PASSEANDO PELOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO

14 fev

Auschwitz-Birkenau

 

Há crimes contra a humanidade quando se mata alguém sob pretexto de que nasceu.

André Frossard

Numa linda manhã de sábado, em Amsterdam, depois de visitar a Igreja de São Nicolau, segui as indicações de um mapa e acabei encontrando, na confusão de ruas e canais, na Prinsengracht 263, a Casa de Anne Frank. O edifício, quase demolido em 1957, foi salvo por alguns eminentes cidadãos que se mobilizaram para conservá-lo; é hoje uma das maiores atrações turísticas da Holanda. Na longa fila dos que esperam a vez de entrar, ouço três rapazes brasileiros a comentar: “Mas quem foi essa tal de Anne Frank?” “Era uma mulher, durante a guerra.” “E os alemães mataram ela?” “Pois é. Os alemães são fogo!” “Uma secretária salvou os diários dela.” “E por que mataram ela?” “Não sei, acho que ela tinha uns segredos.” Neste ponto da conversa, resolvi intervir: “Porque era judia.” Os três voltaram-se espantados para mim, duvidando em uníssono: “Como? Só por isso?”

Como explicar o Holocausto em poucas palavras? A fila andava. Impossível resumir à maneira dos guias turísticos a tragédia de Otto Frank, que tentou manter sua família unida num esconderijo dentro do escritório de sua firma de geléias, onde o dentista Dr. Dussel e as famílias Frank e Van Daan também se abrigaram, em julho de 1942. Nem a leitura do diário de Anne Frank serviria: ele nos revela mais sobre as transformações psicológicas da menina, que amadurece rapidamente dentro do anexo. Denunciado à polícia de segurança alemã, o anexo foi arrombado a 4 de agosto de 1944. Os refugiados foram mandados para diferentes campos de concentração. A senhora Frank morreu de privações em Auschwitz, onde o senhor Van Daan foi gaseado. Seu filho Peter foi levado pelas SS durante a evacuação. O senhor Dussel morreu em Neuengamme. Em fins de outubro, as duas irmãs, Margot e Anne, foram deportadas para Bergen-Belsen, e contraíram tifo; Anne morreu logo depois de Margot, em março de 1945, poucas semanas antes do fim da guerra. A senhora Van Daan também morreu em Bergen-Belsen. Apenas Otto Frank sobreviveu, quando os russos liberaram Auschwitz.

E sobreviveu também o diário de Anne, que estava na bolsa que o nazista austríaco Karl Silberbauer, ao prender os refugiados, esvaziou no chão para guardar dinheiro e outros valores. Os manuscritos foram achados por Miep Gies, ex-funcionária da firma dos Frank. Ela guardou os papéis e, depois da guerra, entregou-os a Otto. Esse diário tornou-se o best-seller do Holocausto, sendo publicado em 50 países e idiomas, somando mais de 30 milhões de exemplares vendidos. Uma peça foi escrita para a Broadway, em 1955, pelo casal americano Frances Goodrich e Albert Hackett, servindo de base para o filme que George Stevens rodou em 1959, refilmado em 1980 por Boris Segal, para a TV. No Brasil, a peça foi encenada pela primeira vez em 1958, no Teatro Maria Della Costa, em São Paulo; no ano seguinte, a TV Tupi levou ao ar um teleteatro com Aracy Cardoso; em 1977, Miriam Mehler levou a peça no Teatro Paiol; e em 1995 a Troupe de Teatro Fliacs remontou-a, com Carol Machado fazendo uma divertida e trágica Anne Frank.

