam os correspondentes de guerra, Ophüls entrevistou profissionais de imprensa da França, Alemanha, Inglaterra; visitou políticos; saiu pelas ruas conversando com a população. Partindo do princípio de que tudo e nada podia ser verdade, dedicou a sérvios, bósnios, cristãos e muçulmanos a mesma atenção. A partir desse conflito, estendeu a reflexão para as imagens captadas pela imprensa em guerras passadas: na Espanha, no Vietnã, no Kwait. Por fim, diante do que viu e ouviu, tomou posição: contra as intenções sérvias de purificação racial, alertou para o perigo de uma nova expansão fascista.


[1] Artigo publicado em: http://www.fflch.usp.br/dlo/cej/gpd/bosnia.html, aqui revisto e corrigido.

[2] Lepa sela lepo gore (Bela aldeia, bela chama, Sérvia / Croácia, 1996, 115’, cor), de Srdjan Dragojevic, com Nikola Pejakivic, Milorad Mandic, Dragan Bjelogrlic, Petar Bozovic, Zoran Cvijanovic.

[3] SONTAG, Susan. Folha de S. Paulo, 26 de novembro de 1995.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: