CÉLINE E SEUS ADORADORES

22 nov

Céline em Meudon, por volta de 1950. Foto: Lipnitzki / Roger Viollet / Getty Images.

Versão revista, corrigida e atualizada do ensaio publicado em: CORNELSEN, Elcio; NASCIMENTO, Lyslei (org.). Estudos judaicos: ensaios sobre literatura e cinema. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, FALE-UFMG, 2005, p. 73-102.

Há escritores que não mereciam ser lidos. Entre eles, um dos mais lidos, em todo o mundo, é Céline. Sobretudo na Franca, ele é hoje não apenas lido, como também admirado, celebrado e homenageado como raros escritores o são. A lenta e gradual recuperação desse colaboracionista, seguida de sua glorificação nacional, dá o que pensar. Há nesse reino algo de podre que merece ser investigado. A França fin-de-sècle já conhecera, em sua literatura política, uma retórica antissemita comparável, em virulência, à do pior antissemitismo alemão. Escritores como Jules Guérin, presidente da Ligue Antisémitique de France (“Liga Antissemítica de França”); Charles Maurras, fundador do movimento de extrema-direita católica e antissemita Action Française (“Ação Francesa”); Edouard Drumont, autor do best-seller antissemita La France Juive (“A França judaica”); ou Léon Daudet, filiado ao movimento Patrie Française (“Pátria Francesa”) e colaborador de Libre Parole (“Palavra Livre”) fomentaram o antissemitismo durante o Caso Dreyfus (1897-1905).

O escritor Émile Zola, que defendeu o coronel Dreyfus contra o Exército francês e as massas antissemitas, despertou quase tanto ódio ao encarnar o intelectual engagé que não se dobra à maioria. François Mauriac recordou que seus pais deram ao seu pinico o nome de Zola; e que um de seus coleguinhas de escola brincava de degradar Dreyfus, arrancando, uma a uma, as asas e as patas de uma mosca[1].

O ódio aos judeus contagiava os escritores franceses de talento limitado, com produção literária de qualidade medíocre, entre os quais Alexis Carrel, Alphonse de Chateaubriand, Charles Maurras, Edouard Drumont, Georges Bernanos, Henri Béraud, Jacques Chardonne, Jacques de Chateaubriand, Jean Giraudoux, Léon Daudet, Lucien Rebatet, Marcel Jouhandeau, Maurice Bardèche, Pierre Drieu de La Rochelle, Ramón Fernández, Robert Brasillach. Nenhum deles, porém, foi tão longe em seu ódio aos judeus quanto Louis-Ferdinand Destouches, ou Céline (1894-1961): sua literatura antissemita chega a superar em virulência as mais bárbaras fantasias de destruição dos judeus articuladas na Alemanha nazista. E mesmo assim, Céline, também como nenhum outro escritor antissemita francês, tornou-se querido pela crítica literária.

Nascido em Courbevoie, em 1894, Louis-Ferdinand Destouches cresceu no seio de uma família pequeno-burguesa miserável. A obsessão pela higiene e o antissemitismo integraram sua educação familiar: o pai, um literato frustrado, obrigado a trabalhar numa companhia de seguros, vivia culpando os judeus por todos os males da Terra; e a mãe, que mancava de uma perna, tornou-se uma neurótica obcecada: detestando os micróbios, ela os via em toda parte, obrigando o filho a lavar constantemente as mãos[2]. Assim educado na obsessão pela higiene e no ódio aos judeus, Louis Ferdinand tornou-se médico higienista e antissemita.

Assim que estourou a Primeira Guerra, Louis Ferdinand engajou-se como voluntário. E saiu das batalhas com uma grave fratura no crânio, mais ou menos surdo, o braço direito quase paralisado. Submetido a uma trepanação, é provável que tenha perdido parte das faculdades mentais. A memória das chacinas o perseguia: “Eu matei muito”, declarou certa vez[3]. A experiência de carniceiro na Grande Guerra moldou seu caráter. Louis Ferdinand desenvolverá sua visão de mundo calcada num antissemitismo tão feroz quanto o de Hitler:

O judeu não explica tudo, mas ele catalisa toda nossa decadência, toda nossa servidão… Ele só se explica – seu poder fantástico, sua tirania assustadora, pelo seu ocultismo diabólico… O judeu não é tudo, mas ele é o Diabo e isto é o bastante – o Diabo não cria todos os vícios, mas ele é capaz de engendrar um mundo inteiramente, totalmente vicioso… Deus sabe como o branco está podre!… Mas o judeu soube ganhar esta podridão em seu favor, explorá-la, exaltá-la, catalisá-la, estandardizá-la como ninguém. Racismo! Racismo! Racismo! Todo o resto é imbecil – falo enquanto médico. Equidade? Justiça? Que casuísticas doentes e desastrosas – Elas contarão sempre contra nós! Esta é a regra do jogo. Desorganizados contra ferozmente organizados – Larvas contra formigas – Liberais contra racistas! Você não tem mais o instinto da perfeição física, do lirismo estético branco – Todo o “que” da coisa – Os livros o mataram – o sentido da vida branca – E, no entanto, você sabe como os judeus com o cinema apresentam esta terrível eliminação… [4]

As primeiras obras literárias do Dr. Destouches apresentam, através de uma linguagem carregada de imprecações vulgares, um universo mórbido, povoado por personagens degenerados, tuberculosos, cancerosos, infectados, doentes sem cura, destinados à morte. O estilo céliniano é todo ele feito de confusão e de incoerência. Sua prosa é incapaz de encadear cenas, ações, discursos, sua desarticulação verbal beira a loucura, assemelha-se à retórica dos doentes mentais, e denotam, a meu ver, uma mediocridade insuperável oculta sob a máscara de uma ambição desmedida. Já nessa primeira literatura, de caráter ainda obscuro, Céline desenvolverá seu antissemitismo tão feroz quanto o de Hitler associando imagens de judeus à epidemia e à peste.

O antissemitismo do Dr. Destouches já se encontra de forma incipiente na primeira ficção que escreveu em 1923, mas publicada apenas em 1933: L’église (A Igreja), uma comédia em cinco atos. Nessa peça, o médico Dr. Ferdinand Bardamu (superego de Louis Ferdinand) suspeita que a doença que ganha a cidade, e que as autoridades afirmam ser apenas “uma banal febre amarela”, seja na verdade a peste. Um judeu “meio surdo e três quartos cego” chamado Yudenzweck (nome que soa como “objetivo de judeus” em alemão, composto a partir das palavras “Juden”, judeus, e Zweck, “objetivo”), manipula os dados da epidemia com a cumplicidade de dois outros chefes de seção, significativamente chamados de Moise (Moisés) e Mosaic (Mosaico), evidentemente judeus, com o objetivo de precipitar o mundo numa guerra…

Logo após escrever esse divertissement antissemita, o Dr. Destouches produziu sua tese de doutorado em Medicina, defendida em Paris, intitulada Vie et Oeuvre de Philippe Ignace Semmelweis (A vida e a obra de Semmelweis, 1924-1926), enaltecendo o médico húngaro Felipe Inácio Semmelweis, que descobriu o papel da assepsia na prevenção da febre puerperal.

Trabalhando num hospital de Viena, numa época em que ainda não se conhecia a ação dos microorganismos na febre puerperal, Semmelweis observou a enorme mortalidade das parturientes na maternidade dos estudantes em contraste com a baixa mortalidade nos partos realizados por parteiras. Em 1846, quando um seu colega cortou-se dissecando um cadáver e contraiu uma infecção fatal, Semmelweis imaginou que o contágio estivesse associado à manipulação de tecidos e mandou instalar pias para que os estudantes desinfetassem as mãos com cloreto de cal. A mortalidade entre as mulheres caiu para 0,2%.

Contudo, o Dr. Semmelweis teve seus dados contestados, e foi exonerado; as pias que ele mandara instalar foram atribuídas à superstição, e arrancadas; a Academia de Paris rejeitou seu método em 1858 e, por dez anos, ele tentou “alertar” os médicos em toda a Europa. Fracassando em seu intento, o Dr. Semmelweis enlouqueceu; o amigo Dr. Skoda conseguiu interná-lo no asilo onde ele próprio havia sido confinado pelo “inimigo comum” (nas palavras de Céline): certo Dr. Klein – nome que, por si só, evoca o fantasma do “judeu”, o judeu simbólico dos “judeus”. Em 1865, o Dr. Semmelweis invadiu uma sala de dissecação, feriu-se com um bisturi e morreu infeccionado. Pouco depois, o Dr. Pasteur provava que as teorias do Dr. Semmelweis estavam certas.

O higienista Dr. Destouches imaginou a vida e a obra do Dr. Semmelweis como uma metáfora para o seu próprio antissemitismo: ele via o mundo “dominado pelos judeus”, os judeus como “micróbios contaminadores da raça”. Na tese, descrevia a História não como os marxistas, como uma luta de classes; nem como os hegelianos ou os freudianos, como uma luta entre consciências ou entre a consciência e o inconsciente; e sim, como os social-darwinistas mais extremados, como uma luta entre unidades biológicas: “Vinte raças precipitando num delírio horroroso”. Os homens não se defrontariam por interesses econômicos, políticos, ideológicos, mas raciais; e a História se resumiria a “enormes potências biológicas que se combatem”.

Louis Ferdinand imaginava Semmelweis como uma metáfora para seu projeto existencial. O destino de Semmelweis seria assemelhado ao seu: ninguém acreditava, na Europa contemporânea, que os “judeus” eram a causa de todos os males humanos, apenas ele, o marginalizado e incompreendido Dr. Destouches o sabia. Embora esse “fato” lhe parecesse evidente por si mesmo, poucos eram os que pareciam aceitar a “verdade”. E ainda que tentasse como aquele outro visionário alertar a Europa para o “perigo judaico”, sabia de antemão que seria perseguido pelo que os outros considerariam sua “loucura”, ao defender uma “tese” ainda não comprovada, arriscando morrer como novo mártir da “verdade”. Ficaria até louco defendendo sua “causa”, e arriscaria morrer como um mártir. O único consolo seria que a posteridade reconheceria que ele sempre tivera razão, que ele fora um profeta e um gênio! Então médico dos quarteirões populares de Clichy, o Dr. Destouches escreveu à amiga Lucien Combelle:

O judeu não explica tudo, mas ele catalisa toda nossa decadência, toda nossa servidão… Ele só se explica, seu poder fantástico, sua tirania assustadora, pelo seu ocultismo diabólico […]. O judeu não é tudo, mas ele é o Diabo e isto é o bastante – o Diabo não cria todos os vícios, mas ele é capaz de engendrar um mundo inteiramente, totalmente vicioso… Deus sabe como o branco está podre!… Mas o judeu soube ganhar esta podridão em seu favor, explorá-la, exaltá-la, canalizá-la, estandartizá-la como ninguém. Racismo! Racismo! Racismo! Todo o resto é imbecil – falo enquanto médico. Eqüidade? Justiça? Que casuísticas doentes e desastrosas – Elas contarão sempre contra nós! Essa é a regra do jogo. Desorganizados contra ferozmente organizados – Larvas contra formigas – Liberais contra racistas! Não se tem mais o instinto da perfeição física, do lirismo estético branco – Todo o “quê” da coisa – Os livros mataram-no – o sentido da vida branca. E, no entanto, sabe-se como os judeus, com o cinema, apresentam esta terrível eliminação.[5]

Em parte para dar publicidade à sua “causa” e em parte para aumentar seus rendimentos, o Dr. Destouches decidiu escrever um romance sensacionalista e escandaloso, que assinou com o pseudônimo de Céline. O fruto de seu esforço, intitulado Voyage au bout de la nuit (Viagem ao fim da noite, 1933), obteve, como ele previa, um imediato sucesso de crítica. Os críticos que consagraram um livro tão desagradável estavam cansados da grande literatura; ou foram enganados por seu discurso estilisticamente vulgar e desarticulado, mas que parecia, por isso mesmo, revolucionar as Letras: à esquerda, Céline foi elogiado por intelectuais anarquistas, socialistas e comunistas, como André Malraux, Blaise Cendrars, Louis Aragon[6], Elsa Triolet, Léon Trotski[7]. O Pravda reconheceu em Céline um dos “seus”.

Contudo, a ira política de Céline não encontrava resposta no anarquismo, no socialismo, no comunismo, e sim no racismo. Em 1933, quando o movimento nazista chegou ao poder na Alemanha, muitos escritores franceses que já professavam o antissemitismo foram atraídos para sua órbita. O político judeu Leon Blum, que ascendera à presidência do governo do Front Populaire em 1936, foi escolhido pela extrema-direita como o bode expiatório, sendo diariamente linchado nas páginas de Candide e Gringoire[8]. Entre 1936 e 1937, Marcel Jouhandeau publicou três artigos sobre a questão judaica reunidos no livro Le Péril Juif (“O perigo judeu”), onde afirmava serem os judeus a “raça mais terrível e mais cruel que já existiu”, uma “raça de leões com coração de chacal, presa da qual a França havia caído”. As camadas sociais mais reacionárias da França, que não perdiam oportunidade de demonstrar seu ódio aos “metecos”, ambicionavam ganhar, com o nazismo, postos de poder e campos novos para expandir sua visão de mundo: não mais apenas em livros e jornais, como também nas mídias de massa modernas: o gibi[9], o rádio, o cinema.