Peças e filmes baseados no Diário produzem uma forte sensação de impotência diante do Mal. A lenta e inexorável destruição dos personagens, induzida por uma realidade exterior alucinada pelo nazismo, recorda o inferno criado por Jean-Paul Sartre na peça Entre quatro paredes (Huis-clos). Por 25 meses, aquelas pessoas foram obrigadas a viver como ratos na toca, sem poder sair ou fazer qualquer ruído, simulando uma normalidade inexistente, passando fome, suportando os maus humores, cheiros e neuroses alheias, acuados pela sombra constante da morte, que rondava sob a forma da Gestapo. Em comparação, as privações relatadas por Zlata Filipovizc, a menina bósnia apelidada pelas mídias de “Anne Frank de Sarajevo”, mas que acabou encontrando refúgio em Paris, parecem um conto de fadas. Nos últimos dias, o resto de ar puro do anexo foi contaminado pela mesquinharia dos próprios refugiados – homens educados para uma vida normal, despreparados para enfrentar situações extremas. Somente Anne Frank soube inventar, primeiro, uma fuga na literatura e, depois, quando mesmo seu mundo interior foi invadido, outra fuga dentro da fuga, um esconderijo no esconderijo: colocando-se sob a janela de seu quarto, agarrou-se ao pedaço de céu que podia ver pela fresta – a tela de estrelas foi seu último abrigo.

Num pequeno livro autobiográfico, Um psicólogo no campo de concentração, Viktor Frankl presenciou um caso semelhante. Tendo conhecido no campo um jovem que se sabia condenado a morrer dentro de seis dias, espantava-se com o fato de o condenado mostrar-se alegre. “Agradeço ao destino”, ele dizia, “o ter-me ferido tão duramente. A minha vida anterior, a minha vida burguesa, era demasiado cômoda, e as minhas ambições, mesquinhas”. Nos dias finais, ele se concentrava cada vez mais em si mesmo. E apontava, fora da barraca, um castanheiro em flor: “Essa árvore é o único amigo que tenho no meio da minha solidão. Às vezes, falo com ela”, confidenciou. Confuso, o psicólogo não soube como interpretar aquelas palavras. Estaria o jovem delirando? Perguntou-lhe se a árvore também falava com ele, e o que dizia. O garoto respondeu: “Sim… Ela me diz assim: Estou aqui – estou aqui; eu sou a vida…”

Os campos nazistas

Os campos nazistas destinavam-se, no começo, a quebrar a oposição política ao regime. O devastador poder da Gestapo desencorajava resistências: notícias sobre campos ajudavam a conformar a população. Depois, com a invasão da Polônia, os alemães acreditaram ter nas mãos, nas palavras de Adolf Eichmann, “as fontes biológicas da judiaria”, e o objetivo passou a ser a destruição dos judeus.  Instalados na Alemanha e em toda a Europa ocupada, os campos nazistas atingiram, no apogeu da dominação hitlerista, o número aproximado de 5 mil campos, incluindo os campos de detenção e trabalho, como Mittelbau-Dora e Neuengamme; campos para judeus em trânsito, como Westerbork; campos de concentração, como Bergen-Belsen, Buchenwald, Dachau, Hadamar, Mauthausen, Ohrdruf, Oranienburg, Ravensbrück (único só para mulheres) ou Sachsenhausen; campos para prisioneiros de guerra, como Emsland; campos para prisioneiros civis, como Stutthof; grandes campos-guetos, como Theresienstadt, Varsóvia e Lodz; e as seis fábricas de morte montadas na Polônia, cujos nomes soam como sinônimos do inferno: Auschwitz-Birkenau, Belzec, Chelmno, Sobibor, Lublin-Maidanek, Treblinka.

As operações de extermínio de judeus e ciganos eram horríveis demais para serem difundidas mesmo nos círculos do NSDAP; mas os alemães podiam imaginar o que acontecia aos deportados. Igualmente secreta era a “eutanásia” em massa de alemães considerados inúteis por sua condição física ou mental; mesmo assim, os boatos circularam, até que alguns clérigos corajosos protestaram, conseguindo sua interrupção temporária. Nenhuma força opôs-se, contudo, ao extermínio massivo dos judeus e, em menor escala, dos ciganos.

