OSCAR WILDE

13 fev

 

Oscar Wilde e Lord Alfred Douglas

Em maio de 1994, a rainha Elizabeth II recebeu uma carta com um estranho pedido: que fosse concedido o perdão ao escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), condenado a dois anos de prisão por homossexualismo em 1895.[1] “Sua prisão foi tanto uma monstruosa perseguição a um homossexual quanto um ato de vandalismo cultural, que tirou de nosso país e do mundo um grande gênio”, esclarecia Peter Tatchell, do grupo Outrage. Em julho de 1994, o governo inglês rejeitou o pedido: “Não há motivo para supor que Oscar Wilde não tenha sido condenado e sentenciado de forma correta de acordo com a lei e a prática da época”, declarou James Toon, secretário pessoal do Ministro do Interior Michael Howard.[2]

De fato, a condenação foi correta; incorreta era a lei em nome da qual a vida de Oscar Wilde pôde ser destruída. Dez anos antes de seu processo, a legislação inglesa não condenava os atos homossexuais cometidos em privado entre homens adultos, apenas os atentados públicos ao pudor e as tentativas de corrupção da juventude. Foi Mr. Labouchere quem propôs, em 1885, a criminalização da prática sexual entre adultos do sexo masculino transcorrida entre quatro paredes. A nova lei, que criou um novo crime, entrou em vigor a 1º de janeiro de 1886, permitindo todo tipo de chantagem e invasão da privacidade. O artigo foi adotado quase sem discussão, e a única emenda, proposta por sir Henry James, visava a aumentar a pena máxima de um para dois anos de prisão.

A homossexualidade de Oscar Wilde deve ter se manifestado já em Oxford, onde se deixou seduzir pelas teorias da arte pela arte e onde também contraiu a sífilis. Mais tarde, aparentemente curado, casou-se com uma mulher rica e pouco inteligente, com quem teve dois filhos. Em sua mansão em Tite Street, Wilde produzia peças, contos e novelas de rara qualidade; depois, saía para levar rapazes, às vezes de baixa condição, a restaurantes caros. Como Dorian Gray, personagem de seu melhor romance, Wilde procurava, sobretudo, um prazer perigoso, freqüentando incógnito o bas-fond londrino. E, como que marcado pela fatalidade de sua criatura, acabou também cruelmente desmascarado ao cair sob a mira de um homem odioso…

O marquês de Queensberry era um espírito vulgar, esportista e lutador fanático, que maltratava a esposa e os filhos. Sua paixão era a maldade, a inveja e o ódio. Quando descobriu que seu filho lorde Alfred Douglas gozava da companhia constante de Wilde, quis conhecer este homem, e ficou fascinado por ele. Mas ouvindo “coisas” a seu respeito, começou a trabalhar para destruir a amizade entre os dois, ameaçando Wilde com cartas ofensivas, acusando-o de “posar de pederasta” e de corromper seu filho.

Como o jovem lorde Alfred Douglas sonhava em ver seu pai atrás das grades, Wilde, também cansado das agressões do marquês, resolveu processá-lo por difamação. Wilde tinha duas peças em cartaz, uma no Haymarcket Theater e outra no Saint-James. Seu processo no Old Bailey, entre 3 de abril e 31 de maio de 1895, envolvendo ilustres advogados e juízes da época, transformou-se na terceira sensação da temporada, mobilizando a imprensa e o público. Enquanto as acusações permaneciam no domínio da literatura, Wilde dominava a situação. No segundo processo, a acusação quis interpretar o sentido que a palavra “Vergonha” assumia no célebre poema de lorde Alfred Douglas:

Os dois amores

Jovem encantador,

Dize-me: por que, triste e suspirante, erras

Nestes reinos aprazíveis? Peço-te, dize-me:

Qual o teu verdadeiro nome? “Meu nome é o Amor.”

Então, o primeiro virou-se para mim,

E gritou-me: “Ele mente, porque o nome dele é a Vergonha.

Eu é quem sou o Amor, e costumava estar aqui

Sozinho, neste belo jardim, até que ele chegou

Como um intruso durante a noite. Sou eu o verdadeiro Amor, que anima de uma chama mútua os corações dos rapazes e das moças.

Então, suspirando, o outro disse: “Segue tua fantasia,

Porque eu, eu sou o Amor que não ousa dizer seu nome”.