Animado com o sucesso de Voyage au bout de la nuit, o “novo escritor” Céline editou sua antiga peça L’Église[10] e produziu outro romance no mesmo estilo, Mort à crédit (Morte a crédito, 1936) que, sob um fundo de extremo pessimismo, novamente descrevia o mundo como um grande hospital, lotado de degenerados, tuberculosos, cancerosos, infectados, doentes sem cura, todos destinados a uma morte indigna: o higienista escritor criava um universo mórbido para logo apontar, favorecido pelos ventos que sopravam da Alemanha, nos “judeus usurários” a causa do mal-estar que dominava o mundo.

Embora o antissemitismo de Céline ainda não estivesse abertamente expresso em seus dois primeiros romances, podendo seu “anarquismo de direita” enganar os intelectuais de esquerda, ele já se encontrava carregado de metáforas médicas, revelando também, a quem quisesse ver, sem as viseiras da ideologia, que seu discurso estilisticamente vulgar e desarticulado revelava claramente uma mediocridade espiritual insuperável.

Quando o movimento nazista chegou ao poder na Alemanha, muitos escritores franceses foram atraídos para sua órbita pela via do antissemitismo, e Céline foi um dos primeiros. Em 1937, Céline conhece a bailarina Lucette Almanzor, vinte anos mais jovem que ele, iniciando uma ligação que durará até a morte do escritor (“Escolhi-a para que recolhesse minha alma depois de minha morte”, escreveu). Não se sabe ao certo se Lucette compartilhava de seu antissemitismo, mas é bem provável, uma vez que Céline a definiu, certa vez, como “professora de danças clássicas e de caráter”, e que ela não se furtará a vender, contra os críticos e detratores do escritor, a imagem do “bom Céline”.

A situação financeira de Céline não havia melhorado com a nova carreira de escritor anarquista. Ele esperava que Mort à crédit rendesse o mesmo que a Voyage au bout de la nuit, ou seja, pelo menos 1.200 francos mensais. Mas, a crer em suas eternas queixas, ele ficou “na lona”, e culpou “os judeus” por isso.

A paixão anticomunista antissemita de Céline explodiu, e nos panfletos Mea Culpa (“Mea culpa”, 1936), Bagatelles pour um massacre (“Bagatelas para um massacre”, 1937), ele pregou o extermínio dos judeus e proclamou, agora sem pejos, seu desejo de colaborar com os nazistas, acusando “os judeus de Londres, de Washington e de Moscou” de impedir essa “aliança franco-alemã”. Dizia preferir 12 Hitlers a um Léon Blum “onipotente”. Hitler, ele compreendia; e os alemães, “pelo menos são brancos”. À pergunta que faziam – será preciso matar todos os judeus? – ele respondia positivamente: “Se é preciso veados na Aventura, que os judeus sejam sangrados!”[11]

Em cartas hoje reunidas, Céline não cessava de confiar a seus amigos que desejava uma purificação racial sem precedentes: os novos homens que ele via nascer, “depois de décadas de catástrofes sem nome”, remontariam aos druidas, seriam neodruidas de qualidade superior[12]. Céline diria ainda, para mostrar-se ajuizado: “Acredito no racismo – é apenas uma crença médica – uma mística biológica”[13]. Entusiasmado com a exposição Der ewige Jude, montada em 1937 na Alemanha, Céline afirmava ser preciso farejar o diabo de longe, pois:

(…) Nada é indiferente ao triunfo judeu, de qualquer judeu, do mais insignificante pintor judeu, pianista judeu, banqueiro judeu, estrela judia, ladrão judeu, autor judeu, livro de judeu, comédia judia, canção judia… Vêm a agregar sempre… Uma pedrinha, um átomo brilhante à construção de nossa prisão para arianos… Na perfeição da Tirania Judia nada se perde – tudo se faz “ventre”, tudo se faz “judeu”. Essa colonização interna se opera suavemente ou pela força, por meio dos interesses, dos ritmos judeus do momento… Os que não estiverem de acordo serão estrangulados (já o são) e o judeu aparecerá ante a mirada admirativa do gado ajoelhado… Finanças, ciências… Os esforços judeus, os êxitos judeus, os projetos de judeus ou de judaizados (como Montaigne, Racine, Stendhal, Zola, Cézanne, Maupassant, Modigliani, Proust, etc.). A Exposição 1937 nos traz uma magnífica demonstração do tema aplastante, da fúria colonizadora judia, preocupando-se cada vez menos com os ressentimentos e as reações indígenas… O indígena cada vez mais submetido… Mais covarde… Para a paz judia irás amanhã levar tuas tripas aos quatro rincões do mundo… Já está cozinhando!… Povo de joelhos!… e em silêncio!… Tuberculosa Proust-ituta, a “Dama Judia das Camélias”… Sr. Hoare Bellesha, judeu, Ministro da Guerra da Inglaterra… Que as carnes lhes sirvam para alguma coisa!… Merda! Viva a Bíblia! Bordel de Deus! O mundo é um lupanar judeu!

Logo Céline lançou L’École des Cadavres (“A escola dos cadáveres”, 1938), um panfleto tão virulento que teve de ser retirado de circulação em 1939. Céline pregava aí a criação de um exército franco-alemão: “O resto virá depois. A Itália, a Espanha, ainda por cima, muito naturalmente, se juntarão à Confederação dos Estados Arianos da Europa”. A Inglaterra deveria ficar de quarentena. Um inimigo comum seria combatido:

Os homens precisam de ódio para viver, seja! É indispensável, é evidente, é a natureza deles. Eles só precisam tê-lo contra os judeus, este ódio, não contra os alemães. Este será um ódio normal, salvador, defensivo, providencial, como contra uma varíola devastadora, ou as invasões da peste, os ratos transmissores de infecções[14].

Léon Daudet e Lucien Descaves silenciaram sobre os panfletos de Céline; eles não aprovavam – ao que parece – o palavreado sujo do antissemita desclassificado. André Gide tomou ingenuamente os arroubos de Céline por uma “sátira do antissemitismo”[15]. Mas um escritor antifascista de primeira hora, H. E. Kamisnki[16], denunciou, em Céline en chemise brune, ou le mal du présent (1938), a propaganda nazista daquele escritor medíocre, disfarçada de literatura.

A utopia céliniana de destruição dos judeus começou a realizar-se com a promulgação do “Estatuto dos Judeus” pelo governo de Vichy, sem pressão da Alemanha, a 3 de outubro de 1940. Editores e redatores colaboracionistas difamavam e denunciavam, intrigavam e entregavam judeus, resistentes e inimigos particulares à Gestapo. Depois, encontravam-se no Instituto Alemão, dirigido por Karl Epting, onde recebiam seus cachês.

A Colaboração era feita por tipos como Georges Suarez e Alain Laubreaux; por Jacques Ménard, redator-chefe do jornal Matin e presidente da Associação dos Jornalistas Antijudaicos; capitão Sézille, secretário geral do Institut des Questions Juives; Marcel Déat, fundador do Rassemblement National Populaire e editor de L’Oeuvre; Eugène Deloncle, fundador do Mouvement Socialiste Révolutionnaire e editor do Révolution Nationale; Alphonse de Chateaubriant, do La Gerbe; Robert Brasillach e Henri Poulain, de Je suis partout; Benoist-Méchin, do La Moisson de Quarente; Pierre Constantini, de L’Appel; Marcel Bucard, do Le Franciste; Jean Lestandi, de Au pilori; Charles Spinasse, de Le Rouge et le Bleu; Lucien Combelle, de Au Fait; Pierre Drieu La Rochelle, autor do manifesto Ne plus attendre (“Não mais esperar”); Jean Drault, autor de uma Histoire de l’anti-sémitisme (História do antissemitismo).

Importante papel desempenhou o editor Robert Denöel, que publicou, na coleção Nouvelles éditions françaises, os panfletos Décombres (“Escombros”) e Les Tribus du Cinéma et du Théatre (“As tribos do cinema e do teatro”), de Lucien Rebatet; Comment reconnaître le Juif? (“Como reconhecer o judeu?”), do Dr. Georges Montandon; La Médicine et les Juifs (“A medicina e os judeus”); do Dr. Fernand Querrioux; La Presse (“A imprensa”), de Lucien Pemjean; e Les Beaux Draps (“Os belos trapos”, editado em 1941 e reeditado em 1943), de Céline.

A 20 de dezembro de 1940, Au pilori, com uma tiragem de 60 mil exemplares, lançou um grande concurso junto aos seus leitores sobre o tema: “Os judeus: onde enfiá-los?” A matéria sugeria: “A única medida que se impõe é a de um saneamento total, pelo vazio. Mas parece que a Palestina é estreita demais para contê-los, a Austrália pouco ansiosa de receber tal presente. Que vamos fazer com eles? […] Obtive de nossa Direção prêmios sensacionais para recompensar as melhores respostas a esta única questão: Onde enfiá-los? (Toda medida de destruição radical é admitida).”[17]

Em começos de 1941, os nazistas criaram um Comissariado Geral para Assuntos Judaicos. Para sua direção, o embaixador alemão Otto Abetz sugeriu os nomes de Bucard, Darquier de Pellepoix, Serpeille de Gobineau, Lesdain Montandon (que sugeria, entre outras medidas, a ablação do nariz dos judeus) e o de Céline[18]. O governo de Vichy acabou decidindo-se pela designação de Xavier Vallat. Entrevistado pelo jornal colaboracionista Je suis partout a 7 de março de 1941, Céline declarou:

É preciso recomeçar tudo da infância, pela infância, para todas as crianças… O desejo que toda a família seja bela, sã, vivaz, ariana, pura, redentora, resplandecente de beleza, de força, não somente sua pequena família, seus dois, três, quatro fedelhos, mas toda a família francesa, o judeu pelos ares, bem entendido, virado para suas Palestinas, ao Diabo, na lua[19].

No dia 5 de setembro de 1941, foi inaugurada em Paris a exposição Le Juif et la France, visitada em poucas semanas por mais de 100 mil pessoas. Robert de Beauplan exaltou o acontecimento:

Boulevard des Italiens, uma multidão se comprime na calcada, à entrada do Palácio Berlitz, ornamentado por uma grande composição alegórica representando uma espécie de vampiro de barbas longas, de lábios grossos e nariz encurvado, cujos dedos descarnados, semelhantes às garras das aves de rapina, fincam-se num globo terrestre. É a exposição Le Juif et la France que abre suas portas. Ambulantes vendem jornais e brochuras. Os visitantes fazem fila diante da única bilheteria. Em cinco dias vieram mais de 18.000… Eles não se contentam em ver de passagem imagens ou quadros: lêem com atenção os numerosos textos explicativos pendurados ao lado das telas, verificam as estatísticas. Alguns mesmo tomam notas… Aí se encontram os elementos de um estudo morfológico do judeu… Aprendemos, assim, que o judeu não é um verdadeiro branco, mas um mestiço, para cuja confecção procederam três tipos humanos primordiais: o mongol, o negro e o ariano. Nesta mistura, o sangue ariano representa apenas um quarto, o sangue mongol, a metade, e o sangue negro fornece o quarto restante. Como ilustração desta lição de antropologia, abundantes fotografias mostram-nos os tipos mais diversos de judeus. Diante disto, para contraste, opuseram tipos arianos, entre os quais vizinham as mais ilustres personalidades francesas… e imagens anônimas representando camponeses franceses de todas as províncias, homens e mulheres do povo, belos jovens de formas atléticas, todos do mais puro sangue ariano…[20].

A exposição irritou Céline. Por quê? Numa carta dirigida ao Capitão Sézille, que organizara o evento, encontramos o motivo: ele se queixava da “omissão de suas obras”, queria ser homenageado ou pelo menos ter seus livros expostos e vendidos no evento: “Fiquei surpreso e um pouco doído ao ver que nem Bagatelles nem L’École figuravam na livraria, enquanto se favorece a um enxame de peixes pequenos, abortos laçados à ultima hora, cabelos na sopa”[21].

A 4 de outubro de 1941, militantes do MSR passaram à ação, incendiando sinagogas em Paris. Nesta oportunidade, outro veículo do colaboracionismo, L’Appel, interrogou seus leitores: “Será preciso exterminar os judeus?”. Céline enviou duas respostas, nas quais não precisou dizer abertamente que sim, pois todos os redatores e leitores do jornal já sabiam bem qual sua posição a respeito. Ele aí antes perguntava a opinião de outros intelectuais, que ainda não se haviam manifestado sobre o tema, e os quais ele desejava comprometer junto à Gestapo, como a escritora Colette, por exemplo, que vivia com o judeu Maurice Goudeket.

A 12 de outubro de 1941, Céline escreveu no jornal colaboracionista Au pilori: “Para recriar a França, seria preciso reconstruí-la inteiramente sobre bases racistas comunitárias. Nós nos afastamos todos os dias deste ideal, deste fantástico projeto (…). Os gauleses (…) estão amarrados ao cú dos judeus”[22].