Dachau

Quando, em 29 de abril de 1944, já no fim da guerra, os americanos entraram em Dachau, o primeiro campo a ser libertado, eles se depararam com um cenário indescritível: descobriam, pela primeira vez, o inferno dos campos de concentração. Havia  caminhões entulhados de cadáveres e os prisioneiros que ainda viviam encontravam-se num estado indescritível. Mais de 200 mil políticos, judeus, homossexuais, padres, criminosos comuns, testemunhas de Jeová e outros “elementos indesejáveis” de vinte nacionalidades haviam passado por Dachau. Mais de 32 mil haviam aí morrido de tifo, fome, esgotamento, devorados por piolhos.

Por doze anos, os moradores de Dachau ignoraram o que acontecia a poucos quilômetros com seus vizinhos prisioneiros. Mas a palavra “ignorar” tem um duplo sentido: não saber ou desprezar. Em qual deles os detentos foram “ignorados”? Muitos cidadãos temiam, caso demonstrassem um conhecimento comprometedor sobre o KZ, terminar ali também, atrás das cercas de arame farpado, apenas cinco quilômetros de suas casas. A maioria devia dar de ombros, alguns até com satisfação, por não pertencer “àquela gente”. Imagino os moradores de Dachau pedalando em suas bicicletas pelas imediações do campo, ao longo de suas cercas eletrificadas. Eles sabiam. E desviavam os olhos.

Visitei Dachau em 1993. Seguindo para o campo, a partir da estação de trem, tomei um caminho diferente daquele escolhido por um grupo de turistas e perdi-me, naturalmente, no meio da estrada. Perguntando a uma jovem motorizada se ela sabia onde se localizava o campo, obtive a resposta: “Vou entregar uma pizza ali perto. Venha, levo você até lá.” Quis saber como era morar em Dachau. “Não ligo, venho da ex-DDR, já tinha visitado Buchenwald, que é mais interessante como museu”, respondeu-me sorrindo, enquanto me deixava às portas do campo, seguindo com pressa para entregar suas pizzas.

Dentro do campo, num auditório lotado por turistas de várias partes do mundo – o cinema que, efetivamente, funcionava no campo –, assisto a um documentário sobre a abertura dos campos nazistas. As imagens, tenebrosas, colocam-nos diante do Mal absoluto. Mas nesses registros da libertação dos prisioneiros, tomados pelos cinegrafistas-soldados dos exércitos aliados, os mortos e os sobreviventes semimortos parecem todos bonecos de cera; nos rostos de alguns corpos ressecados, a morte até esculpiu um sorriso de caveira. O horror era mais vívido nas barracas, previstas para o sono de duzentas pessoas e onde até 1.600 prisioneiros eram obrigados a dormir; num carrinho de mão cheio de pedras, evocando os rituais de trabalho forçado e inútil, que matavam lentamente os detentos; na sala fria reservada às torturas, onde “voluntários” eram inoculados com vírus letais, congelados vivos ou colocados sob pressões baixíssimas, até explodir. Sim, o sistema dos campos nazistas parecia concebido por um louco feroz  em delírio. Como de fato o fora…

Saindo do campo, subo ao castelo de Dachau. Ali, há um jardim de rosas, e o perfume das flores atenua o cheiro da morte que se eternizou no ar do KZ. Os alemães restauraram o castelo e nele instalaram um agradável café. Os cidadãos vão até lá, nos fins de semana, saborear taças de chocolate, café com chantilly, doces, tortas, e sorvetes. Ah, o sorvete de morango do castelo de Dachau! Poucos turistas conhecem seu sabor. A maioria deles só se desloca de Munique até a pequena cidade para ver, filmar e fotografar o KZ. Tendo videografado e fotografado o campo, satisfeita a curiosidade, os turistas voltam depressa para Munique. É natural: não é por causa de seu castelo barroco, do alto do qual avistamos a Frauenkirche, que Dachau inscreveu-se na História e ali terá de ficar.

Porém, tão ilustrativo quanto visitar o campo é visitar o castelo. Só então compreendemos que não se podem isolar os males do nazismo da vida boa que os alemães pretendiam levar em plena “ignorância” deles. Dachau é um campo de horrores e um jardim de rosas, um museu de atrocidades e um bucólico Schloßcafé. O terror nazista possuía uma face delicada, um verniz de cultura. Nico Rost revelou, em Goethe im Dachau, que o campo possuía uma biblioteca, composta pelos livros confiscados aos prisioneiros, que ali podiam instruir-se e cultivar seus espíritos, entre turnos de trabalho forçado e sessões de espancamento.

A força que impulsionou os alemães a reconstruir seu país, depois de sua quase total destruição pelos Aliados o fim da guerra, transformando-o na primeira potência européia, talvez seja ainda parte da força acumulada pelo nacional-socialismo. Pode-se perceber no “milagre alemão” a emulação de uma energia liberada por Hitler, canalizada após a derrota do nazismo, para o capitalismo de mercado – uma espécie de vingança de Kremilda contra a morte de seu amado Siegfried.

Buchenwald

A poucos quilômetros da idílica Weimar, cidade onde viveram luminares da arte e do humanismo alemães, como Lucas Cranach, Johann Sebastian Bach, Christoph Martin Wieland, Gottfried Herder, Friedrich von Schiller, Johann Wolfgang von Goethe e Franz Liszt, cidade que é considerada a de maior significação cultural da Alemanha, foi erigido, em 1937, o campo de Buchenwald. O campo foi instalado bem nos bosques de Ettersberg, onde Goethe e Herder buscavam repouso e inspiração. No portão de entrada, a inscrição: “Jedem das Seine” (“a cada um, o que lhe é devido”).

Em Buchenwald, alguns guardas SS de iniciativa decidiram montar um cinema, trazendo para o campo filmes nazistas de sucesso dos anos anteriores, e cobrando ingressos dos prisioneiros em sessões noturnas. A sala foi inaugurada em maio de 1941, e servia também para agrupar os que seriam levados de manhã para o gaseamento.

O terror nazista possuía uma face delicada. O nazismo operava um amálgama aparentemente impossível de beleza e sadismo, de cultura e gaseamento, de felicidade e extermínio. Como escreveu David Rousset, em L’univers concentrationnaire, “os homens normais não imaginam que tudo é possível.”. Os campos nazistas trouxeram à tona uma verdade horrível: nem o mal absoluto altera a necessidade que os homens têm de normalidade. Os campos nazistas tornaram o velho humanismo inseparável da barbárie que ele não logrou impedir. Weimar e Buchenwald estarão desde então lado a lado para sempre.

E não nos esqueçamos das orquestras! Elas não podiam faltar no Holocausto. Todas as manhãs, marchas e operetas eram tocadas junto aos portões de Auschwitz por uma orquestra composta de mulheres, sob a regência de Alma Rosé. As marchinhas “encorajavam” os prisioneiros a trabalhar ou seguir para as câmaras de gás. O som servia também para abafar os gritos dos condenados e iludir os que chegavam de que a vida seguia seu curso normal, evitando o pânico que adviria se a multidão de judeus desembarcados soubesse que quase todos iriam morrer gaseadas dentro de duas horas. E os concertos certamente também serviam, na perspectiva dos carrascos, para dar às matanças um caráter cultural, elevando o espírito das autoridades durante seus pesados “deveres”. Os carrascos de mãos delicadas, pele rosada e olhos de azul cristal podiam ir assim “exterminar judeus como piolhos” apaziguados pela audição de Haydn, Bach, Mozart e Beethoven.

Auschwitz

Foi em Oswiecim, na Polônia, que os alemães instalaram a “central” do extermínio, incorporada ao ‘Terceiro Reich’, enquanto o resto daquele país permaneceu como um protetorado. Auschwitz – cujo portão levava a frase Arbeit macht frei (“o trabalho liberta”) – era a capital de um complexo de 39 campos. Dois quilômetros abaixo, estava Auschwitz II (Birkenau), onde se localizavam as câmaras de gás, e mais 5 ou 6 campos anexos. Mais além, a fábrica que financiava Auschwitz III (Monowitz), cercado por mais 30 pequenos campos, sendo Brno, na Morávia, o mais distante, a cerca de 100 quilômetros.

