VIOLINISTA EM AUSCHWITZ

18 nov

Jacques Stroumsa, o "violinista de Auschtwitz", em Girona, 2005. Foto: Pere Duran.

Jacques Stroumsa nasceu  em 1913 en Salônica, na Grécia, e morreu no último dia 13 de novembro de 2010, aos 97 anos, em Jerusalém. Conheci este simpático judeu sefardí, falante do ladino, durante o seminário que fiz sobre o Holocausto, no Museu Yad Vashem, com uma bolsa que me foi concedida por Leon Feffer, através de Anita Novinsky, minha querida orientadora, então preoucupada com a influência sobre meu espírito dos três anos que passei pesquisando o cinema nazista nos arquivos da Alemanha para minha tese de doutorado. Ainda guardo com carinho o pequeno e terrível livro testemunhal Geiger in Auschwitz, que Jacques Stroumsa amavelmente me autografou em francês: “Ao nosso caro amigo Luiz Nazario de São Paulo, encontrado no Seminário do Yad Vashem, Jerusalém, 11 de janeiro de 1994”.

Durante a Segunda Guerra, do gueto de Salônica, Stroumsa e outros três mil judeus gregos foram deportados para Auschwitz-Birkenau II, na Polônia. Ele tinha então 30 anos de idade. Durante doze dias viajou num dos pavorosos trens da morte – vagões de gado superlotados – até chegar ao destino horrendo a 8 de maio de 1943. A maioria das vítimas deste campo de trabalho e de extermínio era de judeus, e muitos deles eram enviados diretamente para as câmaras de gás assim que chegavam.

Os outros eram tatuaados nos braços como animais, e sobreviviam trabalhando até serem mortos sob maltratos, torturas, experiências médicas e trabalhos inúteis e esgotantes, em meio à fome, às doenças, à miséria forçada. Também ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, sacerdotes católicos, protestantes e opositores políticos eram ali confinados e mortos em massa. Os internos tentaram uma rebelião em outubro de 1944. Quatro prisioneiras contrabandearam explosivos para dentro do campo e explodiram uma câmara de gás e um forno crematório.

Os pais, a esposa grávida de oito meses, os sogros – toda a família de Stroumsa morreu nas câmaras de gás. Aguardando o fim, ele começou a tocar seu violino. Foi o que o salvou. Um oficial o “convidou” a integrar a orquestra militar do campo. Toda a manhã ele e outros músicos executavam marchas junto aos portões, encorajando os trabalhadores em suas tarefas. Ao anoitecer, os músicos eram forçados a “dar boas-vindas ao repouso e à morte”.

A 18 de janeiro de 1945, à medida que as tropas soviéticas aproximavam-se de Auschwitz-Birkenau, os nazistas começaram a evacuar o campo e, a 20 de janeiro, uns 59 mil foram forçados a marchar para oeste, até outros campos, a 20 graus abaixo de zero. A marcha durou quatro dias e quatro noites. Jacques Stroumsa contou-me como foi obrigado com seus companheiros a compor a “Marcha da morte” sob a mira dos SS. A “Marcha da morte” foi executada durante essa transferência para o campo de Mautthausen, na Áustria, e durante a qual uns 9 mil prisioneiros morreram esgotados. Semanas depois, os Aliados libertaram os moribundos. A 27 de janeiro de 1945, as tropas soviéticas entraram em Auschwitz, encontrando ainda ali sete mil mortos-vivos.

Rudolf Höss declarou no Tribunal de Nuremberg: “Eu comandei Auschwitz até 1º de dezembro de 1943 e estimo que pelo menos 2.500.000 de vítimas ali foram exterminadas através de gaseamento e cremação, pelo menos mais meio milhão morreu de fome e doenças, o que perfaz um total de aproximadamente 3 milhões de mortos. Este número representa mais ou menos 70 ou 80% de todas as pessoas que foram mandadas como prisioneiros para Auschwitz, que foram relacionadas e enviadas para trabalho escravo em indústrias e em campos de concentração. O extermínio em câmara de gás começou no verão de 1941 e durou até outono de 1944. Eu coordenei pessoalmente as instalações em Auschwitz até dezembro de 1943. Depois que construí os prédios e o crematório, usei Zyklon B, um ácido cristalizado que era lançado através da pequena abertura na câmara de morte. Os mais velhos campos de extermínio, Belzec, Treblinka e Wolzen usaram gás monóxido.”