Pouco depois, a 11 de dezembro de 1941, Céline declarou ao mesmo Au pilori ser um “antissemita da primeira hora”, propondo um encontro com seus colegas para a criação de um partido único antissemita. Estavam convidados os colaboracionistas Marcel Bucard, George Alexis Montandon, Marcel Déat, Eugène Deloncle, Darquier de Pellepoix, Capitão Sézille, Jean Luchaire, Pierre-Antoine Cousteau, Xavier Vallat e, naturalmente, Céline.

Não se sabe o que resultou desse encontro dos “maiores” da Colaboração. Mas a 15 de dezembro de 1941, todos os jornais franceses publicaram a notificação do general von Stülpnagel, de que, em decorrência de atentados contra os ocupantes alemães, os judeus em território francês pagariam uma multa de 1 bilhão de francos e haveria deportação em massa de “elementos criminosos judeu-bolchevistas” e fuzilamento sumário de 100 “judeus, comunistas e anarquistas”[23]. No mesmo dia, Au pilori convocou os fiéis para uma “discussão sobre a questão judaica”, na qual Céline lembrou aos antissemitas hesitantes: “Cada vez que Hitler toma a palavra ele engaja formalmente a responsabilidade dos judeus quanto ao desencadeamento da guerra européia. Agora, porque vocês, que se querem incorporar no nacional-socialismo, não engajam igualmente oficialmente esta responsabilidade?”[24].

Numa carta de março de 1942 a Jacques Doriot, Céline voltou à carga: “Volatilizar sua judiaria seria o caso de uma semana para uma nação bem decidida”[25]. A 19 de março, Au pilori já se perguntava quem seria “encarregado de combater a peste”[26]. Coubera a Xavier Vallat a tarefa de substituir os critérios religiosos pelos critérios raciais na redefinição dos judeus; mas como ele hesitasse em adotar a estrela amarela para os judeus das zonas ocupadas, como pretendia o tenente alemão Theodor Dannecker, foi substituído por Darquier de Pellepoix, que assumiu a tarefa de deportar os judeus para os campos de extermínio.

A 4 de abril de 1942, Je suis partout publicou a reportagem de Henri Poulain intitulada Du sécateur aux barbelés: Pithiviers les Juifs (“Da tesoura de podar aos arames farpados: ‘Pithiviar’ os judeus”), na qual o jornalista descrevia uma visita que fizera ao campo de concentração de Pithiviers, onde se encontravam internados 1.100 judeus. Declarou tê-los visto viver ali “na folga, no luxo e na abundância”, e relatou assim uma chegada dos transportes: “No fim da viagem o guarda ajudou seu cliente a descer, e numa cumplicidade amigável, soprou-lhe à parte: “Você está entregue, meu rapaz. É um mau momento a passar. Espero que isso não demore e que voltemos a nos ver em Troyes.”[27]

Com a decretação das leis que proibiam o acesso dos judeus a certas profissões, Céline assinou um atestado como membro da Ordem dos Médicos de Seine-et-Oise, onde prometia “dar cabo de todos os judeus e judaizados da medicina e do resto[28]. Ele teria denunciado à Gestapo, entre outros médicos judeus de seu conhecimento, certa doutora Howyan. Confessou então que um de seus sonhos de “cientista” era “extirpar os genes judaicos a partir da fecundação”.

O antissemitismo biológico colocava Céline ao lado do poder exterminador, e sua paixão antissemita chegava a chocar alguns oficiais alemães: Gerhard Heller, tenente encarregado da censura, relatou em Un Allemand à Paris: “Céline espalha loucas declarações sobre os judeus, que nós deveríamos exterminá-los um por um, quarteirão por quarteirão, nesta Paris que ele julgava invadida e gangrenada pela judiaria internacional”. Essa afirmação foi confirmada nos Journaux de guerre do militar ocupante e escritor Ernst Jünger, que traçou de Céline – que ele chama por discrição de “Merline” – um retrato objetivo:

À tarde no Instituto Alemão, rua Saint-Dominique. Ali, entre outras pessoas, Merline, grande, ossudo, robusto, um tanto pesado, mas alerta na discussão ou, antes, no monólogo. Ele tem aquele olhar dos maníacos, virado para dentro, que brilha como no fundo de um buraco. Por esse olhar, também, nada mais existe, nem à direita, nem à esquerda; tem-se a impressão de que o homem persegue um objetivo desconhecido. “Tenho constantemente a morte a meu lado”, e dizendo isso ele parece apontar o dedo para um cãozinho que estivesse deitado ao lado de sua poltrona. Ele diz o quanto está surpreso, estupefato, de que nós, soldados, não fuzilemos, enforquemos, exterminemos os judeus – ele não se conforma que alguém que disponha de uma baioneta não faça dela um uso ilimitado. “Se os bolcheviques estivessem em Paris eles fariam vocês verem como se lida com isso; eles mostrariam a vocês como se depura a população, quarteirão por quarteirão, casa por casa. Se eu carregasse a baioneta, eu saberia o que fazer.” Aprendi alguma coisa ouvindo-o assim falar por duas horas, porque ele exprimia, com toda a evidência, a monstruosa potência do niilismo. Esses homens só escutam uma única melodia, mas singularmente insistente. São como locomotivas que seguem seu caminho até serem quebradas. É curioso ouvir tais espíritos falar da ciência – da biologia, por exemplo. Eles utilizam tudo isso como o teriam feito os homens da idade da pedra; é para eles unicamente um meio de matar os outros. A alegria dessas pessoas, hoje, não está em que têm uma idéia. Idéias elas já tinham, muitas; o que elas desejam ardentemente é ocupar bastiões de onde possam abrir fogo contra grandes massas humanas e espalhar o terror. Se o conseguem, suspendem todo seu trabalho cerebral, fossem quais fossem suas teorias durante a ascensão deles. Eles se abandonam então ao prazer de matar; e é isso, este instinto do massacre em massa, que, desde o princípio, os levava adiante, de maneira tenebrosa e confusa[29].

Não é de estranhar que os livros de Céline tenham sido proibidos na Alemanha nazista como fruto de uma “perigosa mentalidade anarquista”: o Holocausto não seguia os impulsos homicidas de um indisciplinado franco-atirador, e sim rigorosos processos industriais de produção da morte em massa. Foi talvez para aprender mais sobre isso que Céline viajou, em 1942, para a Alemanha, numa comitiva de médicos franceses. O objetivo era um encontro com o Prof. Karl Gebhardt, general e cirurgião-chefe das SS e cirurgião pessoal de Heinrich Himmler. Após trabalhar em sua clínica, Dr. Gebhardt, passava as noites organizando os protocolos das “experiências médicas” a serem feitas com mulheres judias em Auschwitz: esterilizações, inoculações de vírus, exposições sistemáticas a raios X[30].

Seguindo uma solicitação de Joseph Goebbels, Céline pronunciou um discurso aos operários franceses, incitando-os à colaboração[31]. Em sua viagem à Alemanha, Céline deve ter apreciado os métodos alemães de extermínio diante das tentativas toscas dos antissemitas franceses ao escrever, em março de 1942, ao amigo Jacques Doriot: “Se fôssemos solidários […] tudo se passaria instintivamente na calma. O judeu se encontraria expelido, eliminado, uma bela manhã, como um troço.”[32]

Em julho de 1942, em pleno coração de Paris, 13.152 judeus (homens, mulheres, velhos e crianças) foram concentrados no Velódromo de Inverno para serem deportados para Auschwitz. O homem comum comoveu-se com essa operação e a indignação ganhou a população. O Cardeal Saliege protestou do alto de seu púlpito: “Os judeus são homens e as judias são mulheres. Nem tudo é permitido contra eles, contra esses homens e contra essas mulheres, contra esses pais e mães de família. Fazem parte do gênero humano: são nossos irmãos como tantos outros”.

Já Céline sonhava com a liquidação não somente de todos os judeus, como também daqueles que se antepunham aos seus delírios. Certa vez, ele “liquidou” mentalmente Jean Cocteau. Quando se meteu a criar um balé, em outubro de 1942, procurou Serge Lifar, primeiro bailarino e mestre do balé do Théatre de l’Opéra; como este considerasse seu projeto insignificante, Céline denunciou-o à Gestapo[33]. Confabulou então com o Capitão Sézille, secretário geral do Institut des Questions Juives: “O inimigo ocupa todos os postos, todas as trincheiras, todos os desfiles – todas as inteligências… Todos os bancos… Estamos a descoberto, sob suspeita, pouco numerosos, divididos, amanhã talvez desarmados…”[34]. Céline não hesitou em ligar-se a membros da Gestapo, ao embaixador alemão Otto Abetz e a Hermann Bickler, chefe dos Serviços de Informações Políticas para toda a Europa ocidental, sob as ordens diretas de Reinhard Heydrich, o comandante das SS[35].

Em 1943, Céline publicou novo panfleto contra os judeus: La Médicine Ford (1943). Não se tratava exatamente de medicina. De resto, obrigado a abandonar o dispensário de Clichy, Céline não conseguiu instalar sua clínica em Saint-Germain-en-Laye. Viu-se obrigado a exercer medicina a bordo do cargueiro Chella. Como médico, demonstrava pouco interesse por seus pacientes. A medicina era para ele mero ganha-pão. Suas únicas paixões eram odiar judeus e acumular dinheiro. Assim, quando os nazistas empreenderam o saque dos cofres privados dos bancos holandeses, substituindo o ouro dos depositantes particulares por moeda corrente de pouco valor, Céline, que havia convertido seus rendimentos em barras de ouro, depositadas num banco da Holanda, precipitou-se para esse país, para tentar impedir o saque. Caíra na armadilha: acreditava-se “intocável” pelos nazistas por sua colaboração servil; agora, para salvar seu ouro, viu-se obrigado a escrever para Alphonse de Chateaubriand:

Considero a violação de meu cofre um insulto pessoal… Que eles ajam assim com os gaullistas ou os judeus – tanto melhor. Mas com seus raros amigos, aqueles que foram condenados, apupados, perseguidos, difamados por causa deles, e não hoje, mas de 1936 a 1939 – sob Blum-Deladier-Mandel – é o cúmulo – uma sujeira monstruosa – Que lição para os colaboracionistas hesitantes![36].

Os alemães converteram os 185 gouldens-ouro de Céline em 2.200 florins, equivalentes a cerca de um décimo do valor real. O escritor recorreu a seus amigos alemães, ao que parece sem sucesso. Talvez por isso em Guignol’s Band I e II (1944), o tom de seus apelos homicidas modifica-se: a história sem pé nem cabeça, situada na Londres de 1917, já não é um ataque direto aos judeus. Também, desde fins de 1942 abriu-se uma fissura no muro de cimento que aprisionava a Europa. A BBC lançou ordens de vingança, assinalando Céline como inimigo do homem ante a vigilância pública, para castigo futuro. Ao evocar essa época, o escritor referiu-se à “odiosa propaganda de 1942-1944”. Céline percebeu que a Alemanha estava perdendo a guerra e, na iminência da Libertação, apressou-se a deixar a França, com todo o dinheiro que conseguiu arrecadar em suas campanhas criminosas: cerca de um milhão de francos, além de barras de ouro costuradas dentro de um casaco.

Céline foge de um possível fuzilamento, acompanhando a retirada dos invasores alemães e refugiando-se em Sigmaringen com 1141 colaboracionistas. Ernst Jünger comentou com sarcasmo em seu diário a fuga de Céline: “Curioso ver como seres capazes de exigir de sangue frio a cabeça de milhões de homens se inquietam com sua vidinha suja”[37].

Céline agora estava mudo; como escreveu em D’un Château à l’autre (1957), passou a ter “o artigo 75 no cú… Esse deus de pacotilha me gela o saco. Vacilo… Me acovardo… me confundo… não digo tudo… Ah! ah! Nem de longe”. Escapando de um possível fuzilamento, Céline, a esposa Lucette Almanzor e o gato de estimação Bébert fugiram “como ratos” por 21 dias através de uma Alemanha em chamas. Junto a 1.141 colaboracionistas, eles acompanharam a retirada dos alemães, refugiando-se todos em Sigmaringen.

Em Berlim, Céline e Lucette tentaram obter a permissão de saída, que lhes foi negada. Foram enviados para um campo de prisioneiros em Zornhof. Quando tudo foi bombardeado, Céline, Lucette e o gato Bébert fugiram para a Dinamarca, e alcançaram Copenhagen, onde, segundo alguns, “se concentravam seus 6 milhões (sic) de direitos autorais”. Mesmo isolados de toda publicidade, Céline, Lucette e gato Bébert acabaram detidos em dezembro de 1945.

Céline foi acusado de crimes de incitação ao extermínio do povo judeu. Havia traído seu país e colaborado com os ocupantes nazistas de 1940 a 1944, escrevendo diversos panfletos antissemitas, enviado 28 cartas e dado 10 entrevistas para os jornais colaboracionistas, num constante apelo ao extermínio dos judeus, sem mencionar as denúncias feitas diretamente à Gestapo[38]. Como sua extradição para a França implicava a passagem pelo tribunal militar, e um possível fuzilamento (como foi o caso de Brasillach), um entendimento entre os dois governos o fez permanecer encarcerado na Dinamarca até 1948. O Ministro da Justiça libertou Céline após ler apenas Les Beaux Draps, sem nada encontrar aí que pudesse incriminá-lo. Segundo depoimentos de admiradores, Céline e Lucette passaram cinco anos no bosque de Klarskovgard, perto de Korsor, numa cabana sem água nem eletricidade, com piso de terra batida. Céline comportava-se como um animal, fechado em copas, perdendo quase 30 quilos ao alimentar-se apenas de aveia, até ficar doente. Moralmente arrasado, Céline só escrevia quando tinha forças.

