DEUS APÓS AUSCHWITZ

9 fev

 

Elie Wiesel

Gott nach Auschwitz. Dimensionen des Massenmords am jüdischen Volk (“Deus após Auschwitz. Dimensões do assassinato em massa do povo judeu”) é uma coletânea organizada por Eugen Kogon, Johann Metz e Elie Wiesel. Inclui um texto de Wiesel, “Die Massenvernichtung als literarische Inspiration” (“O extermínio de massas como inspiração literária”), que relata como em todos os guetos e campos de concentração sempre houve literatos, que deixaram escritos com a esperança de que um dia o mundo soubesse o que estava acontecendo. Alguns deles: Chaim Kaplan, Emanuel Ringelblum, Mordeca Tenenbaum, Marshal Rolnik, Rabbi Shimon Huberband, Leo Weles, Jankel Wiernik, Alexander Donath, Simon Dubnow, Zalman Gradowski, L. Langfuss, J. Wiernik. Esses cronistas da morte escreveram coisas arrepiantes.

Wiesel observa: “Muita coisa é dura, quase impossível de ler… Muitos destes diários foram encontrados entre as cinzas. Mas eu digo a mim mesmo que se estes homens tiveram a coragem e a força de escrever estas palavras, então temos também de ter a desesperada coragem de lê-los.” [1].  Wiesel cita, entre outros casos, o de Zalman Gradowski que, depois de registrar, em seu diário de Auschwitz, o desaparecimento de seus amigos, de seus parentes, de seus filhos e de sua mulher, conclui ter chegado a um ponto em que não podia suportar mais nada. Gradowski anota então em seu diário: “Eu não posso mais escrever sobre este mundo.” E passa a escrever, ao longo de umas vinte páginas, uma longa balada dedicada à lua.

Em outro ensaio, “Die Massenvernichtung als historisches Dokument” (“O extermínio de massas como documento histórico”), a historiadora Lucy Dawidowicz transcreve o primeiro parágrafo de um escrito encontrado nas cinzas de Auschwitz: “Caros amigos, revirem tudo aqui, cada palmo do terreno. Dúzias de documentos estão aqui enterrados, os meus próprios e os de muitos outros. Eles lançarão uma luz sobre o que aqui aconteceu. Também foram aqui enterrados muitos dentes. Nós do Comando os espalhamos de propósito por todo o terreno, tantos quanto foi possível, para que o mundo também encontrasse traços corporais dos milhões de homem que aqui foram mortos. Nós próprios já perdemos toda esperança de viver o momento da libertação.”[2]

Lucy Dawidowicz então se perguntava por que tão pouco espaço era dado, nos livros de História, à destruição dos judeus durante a Segunda Guerra. E encontrou três motivos principais: 1) a História continua a ser uma História da maioria, feita pela maioria e para a maioria: como minoria, os judeus têm pouco acesso à História oficial; 2) a maior parte dos historiadores, inclusive os historiadores judeus, não sabe lidar com o irracional na História, eles procuram racionalizar os acontecimentos, desprezando a psicopatologia de massa, a histeria de massa, a loucura de massa; 3) a atitude política dos historiadores frente à Alemanha, ocupando-se com a questão de “como o nacional-socialismo foi possível?”, ao invés de se perguntarem “como Auschwitz foi possível?”.

Da publicação de Gott nach Auschwitz até hoje, muita coisa mudou. Há atualmente uma quantidade muito maior de informação sobre o Holocausto na rede mundial de computadores, diversos Museus do Holocausto foram criados difundindo às novas gerações o conhecimento dos fatos, um Dia Internacional de Recordação da Vítimas da Shoah foi proclamado na ONU, sendo comemorado em diversos países, onde o Holocausto também passa a integrar o currículo das escolas. O memorial  de Auschwitz-Birkenau, o campo de concentração mais visitado do mundo, atingiu o recorde anual de visitantes desde sua abertura ao público há 60 anos: em 2009, cerca de 1,3 milhões de turistas, a maior parte estudantes, dentro de programas educativos de tolerância e democracia, visitaram o local, segundo o porta-voz do museu, Bartosz Bartyzel. [3]

Por outro lado, nunca houve como agora tantos negacionistas do Holocausto, revisionistas que difundem mundialmente, através, sobretudo, da Internet, versões deliberadamente mentirosas e falsificadas dos fatos históricos, e mesmo líderes de Estado, como o Presidente do Irã, que, sem nenhum escrúpulo, insiste, contra bilhões de documentos, em desacreditar o Holocausto. Intensificou-se, assim, como nunca, por um lado, a memória do genocídio do povo judeu, e por outro, o desejo de povos inteiros – representado em caricaturas de seus artistas e discursos de seus líderes – de apagar essa memória na meta de um novo genocídio.


