A GLOBALIZAÇÃO DO ANTISSEMITISMO

14 fev

 

Modelo posa no Museu do Holocausto em Berlim para um editorial de moda...

A Segunda Intifada desencadeou um mal antigo que parecia erradicado, mas que permanecia em estado latente na cultura ocidental, esperando apenas a ocasião propícia para manifestar-se livremente: a judeufobia. Nos discursos e no imaginário das mídias de consumo, as diversas vertentes do antissemitismo assumiram, graças à globalização, um caráter mundial, envolvendo os mais inusitados parceiros: membros da extrema direita católica e seguidores da teologia da libertação; representantes da ONU e militantes ultranacionalistas; ministros de Estado e organizações anarquistas; parlamentares europeus e ditadores do Oriente Médio; ONGs antiglobalização e neonazistas; intelectuais conservadores e militantes de esquerda; fundamentalistas cristãos e agentes das mídias de consumo – todos passaram a falar a mesma língua no conflito entre israelenses e palestinos, num realinhamento de forças historicamente opostas que se irmanaram subitamentes na velha fobia aos judeus.

O antissemitismo explodiu com uma virulência que nada ficou a dever ao antissemitismo que deu sustentação ao estabelecimento do regime nazista. Revestido de um novo caráter político, esse fenômeno migrou nos anos 1950-1960 para o Oriente Médio alimentando-se do conflito israelense-palestino e, através dele, conquistou os grupos islâmicos radicais. Com o fim do sonho comunista, os extremistas de esquerda passaram a ver no extremismo islâmico, sobretudo em seu terrorismo de massa – simultaneamente teocrático e tecnológico –, uma força “antiimperialista”, passando a assimilar, de maneira perversa, o discurso islamita como “discurso revolucionário”, e de tal modo que os “discursos progressistas”  já pouco se distinguem dos discursos dos terroristas e dos neonazistas. Dado seu caráter totalitário, a nova judeufobia configura-se como uma ameaça global aos sistemas democráticos.

Sobre o conceito de judeufobia, o filósofo Pierre-André Taguieff, em seu livro La nouvelle judéophobie (2002), observou que o termo antissemitismo não descreve bem o novo fenômeno de ódio a Israel e aos judeus que se alastra pelo mundo[1] quanto o termo menos usado de judeufobia, mais apropriado, porém, às novas formas que assumem aquele velho racismo, em grande parte instigado pelos árabes extremistas, semitas também eles, pelo que se eximem de qualquer “antissemitismo”, ainda favorecidos em sua causa racista pela islamofobia dos racistas europeus: os antissemitas islâmicos que desejam destruir Israel e exterminar os judeus são assim apoiados pelas esquerdas em nome do “anti-racismo”, num paradoxo paradoxal que atinge as raias do surrealismo.

Vendida como sentimento da moda, como atitude “politicamente correta”, a nova judeufobia está agora presente em todos os meios de comunicação de massa: desde suas matrizes impressas até sua multiplicação através das novas mídias, como a Internet, onde o “homem comum” pode expressar livremente seu irracionalismo, que logo adquire caráter de “opinião”, através da edição moderna que dispensa os padrões éticos do velho jornalismo. O próprio jornalismo tradicional, sob a influência das novas mídias, abandonou seus normalmente frágeis princípios éticos, permitindo que seus repórteres e colunistas tomem partido diante dos fatos, apresentando-os somente depois que suas “opiniões” políticas subjetivas previamente os deformaram – e sempre para confirmar suas “opiniões”.

Num artigo publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, Jorge Boaventura, conselheiro da Escola Superior de Guerra, inspirado nos Protocolos dos Sábios de Sião, interpretou a então anunciada guerra ao Iraque como uma provocação da “nação pluriestatal”, que teria seu núcleo duro “naqueles que se conservaram ao longo do tempo mais homogêneos e solidários”, presentes “em todos os países do mundo”, e protegidos por “governos títeres que lhes servem de biombo”[2]. Boaventura reproduzia uma das vertentes do antissemitismo expressa nos EUA pelo ex-candidato à Presidência e comentador da CNBC, Pat Buchanam, que, num artigo publicado no órgão American Conservative, culpou pela então iminente guerra contra o Iraque uma “cabala” de polemistas majoritariamente judeus ou partidários de Israel. O congressista democrata James Moran usou da mesma retórica para acusar Israel e os judeus americanos de incitar Bush à guerra contra o Iraque, embora a porcentagem de judeus americanos que apoiavam a ação militar para desarmar Saddam Hussein (59%) fosse idêntica à dos americanos não judeus.