Contudo, ao ler o Portrait d’un antisémite, de Jean-Paul Sartre, Céline viu-se tomado pela fúria e jurou “dar cabo desse aborto do Sartre. Chamou o filósofo de “enfermidade epileptóide e porcaria”, que estaria “a precisar de um pontapé no rabo, de uma bordoada”. Gostaria de “partir-lhe o focinho, de o deixar sem ponta por onde se lhe pegasse”. Quis publicar sua resposta, A l’agité du bocal, que constitui, do começo ao fim, uma enfiada obscena de palavrões. Céline começa chamando o filósofo de Jean-Baptiste Sartre, tratando-o de parasita que se alojou em seu ânus (Céline parece fixado na fase sádico-anal) e abusando de metáforas escatológicas:

Agarrados ao cú… cagarolas, semissanguessugas, semitênias… verme retal, embrião… o merdas… olho do cú infecto!… merdoso, empanturrado de merda, sais do rego do cú… Ânus de Caim, cestóides!… No meu cú, que é onde ele está… crosta de meu cú genial… escuridão do meu ânus… A merda seca do meu cú… olhos de feto… Tênia… Embrião… Tênia dos cagalhões, falso girino… Tênia trocista e filosófica… Monstro saído das merdas…[39]

Jean Paulhan recusou publicar esse panfleto estúpido, ordinário, que acabou saindo numa edição quase clandestina, numa tiragem de 200 exemplares, patrocinada pelos adoradores de Céline. Mais tarde, em D’un château à l’autre, Céline dedicou a Sartre mais algumas linhas de ódio: “Agente Tartre! Criptógrafo de merda! Especulador piolhento!”.

A recuperação de Céline

Processado por colaboracionismo pela Corte de Justiça de Paris, Céline foi novamente detido em 1950 e levado a julgamento na França. Muitos vieram prestar-lhe solidariedade. A estrela de cinema Arlétty, que considerava Céline um homem atraente (a bailarina Elizabeth Craig, antiga amante de Céline, considerava-o um homem belo e sensível – quando ele parecia ter saído das cavernas de Lescaux), intercedeu em seu favor e mentiu ao tribunal, apresentando-o como amigo de infância, quando os dois só se conheceram em 1941. Jean Cocteau, perdoando Céline, também se manifestou a favor do escritor, numa tola demonstração de solidariedade de classe.

Nos Estados Unidos, os amigos de Céline recolheram assinaturas para que ele fosse libertado; assinaram: o escritor Henry Miller, o compositor Edgar Varèse, o crítico Edmund Wilson, entre outros desavisados; recusaram-se a assinar: André Breton, André Gide, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir. O cínico pedido de clemência esclarecia como “único crime” do escritor o ter “emitido opiniões impopulares, opiniões políticas emitidas em livros e escritos, que se pretende terem sido antissemitas, pró-germânicas e pró-vichystas”, num processo destituído de “provas de atos concretos”. Mais tarde, em outro processo, Henry Miller apelou pessoalmente ao tribunal a favor de Céline, através de uma carta que constitui verdadeiro documento de tolice:

É difícil, para mim, acreditar que um escritor de sua estatura e de sua dimensão possa ser culpado das acusações que pesam contra ele… Para mim ele permanecerá sempre não somente um grande escritor, mas um grande homem. O mundo pode bem fechar os olhos aos “erros” (se é que o sejam) de alguns homens eminentes, que tanto contribuíram à nossa cultura. Os verdadeiros culpados geralmente se safam.

Mas Céline safou-se: logo depois de ter sido condenado por contumácia a um ano de prisão com confisco de 50% dos bens atuais e futuros, recebeu a anistia da Justiça francesa a 26 de abril de 1951, quando regressou a Paris. Até 1957, viveu solitariamente em Meudon, cuidando, como médico, de alguns poucos pacientes, sendo visitado pelos raros amigos. Continuou, contudo, a escrever, e o anúncio de que D’un château à l’autre seria publicado pela Editora Gallimard voltou a agitar a imprensa. Quando Céline apareceu na televisão, o jornal L’Humanité reagiu e falou em “escândalo nacional”. Mas a barreira acabava de ser rompida. Entrevistado por Olga Obry, Céline declarou: “Os negros que fiquem na América, estão muito bem lá. Os judeus são outro problema; problema étnico. A raça superior é a amarela; daqui a pouco, o mundo será subjugado pelos amarelos. Os brancos estão acabados”[40]. Céline atribuía seu jeito “lixeiro” de escrever à sua ascendência flamenga, comparando-se a Rabelais, Villon e Brüghel. Não seria um escritor com mensagens ou idéias, apenas com estilo. Tinha, contudo, a nostalgia da destruição[41].

Ao visitar Céline pouco antes de sua morte, outro adorador de Céline, Jacques Darribehaude, observou que, para aquele médico escritor, a evolução do mundo parecia submetida a “impiedosas leis biológicas”. Céline, que sempre comparara os judeus aos vírus infecciosos, agora atribuía, com melancolia e nostalgia, o enfraquecimento do sentimento antissemita ao “sucesso dos antibióticos”:

Todo o mundo está vacinado, não há mais epidemias. Nada mais a esperar deste lado. Durante a última guerra, médicos alemães de alta linhagem iam a Lisboa ver se não havia lá epidemias a caminho. Não há mais varíola, não há mais tifóide… Os antibióticos assumiram grande parte da tragédia médica. Não há mais peste, não há mais cólera.[42]

Céline escreveu sobre seu passado: “Não me arrependo de nada.”. Ele permaneceu racista, observando que a França recebia “o mais que pode todos os perseguidos do mundo, cores, seitas, raças, nos seus jardins, nas suas capoeiras, nas suas faculdades e na sua cama!”. Confessou ser incapaz de gozar a vida: nem bebidas, nem comidas, nem sexo, em nada encontrava prazer: “Absolutamente nada, nada, nadinha. Só tenho uma vontade, dormir e não ser chateado.”. Mas não se furtou a compor outro romance, Nord, sobre sua fuga através da Alemanha, e uma última novela que permaneceu inacabada, Rigodon, onde voltava a lamentar serem os brancos apenas “carne de mestiçagem para converter-se em negros, em amarelos, e logo em escravos, em párias, e logo em podridão”, terminando num “delírio visionário” racista ao ver a França invadida pelos chineses. Ao morrer, em 1961, em Meudon, Céline foi acompanhado até o cemitério por cerca de 50 pessoas, entre as quais os amigos fiéis Roger Nimier e Marcel Aymé, e a viúva Lucette Destouches, que se afastou tão logo o corpo tocou o fundo da sepultura[43].

Logo depois da guerra, Paul Valéry definiu Céline como “criminoso”. Em 1952, Roger Nimier, amigo de Céline, atenuou um pouco esse julgamento: “É muito natural não amar Céline”. Mas a verdadeira recuperação começou em 1963, quando Dominique de Roux dedicou a Céline um número especial nos Cahiers de l’Herne. Nesse volume, reeditado em 1965, 1968, 1972 e 1988, a obra de Céline foi elevada a um “dos primeiros lugares na literatura do século XX”[44].

Em seu ensaio, Marcel Aymé, que havia igualmente colaborado com os alemães sob a Ocupação, atribuía os aspectos negativos da obra de Céline, assim como aqueles imputados à personalidade do autor, a uma “lenda má… tão afastada quanto possível da verdade” – verdade que apenas o círculo de amigos de Céline detinha; e essa seria que aquele “único grande escritor de seu tempo”, aquele “gênio poético” cujo rosto ostentava uma “beleza viril”, pertencia a uma “raça de escritores pouco concebível para os intelectuais da nova geração”; Céline sentiria “grande ternura… pelas crianças e pelos animais” (uma evocação de Hitler?) e seria, enfim, uma “força da natureza”; não passaria, assim, de mentira a “lenda” de que ele teria colaborado com os alemães: ele teria sido até hostil a eles e, seu antissemitismo, que não se podia negar, podia-se, contudo, compreender, como o fruto de uma educação, própria da classe de comerciantes franceses, esmagados pelos concorrentes judeus que entravam em conluio com os bancos judeus: se Céline guerreava os judeus, é porque eles o haviam antes “provocado e mirado no coração (…) foi a injustiça que gerou a injustiça”[45].

Já para Giano Acamme, o antissemitismo visceral (como qualifica) de Céline deveria ser considerado mais como elemento de estilo que como seu próprio pensamento[46]. O argumento é pífio: se, como dizia… o estilo é o homem, o antissemitismo de Céline, assim deslocado do pensamento para o estilo, voltava a comprometer o homem: seu estilo não seria mais que a expressão de seu mais profundo pensamento. Enfim, os elogios ao “gênio literário” de Céline e as interpretações de seu antissemitismo prosseguiam, na pena de adoradores de Céline, em vários graus, dos críticos literários mais ingênuos aos mais maldosos colaboracionistas ressuscitados, por quatrocentas páginas.

Em Bruxelas, Marc Laudelout lançou os Bulletins céliniens e, em Paris, a Gallimard passou a editar os Cahiers Céline. Cartas de Céline foram descobertas e editadas por Pierre Lainé, Jean-Paul Louis, Éric Mazet. Em 1966, Dominique de Roux escreveu La mort de L.-F. Céline. Em 1969, a viúva Lucette, morando na mesma casa da Route de Gardes 25er, em Meudon, onde Céline viveu a partir de 1951 seus últimos dez anos, já tentava polir a imagem do escritor para a posteridade:

Céline era um homem de imensa bondade. Tudo o que fez, o fez para o bem; amava a França, seu país, amava as pessoas em geral… Era muito mais terno do que se o imagina, mas ele não o mostrava e essa é a verdadeira ternura… E dela morreu… E se, por momentos, era um pouco duro com as pessoas, era para que se reformassem… Não lhe agradava destruir, e se quebrava alguma coisa era porque essa coisa lhe parecia inútil. Queria criar… Era um artesão sem nenhuma vaidade. Estava disposto a admirar aos demais se haviam trabalhado tanto como ele. O que ele queria era trabalhar. Pensava que nunca “cavávamos” suficientemente fundo para encontrar o que buscamos. “Ficam na superfície” declarou falando dos outros. O escritor vem do médico… Essa maneira de ver as coisas… Teria dado a vida por um enfermo, sua vida não contava… A vida… Não é suprimir a vida. Enamorado da vida. Sua paixão: a juventude; adorava os animais, tudo o que era jovem e novo… Era para a juventude que escrevia, porque não tinha o que esperar dos homens… Que não o haviam compreendido. Mais adiante, talvez…[47]

A revista Magazine Littéraire lançou ainda em 1969 um número especial com uma série de artigos apologéticos, assinados por Philippe Schuwer, Michel Baumgar, Pascal Pia. Apenas no artigo “Antissemita?” certo Rabi fazia restrições: “Serão salvos Viagem ao fim da noite e Morte a crédito. Todo o resto deve atirar-se ao lixo”[48]. Mas a sociedade francesa apressou-se em recuperar todo o resto.

François Gibault descobriu, na posse da viúva (de quem alegadamente se aproximara casualmente para tratar de uma torção após ter caído do lombo de um burro), algumas “relíquias” de Céline, como os originais de Rigodon, publicado em 1969. Ainda neste ano, certo Sr. Fourmont organizou uma exposição consagrada a Céline em Houilles sem abordar seu antissemitismo, com o objetivo apenas de “fazer ler Céline antes de tudo”. Ajuizado, o crítico e escritor Le Clézio declarou na ocasião: “Não se pode não ler Céline”.

Em 1973, surgiram La nuit de Lous-Ferdinand Céline, le voyeur-voyant, do canadense André Smith; Misère et Parole, de Frédéric Vitoux; Les idées politiques des Louis-Ferdinand Céline, de Jacquesline Morand; Drieu la Rochelle, Céline, Brasillach et la tentation fasciste, do finlandês Tarmo Kunnas. O jornal Le Monde pode, então, anunciar o fim do purgatório de Céline. Em 1976, um programa especial de TV homenageou-o com uma velha entrevista filmada e um tributo prestado pelo escritor Philippe Sollers[49]. Desde então, a Bibliothèque L-F. Céline publica atas de colóquios, textos, documentos e repertórios de livros, cartas e manuscritos de Céline colocados à venda.

Os adoradores do escritor não cessam mais de publicar volumosas biografias anuais reabilitando o mestre. Tornando-se o “biógrafo oficial” de Céline através de sua ligação com Lucette, François Gibault publicou os três volumes de seu Céline (1977-1985), onde interpreta o antissemitismo do escritor como a atitude de um corajoso pacifista que tentava alertar o mundo contra a Segunda Guerra; denunciava, pois, os judeus como os provocadores da nova conflagração que previa e temia, tendo já conhecido os horrores da Primeira Guerra. O colaboracionismo de Céline teria sido, assim, apenas uma política de fraternidade entre franceses e alemães.