Sentenciado à morte, Höss foi enforcado diante de seu antigo escritório, a 16 de abril de 1947: foi a última execução em Auschwitz-Birkenau. Com seu violino, Jacques Stroumsa, um homem de aparência doce e frágil, sobreviveu milagrosamente aos Trens da Morte, a Auschwitz-Birkenau, à Marcha da Morte, a Mautthausen. Ficou conhecido como “o violinista de Auschwitz”, dedicando-se a dar testemunho dos horrores do Holocausto. Mudou-se para Israel depois da Guerra dos Seis Dias, e freqüentemente comparecia ao Museu Yad Vashem.

Em janeiro de 2007, os reis espanhóis Juan Carlos e Sofía receberam uma delegação de sobreviventes do Holocausto no Dia Oficial da Memória do Holocausto e de Prevenção dos Crimes contra a Humanidade, integrada, entre outros, por Jacques Stroumsa. Mas talvez seu momento maior de redenção moral tenha ocorrido durante os festejos do cinqüentenário da liberação dos campos nazistas, quando o “violinista de Auschwitz” levou seu velho violino para tocar na Ópera de Berlim.

 


Fontes:

DUVA, Jesus. Jacques Stroumsa, el violinista de Auschtwitz. El País, 14 nov. 2010. URL: http://www.elpais.com/articulo/cultura/Jacques/Stroumsa/violinista/Auschtwitz/elpepucul/20101114elpepucul_3/Tes.

HÖSS, Rudolf. Kommandant in Auschwitz. Autobiographische Aufzeichnungen des Rudolf Höss. Herausgegeben von Martin Broszat. München: Deutscher Taschenbuch Verlag (dtv), 1992.

STROUMSA, Jacques. Geiger in Auschtwitz. Ein jüdisches Überlebensschiksal aus Saloniki 1941-1967. Herausgegeben von Erhard Roy Wiehn. Konstanz: Hartung-Gorre Verlag, 1993.

4 Respostas to “VIOLINISTA EM AUSCHWITZ”

  1. Maria Auxiliadora Silva Delgado Buelli 18/11/2010 às 11:06 #

    Parabéns, professor, pelo seu belo artigo.

  2. Ariel 18/11/2010 às 18:31 #

    Apesar de mais de 60 anos passado depois do fim da II guerra mundial, todos os dias escutamos, lemos e visualizamos, mais e mais testemunhos deste genocídio covarde. Como pôde o mundo com sua moral deixar isto acontecer debaixo de seu nariz, como puderam tantos países e seus chefes de estado virar as costas para o assassinato de tantos milhões de inocentes e ainda recusar a entrada em seus países dos poucos que conseguiram fugir? 60 anos depois disto tudo, vemos o antissemitismo reaflorar na Europa, que memória curta, que miopia acentuada, que visão obtusa dos fatos. Europa vai mal! Vamos mal!

  3. Silvia 12/01/2011 às 03:02 #

    Não há solução, todo o mundo cristão é doutrinado pela igreja, desde sua fundação, há 1700 anos, com os conceitos de que os judeus escolheram Jesus para ser crucificado pelos romanos e que o discípulo Judas foi o traidor. Imagine isso passado para a população em qualquer biboca do canto mais remoto da Europa pelo padre, único personagem alfabetizado local e que fala “em nome de Deus” todos os domingos na igreja, aonde todos tinham que comparecer e era o local onde o povo tomava conhecimento das coisas. Num ambiente iletrado, em que andar 10 km era mudar de vida, e seguramente a maioria das pessoas não saia do seu pequeno raio de existência, e onde seguramente a capilaridade da Igreja chegava a todos recantos, houve uma doutrinação contínua que entrou no DNA dos europeus.

    • Luiz Nazario 12/01/2011 às 10:05 #

      De fato, durante a Inquisição, os cristãos perseguiram os judeus, e em menor escala também os muçulmanos. Hoje, é o mundo muçulmano que detém o recorde das ocorrências de antissemitismo, com estigmatizações e mortes indiscriminadas de judeus em meio ao conflito bélico e político Israel-Palestina com vítimas nos dois lados. Em alguns países muçulmanos os cristãos também são perseguindo, com queima de Igrejas e assassinato de padres e convertidos. Embora contasse com o apoio de muitos cristãos antissemitas, Hitler impôs sua políica de extermínio dos judeus contra os preceitos da Igreja e do cristianismo. Então a questão é bem complexa e multifacetada, com muitas causas.

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