A 4 de junho de 2004, no quadro Liberdade de Expressão da rádio CBN, debatendo com Artur Xexéo um projeto de lei que propunha um novo modelo no qual os zoológicos atuais seriam transformados em centros de preservação da vida animal, o escritor Carlos Heitor Cony, membro da Academia Brasileira de Letras, denunciou a situação das galinhas em granjas norte-americanas nestes termos: “O que Hitler fez com os judeus na Alemanha é pinto diante do que os homens fazem com as galinhas.” A comparação do abate de galinhas com o genocídio dos judeus por Hitler pretendia ser mais cômica que ofensiva, embora o autor tenha, logo depois, na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, elogiado Gustavo Barroso como escritor notável por sua denúncia da especulação financeira no panfleto Brasil, colônia de banqueiro – descontado seu “equivocado” antissemitismo…  Desde A vida é bela (La vita è bella, 1997), de Roberto Benigni, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, fazer piada do Holocausto é sucesso garantido.

A comparação entre o maltrato das galinhas e o extermínio dos judeus, confirmando a leviandade com que as mídias passaram a tratar o tema, nem chegava a ser original: tal associação revisionista já fora feita na animação inglesa produzida pela Dreamworks de Steven Spielberg, A fuga das galinhas (Chicken Run, 2000), de Peter Lord e Nick Park. Nesse filme pretensamente libertário, as galinhas eram mostradas como judias prisioneiras de uma granja estilo Auschwitz (apesar de inglesa) e salvas pelo galo Rocky (Mel Gibson). Os personagens galináceos, mais simpáticos que os humanos, faziam o público torcer por eles contra os “nazistas” donos da granja. Na metáfora triunfava, contudo, o viés revisionista que fazia com que os judeus fossem galinhas em confronto com um casal inglês encarregado de representar as SS: uma agressão tanto às vítimas do Holocausto quanto à Inglaterra que resistiu heroicamente ao nazismo.

A zoomorfização dos judeus pode ser tomada como uma herança do antissemitismo biológico, mas também possui uma matriz mais antiga usada de maneira crítica por artistas e escritores judeus. Nos contos e narrativas de Franz Kafka, por exemplo, a metamorfose animal é constante, e o sentido da mutação de um personagem judeu em barata (A metamorfose) ou da descrição do povo judeu como povo de ratos (Josefina, ou o povo de ratos) é o da crítica velada de um judeu nal integrado à sua comunidade, e mais ainda aos que a perseguiam. Constrangido diante de seu judaísmo, Kafka animalizava os judeus, e a si mesmo enquanto judeu, para melhor denunciar o antissemitismo que tomava os judeus por outra espécie, “raça” apartada da humana, pronta para ser estigmatizada.

Outro tipo de zoomorfose, de caráter compassivo, encontra-se em filmes de sutil propaganda judaica, como no desenho “autobiográfico” O ratinho Fievel (An American Tail, 1986), de Don Bluth, também produzido por Spielberg, que contou, usando as formas consagradas da animação, a história do avô do cineasta: os ratinhos que sofriam pogroms dos gatos cossacos representam os judeus russos que imigraram para a América. A mesma animalização compassiva foi usada nas histórias em quadrinhos Maus I e II (1980), onde o artista plástico nova-iorquino, Art Spiegelman, nascido em Estocolmo, filho de Vladek e Anja Spiegelman, judeus foragidos da Polônia sob o nazismo, e que perderam o primeiro filho envenenado pela preceptora que matou também seus filhos para evitar que fossem para campos de concentração, recriou a história de seus pais: os judeus são ratos perseguidos por gatos em uniformes nazistas. A zoomorfose compassiva usada pelos judeus na subcultura de massa não deixa de ter um aspecto negativo ao subscrever a idéia da existência de “raças” humanas diferentes, numa afirmação inconsciente de suposta essência biológica diversa entre judeus e não-judeus.

Já os racistas usam a zoomorfose sem compaixão, com um sentido inteiramente negativo. Como no ‘Terceiro Reich’, quando a caricatura nazista retratava os judeus como parasitas e ratos, aranhas e polvos, também hoje se espalham, nas mídias árabes, caricaturas “antissionistas” que empregam o zoomorfismo para atacar um Estado (Israel) e seus líderes políticos (Sharon acima de todos) e atingir, através desse ataque, o povo judeu de Israel e da Diáspora. Esse zoomorfismo negativo está presente na obra do caricaturista brasileiro Carlos Latuff que, militando em prol da “causa palestina”, dessacraliza os símbolos religiosos e nacionais judaicos, inserindo a estrela de Davi e a bandeira de Israel nos contextos mais profanos (o soldado israelense como o bonequinho Chuck), animalizando especialmente Sharon, que ele retratou como aranha, galinha, polvo e até como o diabo.

