FRANZ KAFKA

23 jan

 

Kafka na praia, com um amigo.

A obra de Franz Kafka desenha, em seu conjunto, um gigantesco “eu” – não só as cartas e os diários, mas todos os seus contos e romances são estritamente autobiográficos – um “eu” gigantesco que recusa a integração na cadeia libidinal do poder. “Kafka, o herói dos romances de Kafka”, sintetizou Walter Benjamin. Joseph K., Karl Rossmann, Gregor Samsa, Raban, Blumfeld, Georg, o Homen Subterrâneo, a Toupeira Gigante, o Cão Investigador, a Ferrovia Kalda ou Ele são os representantes de Kafka no universo kafkiano, marcado pela impossibilidade da metamorfose do personagem num adulto integrado no sistema.

O erotismo de Kafka permaneceu infantil até a morte: “Basicamente nunca tive intimidade com mulheres”, ele escreveu em 1916. Seus famosos romances com Hedwig Weiler, Milena Jesenská, Felice Bauer, Grete Bloch ou Dora Diamant são marcados pelas dificuldades práticas, sobretudo por “aquela meia hora na cama”. O maior absurdo de Kafka: desejar simultaneamente o casamento e a solidão. Era natural que sua cabeça se unisse com seus pulmões para conspirar contra sua vida: só a morte poderia resolver o conflito insolúvel que se propôs como projeto existencial.

Consciente das vantagens da heterossexualidade e não desejando renunciar a esse erotismo dominante, Kafka gostaria de poder dominar suas supostas amantes através de cartas (e apenas através de cartas), mantendo com elas um amor exclusivamente por correpondência: para Gilles Delleuze e Féliz Guattari, Kafka seria um magro vampiro anoréxico, enviando cartas-morcego, uma máquina celibatária inteiramente desterritorializada, sem centro, sem família nem conjugabilidade, tanto mais perigoso quanto menos socialmente comprometido.

Mas se Kafka não supostava conviver com mulheres, tampouco suportava a solidão: o Trapezista queixa-se de ser obrigado a passar a vida inteira com uma barra nas mãos, na metáfora mais explícita que o escritor encontrou para sua condição de mastubador. Para fugir da solidão, Kafka projeta viver um erotismo adulto através do casamento. Mas não consegue superar a monstruosa consciência de que o sexo está associado ao poder. Ele só poderia ter uma esposa se se identificasse com o mundo do pai, e isto ele não pode, porque, na dialética da autoridade, que faz com que o filho de um pai torne-se o pai de outro filho, Kafka não vê um poder bom e um poder mau; para ele, todo poder é detestável. Por isso não encontra outra saída que a toca, a fuga, o subterrâneo.

E é assim, mais por instinto que por consciência, que Kafka pode antever os grandes sistemas totalitários. As figuras paternas que se multiplicam em suas narrativas – chefes, subchefes, legisladores, engenheiros, técnicos, guardas, administradores, juízes, advogados, promotores, torturadores e carrascos – fazem parte de uma engrenagem que frustra toda esperança humana (“há muita esperança”, ele observa, “mas para Deus”). Essa engrenagem logo demonstrará possuir, para além de suas raízes edipianas, uma aterrorizante base social. Antes de ninguém, Kafka percebeu que “o marquês de Sade é o verdadeiro patrão de nossa época, não podendo encontrar alegria senão no sofrimento alheio”.

Escritor judeu que ousou assumir sua condição de pária, metamorfoseando-se em barata, rato, toupeira, cão ou ferrovia, numa literatura toda feita de sublimações e construída a partir da consciência de seu erotismo mutilado, Kafka tornou-se um símbolo do niilismo e da decadência para os regimes totalitários, onde ninguém pode furtar-se à integração. Por isso, as obras de Kafka, abolidas pelos nazistas durante a ocupação da Tchecoslováquia, mal recuperadas após a guerra, foram novamente suprimidas pelos comunistas no poder, sendo liberadas durante a Primavera de Praga, mas vetadas após a invasão soviética, até serem “revistas” sob os influxos da glasnost

Em Kafka, Max Brod escreveu belas páginas sobre as pessoas infantis, que se retardam no questionamento do primeiro embate do eu na família, que se repetirá nos círculos sociais do mundo, sempre igual ao primeiro. Max Brod descreveu seu amigo Kafka como um prisioneiro, prensado entre duas paredes já em seu nome: o “f” entre os dois “ka”. Kafka é mesmo um nome eterno – e Franz o sabia. O escritor cursou Direito para ter uma profissão, com medo do futuro. Seus conhecimentos na área serviram para tornar mais concreto o horror de muitos de seus contos, que se desenrolam num universo regido por Leis de Trabalho, por Normas de Direito.

Pouco antes de morrer, Kafka pediu ao amigo Max Brod que destruísse seus escritos. Brod não cumpriu a promessa, argumentando que se Kafka o designara como carrasco de sua obra era porque o sabia de antemão incapaz de executar a sentença. De fato, no fundo do desespero kafkiano há uma reserva secreta de humor. Em seu mundo, os inocentes comportam-se de maneira tão absurda que conseguem escapar, quase involuntariamente, ao poder corruptor. Kafka acreditava na alegria: “Quando do naufrágio do Titanic, a orquestra de bordo tocou até o fim”, ele observou ao amigo G. Janouch. Imagino-o sorrindo.

3 Respostas to “FRANZ KAFKA”

  1. Dublado 31/01/2011 às 13:49 #

    Quando encontro um bom post como esse, eu vejo como a internet é boa.

  2. Val 23/02/2012 às 11:03 #

    Concordo plenamente com Dublado. Estou descobrindo Kafka um tanto tardiamente, confesso. Saí a procura de bons textos para tentar desvendar esse homem e o post, sem dúvida, ajudou-me a desanuviar um pouco o assunto. Obrigada!

  3. Paulo Zerati 24/02/2012 às 11:33 #

    Sem duvida, Franz Kafka foi e é um gênio da literatura universal, e porque não dizer da filosofia também? Dissertar sobre ele é dissertar sobre o mundo moderno alienado, tanto do século 20 quanto do século 21. Ler Kafka é ”desalienar-se”, através de seus escritos rebeldes e autobiográficos. Ler Kafka é transformar um livro num machado, que destrói o oceano gelado dentro de nós, já dizia o Mestre. Recomendo as traduções de Modesto Carone, da editora Companhia das Letras, são as mais confiáveis em se tratando de Kafka no Brasil. Um abraço e parabéns pelo post, boa descoberta pra quem ainda irá conhecê-lo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: