O HUMANISMO ANTISSEMITA DE JOSÉ SARAMAGO

21 jun

Proliferam post-mortem os cadernos especiais rodados a todo vapor sobre o escritor José Saramago – o único português a ganhar um Prêmio Nobel de Literatura. Nas montanhas de elogios erguidas em sua memória, nas cascatas de louvações derramadas sobre seu cadáver, foram dissolvidas as imprecações contra Israel e seu povo pelo inveterado stalinista, cujo comunismo, segundo sua pitoresca expressão, estava gravado em seu DNA – uma atualização do velho discurso da herança do sangue. Examinemos, por exemplo, essa “pérola” da especialista Leyla Perrone-Moisés: “Quando José Saramago chegar ao céu, Deus pai lhe fará cara feia, pois o escritor fartou-se de denegri-lo em seus romances. Mas Deus filho, que era também homem, advogará a seu favor, porque Saramago foi um humanista, quer em suas ideias, quer na prática de algumas das maiores faculdades humanas, a de imaginar e de narrar. […] Qualquer que seja a posição dos leitores com relação às opiniões políticas do homem Saramago, ninguém pode acusá-lo de ter feito literatura partidária ou militante. O romancista defendeu suas ideias, não com pregação política ou lições de moral, mas por meio da melhor literatura de ficção […]”.

Ninguém poderá dizer se Saramago será recebido no céu por Deus pai ou por Deus filho… Ou se baterá em outra porta, sendo acolhido pelo Diabo em pessoa. Mas dizer que ele não defendeu suas idéias com pregação política é reduzir de maneira pouco rigorosa a atividade do escritor aos seus livros de ficção, ignorando deliberadamente que Saramago não se fartava de pregar suas idéias políticas em artigos, entrevistas, postagens, em frutuosa produção literária de caráter militante e partidário. Saramago pontificava sobre cada acontecimento político, lançando opiniões sempre balizadas pelo seu materialismo dialético. Por exemplo:

15 jan. 2009: “A notícia queima. O mufti da Arábia Saudita, máxima autoridade religiosa do país, acaba de emitir uma fatua que permite (permitir é um eufemismo, a palavra exacta deveria ser impor) o casamento de meninas na idade de 10 anos. O dito mufti (hei-de lembrar-me dele nas minhas orações) explica porquê: porque a decisão é “justa” para as mulheres, ao contrário da fatua anteriormente vigente, que havia fixado em 15 anos a idade mínima para o casamento, o que Abdelaziz Al Sheji (esse é o nome) considerava “injusto”. Sobre as razões deste “justo” e deste “injusto”, nem uma palavra, não se nos diz sequer se as meninas de 10 anos foram consultadas. É certo que a democracia brilha pela inexistência na Arábia Saudita, mas, num caso de tanto melindre, poderia ter-se aberto uma excepção. Enfim, os pedófilos devem estar contentes: a pederastia é legal na Arábia Saudita. Outras notícias que queimam. No Irão foram lapidados dois homens por adultério, no Paquistão cinco mulheres foram enterradas vivas por quererem casar-se pelo civil com homens da sua escolha… Fico por aqui. Não aguento mais.” (“Lapidações e outros horrores”). Aqui, o materialismo dialético de Saramago coincide com o humanismo, na defesa das vítimas da pedofilia islâmica (“pederastia” tem outras conotações) e da sharia. Mas trata-se apenas de coincidência. Quando os fanáticos do Islã se voltavam contra Israel, sua guerra santa era justificada por Saramago. A jihad ganhava sentido contra os judeus, e o ateísmo de Saramago aí se dissolvia. O escritor revestia-se nesses momentos de uma nova pele, paradoxalmente fanática, e sua língua tornava-se ácida e viscosa. Não deixa de ser curioso como membros destacados da comunidade judaica brasileira não se furtaram a engrossar os louvores a Saramago pelas mídias, com exceção das do Vaticano, coerentes com sua tradição reacionária; e pela intelligentzia, cada vez mais antissemita.