Wilde defendeu o malicioso simbolismo do poema com uma descrição do amor platônico:

O Amor que não ousa dizer seu nome, em nossa época, é esta imensa afeição de um homem maduro por um outro mais jovem, parecida àquela que unia David e Jonathan, parecida àquela sobre a qual Platão ergueu os fundamentos de sua filosofia, parecida também àquela que se encontra nas obras-primas de Michelangelo e de Shakespeare. É esta afeição profunda, espiritual, tão pura quanto perfeita. Ela inspira e anima as grandes obras como as de Shakespeare e de Michelangelo e as cartas que escrevi, se não se as deturpa. Ele é incompreendido em nossa época, tão incompreendido que pode ser descrito como “o Amor que não ousa dizer seu nome”, e é por causa dele que me encontro agora aqui. Ele é belo, ele é grande, ele é a forma mais nobre da afeição. Não há nada nele que seja contra a natureza. Ele é intelectual, ele nasce fatalmente entre um homem maduro e um mais jovem quando o mais idoso tem gostos intelectuais e quando o mais jovem tem toda a alegria, a esperança e as miragens da vida diante de si. Que tem de ser assim, é o que o mundo não compreende. O mundo reprime este sentimento e põe no pelourinho os que são tocados por ele.[3]

Com este discurso, Wilde arrancou da assistência uma torrente de aplausos que deixou o júri confuso quanto ao veredicto. Suas réplicas foram descritas por um espectador como as mais notáveis feitas por um acusado desde que são Paulo compareceu diante do rei Herodes Agripa.

Contudo, no terceiro e último processo, o marquês passou ao ataque, colocando em dúvida a reputação de Wilde, que se viu obrigado a assumir, pouco a pouco, o papel de réu. Sua vida sexual começou a ser vasculhada pelos promotores e delatada por alguns de seus viciosos amantes de ocasião, chocando o júri, a platéia e os próprios advogados, que não sabiam mais que causa defender, uma vez que Wilde e Douglas haviam mentido, jurando-lhes solenemente inocência.

A partida estava perdida. Wilde foi aconselhado a deixar a Inglaterra antes que a prisão fosse decretada, mas ele parecia paralisado, dominado pela vontade de ir até o fim daquele jogo perigoso, que o atraía com sua fatalidade, como se o veredicto representasse seu destino. De fato, a condenação à pena máxima engendrou sucessivas catástrofes pessoais: Wilde teve seu casamento anulado, perdeu suas propriedades, móveis, livros, objetos de arte, seus próprios direitos autorais; teve suas peças tiradas de cartaz e seus livros censurados. Caiu na miséria e no esquecimento, abandonado por quase todos. Até Sarah Bernhardt recusou-se a pagar os direitos da peça Salomé, que havia adquirido, quando ainda desejava interpretar o papel principal.

Entre as poucas manifestações de humanidade, a mais importante foi o pedido de indulto feito por Bernard Shaw. Para o Daily Telegraph, Wilde havia “infligido ao público um dano moral da espécie mais vil e odiosa que seria possível a um indivíduo causar”. Para o Evening News, Wilde era “um flagelo social, um centro de corrupção intelectual, um dos grandes sacerdotes de uma escola que ataca tudo o que há de são, de viril e de puro no ideal da vida inglesa e exalta os falsos deuses de uma cultura decadente e de uma intelectualidade debochada”.[4] Nas ruas próximas ao tribunal, a imprensa honesta e a boa sociedade encontravam suas aliadas nas prostitutas que levantavam a saia em danças obscenas, festejando a queda de Wilde, que elas consideravam um perigoso rival de seu comércio.

Wilde saiu física e moralmente arrasado da prisão. A experiência da dor levou-o a escrever duas obras-primas: De Profundis, uma extensa carta de revelações espirituais e acusações dirigidas a lorde Douglas, e “A balada da prisão de Reading”, tétrico poema que se encerra com o célebre refrão:

Todos os homens matam o que amam

Seja por todos isto ouvido,

Alguns o fazem com acerbo olhar

Outros com frases de lisonja,

O covarde assassina com um beijo,

O bravo mata com punhal.[5]

Do cárcere de Reading, Wilde partiu para Paris, reatou com lorde Douglas e continuou a praticar os “atos impuros” de que se arrependera, cheio de remorsos cristãos, em De Profundis. Em 1899, o marquês de Queensberry encontrou o seu fim acossado por delírios persecutórios, nos quais se via cortado em pedaços por carrascos imaginários, aos quais chamava de “oscar wildes”… Meses mais tarde, o escritor, que jamais voltou a por os pés na Inglaterra, morreu em Paris vitimado pela sífilis. André Gide escreveu o melhor relato sobre os anos de decadência de Wilde, e lorde Douglas compôs, em homenagem ao amigo, o comovente poema “A morte do poeta”, considerado um dos mais belos da literatura inglesa.