[1] WIESEL, “Die Massenvernichtung als literarische Inspiration”, in AAVV, Gott nach Auschwitz, Freiburg: Herder,1989, p. 34-35.

[2] Texto original: “Lieber Freund, suche alles hier ab, jeden Zoll des Erdbodens. Dutzende von Dokumenten sind in ihm vergraben, meine eigenen und die von vielen anderen. Sie werden ein Licht werfen auf das, was hier geschah. Auch viele Zähne sind hier vergraben. Wir, die Kommandos, haben sie absichtlich über den ganzen Erdboden verstreut, so viele wie möglich, damit die Welt auch körperliche Spuren von den Millionen Menschen finden wird, die hier getötet wurden. Wir selbst haben alle Hoffnung aufgegeben, den Augenblick der Befreiung zu erleben”. Apud DAVIDOVICH, “Die Massenvernichtung als historisches Dokument”, in AAVV. Gott nach Auschwitz , Freiburg: Herder,1989, p. 60-61.

[3] Jornal Alef, Edição 1.534, 14 jan. 2011.

4 Respostas to “DEUS APÓS AUSCHWITZ”

  1. José Roitberg - jornalista 11/02/2011 às 12:47 #

    Caro amigo, já que vc postou sobre este tema, me motivou a organizar algumas informações coletadas em entrevistas com sobreviventes. Não li o texto abaixo.

    1) Para a grande maioria dos que sofreram e morreram, eles não se sentiam abandonados por Deus, mas numa situação que Deus lhes colocou.

    2) Um número considerável de mortos foi para a vala com a certeza de estar realizando a última instância do judaísmo, o kidush hashem (santificação do nome – de Deus), quando, segundo Maimônides – o que é mais aceito na modernidade – um judeu é morto apenas por ser judeu. Há vários relatos até mesmo nos relatórios dos comandantes de grupos de extermínio sobre orações específicas de kidush hashmem antes dos fuzilamentos.

    3) O pessoal comunista, quase a totalidade dos que combateram por conta própria ou em unidades partisans, formais ou informais, não tinha relação alguma com Deus, desfeita pela ideologia marxista.

    4) Entre os sobreviventes dos campos temos dois grupos predominantes: o que acha que sobreviveu ao inferno devido à crença em Deus; e o que acha que foi abandonado por Deus no inferno e sobreviveu por conta própria.

    5) Aí há uma divisão interessante. Há um grande número de sobreviventes que manteve as orações judaicas nos campos. Entre eles um dos garotos que aparece na cerimônia de shabat da libertação de Dachau, debaixo da mesa, se tornou rabino-chefe askenazi em Israel. Outros mantiveram a religião em suas vidas.

    6) Do pessoal que foi abandonado por Deus a mágoa ficou até hoje. Nesta semana, entrevistei um que está com 96 anos, super lúcido e queria saber se EU o perdoava por ter casado com uma não judia em 1946 e estar vivendo com ela até hoje… Nestes últimos anos encontrei com muitos nesta situação. E eles têm algo em comum. São alemães, eram integrados ao judaísmo na Alemanha, frequentavam sinagoga, tiveram educação judaica e depois da guerra abandonaram tudo e se casaram com não judias. Mas no final da vida, todos estão retornando ao judaísmo de uma ou outra forma.

  2. Luiz Nazario 11/02/2011 às 13:05 #

    Caro José Roitberg, não entendi que “texto abaixo” não leu: o meu ou o seu? Acho que foi o meu…

    • José Roitberg - jornalista 11/02/2011 às 17:04 #

      É isso mesmo, o abaixo entende-se pelo acima… Coisas da informática pirada.

      • Luiz Nazario 11/02/2011 às 20:06 #

        Entendi. Grato pelo interesse.

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