Seu editor brasileiro, Luiz Schwartz, só teve palavras doces e carinhosas na crônica de despedida que postou: Saramago era um homem generoso, um pensador brilhante, o padrinho de sua filha, etc. No carinho pelo amigo, sábio, querido Saramago, certamente contava o fato de que “ele era nosso autor mais vendido em literatura estrangeira”. Os 24 títulos do escritor lançados pela Companhia das Letras somam, aproximadamente, 1.400.000 exemplares vendidos. Em nenhum outro país, fora a Espanha, onde morava, Saramago vendia tanto quanto no Brasil. Um sintoma inquietante.

O escritor Moacir Scliar, em “depoimento emocionado dado com exclusividade ao Terra” (e a mais uma dúzia de veículos), declarou que “José Saramago […] era não apenas um grande escritor, não apenas um intelectual militante, como também um ser humano [sic]. De seu trabalho literário dão testemunho o Nobel que recebeu, e que projetou o nosso idioma no mundo, como, sobretudo, a qualidade de sua obra literária. […] Saramago era também um comunista de carteirinha, uma posição a que chegou em grande parte por ter origem humilde (foi operário) e vivido sob uma das ditaduras mais persistentes da modernidade, o regime salazarista. E, finalmente, era uma grande pessoa, um homem sensível, afetivo.”.

Até Marcos Guterman, que em sua visão do antissemismo atual no belo artigo “O velho antissemitismo não cansa de se reinventar” incluíra Saramago, acabou, dez dias depois, com a morte deste, revendo sua opinião em “A morte de um gigante”, prevenindo seus leitores contra os detratores de Saramago: “[…] Seu comunismo militante foi usado muitas vezes por seus detratores para desmerecer sua obra, o que é uma injustiça aliás típica de nosso tempo. Saramago era um crítico da ocultação retórica da tirania, quer fosse em Israel ou em Cuba. Mesmo que tenha cometido exageros ou poupado Fidel Castro, Saramago nunca se ausentou, transformando-o num dos raros intelectuais públicos, daqueles sem vínculos senão com sua consciência. Por essa razão, Saramago deve se transformar num clássico, por exprimir como poucos as contradições de seu tempo.”

Ficamos aí sabendo que para defender Saramago de seus detratores vale equiparar Israel com Cuba, e que também em Israel vigora uma “tirania”. Ainda que Saramago tenha rompido com Fidel Castro depois dos últimos fuzilamentos, em mais uma demonstração de seu humanismo tardio, é curioso como a morte melhora as pessoas. A literatura de um tal humanista nunca me interessou – desde que sua “obra-prima” Memorial do Convento encheu-me de tédio.  Adquiri depois num selo por R$ 5,00 um exemplar de O conto da ilha desconhecida autografado por Saramago. O leitor não hesitou em descartar o volume com o carimbo do Prêmio Nobel. Isso diz tudo sobre o valor desse prêmio, sobre o amor de leitor e livreiro a livros autografados e sobre a “permanência” da literatura de Saramago. Creio que também descartei o exemplar. Tenho uma amiga que jogou ao lixo todos os livros de Saramago após ler suas declarações sobre Israel. Neste país, os leitores coerentes devolveram todos os seus Saramagos às livrarias. Recordemos, pois, o que esse gigante humanista dizia de Israel.