Em Oscar Wilde’s last stand, Philip Hoare reportou que, em 1918, dezoito anos após a morte de Oscar Wilde, uma companhia de teatro ousou montar Salomé na Grã-Bretanha. Noel Pemberton Billing, membro do Parlamento e autonomeado protetor da moral publica, ficou indignado e denunciou Maud Allan, a dançarina norte-americana escolhida para o papel-título, como a líder de “um culto do clitóris” partilhado por 47 mil integrantes do establishment britânico que seguiriam as inclinações sexuais pervertidas de Wilde.

O Outrage não se conformou com a negativa do perdão oficial às vésperas do centésimo aniversário de Wilde. [6] Mas quem precisa de perdão? O drama desse escritor provou que o gozo associal da homossexualidade pode ser punido, a qualquer hora, pelos defensores do gozo institucionalizado por todos os Estados e consagrado por todas as religiões. Oscar Wilde teria mais uma vez preferido o exílio numa natureza imaginária: “A Sociedade que construímos não tem lugar para mim, nem tem lugar nenhum para oferecer-me; mas a Natureza, cujas chuvas benfazejas caem tanto sobre o justo quanto sobre o injusto, terá para mim rochedos cujas cavidades vão abrigar-me e vales secretos e silenciosos onde poderei chorar em paz. Ela enxameará a noite de estrelas para que eu possa caminhar pelas trevas sem tropeçar, e o vento virá apagar minhas pegadas, a fim de que ninguém possa seguir meu rastro para ferir-me; ela me purificará com suas imensas águas e me santificará com suas ervas amargas.” [7]

Uma vez condenado, Oscar Wilde dispensaria o gesto súbito e extemporâneo da tolerância do poder, sustentado pelas pessoas honestas e suas eternas aliadas, as mídias e a ideologia da prostituição, que destilam incessantemente propaganda e terror homofóbicos.


[1] Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) retirou a homossexualidade da lista de transtornos mentais; em 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) retirou-a da condição de desvio sexual; nos anos de 1990, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), que codifica distúrbios mentais, orientando a classe médica e psiquiátrica, retirou-a da lista; em 1993, devido à idéia de doença nele implícita, a Organização Mundial de Saúde (OMS) condenou o termo “homossexualismo”, substituindo-o pelo termo “homossexualidade”. Estes avanços científicos não impedem que religiosos de todo o mundo continuem a condenar a homossexualidade, estimulando com suas pregações a discriminação, a perseguição e o assassinato de homossexuais pelos fanáticos da homofobia. Ainda hoje 86 Estados membros das Nações Unidas, especialmente os islâmicos, criminalizam as relações sexuais consensuais entre adultos do mesmo sexo, oficializando a homofobia. No Irã, por exemplo, os homossexuais são enforcados com a presença obrigatória dos pais, que, se não comparecerem, serão igualmente enforcados. (OTTOSSON, Daniel. Homofobia no Estado. Uma pesquisa mundial sobre legislações que proíbem relações sexuais consensuais entre adultos homossexuais. Um relatório da ILGA, International Lesbian and Gay Association, 2008. Em: http://www.ilga.org/statehomophobia/ Homofobia_do_Estado_ILGA_2008.pdf.

[2] MALBERGIER, Sergio. Folha de S.Paulo, 22 jul. 1994.

[3] HYDE, Montgomery. Les trois procès d’Oscar Wilde. Paris: Denoel, 1951, p. 276-277.

[4] HYDE. Les trois procès d’Oscar Wilde, p. 27.

[5] WILDE. “A balada da prisão de Reading”, in Obras completas, p. 984.

[6] A data foi lembrada com uma série de homenagens a Oscar Wilde. Duas placas com seu nome foram inauguradas: uma no Royal Theatre Haymarkert de Londres por sir John Gielgud; outra no Poet’s Corner da Abadia de Westminster, ao lado das de lorde Byron e D. H. Lawrence.

[7] WILDE. De Profundis, in Obras completas.

3 Respostas to “OSCAR WILDE”

  1. Marília da Costa Oliveira 25/05/2011 às 23:41 #

    Parabéns pelo belíssimo texto!

    • Luiz Nazario 26/05/2011 às 04:29 #

      Grato, Marília!

  2. Loira 05/03/2012 às 22:07 #

    Muito obrigada, sou apaixonada por esse gênio literário, Oscar Wilde.

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