Em Auschwitz, segundo Primo Levi, em É isto um homem?, “cada prisioneiro tentava sobreviver comendo a carne viva do outro”. Os prisioneiros vinham de todas as partes da Europa e, ao chegar, não encontravam camaradas, mas inimigos. A maioria morria por não entender as ordens dos SS. Os alemães jamais falavam com os judeus: apenas gritavam-lhes. Até 1942, Auschwitz foi usado para a detenção de presos políticos poloneses. Depois da derrota em Stalingrado em 1943, os alemães, precisando de toda mão de obra disponível, mesmo a dos judeus, converteram Auschwitz num campo de extermínio através do trabalho. De dia, na fábrica, sob a autoridade da indústria alemã, os prisioneiros eram governados pelas leis trabalhistas (proteção contra acidentes, etc.); à noite, de volta ao campo, sob o controle dos SS, podiam ser enviados às câmaras de gás. Como observou Primo Levi, assim que os alemães perceberam que o trabalho poderia servir como uma tábua de salvação para os prisioneiros, eles o esvaziaram de sentido, fazendo os condenados carregar pedras de um lado para o outro ou cavar buracos para depois tapá-los.

Como mostrou Bruno Bettelheim, em O coração informado, os campos de concentração procuravam destruir a liberdade que os homens são em sua essência. Mas ali também alguns homens em processo de destruição provaram ser capazes de descobrir, dentro de si, uma vida além da vida e uma riqueza incomparável às misérias que o mundo oferece como suas grandes dádivas. Esse mistério da liberdade humana é celebrado no Museu Yad Vashem, localizado no Monte Herzl, em Jerusalém.

Um monumento à barbárie

Na Alemanha, Helmut Kohl inaugurou, em 1992, um memorial nacional lembrando o genocídio, localizado em Berlim, no edifício da rua Am Grossen Wansee, onde, em 20 de janeiro de 1942, o comando nazista decidiu implementar a “solução final da questão judaica”. Mas não é naquele museu e sim na exposição permanente Topographie des Terrors (“Topografia do Terror”), montada nas ruínas dos antigos escritórios da Polícia Secreta do Estado e dos Serviços de Segurança da SS e do Reich, na Prinz-Albrecht Straße, que podemos sentir todo o impacto da “Solução Final” – e isso através de uma única imagem – a fotografia de um monumento surpreendente, cuja descrição eu jamais vi mencionada em qualquer livro, mas que acredito imprescindível para legitimar o conceito, hoje desacreditado, de culpa coletiva.

Na Alemanha nazista, o antissemitismo já havia chegado a tal ponto que as autoridades do Reich puderam erigir e inaugurar com pompa, na altura da atual Mexikoplatz, em Berlim, um monumento em honra ao extermínio dos judeus – prova de que o Holocausto não era tão secreto quanto se acredita. Ali, a arte aliada ao poder exterminador deu ao mundo o mais estranho monumento público. A fotografia da obra, anexada sem destaque à exposição, não foi retomada no catálogo, pelo que nos limitamos a uma descrição de memória.

Trata-se de uma homenagem ao agitador antissemita Theodor Fritsch, um dos “inspiradores” de Adolf Hitler: dem völkischen Vorkämpfer zum Gedächtnis, 1852-1933 (“em memória ao precursor da luta racial, 1852-1933”). Não pudemos naquele momento identificar o autor da obra, nem a data de sua forja. Na fotografia só era legível a inscrição: “A questão judaica é basicamente a luta entre os honrados e os desonrados”.