Na mesma trilha, Philippe Muray pintou, em Céline (1980), o retrato do escritor como pacifista radical, e antissemita por desespero, panfletário infeliz, mas romancista genial, crucificado por ter gritado o que muitos colaboracionistas cochichavam junto aos ocupantes livrando-se de censuras, enquanto aquele pagava caro suas palavras de fogo, apodrecendo no cárcere. O martírio cruel, apesar de merecido, teria unido Céline ao século XX “para o melhor e o pior”…

Jean-Pierre Dauphin e Paul Fouché editaram La bibliographie des écrits de Louis-Ferdinand Céline (1984), a mais completa recensão dos escritos publicados e inéditos do escritor, fonte de consulta obrigatória dos adoradores de Céline.

Num novo Céline (1987), Paul del Perugia evitou aprofundar-se na discussão do antissemitismo do escritor, observando que o Japão havia autorizado a publicação dos panfletos de Céline, mas que na França ainda seria “preciso esperar que nossa opinião seja convenientemente preparada para que o antissemitismo céliniano possa ser colocado em todas as mãos[50] (grifo nosso). O Céline retratado por Perugia assemelha-se a um santo místico que pregava no deserto, um cavaleiro da Távola Redonda que errava num mundo entorpecido, um gênio solitário cuja lucidez conduzia ao martírio. Céline seria um inocente, enfim (observem as aspas em “câmaras de gás”):

Na sua errância, o andarilho não supunha sequer por um instante a existência das “câmaras de gás”, de corpos incinerados. Ele só ouviu falar de deportados que trabalhavam na Alemanha. Seu itinerário não passa pelos campos de concentração; Céline pareceu muito escandalizado por não ter testemunhado nada dos crimes dos alemães… Seu anti-hitlerismo datava de tomadas de posição feitas desde 1933[51].

Paul del Perugia invocava uma entrevista que Céline dera ao jornal Le Figaro pouco antes de morrer:

Não quero que os senhores pensem que eu era indiferente a Buchenwald, etc. Se tivessem se fiado apenas em mim, ninguém teria ido para lá… Não preveni preto no branco que uma nova guerra seria uma catástrofe, que o exército francês sumiria e que se seguiriam a isso mil horrores; que aqueles que os senhores sabem nos levariam ao poço, e que dali não sairíamos mais?…[52].

Mas ao arrogar-se uma inocência divina e profética, Céline levava ao cúmulo seu antissemitismo; pois aqueles que os senhores sabem não eram outros que os judeus, aos quais ele novamente atribuía a culpa pela Segunda Guerra e suas conseqüências, o que incluía “Buchenwald, etc.”. Perugia queria que esse “sádico de alma pura” (nas irretocáveis palavras de Sartre) desconhecesse os crimes de Hitler e fosse ao mesmo tempo o mais lúcido avaliador do regime nazista: “Desde 1936, Erika Irrgang emigrou para Cambridge. Céline a tinha advertido, com uma sabedoria severa, sobre os holocaustos com os quais Hitler ameaçava os judeus”[53].

Céline não desconhecia os crimes nazistas: ele soube, por exemplo, em dezembro de 1938, da morte do marido da amiga Cillie Pam, ligada ao meio intelectual judeu de Viena, no campo de Dachau. Escreveu à amiga na ocasião: “Eis notícias atrozes”, dedicando o resto da carta a relatar seus próprios “dramas”, concluindo de forma fracamente sádica: “Você vê que os judeus também perseguem.”[54]. As “contradições” desse “amigo dos judeus” falam por si.

Logo Frédéric Vitoux deu a público La vie de Céline (1988), que consumiu mais de dez anos de sua vida, representando a última manifestação de sua difícil cumplicidade com aquele autor. Retomando a tese de Gibault, Vitoux, voltou a interpretar o antissemitismo de Céline como forma de pacifismo, e seus apelos ao massacre dos judeus como delírios e féeries, fantasias literárias sem relação com a realidade: “Seu antissemitismo de outrora era uma forma de esperança, ele o vociferava com um objetivo preciso: evitar a guerra, preservar a paz, a paz a qualquer preço”[55].

Retomando a tese revisionista em La vie de Céline (1988), Frédéric Vitoux interpretou o antissemitismo de Céline como uma forma de pacifismo, e seus apelos ao extermínio dos judeus como féeries alheias à realidade. “Seu antissemitismo de outrora era uma forma de esperança, ele o vociferava com um objetivo preciso: evitar a guerra, preservar a paz, a paz a qualquer preço”. Céline seria um visionário míope, pois incapaz de enxergar as deportações que se faziam sob seu nariz. Enquanto os judeus eram mandados para a morte, Céline veria apenas “judeus plutocratas que triunfam”[56]. Vitoux recusa associar o nome de Céline ao nazismo, não querendo ver o colaborador consciente de suas opções antissemitas homicidas, mas apenas “o inventor de uma linguagem”, não as suas motivações criminosas, mas “sua musiqueta, sua revolução pessoal”, pois “eis o que lhe importa e que o torna, para nós, imenso”[57].

Philippe Alméras, outro apóstolo de Céline, livrou ao público Les Idées de Céline, assegurando-nos de que “estudar as ideias (sic) de Céline não é nem justificá-las, nem descrever uma patologia, mas tentar compreender como sobre uma plataforma tão marginal pode-se edificar uma das obras maiores do século”[58]. Como todo céliniano que toma as diatribes antissemitas de Celine por “ideias”, Alméras acredita na genialidade do escritor:

Onde estão os Duhamel, Maurois, Gide, Montherland, Giraudoux e mesmo Malraux e Aragon? Céline sobrevive. Se ele ainda não está no vestibular chinês, já foi traduzido lá. Na França, dos autores contemporâneos, é um dos únicos que encontram boa acolhida entre os jovens. Desde 1957, Céline voltou a ser o contemporâneo capital[59].

Cego a toda literatura francesa que sobrevive muito bem sem o lobby da crítica de direita, ele vê em Céline o “criador de uma linguagem nova”. Triste sintoma de uma época! O próprio Alméras explica a atual deturpação de valores que justifica a recuperação de Céline: “Como nós, ele não crê em nada, nem em Deus nem no horizonte das revoluções… o que o obceca é a pulsação da célula, a antecipação do nada… persuadido da maldade fundamental do homem.”[60]. Contudo, no fundo desse pretenso niilismo que os contemporâneos compartilhariam com Céline, Alméras acredita, sim, em alguma coisa: no antissemitismo, uma vez que ele pretende – como declara – “renovar a apreciação dos panfletos de Céline”[61].

Alméras logo publicou outro livro de puro revisionismo, as Lettre des Années Noires, reproduzindo cartas antissemitas inéditas que Céline enviou a Henri Poulain, redator do Je suis partout, e a Paul Bony, tradutor da Gestapo durante a guerra. A viúva Lucette obteve autorização judicial para proibir a reedição do livro e de outras obras de Céline sem sua permissão. Mas Alméras prosseguiu na campanha de reabilitação lançando pela editora Laffont outra biografia de seu mestre: Céline – Entre haines et passions (1994).

Henri Godard lidera o culto dos adoradores de Céline: ele lançou, sucessivamente, Les Écrits de Céline et leurs leçons, Poétique de Céline e Céline Scandale. Este crítico não negou que Céline produzira textos antissemitas, durante a Ocupação e, depois da guerra, “uma dúzia de passagens ofendendo a memória do Holocausto”. Mas – os revisionistas sempre proferem a palavra “mas” – no seu entendimento “esta denegação de toda qualidade à comunidade judaica expressa nas intervenções do narrador é contradita no corpo dos romances quando Céline coloca em cena personagens judeus”. O que Céline procuraria, então, difamando os judeus e atacando a memória do Holocausto era apenas “confrontar-nos com o mal através de agressões racistas”. Caso ninguém se convencesse desse malabarismo de interpretação, Godard concluía que, pairando acima da moral, estaria a qualidade literária da obra, a singularidade do prazer estético autônomo e independente…

Na mesma linha de argumentação rebuscada, Yvez Pagès tentou demonstrar, em Les fictions du politique chez L.-F. Céline (1994), que Céline não seria um simpatizante do nazismo nem um populista antissemita, mas, bem lá no fundo de seu ser, um autêntico “gauchiste anárquico”, tão sofisticado que nenhum de seus críticos de esquerda se teria dado conta disso! Após esse notável número de contorcionismo intelectual, o último viés da recuperação do antissemitismo céliniano foi dado pela espantosa teoria do “Céline superjudeu”.

Em Céline seul (1993), Stéphane Zagdanski, que se diz judeu, e chama os críticos de Céline de “asnos” no artigo “Ânes s’abstenir” (“Asnos abster-se”), num número especial da revista l’Infini nº 45, dedicado ao escritor, com diversos inéditos, incluindo o texto integral de Mea Culpa, postula que uma guerra foi declarada, sendo preciso escolher um campo: “Não: Céline ou os judeus, mas: Céline, os judeus e a literatura ou o resto do mundo”. Bem, preferimos escolher o resto do mundo, tomando a liberdade de incluir aí os judeus que restam avessos ao antissemitismo e a literatura que resta sem as obras de Céline.

O exótico Zagdanski adverte possíveis críticos de sua tese de que, como judeu, não pretende “reabilitar” Céline ensinando os judeus a amá-lo, mas provar que Céline, como Sade, escreveu seus panfletos exclusivamente para escritores. Em que isso modificaria o conteúdo dos textos é um mistério insondável. Mas Zagdanski não pára aí. Para ele, Céline não seria antissemita porque o antissemitismo é, por natureza, antiliterário e os judeus seriam “a letra do espírito”. Místico da literatura como Proust, seu maior rival e modelo a igualar e ultrapassar, Céline seria o “superjudeu”, escrevendo literatura talmúdica, retornando a um judaísmo que o elevaria ao mais alto da consciência humana[62]. Embora alguns críticos tenham considerado a tese de Zagdanski “brilhante”, ela não passa de mais uma manifestação irracional na qual os “judeus” aparecem em oposição ao “resto do mundo”. É esse racismo de Zagdanski, que o qualifica ao conceito de “judeu nazista” proposta pelo filósofo Leibowitz, que o aproxima tanto de Céline.

Também Jacques Lecarme pretendeu que o discurso racista de Céline não tenha atraído ninguém para sua causa, sendo seguido apenas por leitores que jamais o levaram a sério[63]. O que passa despercebido nesse “argumento” é a segurança com que os adoradores de Céline radiografam uma audiência virtual e determinam o que foi ou não absorvido por ela; de que maneira Céline foi ou não apreendido no interior de suas mentes. Impressionante, ainda, como críticos que não viveram a Segunda Guerra, a Ocupação, a Colaboração e o Holocausto mostram-se tão ansiosas por perdoar Céline em nome das vítimas silenciadas. O escritor Juan Carlos Onetti resumiu o assunto com uma piada: “Céline diante do tribunal de depuração: ‘Eu, antissemita? Abetz ofereceu-me o encargo de resolver o problema judeu na França e eu não aceitei. Se tivesse dito que sim, a essa hora não restaria um único judeu na França!”.

Mas, no Brasil, Leda Tenório da Motta, para quem “Louis-Ferdinand Céline é ao lado do judeu Marcel Proust, o mais importante escritor francês deste século”, captou a mensagem revisionista. Em seu ensaio “Céline diante do extremo”, ela filia o colaboracionista à tradição daquele “cronista da aristocracia da Rive Droite”, tentando fazer passar Céline como apenas o “cronista da França colaboracionista”, e não um de seus membros mais sujos. Seu antissemitismo é desculpado, reinterpretado, metaforizado, retrabalhado, revirado, recodificado para ser em seguida descodificado sem medo…

Para Leda, Céline seria um “judeu ao avesso, identificado com o perseguidor nazista e, na lógica dessa pista, o antissemitismo é um delírio de perseguição invertido […]. Céline precisa do judeu imundo como causa externa, para não desmoronar internamente”. O ódio aos judeus seria necessário “à coerência do sujeito instável que ele é tanto quanto o corpo bem modelado da bailarina […] seria a contrapartida positiva dessa frágil criação identitária”. Na dúvida que permanece em suspenso, Leda afirma “em nome dos bons sentimentos”, que Céline pelo menos não passou da palavra ao ato: “Toda a sua ofensa ao judeu é por escrito. O surto persecutório, embora envolva a mais grave questão ética deste século, não extrapola a obsessão do estilo e a folha de papel, quer dizer: o tormento interior.”[64]

Quem lesse apenas as interpretações de Leda poderia pensar que Céline tivesse permanecido inédito durante a Ocupação, escrevendo apenas para si mesmo, em folhas atiradas ao lixo, expurgando seus demônios interiores enquanto depurava seu estilo, numa terapia particular, secreta. Ledo engano! Na realidade, Céline levou, sempre que pode, seu “tormento interior” e sua “fragilidade identitária” ao espaço público, divulgando suas folhas “secretas” em jornais colaboracionistas, denunciando judeus aos nazistas, pregando aberta e publicamente seu extermínio. Claro que o antissemita é vítima de fraturas psicológicas, mas ele é também responsável pela matéria viscosa que escorre dessas fraturas: se ao invés de tratá-las, ele prefere expô-las em público, na esperança de “normalizá-las” à custa da vida dos judeus, deve sofrer as consequências.

