SEM OLHOS EM GAZA

6 jun

O artigo “Bloqueio faz de Gaza prisão ao ar livre” (Folha de S. Paulo, 6 jun. 2010), assinado por Marcelo Ninio, enviado especial a Gaza, é um bom exemplo de reportagem produzida segundo os modelos oferecidos gratuitamente pelos Ministérios Ocultos da Propaganda Nazista. Ele foi escrito para substituir a descrição objetiva dos fatos por uma ficção dramática, remodelando a realidade sensível segundo a representação dessa realidade pré-modelada na mente do público já doutrinado. Assim, sob a foto de uma praia cheia de palestinos tomando sol e jogando bola em Gaza, a legenda: “Centenas de palestinos freqüentam o litoral, um dos principais refúgios contra a miséria que assola o território em decorrência do bloqueio israelense.”

A legenda poderia ser apenas: “Centenas de palestinos freqüentam o litoral”. Mas o que ganharia a causa palestina com isso? É preciso meter ideologia. Um comunista completaria a legenda: “Centenas de palestinos freqüentam o litoral, um dos principais refúgios contra a miséria que assola o território”, sugerindo a ruindade da administração capitalista do governo, a exploração dos trabalhadores palestinos pelos palestinos ricos, etc. Mas o que ganharia a causa palestina com isso? Não, é preciso meter ideologia e ainda por cima anti-israelismo. É preciso castigar Israel: “Centenas de palestinos freqüentam o litoral, um dos principais refúgios contra a miséria que assola o território em decorrência do bloqueio israelense.” Agora, sim, o quadro está completo. A culpa é de Israel. Podemos prosseguir.

“As prateleiras dos mercados da faixa de Gaza estão cheias. […] Mas três anos de bloqueio arrasaram a economia local, deixaram quase metade da população desempregada e tornaram inacessíveis para a maioria […] os produtos que enchem as prateleiras.” Aqui, um comunista notaria que o problema então não é a falta de produtos, que enchem as prateleiras, mas a distribuição deles, tal como é realizada internamente em Gaza. Mas não se deve jamais culpar a administração do Hamas. É preciso culpar sempre e apenas Israel. Segundo os militantes da causa palestina, apenas Israel, que é mau, bloqueia Gaza; o Egito, que também bloqueia Gaza, é bom, não bloqueia porque quer, apenas porque cumpre ordens de Israel, esse “Estado Nazista” que manda no mundo inteiro…

A reportagem prossegue com suas imagens contraditórias de miséria dramática e boa vida com diversão e fartura na praia: “A vida continua. Famílias fazem fila em sorveterias. […]. À noite, os cafés ficam cheios de jovens fumando narguilé, e casais passeiam pela orla […]. […] Na área de maior densidade populacional do mundo, a maioria não tem para onde ir. A escassez de bens causada pelo bloqueio é driblada com o contrabando em centenas de túneis que passam sob a fronteira com o Egito. Mas a falta de liberdade para deixar o pequeno território por terra, mar ou ar justifica a fama de Gaza de ‘a maior prisão do mundo’.” Não sei se Gaza é maior que Cuba, mas se for está conseguindo superar Cuba em diversão e terror… O certo é que milhões de africanos famintos adorariam viver numa prisão cheia de guloseimas, como a de Gaza, já na de Cuba não seria tão apetitoso viver: as regalias estão reservadas apenas aos turistas comunistas que vão ali se abastecer de propaganda, relaxando em hotéis de luxo.

Leia-se, por exemplo, a grande queixa de Mohammad Abu Mandeel, gerente de qualidade da Paltel, empresa palestina de telecomunicações, registrada na reportagem: “A vida aqui é comer, beber, dormir e esperar […]. A maioria dos jovens e das crianças daqui jamais viu outro lugar.” Bem, a maioria dos jovens e das crianças do Brasil nunca saiu do Brasil. A maioria dos jovens e das crianças da África nunca saiu da África. A maioria dos jovens e das crianças da Rússia nunca saiu da Rússia. Pior ainda em Cuba, onde a totalidade dos jovens e das crianças nunca saiu de Cuba.