Mais tarde – anos depois que escrevi o primeiro artigo publicado sobre este monumento –encontrei mais alguns dados sobre ele: segundo Christoph Knüppel, ele foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1935, em Zehlendorf, por iniciativa de seu então prefeito Walter Helfenstein (1890-1945), que o encomendou ao escultor nazista Arthur Wellmann. O monumento foi erguido na Praça Theodor-Fritsch-Allee, hoje Lindenthaler Allee, à altura da Niklasstraße. A imprensa da época assim descreveu o monumento: “A obra mostra como o combatente nórdico descia o martelo no crânio do dragão judeu, aniquilando-o.”[1] Numa alocução no seminário “Erinnerungskultur in Steglitz-Zehlendorf”, realizada em 2008, o historiador Thomas Irmer reporta a reção dos nazistas de Berlim, que se orgulhavam de possuir “o primeiro monumento antissemita da Alemanha”.[2]

Como toda obra artística inspirada no Mein Kampf, o monumento exaltava a luta contra o “judeu”. Compelido por pulsões eróticas recalcadas, o artista plasmara em pedra e bronze o sadismo contra os judeus, compartilhado por amplas camadas da população: montado sobre um monstro com cara de rato e patas de rã, um Siegfried de músculos rijos erguia um grande martelo para desfechar-lhe um golpe fatal na cabeça. O artista dera mostras de um grande poder de síntese, reduzindo a luta ao essencial ao embate corpo a corpo.

Em contraposição ao “monstro”, que representava a “raça degenerada dos judeus”, o “herói” representava a “raça superior dos arianos”. Força prometeica, ele afirmava a “humanidade” de sua super-humanidade. Sua virilidade e beleza estavam direcionadas para a destruição do Mal, encarnado no “judeu” abjeto. Tal representação é uma impostura evidente: o “super-homem” acreditaria enobrecer-se aviltando o “subhomem”? Seus valores são negativos; sua liberdade, dependência; seu ideal, mentira; sua luta, criminosa. Ao fixar o instante do extermínio, o monumento também fixava o desejo homicida – o artista captava o fragor da martelada que destruiria a “besta”, alijada, por sua forma, da espécie humana. Normalizar a loucura: foi esse o trabalho da propaganda. O primeiro monumento antissemita da Alemanha teria sido destruído em 1944 durante os bombardeios de Berlim.

Houve a partir de 29 de janeiro de 1939, quando Hitler “profetizou” o extermínio dos judeus, muitas caricaturas e um bom número de filmes explicitamente antissemitas. O documentário Der ewige Jude (“O eterno judeu” ou “O judeu errante”) comparou os “judeus” do gueto a ratos transmissores da peste; a cartilha Der Giftpilz (“O cogumelo venenoso”) pintou-os como cogumelos venenosos[3]; o filme de entretenimento O Judeu Süß (O judeu Suss, 1941), de Veit Harlan, mostrou o “judeu” como um vilão que terminava, por justiça, enforcado; e a caricatura O parasita apresentou-o como um verme horrendo. Mas o extremismo dessas propagandas não atingiu, pela própria natureza de seus meios, o efeito de perenidade conseguido pelo monumento antissemita, que materializou de fato a metáfora do extermínio, antes limitada pelo caráter volátil da linguagem oral-gráfica, pela difusão “intimista” dos panfletos e pela ambigüidade do naturalismo cinematográfico. A inscrição na pedra – “A luta contra o judeu é uma questão de honra” – sintetiza a motivação singular do Holocausto. Esse genocídio não foi o resultado de uma luta econômica, material, social, política. Como mostrou Peter Cohen, em The Architecture of Doom (A arquitetura da destruição, 1992), tratava-se de uma luta estética e biológica; em jogo estava a fantasia de uma raça pura.

No monumento antissemita, o herói encarrega-se de preservar a “pureza racial dos povos nórdicos”. Sua vitória remodelaria a humanidade como um escultor modela o gesso. Com o martelo que esmaga a cabeça do “monstro”, o artista forja o “novo homem”. O Holocausto é evocado como cirurgia plástica e operação sanitária. O martelo defende a preza da raça ariana contra a “corrupção” do judaísmo, transformado em sua bigorna: o herói nazista é médico social e agente secreto, higienista e exterminador, cirurgião plástico e torturador, artista e guerreiro, cientista e criminoso. A inauguração do monumento em praça pública mostra que o pathos que a inspirara não se limitava a uma alma adoentada, estando bem espalhado graças ao trabalho ideológico do NSDAP. Essa modelagem da população alemã fora enunciada nos primeiros anos do regime por Alfred Rosenberg em Der Aufbruch der Jugend in der Welt:

O segredo do sucesso nacional-socialista e da força de nosso movimento está, ao lado da inesgotável fé no Führer, na real vontade de todos os alemães de todos os tipos e sexos em se sentir não como pessoas privadas, segundo o moto do pensamento e da sensibilidade dos últimos 200 anos; e sim em reconhecer-se acima de tudo como mensageiros de uma tarefa determinada, como servidores de uma comunidade determinada.