3 mai. 2002: no jornal Público Saramago compara o conflito Israel x palestinos com a cena bíblica de David x Golias, trocando as posições: Israel “se tornou num novo Golias”; aquele “lírico David que cantava loas a Betsabé” seria “encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon […] que lança a ‘poética’ mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinianos para depois negociar com o que deles restar”. Saramago comparava então Ramallah ao campo de concentração nazista de Auschwitz: “Nós podemos comparar (a situação palestina) com o que aconteceu em Auschwitz.” As situações prestam-se mesmo a comparações, já que os palestinos lançam bombas contra Israel; contam com o suporte das brigadas terroristas financiadas pelo Irã, com milhões de militantes espalhados em todo o mundo; dispõem de cobertura favorável às suas ações da parte de toda a mídia árabe e muçulmana e de quase toda a mídia ocidental; são amparados pela ONU com a maior parte da ajuda humanitária arrecada no mundo… Enfim, exatamente como os judeus em Auschwitz.

13 out. 2003: em entrevista a O Globo, Saramago afirmou: “Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós.” Aqui, ele confunde deliberadamente, como se fossem as mesmas pessoas (“eles”), os judeus que sofreram o Holocausto, os judeus que descendem daqueles, os israelenses que “oprimem” os palestinos, os judeus e israelenses que lutam contra essa “opressão”, os judeus e israelenses que não se envolvem no conflito, em várias gerações de israelenses e de judeus. Ou seja: sua condenação pesa sobre qualquer judeu em qualquer época pós-Holocausto, em qualquer lugar do mundo, qualquer que seja sua posição ideológica. O nome mais comum dessa confusão generalizada e generalizante é racismo, embora, em defesa de Saramago, diversos autores tenham afirmado que ele não se insurgia contra os judeus, mas contra a política de Israel. Mas ele foi bem explícito em muitas outras declarações. Outros exemplos:

31 dez. 2008: no artigo “Israel”,  Saramago afirmou: “Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a ‘relação especial’ que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos. Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai estremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…) E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: ‘Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime’.” Aqui, Saramago deixava claro que considerava todo israelense (e todo israelita) – “governantes (e porque não também os governados?)” – carrascos e criminosos, massacradores do inocente povo palestino… Nenhuma palavra contra as atividades criminosas e genocidas do Hamas que já governava os palestinos de Gaza: embora fosse um partido islâmico que defendia a sharia, e ainda que Saramago condenasse “todas” as religiões e em especial as barbáries cometidas em nome do islamismo, no caso do movimento islamita pela “libertação da Palestina” seu silêncio era ensurdecedor.

12 jan. 2009: “Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias […]. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa acção […] os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados [na Alemanha]. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade táctica ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima excepção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto. Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões […] podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. […] Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade ‘judeonazi’, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.” (“Imaginemos”). Aqui, enfim, Saramago manifesta seu ódio ardente aos judeus, que ele considera como “genocidas piores que os nazistas” – merecendo que o mundo inteiro se insurja contra Israel, quiçá com a ajuda da futura bomba atômica iraniana, para extirpar de vez a “mentalidade judeonazi”, colocando “a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos” – incluindo, claro, a devida limpeza étnica em Israel para repovoar a Palestina com os cinco milhões de refugiados palestinos espalhados pelo mundo, e que não ultrapassavam os 300 mil quando eram realmente refugidos – há sessenta anos atrás.