A reportagem vai atingindo picos de delírio em suas contradições: “Quem chega a Gaza esperando cenas de fome típicas da África e lojas vazias, se surpreende com a variedade das mercadorias disponíveis. Fora bebidas alcoólicas, vetadas pelo governo islâmico do Hamas, há de tudo, de perfumes de grife a computadores. Comerciantes de Gaza contam que é possível encomendar qualquer coisa pelos túneis. […] ‘Não há ninguém morrendo de fome’, diz o porta-voz do Hamas Taher Alnonno. ‘Mas a vida não é só comida. A pressão psicológica afeta a todos de forma profunda.’.”

Ah, quer dizer que a crise humanitária em Gaza, causada pelo bloqueio de Israel, é meramente psicológica. Os palestinos são um povo muito especial, o mundo precisa tratar da depressão dele. É o único povo que precisa de socorro mundial e de centenas de humanitários carregando em flotilhas toneladas de suprimentos desnecessários para socorrê-lo – desnecessários porque esse povo, na verdade, não passa fome, nem tem qualquer necessidade urgente de alimentos e remédios, e na verdade está apenas traumatizado com o bloqueio.

A reportagem revela números curiosos: “Segundo o PAM (Programa Alimentar Mundial), 7 de cada 10 habitantes de Gaza recebem ajuda humanitária. Antes do bloqueio, 150 mil pessoas trabalhavam em Israel. Só 2% das fábricas que existiam antes do cerco continuam operando. ‘Pode ser que não haja crise humanitária no sentido estrito. Mas, se as organizações saírem, Gaza entra em colapso’, diz Jean-Noel Gentile, do PAM.” Mas quem disse que as organizações sairão de Gaza? Israel era o único país que dava emprego aos palestinos, mas eles preferiram eleger um governo que nega a existência de Israel, se explodir onde antes ganhavam a vida e lançar milhares de foguetes para receber de troco não mais empregos, mas destruição pesada e bloqueio. Enquanto isso, ao invés de levar alguma racionalidade aos dementes que controlam os palestinos, as ONGs e a ONU criaram em Gaza um gigantesco Programa Bolsa Família, transformando o povo palestino em povo dependente de ajuda externa e consumidor de donativos internacionais, nele desestimulando o desenvolvimento de uma economia local.

Os palestinos recebem tudo na boca, e vivem a boa vida de quem obtém de graça o que outros povos precisam suar muito trabalhando para conseguir. Mesmo assim, eles estão traumatizados, pois ainda que recebam e tenham de tudo na sua “prisão a céu aberto” não podem mais se deslocar até Israel para se explodirem (graças ao Muro, à época tão condenado pela comunidade internacional), nem fabricar aqueles milhares de foguetes que lançavam contra Israel (graças ao bloqueio que a comunidade internacional ora contesta). Eles ainda jogam algumas dezenas de foguetes, mas não é como antes.

O bloqueio acabou com a maior diversão dos palestinos. Daí a depressão deles. Um terrível sentimento de impotência os aflige. Por isso a comunidade internacional não vai mais admitir esse bloqueio. Os palestinos não podem ficar deprimidos. Eles precisam voltar a sorrir, dedicando-se ao lançamento intensivo de foguetes contra Israel. Afinal, o Estado Judeu tornou-se o culpado pela infelicidade do mundo, segundo o velho preceito nazista (“os judeus são a nossa infelicidade”), atualizado para todo o planeta, em tempos de globalização.

Assim, a reportagem nega que o Hamas tenha a intenção de fabricar bombas e foguetes, como sempre o fez, e como gostaria tanto de voltar a fazer, caso o bloqueio fosse levantado: “[…] as restrições à entrada de materiais de construção perpetuam o drama. Cimento, ferro e vidro são vetados por Israel – sob a alegação de que podem ser usados para fins militares pelo Hamas.” Pois é: a  razão do bloqueio não passa de uma alegação de Israel. A verdade está sempre e apenas na boca do Hamas, do Fatah, dos palestinos. Israelenses, judeus, sionistas – são todos dissimulados: eles só alegam, nunca afirmam, nunca dizem a verdade. Só os palestinos afirmam, só os palestinos declaram, só as fontes palestinos são confiáveis…  asseguram-nos os Ministérios Ocultos da Propaganda Nazista.