Em outra reflexão sobre Céline, Leda Tenório da Motta, inconformada com o que chama, eufemisticamente, de “desencontro entre Sartre e Céline”, põe-se a conjecturar sobre a grandeza do colaboracionista condenado ao ostracismo pelo filósofo existencialista em uma espécie de versão moderna e capenga da expulsão dos poetas da República de Platão. A denúncia de Sartre de que “se Céline pôde defender as teses sociais dos nazistas, é que era pago para isso” não teria sido, a seu ver, “jamais comprovada”, sendo, sempre a seu ver, “sabidamente falsa”. Mas, para Leda, essa “denúncia prospera, e eis o escritor banido, como Homero, Hesíodo e Píndaro por Platão”. [65]

Nem a atividade dos novos críticos aninhados no “Centre Céline” da Universidade de Paris VII, cultuando os panfletos antissemitas de Céline como escritos “de uma beleza selvagem” teriam conseguido abolir o “veto” de Sartre. Mas eis que surge a revista Tel Quel, tendo à frente Philippe Sollers, “com sua predileção pelos poderes subversivos da literatura”. E assim, pelo viés da “subversão”, Céline pode ser finalmente reabilitado: “É graças à ação da Tel Quel […] que podemos reconhecer hoje, com certa tranqüilidade, o lugar que esse romancista […] ocupa […] na história da literatura em termos absolutos.” E após aproximar Céline de Homero, de Hesíodo, de Píndaro, de Madame de Sévigné, de Saint-Simon, de Marcel Proust, de Baudelaire e até de Alfred Hitchcock, Leda conclui suas conjeturas com um desafio estimulante: “E se Céline, com sua escola de cadáveres, fosse, em literatura, o equivalente de um Francis Bacon?”[66]. O céu é o limite…

O que a crítica pós-moderna tenta desesperadamente, das maneiras mais tortuosas, é recuperar Céline por inteiro, incluindo seu antissemitismo. Até Michel Contat, ao escrever a respeito deste surto, viu-se tentado a reconhecer o estilo Céline, a capitular diante do sucesso de Céline, e a exigir a publicação dos panfletos antissemitas:

Hoje, de Coluche a Sollers, da Universidade à jovem guarda literária, todo mundo admira, vende Céline. Ele está na Pléiade, na Folio, é um grande escritor reconhecido, patente, estampilhado, canonizado, e que se vende, muito… Rabino Céline? Santo Céline? Por que não? Mas perseguido, mártir, não. O insulto seria grave demais em relação aos verdadeiros mártires desse século… Que se reeditem, pois, os panfletos, que se ponha à obra esse estilo[67].

De fato, como resistir ao rolo compressor das edições de luxo e de bolso, seguidas de críticas entusiásticas de jornalistas, críticos literários e professores em tantas publicações e universidades? A consagração maior veio com a edição crítica de Henri Godard, em papel bíblia, na Bibliothèque de la Pléiade, da Gallimard. A obra de Céline viu-se assim “imortalizada” naquela coleção reservada aos grandes espíritos da literatura mundial e aos mestres da língua francesa. Como se isso não bastasse, as obras de Céline continuam sendo lançadas em grandes tiragens em formato de bolso, alimentando a massa de estudantes e curiosos. Suas teses, esparsos, artigos e cartas não cessam de ser recuperados por pequenas editoras em edições raras, para colecionadores. A poderosa Gallimard incluiu todo Céline em seus catálogos[68].

Essa folia editorial realimenta-se e cresce como uma bola de neve: a editora Du Lerot lançou, entre 1990 e 1991, dois volumes do Année Celine. Em 1994, a Gallimard lançou Elizabeth et Louis, livro de entrevistas de Alphonse Juilland com a bailarina americana Elizabeth Craig, revelando seu relacionamento com Céline durante os anos 1926-1933; a Révue d’études du roman du XXe. siècle, da Universidade Lille-III, preparou um dossiê crítico sobre Voyage au bout de la nuit, com contribuições de Henri Godard, André Derval, Philippe Destruel, Philippe Bonnefis. Claude Duneton publicou sua homenagem à “peregrinação pelos caminhos do exílio do escritor” em Bal à Korsor. Estudos particulares sucedem-se obsessivamente: Le Cinéma de Céline, de J. D’Arribehaude; Relerd des sources et citations de Bagatelles pour un massacre, de Alice Kaplan; Céline de mes souvenirs, de Serge Perrault; Essai de situation des pamphlets de Louis-Ferdinand Céline, d’Eric Sébold. Entre as publicações do IMEC, destaca-se um Tout Céline; e o ensaio Céline et les Editions Denoël (1932-1948).

Na voragem dessa exaltação sem limites, os manuscritos de Voyage au bout de la nuit foram leiloados, em 2001, por 12 milhões de francos, pagos pela Biblioteca Nacional e pela senhora Nahed Ojed, viúva do riquíssimo comerciante de armas. O preço ultrapassou o valor atingido pelos manuscritos dos nove volumes das Memórias de além-túmulo, de François-René de Chateaubriand (4 milhões); pelos do primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust (7 milhões); e pelos da novela O processo, de Franz Kafka (10 milhões). “Tenha dó!”, não se conteve Gilles Lapouge ao noticiar o fato[69]. O recorde de Céline só foi superado, anos depois, com a venda dos manuscritos de On the Road, de Jack Kerouac, por 15 milhões de francos.

A recuperação da literatura antissemita é um fenômeno mundial e, graças ao consumismo (que tudo transforma em objeto de consumo), autores antissemitas e colaboracionistas são reabilitados com novas edições. Na Itália, a editora Adelphi relançou as obras de Alexander Lernet-Holenia, a Aurora publicou uma tradução de Bagatelles pour un massacre, de Céline, vendido nas seções de best sellers de todas as livrarias Mondadori e Feltrinelli. Na Alemanha, diversas editoras relançaram as obras do também antissemita e colaborador do nazismo Hanns Heinz Ewers. Na França, os livros de Lucien Rebatet foram reeditados: Les mémoires d’un fasciste/I – Les décombres (1938-1840), pela Pauvert, em 1976; e Les deux étendards, pela Gallimard, em 2007; as Éditions de L’Herne relançou A l’agité du bocal, de Céline.

Participando desse clima revisionista, o jornalista e escritor Paulo Francis, numa crônica de 1996, elogiou Drieu de la Rochelle, supostamente vitimado por uma adaptação cinematográfica “indigna” de Feu Follet, e o colaboracionista Robert Brasillach, “satirizado cruelmente por Truffaut em O último metrô”. Francis considerou Céline e Rebatet “os dois escritores de primeiro time franceses do meio século” e lamentou que o segundo, um “clássico do colaboracionismo”, tenha sido “ignorado pela crítica”, responsabilizando Jean-Paul Sartre por isso!

Em 2001, Lucette, ainda viva aos 87 anos, morando na mesma casa de Meudon, lançou o pequeno livro Céline sécret, escrito em parceria com Véronique Robert, uma coletânea de reminiscências de sua vida a dois com o escritor, e onde traçava um retrato íntimo do marido enquanto “gênio incompreendido”. O objetivo de sua empreitada era fazer com que o público visse Céline como ela o percebia:

[…] Um homem frágil, um homem bom, que sofreu tanto… Atingido por um estilhaço de obus… Não conseguia mais dormir… Os nervos constantemente à flor da pele. Vivia em um estado de segunda consciência. Foi por isso que brilhou tanto em literatura. Caso contrário, ele teria sido apenas um bom médico, e isso teria sido perfeito. A literatura não merece que se sofra tanto por ela[70].

Contudo, além de verter o baixo calão para o papel, que revolução literária teria Céline realizado? Esse espírito mesquinho, acanalhado pelo antissemitismo, nada criou além de uma subliteratura, de um pastiche das experiências entediantes de James Joyce que, contudo, antes de soçobrar no experimentalismo, provou ser um grande escritor com Os Dublinenses e Retrato de um artista quando jovem. Já Céline começou soçobrando, incapaz de criar personagens consistentes, psicologicamente verdadeiros. Sua obra é toda feita de ódio e morbidez, folie e nojo.

Enigmaticamente, a baixeza desse escritor, sua ignomínia moral, que tanto avilta o espírito e que foi reconhecida até por militares alemães da Ocupação, é hoje entendido pela crítica como “grandeza”; seu horror à vida deve-se à sua “genialidade”; suas cacofonias são interpretadas como “estilo revolucionário”; seus gritos de “morte aos judeus” e seu colaboracionismo são amaciados e justificados em nome de um “pacifismo desesperado” nas volumosas biografias anuais.

Os adoradores de Céline interpretam positivamente seu ódio aos judeus com o objetivo de reintegrar os panfletos colaboracionistas na literatura francesa, dando-lhes novos significados, retirando-os de seu contexto histórico, descobrindo neles intenções puras, nobres, positivas, ocultas lá no fundo, injustamente suplantadas pelo “fel anárquico” do militante. Esses críticos traem seus parti-pris pela própria minúcia de suas pesquisas, que se estendem por trezentas, quinhentas e até mil páginas de escavações e cacofonias, repetições e escavações célinianas. Não se vive tantos anos dentro da vida de outrem que já não fosse, ou que não se tenha então tornado, parte de sua própria vida. A intensidade dessas pesquisas encontraria uma justificativa no “gênio literário” de Céline, mito cultivado tanto por críticos inexpressivos como Michel Beaujour, Michel Thélia ou o catedrático americano dito judeu Milton Hindus [71] quanto por críticos importantes, como Maurice Nadeau, Michel Butor, Roland Barthes, Julia Kristeva [72] ou Philippe Sollers.

Entre nós, Leyla Perrone-Moisés considerou que Voyage au bout de la nuit está, para as letras francesas, como Grande Sertão Veredas para as letras nacionais [73]. Silviano Santiago evocou a “genialidade artística de Céline”, que teria produzido “extraordinários romances”. Para Luis Carlos Maciel, Céline seria grande porque “a intenção artística independe do processo intelectual”. Joel Silveira, mesmo considerando Céline “um crápula, um filho da mãe completo”, admitiu que ele “foi um dos grandes escritores deste século”, sendo Voyage au bout de la nuit “um livro absolutamente genial”. Rosa Freire d’Aguiar traduziu aquele romance para a Companhia das Letras colaborando com um encantado prefácio [74]. Para Silvio Back, Céline era um gênio porque “a beleza estética está acima das ideologias”, citando Sergei Eisenstein, Ezra Pound, T. S. Eliot e Leni Riefenstahl como outras tantas provas [75].

Josué Montello, numa apreciação de Voyage au bout de la nuit, destacou como “indeléveis na memória” duas cenas do romance: “a do momento em que Robinson reconhece que está cego e a da morte da jovem que se submeteu a um aborto e vai-se acabando numa lenta e irreprimível hemorragia”. Noutro “reparo luminoso”, Céline nos daria a chave de si próprio: “Cada um de nós é artista com o que tem à mão”. E Josué a justificá-lo: “O que ele tinha à mão […] era a pobreza e a covardia, a podridão e o medo, a traição e o ódio, a ingratidão e a cupidez, com os seres humanos tentando enganar uns aos outros, sob a vigilância da Morte” [76].

Aparentemente cego à consagração nacional de Céline na França e, por reflexo, no Brasil, o prefaciador de O cão de Deus (1995), da sintomática editora Hiena, de Portugal, considerou “revoltante” a forma como a intelligentsia francesa tratava o escritor: “Tenho Céline por um genial inventor […]. Aos meus olhos não só o mais importante (poeta) do nosso tempo, mas nos vários séculos que formam os tempos modernos, uma das maiores charneiras da arte de escrever”. Para esse adorador canino que eleva o trôpego Céline à dimensão de um Flaubert, um Proust, um Machado de Assis, um Sartre, um Camus, um Pasolini, um Borges, ele seria não apenas o maior vulto literário dos últimos séculos, como verdadeiro santo digno de beatificação: “Não houve homem de melhor coração, mais patriota, mais confraternizador”. Naturalmente, se esse gênio santo não deixou obra que preste, não é culpa sua; destruiu-a uma conspiração:

Todo o estatuto da intelligentsia assenta num sistema de vasta impostura com postos e equipas de substituição tão complexos e vastos que, indo por acidente ao ar um ou outro destes postos, não põe em perigo o conjunto; mas quando aparece um determinado desmanchador, um que ataca a central, o grande sabotador, tocam sinos a rebate e sócios de todos os níveis precipitam-se com azeite a ferver, em direcção à muralha[77].

Assim, Céline teria sido vítima dos intelectuais incomodados com a sabotagem da literatura e do espírito praticada pelo gênio santo. Mas não basta ao adorador de Céline pintar de ouro seu ídolo de barro; é preciso transfigurá-lo em resistente antinazista: “Céline… recusava-se a colaborar.” Apenas a imprensa marrom desfigura “o íntegro, o irrepreensível Céline e as suas demiúrgicas epopéias em especiosa figura de polemista pretensamente racista e pró-nazista”. Não, ele não teria sido nada disso. Para o cão de Céline, este realizou a maior das revoluções na literatura, convertendo-a em língua falada transcrita, “a mais maravilhosa das falas”. Essa grande revolução, que transforma o homem da rua, o bêbado do boteco, a prostituta da esquina ou o operário da fábrica em obras-primas ambulantes da nova literatura, é bem digna de quem proclamou: “Basta eu ouvir pronunciar à minha volta a palavra Espírito, para cuspir!”.