22 jan. 2009: “O processo de extorsão violenta dos direitos básicos do povo palestino e do seu território por parte de Israel tem prosseguido imparável perante a cumplicidade ou a indiferença da mal chamada comunidade internacional. O escritor israelita David Grossmann […] escreveu  […] que Israel não conhece a compaixão. Já o sabíamos. Com a Tora como pano de fundo, ganha pleno significado aquela terrível e inesquecível imagem de um militar judeu partindo à martelada os ossos da mão a um jovem palestino capturado na primeira intifada por atirar pedras aos tanques israelitas. Menos mal que não a cortou. Nada nem ninguém, nem sequer organizações internacionais […] conseguiram, até hoje, travar as acções mais do que repressivas, criminosas, dos sucessivos governos de Israel e das suas forças armadas contra o povo palestino. […] Enfrentados à heróica resistência palestina, os governos israelitas modificaram certas estratégias iniciais suas, passando a considerar que todos os meios podem e devem ser utilizados, mesmo os mais cruéis, mesmo os mais arbitrários, desde os assassinatos selectivos aos bombardeamentos indiscriminados, para dobrar e humilhar a já lendária coragem do povo palestino, que todos os dias vai juntando parcelas à interminável soma dos seus mortos e todos os dias os ressuscita na pronta resposta dos que continuam vivos” (“Israel e os seus derivados”). Aqui, o terrorismo ganha nomes lindos: “ressurreição”, “pronta resposta”, enquanto Israel adquire contornos de Alemanha Nazista, com torturas, governos criminosos em sucessão, crueldade e violência indiscriminadas. Perto desse painel à la Der Stürmer do Estado Judeu enquanto “comedor de criancinhas”, os terroristas palestinos que trucidavam – de fato e não em caricaturas – os comerciantes árabes que se relacionavam com judeus no velho suck de Jerusalém a golpes de machadinhas; os homens-bombas que explodiam crianças em ônibus escolares, parecem santos mártires da causa – a religiosidade nesses casos acaba sendo tolerada pelo ateu Saramago, tão intolerantemente ateu em outras ocasiões.

Uma das táticas mais perversas dos antissemitas é utilizar frases de impacto que os judeus “pacifistas” e  “humanistas” adoram lançar contra Israel. Na subjetividade perturbada ou dilacerada desses judeus, Israel encarna uma espécie de símbolo cruel para seus próprios desencantamentos existenciais – de caráter subjetivo, ideológico, utópico. É o que leva, por exemplo, um sobrevivente do Holocausto a participar do movimento Free Gaza ou o cineasta Silvio Tendler a publicar uma carta aberta ao governo de Israel, acusando-o de praticar uma “política genocída”. Com prazer sádico, os antissemitas fazem as frases venenosas dos judeus profundamente carentes do amor dos antissemitas e do sucesso mundano voltarem-se duplamente não apenas contra Israel enquanto lar judaico (e não mais símbolo subjetivo), como contra todos os judeus (incluindo os revoltados).

José Saramago tampouco se furtou a usar essa tática perversa, citando, contra Israel e os judeus, frases deslocadas ou tresloucadas de Yeshayahu Leibowitz e David Grossmann, por exemplo. Leibowitz não está mais vivo para vomitar Saramago, mas Grossmann não deixou de considerar escandalosos e irracionais os comentários antissemitas do Prêmio Nobel português. Não se limitando a escrever ficção indigesta, mas produzindo paralelmente relevante produção de subliteratura partidária e militante, que exprimia, mais que a própria ficção, o fundo escuro de sua alma, José Saramago resumiu, em textos “dignos de citação” e, portanto, de influência mais funesta sobre os desinformados, todos os clichês do antissemitismo contemporâneo, cada vez mais concentrado no ódio a Israel.

13 Respostas to “O HUMANISMO ANTISSEMITA DE JOSÉ SARAMAGO”

  1. Al Diniz 21/06/2010 às 05:33 #

    Incrível como no caso da “celebridade” Saramago o senso “acrítico” impera, com “especialistas” e não-especialistas escrevendo como fanboys que endeusam seus ídolos. O pior é que tal visão deturpada migra da aparentemente “equilibrada” opinião jornalística para blogs e provavelmente para a Academia, que verá nos próximos anos um fluxo de teses, dissertações e estudos diversos de Saramago com a mesma “verve” crítica desses necrológios que são quase hagiografias de ‘São’ Saramago. Nesse sentido, a apreciação crítica de Luiz Nazario, irônica e certeira, é a exceção mais que bem-vinda. Aliás, um desses blogueiros, a soldo da ‘Folha de S. Paulo’, ficou tão indignado com a coerente apreciação crítica do Vaticano (chamar Saramago de populista e extremista, a meu ver, é tocar nos pontos óbvios da vida e da obra da dita “sumidade” de Lazarote), que exigia que o Vaticano cuidasse de “sua” pedofilia antes de “atacar” o sacrossanto Nobel português. Claro, o blogueiro, como seu mestre, aprecia generalizações… Extático, o blogueiro clama: “se mais pessoas fossem como Saramago, o mundo seria melhor”. Bem, o mundo seria mais arbitrário, mais hipócrita, provavelmente já sem Israel em seu mapa, moralmente “sublime” e estilisticamente próximo dos batidos cacoetes do modernismo – um mundo, de fato, para nenhum militante comunista ou islâmico botar defeito.