Sharon, cuja história de sucessos militares “aterrorizava” os palestinos e cuja fisionomia se aproximava da imagem que os caricaturistas nazistas faziam do “judeu”, catalisou um antissemitismo profundamente recalcado em camadas inconscientes da psique coletiva: na França, seu nome era pronunciado em certas rodas intelectuais como Sharogne, de charogne, carniça. Nas mídias “antissionistas”, ele se tornou o alvo predileto dos caricaturistas, que o retrataram das maneiras mais disformes, torpes e degeneradas. A diabolização de Sharon, ou seja, a desumanização dos judeus através da animalização de suas lideranças – permite que, mesmo nas universidades, grupos de acadêmicos engajados na “causa palestina”, tida, sem questionamentos, como “justa e nobre”, passassem a propor o boicote aos acadêmicos israelenses nos programas de intercâmbio entre universidades estrangeiras, numa reedição de velhas medidas nazistas.

No primeiro semestre de 2004, a escritora espanhola e ex-parlamentar de esquerda Pilar Rahola, defensora de Israel ante o terrorismo islâmico, em rápida passagem por São Paulo, após uma conferência no Rio de Janeiro, não conseguiu obter nenhum dia livre na “lotada” agenda de eventos da Universidade de São Paulo, retornando à Espanha sem poder expor aos estudantes paulistas seu ponto de vista sobre o conflito no Oriente Médio: mesmo os últimos redutos do pensamento livre e independente vão sendo pouco a pouco contaminados. Escritores e artistas como José Saramago, John Le Carré, Jean Ziegler e Mikos Theodorakis ajudaram a dar, através de declarações raivosas contra Israel nas mídias de consumo, um prestígio intelectual ao pathos antissemita.

Nos chats da Internet circulam petições anônimas incitando ao boicote dos produtos de Israel; num chat brasileiro, um internauta usou o pseudônimo do comediante de origem judaica Bussunda para escrever: “Israel que tanto chora o holocausto da 2ª Guerra Mundial, pratica o mesmo com a nação Palestina. São racistas e segregacionistas. Tentam de todas as formas acabar com os palestinos”[3]. A linguagem truncada revela uma personalidade autoritária: Israel, que “choraria” (todo o Estado de Israel, incluindo os árabes israelenses?) excessivamente o Holocausto (palavra-conceito tradicionalmente escrita em maiúscula aqui grafada em minúscula como forma de relativização), praticaria “o mesmo” contra os palestinos. O mesmo: deportação em massa para campos de concentração e de extermínio? Assassinatos industriais em câmaras de gás e fornos crematórios? Torturas e fuzilamentos aos milhares? Genocídio de um povo inteiro? Esse “Bussunda” nos assegura sobre Israel: “são racistas”. Afirmando-se como arauto do “anti-racismo” (para acusar de racismo o objeto de seu ódio racial), “Bussunda” condena Israel como um Estado de judeus; nessa metonímia, Israel torna-se uma coletividade judaica exclusiva, já que “Israel… são racistas”. A frase traz um sujeito oculto: “eles”. Mas quem são “eles”, os racistas associados à palavra-conceito Israel? O autor não se refere aos árabes de Israel nem aos judeus ortodoxos extremistas cujos discursos têm tonalidades racistas; “eles”, os “racistas”, são os judeustodos os judeus que Israel passou a encarnar a seus olhos.

Israel converte-se numa espetacular fantasia antissemita: a pronúncia do nome desse Estado evoca nos antissemitas – naqueles que o dizem e naqueles que o ouvem – a imagem do judeu tal como ela aparece nas caricaturas nazistas. Essa imagem do judeu vê-se agora amplificada pela condição de Estado do antigo objeto primário da fobia. Com o advento de Israel, os antissemitas passaram a fantasiar um “megajudeu” capaz de todas as maldades, de todos os crimes. O Estado judeu passou a ser então qualificado como um Estado colonialista, imperialista e terrorista; um Estado condenado pela ONU mais que qualquer outro Estado do mundo; um Estado acusado diariamente pelas mídias de torturar, exterminar e massacrar a inocente população civil da Palestina; um Esttdo que instaurou um novo regime de apartheid, engendrando um novo nazismo; um Estado que criou um novo Gueto de Varsóvia ao construir um novo Muro da Vergonha, a fim de perpetrar um novo Auschwitz…

Depois que as mídias de consumo recuperaram a cineasta predileta de Hitler, a tão “inocente” Leni Riefenstahl, o cineasta holandês Paul Verhoeven, diretor de Starship Troopers (Tropas estelares, 1997),  filme que já continha no título original uma sugestão de exaltação das Tropas SS, tentou realizar uma cinebiografia de Hitler “de um ponto de vista humano”. Já a propaganda antissemita explícita no cinema, que ressurgira no documentário alemão Beruf Neonazi (Profissão: neonazista, 1993), de Winfried Bonengel, produziu seu primeiro blockbuster pelas mãos do consagrado ator e diretor Mel Gibson: The Passion (A paixão de Cristo, 2003): mostrando nas telas do mundo a agonia de Jesus com requintes de crueldade, Gibson renovou o mito do deicídio judaico para as massas, afastando-as do conhecimento histórico para mergulhá-las no irracionalismo. Um dos mais nefastos filmes produzidos em Hollywood, The Passion bloqueou o diálogo entre cristãos e judeus que parecia ter avançado notavelmente na última década.

Finalmente, as mídias árabes e, sobretudo, palestinas, passaram a incitar, de maneira cada vez mais explícita, o extermínio dos judeus, doutrinando suas crianças para se converterem em bombas humanas. Itamar Marcus documenta essas produções assustadoras, parcialmente financiadas pela EU, pela ONU, pela UNESCO e ONGs humanitárias, na coletânea de clipes e reportagens da TV Palestina intitulada Ask for Death (2004), que inclui imagens exultantes de um martírio empreendido na aniquilação dos “judeus degenerados”. Também a TV Egípcia exibiu a minissérie A Rider without a Horse (2002), estrelada por Muhammad Subhi em diversos papéis, e parcialmente baseada nos Protocolos dos sábios do Sião, incluindo cenas de grande sadismo nas quais “judeus sionistas” sangram crianças até a morte para fabricar matzot para a Pessach, numa propaganda asquerosa que nada deve às produções nazistas mais vulgares de Joseph Goebbels, como a do “documentário” Der ewige Jude (O eterno judeu, 1937), de Fritz Hippler, onde uma montagem perversa associava os judeus a ratos de esgoto, numa “sinfonia de horror” que terminava com a seqüência ilustrativa de como aqueles degenerados “haviam aperfeiçoado as técnicas de sangrar animais em seus matadouros”, com imagens de vacas degoladas por risonhos açougueiros judeus.

Diariamente, reportagens na imprensa nacional e internacional, programas jornalísticos nas redes mundiais de televisão – incluindo a Al Jazeera, a Al Arábia, a TV Hezbollah, a TV Palestina, a TV Egípcia -, chats e sítios na Internet e certos segmentos da produção publicitária e artística contemporâneas, incluindo animação, ilustração eletrônica, artes cênicas e plásticas, vídeo e cinema, abrigam, como nunca antes na história humana, nem mesmo durante o período nazista, imagens negativas de judeus para alimentar uma judeufonia de massa, vendida como nova ideologia revolucionária, capaz de trazer paz, amor e alegria ao mundo. Se a histeria global que produz esse imaginário racista prepara um novo Holocausto, ainda mais radical que o promovido por Hitler, no bojo de um terrorismo incessante e crônico, na esperança niilista de atingir seus objetivos apocalípticos, só o futuro dirá.


[1] Em junho de 2004, no espaço de apenas uma semana, dois judeus foram atacados em Paris: o filho de 17 anos de um rabino foi cercado por um grupo de rapazes, insultado e violentamente espancado; um homem atacou outro jovem judeu da mesma idade na saída de uma escola, esfaqueando-o no peito enquanto gritava: “Deus é grande!”. Cf. Folha de S. Paulo, 5 de junho de 2004.

[3] Globo Online, 9 de julho de 2004. Endereço: http://oglobo.globo.com/online/default.asp.

Uma resposta to “A GLOBALIZAÇÃO DO ANTISSEMITISMO”

  1. Fernanda 14/05/2011 às 23:36 #

    Como sempre, excelente artigo. Doloridas verdades que me fazem corar de raiva!

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