Mas… E se Céline não fosse um gênio? E se fosse apenas uma larva, um produto do lixo, a “podridão em suspenso”, tal como ele definia o homem? Não é à toa que, para destacar os fulgores literários de Céline, seus admiradores empreguem os termos mais negativos: “bílis negra e viscosa”, “vinagre”, “furor”, “furacão”, “vulcão”, “dinamite”, “cólera”, “vitríolo”, “veneno” e assim por diante. Nenhum ato de nobreza ou generosidade é ressaltado: apenas o ignóbil magicamente reconvertido ao positivo.

A experiência de miséria que Charles Chaplin descreveu em sua autobiografia não o tornou niilista e seus filmes dão testemunha disso. As terríveis visões que Erich Marie Remarque teve da Primeira Guerra não fez de seu Nada de novo no Front um hino às aberrações. Mas milhões de páginas são impressas diariamente na França para celebrar um espírito vulgar que, um dia, pôs-se a escrever. Nesse mar de lama, apenas um estudo crítico se destaca: Céline, un antijuif fanatique, de Annick Duraffour, um dossiê completo sobre as posições do escritor, sem interpretar suas palavras e atos antissemitas, chamando a barbárie pelo seu nome [78].

A verdade é que Céline representa bem certa França: a França que condenou, sem provas, o capitão Dreyfus; a França dos colaboradores; a França de Maurice Papon; a França da Frente Nacional de Le Pen. Foi essa França grosseira, racista, antissemita, que colocou Céline num pedestal, que, pelo efeito-cascata da sociedade de consumo, se elevou sem cessar, com novas biografias, edições críticas, álbuns, cadernos, reedições de bolso e de luxo dedicados a um paranóico que, um dia, pôs-se a escrever baboseiras. Grande escritor? Não: Céline só vertia para o papel o que tilintava em sua mente perturbada. E tudo foi publicado, louvado por críticos salauds, maliciosos, nostálgicos do nazismo, demasiadamente ingênuos ou amantes das mazelas. E de exaltação em exaltação – até seu gato de estimação ganhou uma biografia: Bébert, le chat de Louis-Ferdinand Céline, editado pela Grasset e reeditado em 1994! – Céline transformou-se num (pseudo) “clássico” da literatura francesa, digno de ser traduzido para todas as línguas, incluindo o hebraico.

O lançamento de Voyage au bout de la nuit em Israel marcou a etapa final da recuperação de Céline. O crítico Nicolas Weill previu que a primeira obra de Céline traduzida para o hebraico seria bem acolhida na corrente noir da moderna literatura israelense [79], independente do fato de seu autor “encarnar para a população israelense um antissemitismo encarniçado”. Os editores justificaram-se: “Não somos um tribunal”, mostrando-se preocupados apenas com “a existência de pessoas que se atribuem o direito de decidir o que outros devem ou não ler”. Por via das dúvidas, a tradutora Ilana Hammermann publicou simultaneamente um artigo no Ha’aretz consagrado às Crônicas do Gueto de Varsóvia, de Emmanuel Ringelblum: homenageando uma vítima da Shoah, deixava claro ter cumprido, no caso da tradução de Céline, apenas uma tarefa profissional. [80]

A 21 de janeiro de 2011, o Ministro da Cultura da França, Fréderic Mitterrand, anunciou sua corajosa decisão de não comemorar oficialmente o 50° aniversário da morte de Louis-Ferdinand Céline, sendo aplaudido por Richard Prasquier, presidente da seção francesa do grupo CRIF, e por Serge Klarsfeld, presidente da associação FFDJF (Filhos e Filhas dos Judeus Deportados da França), que declarou: “O talento de Céline não deve permitir-nos esquecer o homem que apelou para o assassinato dos judeus durante a Ocupação.” Entretanto, numerosos acadêmicos franceses protestaram dizendo que não se devia misturar o “gênio literário de Céline” com o “antissemitismo bastardo de Céline” – como se a França devesse celebrar esse escritor minimizando seu antissemitismo como algo de alheio aos seus escritos.

Para o escritor peruano Manuel Vargas Llosa a não-celebração oficial do cinqüentenário da morte de Céline abriu um precedente perigoso contra os escritores antissemitas, que padeceriam dos mesmos pecadilhos dos seres humanos comuns: “A decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria. […] a imensa maioria padece das mesmas misérias, taras e barbaridades que o comum dos seres humanos. Somente na rubrica do antissemitismo […] seria preciso excluir do reconhecimento público […] Shakespeare, Quevedo, Balzac, Pio Baroja, T. S. Eliot, Claudel, Ezra Pound, E. M. Cioran, e muitíssimos mais.” [81]

Ao mesmo tempo, Llosa condena os que celebram o cineasta judeu Roman Polanski, tendo em vista o delito sexual que ele cometeu, ao drogar e sodomizar uma adolescente. O contexto do crime é omitido (a garota não era mais virgem, foi levada pela mãe para posar nua para o cineasta, freqüentava as festas barra-pesada de Hollywood) e, embora o caráter da vítima não justifique o crime, é significativo que ela há muito tenha perdoado seu suposto agressor sexual. Llosa, contudo, não perdoa o desvio de comportamento do judeu. Já os crimes contra a humanidade do antissemita ele releva. Colaborar na deportação de judeus inocentes votados à fome, tortura e morte em campos de extermínio não impediria a celebração do artista antissemita; já o delito sexual tornaria a celebração do artista judeu asquerosa. Ao judeu não é permitida nenhuma daquelas “misérias, taras e barbaridades” afeitas ao comum dos humanos: celebrar um judeu imperfeito é para Llosa tão nauseante quanto a leitura dos panfletos antissemitas de seu querido Céline. Ainda que Céline seja politicamente “uma escória” – aquiesce Llosa – a França deveria colocar isso entre parênteses e manter a celebração oficial.

Para equilibrar o fiel da balança à qual ele deitou dois pesos e duas medidas Llosa precisa elevar Céline aos céus, imaginando o nauseante escrevinhador como um “extraordinário escritor, seguramente o mais importante romancista francês do século XX depois de Proust […] [já que] com a exceção de Em busca do tempo perdido e A condição humana de Malraux, não existe na narrativa moderna em língua francesa nada que se assemelhe em originalidade, força expressiva e riqueza criadora às obras-primas de Céline, Viagem ao Fim da Noite (1932) e Morte a Crédito (1936).”

Pobres André Gide, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Simone de Beauvoir, Louis Aragon, Marguerite Duras, Antoine de Saint-Exupéry, Vercors, Jules Romains, Romain Rolland, Georges Duhamel, etc. etc. – o grande Céline eclipsou a todos! Mas o que é que os “dois romances fora de série” de Céline nos traz de tão maravilhoso? Llosa responde sem titubear: “O mundinho feroz da mediocridade, do ressentimento, da inveja, dos complexos, a sordidez de um vasto setor social que abarcava desde o lúmpen até as camadas mais degradadas em seus níveis de vida das classes médias de seu tempo. […] pobreza, fracasso, desilusão, mentiras, traições, baixezas […]. O grande mérito desse escritor maldito foi […] demonstrar que o mundo em que vivemos também é essa porcaria […].” Por isso, conclui Llosa, “é preciso celebrar os romances de Celine.” [82]

Já Polanski, cujos filmes exaltam a liberdade e a vida em meio à violência e ao mal do mundo, não merece a mesma consideração. O fato de ele ter conseguido, graças a “uma espetacular campanha midiática”, que a justiça suíça não o extraditasse para os EUA é comentado por Llosa em linhas carregadas de ironia e sarcasmo: “Isso foi celebrado como uma vitória contra a terrível injustiça da qual, pelo visto, ele havia sido vítima por parte dos juízes americanos […]. Pobre cineasta! Em que pese seu enorme talento, os abusivos tribunais americanos queriam castigá-lo […]. Menos mal que um país como a França, onde se respeitam a cultura e o talento, ofereceu-lhe exílio e proteção, e lhe permitiu continuar produzindo as excelentes obras cinematográficas que hoje ganham prêmios por toda parte. Confesso que essa história me causa as mesmas náuseas que senti quando mergulhei, há meio século, nas páginas putrefatas de Bagatelles pour un massacre.” – conclui LLosa sua tendenciosa reflexão. [83]

No caso do escritor antissemita, o talento absolveria até os pecados mortais. No caso do cineasta judeu, o talento não absolveria nem mesmo os pecados veniais. Outro exemplo é dado por Serge Kaganski num recente artigo de revisionismo ponderado: ele considerou Celine “o mais genial e controverso escritor francês do século XX” [84]. E ponderou: “A despeito da violência abjeta dos panfletos, seria sem dúvida necessário trazê-los a público, para que se possa conhecer Céline por completo”; “O fato de não serem inéditas não torna menos interessantes as críticas [ao antissemitismo de Jean-Luc Godard] de [Alain] Fleisher” [em Réponse du muet au parlant]; “Os aspectos legitimamente criticáveis de Godard não diminuem a importância de sua obra”. Nesse revisionismo ponderado tudo é justificado pelo peso de uma autoridade.

Que a subliteratura de Céline seja consumida é compreensível: pela curiosidade em torno de sua fama, pelo prazer que sentimos ao sermos escandalizados, pela atração que sentimos pelo mórbido e pelo proibido, pela fascinação que todo mal exerce. Mas que, depois de lidas, suas obras pseudoliterárias, seus romances desagradáveis, seus panfletos grosseiros, suas imprecações boçais não revoltem os espíritos, mas suscitem uma terna admiração e uma ardorosa cumplicidade, gerando mesmo uma entusiasmada fortuna crítica a consagrar um energúmeno como  “o mais genial escritor francês do século XX”, com um fingido dar de ombros para a desumanidade contida no fundo, eis um indício do horror que ganha o mundo e compromete toda esperança no futuro.

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[1] MAURIAC apud GIBAULT, Céline, v. I, p. 156.

[2] GIBAULT, Céline, v. I, p. 63; p. 156.

[3] CÉLINE apud VITOUX, La vie de Céline, p. 357.

[4] CÉLINE, Carta  a Lucien Combelle, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 115-116.

[5] CÉLINE, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 115-116.

[6] ARAGON, A propos de ‘L’Église’, Commune, nº 3, nov. 1933, apud DURAFFOUR, “Céline, un antijuif fanatique”, in TAGUIEFF, L’anti-sémitisme de plume, p. 149.

[7] “Louis-Ferdinand Céline entrou na grande literatura como alguns penetram na própria casa…”. TROTSKI, “Céline et Poincaré”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 241-243.

[8] As campanhas de ódio de Henri Béraud no Gringoire levaram Roger Salengro ao suicídio em 1936. Ce qu’ ils sont devenus?, http://perso.wanadoo.fr/d-d.natanson/devenus.htm#b; KAUFFER, Remi. Un flot de haine déferle sur Blum. URL: http://www.historia.presse.fr/data/thematique/87/08706601.html.

[9] Segundo Georges Sadoul, em 1936, 40 títulos de quadrinhos americanos eram vendidos semanalmente na França, perfazendo três milhões de exemplares. ORY, Palcal. Le petit nazi illustré, p. 13.

[10] Sartre usou uma frase da obra (“É um rapaz sem importância coletiva, é tão somente um indivíduo”) como epígrafe de La Nausée (A náusea). Segundo Michel Contat e Michel Rybalka, o filósofo ignorava na época o aspecto antissemita da peça, não a tendo lido, usando a citação de segunda-mão. Nunca a retirou, contudo, das reedições da novela, e no fim da vida ainda teria considerado Voyage au bout de la nuit um dos “romances essenciais do século XX”. (SARTRE, Oeuvres Romanesques, p. 1719). Preferimos, contudo, como padrão de crítica, a psicanálise existencial que Sartre fez do antissemita no conto A infância de um chefe e no ensaio Reflexões sobre a questão judaica, fruto de suas leituras e observações dos escritores da extrema-direita, entre os quais, sobretudo, Céline: “Observemos Céline: sua visão do universo é catastrófica; o judeu está em toda parte, a terra está perdida; o ariano não deve comprometer-se, pactuar. Mas cuidado! Se respira, já perdeu sua pureza, pois o ar mesmo que penetra em seus brônquios já se acha poluído. Não parece a prédica de um cátaro? Céline pôde sustentar as teses socialistas dos nazis porque era pago. No fundo do coração, não acreditava nelas: para ele, não havia outra solução além do suicídio coletivo, da não-procriação, da morte.”. SARTRE, Reflexões sobre o racismo, p. 23.

[11] CÉLINE, Bagatelles pour un massacre, apud KAMINSKI, Céline en chemise brune, ou le mal du présent, p. 40.

[12] CÉLINE, Carta a Maria Le Bannier, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 160.