  2. Mika Krok 21/06/2010 às 09:14 #

    Não há o que falar… Saramago, só de olhar na cara dele, parecia sem caráter, metido a conhecedor do mundo, escrevendo coisas sem real conteúdo, sempre batendo na tecla antissemita dos velhos comunistas. A grande ironia é que foram os judeus da Rússia que lançaram o comunismo, ansiando por uma sociedade justa. Os grandes fundadores – Marx, Lenin, Trotsky e outros – eram judeus. Só que se esqueceram da natureza ingrata dos homens. E deu no que deu.

  3. José Roitberg 21/06/2010 às 12:59 #

    Excelente e completíssima avaliação da anti-obra de Saramago. Achei muito curioso nas resenhas em TV no dia de sua morte que o até então bem conhecido como “grande escritor”, “prêmio Nobel português” etc, tenha sido apresentado abertamente, pela primeira vez, como “exemplo de intelectual marxista…”. A propaganda é forte e talvez, em vida, esse qualificativo real tivesse sido ruim para a imagem dele. É um exemplo excelente do entranhamento da propaganda soviética antissemita e anti-Israel, incrementada após a vitória isralense na Guerra dos Seis Dias, entre os “livre” pensadores ocidentais.

  4. Sonia Bloomfield 21/06/2010 às 20:18 #

    Nazario, parabéns, seu texto é magistral! Derrubou de vez o deus de pés de barro que se tornou o Saramago no Brasil. Não houvesse ele ganho o Nobel de Literatura, ninguém saberia quem foi aquela figura autoritária, amarga, vaidosa e racista que, com seus trabalhos insuportáveis de se ler, propagou o antissemitismo e o stalinismo (além de antibrasilianismo). Após ler o “Memorial do Convento”, pulando muitos trechos porque o achei muito cheio de preciosismos e firulas, joguei o dito cujo fora, não valia a pena tomar espaço de coisas melhores na minha estante. Você realmente é um dos nossos maiores intelectuais! Sonia.

  5. Eduardo Szklarz 22/06/2010 às 09:50 #

    Caro Luiz Nazario, lendo seu excelente artigo sobre Saramago, pensei que talvez tenha interesse no texto que escrevi sobre ele em http://umbrasileiroembuenosaires.blogspot.com/. Um abraço, Eduardo.

    • Luiz Nazario 22/06/2010 às 12:24 #

      Caro Eduardo: permita-me corrigir um ponto de seu artigo, quando você escreve: “O filósofo francês Jean-Paul Sartre defendia tão ardentemente o stalinismo que não teve o menor problema em se calar diante do terror soviético e dos horrores perpetrados nos campos do Gulag. ‘Como não éramos membros do Partido’, escreveu Sartre, ‘não tínhamos o dever de escrever sobre os campos de trabalho forçado soviéticos.’ Em carta ao escritor Albert Camus, Sartre disse: ‘Como você, acho esses campos intoleráveis. Mas acho igualmente intolerável o uso que a imprensa burguesa faz deles.'”. Embora Sartre dissesse coisas assim ele jamais se calou sobre os campos soviéticos. A revista que ele dirigia, a Les Temps Modernes, foi a primeira publicação a denunciar esses camapos, ainda em 1949. Ele nunca defendeu ardentemente o stalinismo, que denunciou em ensaios como “O fantasma de Stalin” ou na sua peça “Les Mains Sales”. Sartre apenas não queria no contexto da Guerra Fria cair na armadilha do dilema obrigatório: ser anticomunista ou ser comunista. Sartre queria manter-se livre dentro do campo socialista. Por isso apoiou a Revolução Cubana – para logo denunciar seu desvio stalinista e romper com Fidel Castro em protesto à prisão do poeta Padilla (nos anos de 1970 e não tardiamente, como Saramago, em 2000). Por isso ele apoiava sem entusiasmo a causa palestina, colocando acima dessa causa a sobrevivência do Estado de Israel, contra “a maioria que deseja destrui-lo”. Por isso era odiado tanto pelos reacionários de direita quanto pela esquerda comunista. Enfim, se Sartre estivesse vivo, ele seria o primeiro a reduzir o stalinista Saramago a pó.