O artista nazista não possuía poder formativo fora da comunidade à qual servia, refletindo apenas as modelagens que a propaganda nela operava, agindo como um mediador privilegiado entre as forças sociais desintegradas e o poder total do Estado. Um entre milhares de mensageiros dessa comunhão, o autor do monumento antissemita estava na vanguarda da “utopia” nazista: sua obra transmite hoje uma perspectiva do fim da História, a profundidade do mal que, por facilidade, chamamos de Holocausto. Esse genocídio não foi a realização final do nazismo, mas o início de um processo infinito de destruição.

O “Reich de Mil Anos” mal começara nos doze anos que durou o regime. A vitória nazista só seria assinalada com a morte do último indivíduo. Tal constatação é suficiente para nos felicitarmos de viver num mundo desnazificado, mas não – como o demonstram tantos fenômenos recentes – para nos sentirmos para sempre livres daquela energia. Será preciso educar muitas gerações na consciência da individualidade para que o monumento antissemita permaneça enterrado no passado, recordado apenas como uma imagem de pesadelo entre as ruínas do quartel-general da Gestapo.

Um monumento à memória

No complexo do Museu Yad Vashem, o Arquivo do Holocausto reúne mais de 30 mil depoimentos de sobreviventes. Na Avenida dos Justos são plantadas árvores para os que arriscaram sua vida para salvar judeus. O Vale das Comunidades lembra cinco mil comunidades judaicas desaparecidas: enormes menires formam um mapa da Europa quando vistos de cima.

Pelo Jardim do Memorial das Crianças, estrutura subterrânea feita de barras de concreto inacabadas, chega-se à sala dedicada às crianças assassinadas. E é este o mais tocante memorial do Holocausto. Nele, nenhuma imagem é evocada. Entramos no espaço escuro e temos que atravessá-lo guiando-nos apenas por um corrimão. É como se não existisse mais chão, paredes, teto. Caminhamos no escuro, ouvindo o recitar solene de nomes de crianças enquanto milhares de luzes brilham como estrelas.

Saímos sem palavras dessa experiência metafísica. O efeito perdura, e não diminui quando descobrimos que as luzes vêm de apenas oito velas acesas, refletidas ao infinito por um conjunto de espelhos. A emoção necessita de casos familiares, de dramas cotidianos, e a história de Anne Frank permite às pessoas comuns “vivenciarem” uma situação extrema. Lendo seu diário, assistindo à montagem de seu drama ou às suas versões cinematográficas, talvez alguns se tornem melhores em relação aos judeus, aos perseguidos, aos outros. Mas para “comunicar o incomunicável” do Holocausto, o Memorial das Crianças é mais eficaz. Ele vai além das palavras e das imagens, e nos faz lembrar que Anne Frank foi apenas uma entre 1.500.000 de outras crianças assassinadas por serem judias.

 


[1] KNÜPPEL, Christoph. Geschichte. Ferienland Luhme. URL: http://www.ferienland-luhme.de/seiten/heimland.html. Não encontramos, porém, nenhuma imagem da obra, nem mesmo no site especializado em esculturas nazistas em Berlim, que não a reporta: http://www.bildhauerei-in-berlin.de/_html/_katalog/chronologisch-NS-Zeit.html.

[2] IRMER, Thomas. Der Bildhauer Arthur Wellmann und sein Theodor-Fritsch-Denkmal – das “erste antisemitische Denkmal Deutschlands”. URL: http://www.berlin.de/imperia/md/content/basteglitzzehlendorf/bvv/sondermittel/bn_408_vzk.pdf.

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