[13] CÉLINE, apud Parinaud, in DAUPHIN; GODARD (org.), Cahiers Céline, nº 2: Céline et l’actualité littéraire 1957-1961, 1976.

[14] CÉLINE, L’École des Cadavres, 1938.

[15] GIDE, “Les Juifs, Céline et Maritain”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 295-300.

[16] H. E. Kaminski publicou, em 1925, a brochura Fascismus in Italien, com um apêndice de Matteotti. Trabalhou como redator político na Volkstimme, jornal social-democrata de Frankfurt e, de 1930 a 1933, na Die Weltbühne, a revista de Carl von Ossiertzky e Kurt Tucholsky. Exilado em Paris, defendeu, entre os imigrantes alemães, no Comitê Lutetia, uma linha revolucionária oposta à dos social-democratas e stalinistas. Parece ter se aproximado dos anarcossindicalistas da Association Internationale des Travailleurs. Quando a guerra civil estourou na Espanha, foi para a Catalunha, onde permaneceu até 1937, ali escrevendo Ceux de Barcelone. Em 1938, publicou uma biografia de Bakunin. Em 1940, em Buenos Aires, apareceu seu estudo El Nazismo como Problema Sexual. Segundo o Handbuch der deutschen Emigration nach 1933, publicado em 1980, Kaminski teria desaparecido em 1940. Segundo outras fontes, ele teria morrido em Paris em 1961.

[17] Au pilori, apud VITOUX, La vie de Céline, p. 357.

[18] Documento de 19 mar. 1941, apud MONNERAY, 1947, p. 136.

[19] CÉLINE, Entrevista a Je suis partout, 7 mar. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 282-283.

[20] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 282-283.

[20] BEAUPLAN, L’Illustration, 20 set. 1941, apud COURTADE; CADARS. Histoire du cinéma nazi, p. 203-204.

[21] CÉLINE, Carta de 21 out. 1941, Combat, nº 26, jan. 1950.

[22] CÉLINE, Au pilori, 12 out. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 284.

[23] VON STÜLPNAGEL apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 179.

[24] CÉLINE apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 172 e 179.

[25] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 290.

[26] CÉLINE, Au pilori, apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 190.

[27] POULAIN apud ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 190-191.

[28] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 223.

[29] JÜNGER, Entrada de 7 dez. 1941, Journaux de guerre, p. 248-249. Tradução do autor.

[30] GIBAULT, Céline, v. II, p. 247; GILBERT, The Holocaust. Londres: Fontana Press, 1987. Tradução do autor.

[31] GIBAULT, Céline, v. II, p. 247. Tradução do autor.

[32] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 357. Tradução do autor.

[33] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 159. Tradução do autor.

[34] CÉLINE, Carta de 10 dez. 1941, apud GIBAULT, Céline, v. II.

[35] GIBAULT, Céline, v. II, p. 261.

[36] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. II, p. 239.

[37] CÉLINE apud GIBAULT, Céline, v. III, p. 22.

[38] FOUCHÉ; DAUPHIN (org), Cahiers Céline, nº 7: Céline et l’actualité, 1933-1961, 1987, p. 83-238.

[39] CÉLINE, A l’agité du bocal, p. 507-510.

[40] CÉLINE apud OBRY, O Estado de S. Paulo, 28 jul. 1957.

[41] CÉLINE apud PARINAUD, in DAUPHIN; GODARD (org.), Cahiers Céline nº 2: Céline et l’actualité littéraire 1957-1961, 1976.

[42] CÉLINE apud DARRIBEHAUDE, “Des Pays où personne ne va jamais”, in CÉLINE, À l’agité du bocal, p. 61.

[43] SALLES, Jornal do Brasil, 12 jul. 1961.

[44] ROUX, “Présentation”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 9.

[45] AYMÉ, “Sur une légende”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 13-18.

[46] ACAMME, “Céline prophète de la décadence”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 27.

[47] DESTOUCHES, Le Magazine Littéraire, fev. 1969.

[48] RABI, “Um ennemi de l’homme”, in Cahiers de L’Herne: Céline, p. 217.

[49] PIETRI, Purgatorio e infierno de Céline, La Prensa, 7 nov. 1976.

[50] PERUGIA, Céline, p. 11.

[51] PERUGIA, p. 554.

[52] Le Figaro, 9 de jun. 1960, apud PERUGIA, Céline, p. 555.

[53] PERUGIA, Céline, p. 583.

[54] CÉLINE, Carta de 21 fev. 1939, apud VITOUX, La vie de Céline, p. 330.

[55] VITOUX, La vie de Céline, p. 349.

[56] VITOUX, La vie de Céline, p. 353.

[57] VITOUX, La vie de Céline, p. 346, 349, 353.

[58] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 9.

[59] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 12.

[60] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 12.

[61] ALMÉRAS, Les Idées de Céline, p. 13.

[62] ZAGDANSKI, Ânes s’abstenir, L’Infini, nº 45, apud CONTAT, Céline raciste, Céline surjuif, Le Monde, 12 mar. 1993.

[63] LECARME, Céline, la vie sans le style, Le Monde, 15 abr.1994.

[64] TENÓRIO DA MOTTA, A viagem ao mal de Céline, Folha de S. Paulo, 4 out. 1994.

[65] MOTTA, Caso Céline ou a vigilância platônica contra os poetas, Sibila, http://www.sibila.com.br/index.php/critica/882-caso-celine-ou-a-vigilancia-platonica-sobre-os-poetas, consultado em 11 nov. 2010.

[66] MOTTA, Caso Céline ou a vigilância platônica contra os poetas, Sibila, http://www.sibila.com.br/index.php/critica/882-caso-celine-ou-a-vigilancia-platonica-sobre-os-poetas, consultado em 11 nov. 2010.

[67] CONTAT, Céline raciste, Céline surjuif, Le Monde, 12 mar. 1993.

[68] Além de Voyage au bout de la nuit e Mort à Crédit, Vie et Oeuvre de Philippe Ignace Semmelweis; Vingt lettres inédites; Quinze lettres; Préfaces et dedicaces; Lettres à Henrie Bell; Lettres de Charles D., Le style contre les idées, Casse-Pipe, D’un château à l’autre, Féerie pour une autre fois, Guignol’s band I, Guignol’s band II (Le Pont de Londres), Nord, Normance (Féerie pour une autre fois II), Rigodon.

[69] LAPOUGE, Reconhecimento após o desprezo completo, O Estado de S. Paulo, 10 jun. 2001.

[70] LE NAIRE, No jardim secreto de Louis-Ferdinand Céline, O Estado de S. Paulo, 10 jun. 2001.

[71] HINDUS, L. F. Céline. Ici tel que je l’ai vu, 1951.

[72] KRISTEVA, Pouvoirs de l’horreur. Essai sur l’abjection, 1980, p. 205.

[73] GAMA, Romance do horror, Veja, out. 1994.

[74] D’AGUIAR, “Apresentação”, in CÉLINE, Viagem ao fim da noite, 1995, p. 6.

[75] BACK, Céline abre frestas na periferia, O Globo, 30 out. 1994.

[76] MONTELLO, As obras-primas que poucos leram – ‘Viagem ao fim da noite’, de Louis-Ferdinand Céline, Manchete, 16 fev. 1974.

[77] ANÔNIMO, O cão de Deus, 1995.

[78] DURAFFOUR, “Céline, un antijuif fanatique”, in TAGUIEFF, L’anti-sémitisme de plume, p. 147-197.

[79] A tendência teria sido inaugurada nos anos 1910-1920 pelo escritor Yossef-Haim Brenner, que tentou introduzir no hebraico escrito a língua falada na Palestina otomana, misturando o turco, o iídiche, o russo e o hebraico. Entre os modernos, Yehoshua Kenaz ou Ytzhak Laor seguiriam a tendência desmistificadora, realista e amarga do niilismo. Segundo ainda Nicolas Weill, escritores urbanos como Orly Castel-Bloom ou Léa Eini poderiam encontrar pontos de contato com a literatura urbana de Céline. WEILL, Le Monde, 4 e 11 fev. 1994.

[80] WEILL, Le Monde, 4 fev. 1994 e 11 fev. 1994.

[81] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[82] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[83] LLOSA, A literatura não é edificante, O Estado de S. Paulo, 19 fev. 2011, URL: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681721,0.php.

[84] KAGANSKI, Serge. Céline e Godard: antissemitas? Folha de S. Paulo, 3 abr. 2011.

4 Respostas to “CÉLINE E SEUS ADORADORES”

  1. BELLEVILLE Jean-Pierre 05/05/2011 às 15:35 #

    Estimado Senhor, Em seu texto você cometer um erro ao escrever sobre Marcel Aymé: “Em seu ensaio, Marcel Aymé, que havia igualmente colaborado com os alemães… ». Marcel Aymé nunca colaborou com os Alemães sob a Ocupação. Ele mesmo hospeda reuniões clandestinas de la Resistência en su casa (Jacques-Francis ROLLAND : « Jadis, si je me souviens bien ». Editions Le Félin; collection Résistance. Liberté – Mémoire. Sept. 2009, pp.202-203). Ele odiava o totalitarismo (fascismo, nazismo, etc..) que ridicularizou em um artigo de jornal intitulado “Viva a raça” (Marianne n° 28, 3 mai 1933). Ele só foi acusado de publicar seus novelas e contos nos jornais da colaboração (os únicos permitidos durante a ocupação). Mas sua ficção não incluía uma mensagem política. Uma de suas histórias, publicada em 1943 durante a ocupação, intitulada “En attendant/ aguardando) escrevia um pobre judeu perseguido (Coleção “Le Passe-Muraille/O Passa-Paredes ” Gallimard, 1943). Durante a ocupação, Marcel Aymé trabalhou com o cineasta comunista e da resistência, Louis Daquin. Ele escreveu os diálogos de três filmes de Louis Daquin: Nous les gosses (1941), Le Voyageur de la Toussaint (1942), Madame et le mort (1942). Ao contrário de seu amigo L.-F. Céline, Marcel Aymé não era anti-semita. Ele protestou violentamente contra as medidas anti-judaicas do governo de Vichy (Henri JEANSON: « Soixante-dix ans d’adolescence ». Le Livre de Poche n°3538, Editions Stock 1971, pp.459-460). Muito obrigado pelo corrigir e desculpe-me, porque eu não falo português.Sinceramente, Dr. Jean-Pierre Belleville. Secretário da “Société des Amis de Marcel Aymé” (SAMA).

    • Luiz Nazario 07/05/2011 às 02:33 #

      Prezado Dr. Jean-Pierre Belleville, grato pelas informações. Referi-me ao fato de Marcel Aymé ter permitido que os órgãos mais engajados da colaboração publicassem seus textos. Ele pode ter também colaborado com resistentes e comunistas, mas isso não o exime de ter colaborado com ‘Je suis partout’, ‘La Gerbe’ e ‘La Chronique de Paris’. (Fontes: ORY, Pascal. “Les Collaborateus”, Éditions du Seuil, 1976, p. 206; TAGUIEFF, Pierre-André (ed.).”L’antisétisme de plume”, Berg International Éditeurs, 1999, p. 176). Gostaria de ler estes textos e ver estes filmes que cita para fazer uma avaliação. Vi apenas “La Traversé de Paris” (1956), do ex-colaborador Claude-Autant Lara, baseado num conto de Marcel Aymé. Não li o conto, mas o filme possui uma seqüência carregada de antissemitismo.

  2. Cris Kelvin 23/04/2013 às 16:48 #

    Narazio. Seu texto tem a virtude de elencar uma farta fortuna crítica. Mas a meu ver, deveria evitar misturar literatura, panfletos e vida num mesmo calderão, mas abordar os acertos e defeitos do escritor separadamente, aprofundando as questões sob certos focos e perspectivas. Ficamos com um “caledoscópio ciclópico”. Considero o antisemitismo de Céline equivocado. Se tem justificativas ou motivos, já sabemos que a razão é uma navalha que corta para qualquer lado (digam os advogados e promotores nos tribunais, lutando pela condenação ou absolvição, cada qual escolhendo os elementos que possam legitimar e fundamentar o convencimento). Neste sentido, fiquei com a impressão, pela costura e os adjetivos finais, de que a extensa bibliografia foi levantada para ilustrar uma idéia subjacente, uma tese anterior ao próprio texto, um pretexto, sem levar em conta as singularidades compreendidas no tema proposto. Se por um lado, a análise literária perdeu para os valores morais, vingou por outro a generalidade e o panfleto…

    • Luiz Nazario 23/04/2013 às 21:14 #

      Caro, literatura, panfletos e vida estão misturados no malcheiroso caldeirão Céline, não fui eu quem fez essa mistura. Se conhece a obra desse escrevinhador francês então sabe muito bem disso. Nesse sentido, “caleidoscópio ciclópico” pode ser um termo mais adequado à obra de Céline que ao meu ensaio. O antissemitismo de Céline não é um equívoco, é a essência da obra dele, é o que o fez colaborar com os nazistas, perseguir judeus, denunciá-los para a Gestapo, defender o Holocausto nos jornais colaboracionistas. Quem procura justificativas e motivos sentimentais para o criminoso são os advogados dos criminosos. Meus panfletos advogam pelas vítimas do crime.

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