      • Eduardo Szklarz 22/06/2010 às 12:51 #

        Caro Nazario, obrigado pela leitura e o retorno. Se não foi defesa ardente, foi uma postura ao menos ambígua, certo? No livro “Gulag”, Anne Applebaum afirma que Sartre desenvolveu um “apoio agressivo” do stalinismo no pós-guerra, quando as evidências das atrocidades cometidas nos campos estavam disponíveis a quem se interessasse. Abraço.

  6. Luiz Nazario 22/06/2010 às 13:18 #

    Caro Eduardo, hoje os posicionamentos políticos de Sartre podem ser vistos como ambiguos, errados, ingênuos. Ou como deliciosamente provocadores do establishement paranóide, no contexto da Guerra Fria. Não li o livro de Anne Applebaum, mas parece-me, pela citação, que ela se insere na perspectiva dos ideólogos do “fim da História”. Li toda a obra de Sartre e nunca constatei nela esse “apoio agressivo” do stalinismo, muito pelo contrário: Sartre foi o maior crítico do stalinismo dentro do campo da esquerda. É preciso ler as obras, pois as citações de segunda mão costumam deturpá-las.

    • Eduardo 23/06/2010 às 15:40 #

      Tem toda razão. Saindo um pouco do assunto: o livro Todos os homens são mortais, da Simone de Beauvoir, me marcou muito. Li há tempos e até hoje sempre penso naquela cena do final. Deviam ser bacanas as conversas do casal, para além de posicionamentos políticos. Saludos.

  7. Fernando José 09/07/2010 às 12:42 #

    Sobre o comentário a respeito do apoio ou não de Sartre ao stalinismo, gostaria de lembrar ao Luiz Nazario (parabéns pelo artigo sobre o Saramago!) e ao Eduardo Szklarz que Deus manda diretamente para o Inferno aqueles que preferem permanecer “ambíguos” em questões morais. É claro que digo isso como católico. Abraços!

    • Luiz Nazario 09/07/2010 às 14:07 #

      Cada religião tem o seu Inferno, para o qual cada uma delas destina os seus próprios hereges. Já para o existencialismo, o Inferno são os outros – todos os outros -, considerando-se que acreditar em Deus é um tipo de relação que o homem tem com o mundo. Sartre e Simone foram muito criticados pelos católicos por questões morais. Mas a moral existencialista, que Simone definiu como uma “moral da ambiguidade” nada tem a ver com a passagem bíblica sobre os mornos que serão vomitados: os existencialistas jamais foram mornos e jamais se omitiram ou se mostraram ambíguos diante da História. A ambiguidade da moral existencialista é um conceito exigente, radical, apaixonado, que envolve a responsabilidade por toda a humanidade. Já o Inferno católico deve estar cheio de católicos que permaneceram mornos, omissos e ambíguos – no sentido vulgar do termo – durante o Holocausto. Foram certamente acolhidos pelo Papa Pio XII, que deve ter conquistado um trono especial no Inferno dos católicos.

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