9 Respostas to “SEM OLHOS EM GAZA”

  1. Cláudia Beatriz Heynemann 06/06/2010 às 21:32 #

    Artigo brilhante, como sempre.

  2. Liliane 07/06/2010 às 00:10 #

    Ótimo, irônico, superarticulado!

  3. Alexandre 07/06/2010 às 12:50 #

    Interessantes observações, meu caro Luiz, mas acho que seu desapontamento é resultado de uma expectativa errada. A realidade é cheia de contradições. O fato de a maioria dos brasileiros jamais ter saído do Brasil ou de russos não terem saído da Rússia (por motivos financeiros) ainda lhes permite circular por áreas gigantescas, afinal estão entre os maiores países do mundo. Gaza é do tamanho de Guarulhos e quase ninguem pode sair de lá, mesmo quem tem dinheiro. Achei o artigo da Folha interessante justamente pelo que você não gostou: apontar as contradições de um território que tem tudo, mas vive isolado. Abraço, Alex.

    • Luiz Nazario 07/06/2010 às 15:54 #

      Alexandre: Citei Brasil, Rússia, África (onde há países grandes e pequenos) e Cuba (uma ilha), como poderia ter citado Bolívia, Venezuela, Haiti, ou países menores e mais pobres. A pobreza que impede a maioria de crianças e jovens de sair do lugar é a mesma, seja o país grande ou pequeno. A maior densidade populacional do mundo no território de Gaza é outra falácia da propaganda palestina difundida pelas mídias de consumo e comprada pelas elites intelectuais supostamente bem informadas. O Google Earth já liquidou essa mistificação. O Rio de Janeiro possui maior concentração populacional que Gaza. Os cariocas também deviam se queixar à ONU. O problema é continuar procriando loucamente. Há uma diferença enorme entre não poder sair do lugar por razões econômicas ou por razões políticas. A imobilidade dos palestinos de Gaza possui motivos políticos e econômicos, como a imobilidade da população dos paraísos socialistas, nos quais a totalidade da população (os pobres e os membros do partido) é proibida de viajar ao exterior. Nos paraísos socialistas, a liberdade de movimento, já restrista aos pobres sem recursos, ainda é restrista a todos pela ditadura. No caso de Gaza ela foi imposta pela guerra para impedir os palestinos de continuarem a se explodir e a lançar foguetes aos milhares em Israel. Mas essa imposição foi uma escolha dos palestinos de Gaza. Eles poderiam optar em viver pacificamante com seus vizinhos, e voltar a ganhar a vida em Israel, prosperando através do trabalho, do comércio e da indústria, e não da ONU, dos donativos, da ajuda internacional. Preferem manter a jihad contra Israel e viver sem trabalhar muito… Como os cubanos que optaram pelo socialismo, os palestinos de Gaza optaram pelo estilo de vida terrrorista oferecido pelo Hamas e pela ONU: diante da alternativa do reconhecimento de Israel e das negociações de paz, Gaza suporta viver isolada do mundo, desde que o mundo continue a mandando tudo para lá. Os palestinos que elegeram o Hamas para representá-los não deixarão de se queixar e de infernizar o mundo enquanto o mundo não aderir à jihad e se imolar por eles na meta da destruição de Israel. A realidade é mesmo cheia de contradições.

  4. Pedro 07/06/2010 às 13:56 #

    Excelente artigo.

  5. Ariel 07/06/2010 às 15:47 #

    Pois é Professor, mais uma vez um texto impecável. Mas o mundo pouco se importa, a culpa de tudo sempre será dos judeus, e agora de Israel. Hoje em dia fica mais bonito ser anti-israelense ou antissionista do que antissemita. Na Idade Média os judeus foram culpados pela fome, pela peste bubônica, e queimados por isso. Depois, pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra, mesmo que inúmeros judeus tenham lutado e morrido para defender aquele país. Agora Israel é culpado de tudo! Apesar de inúmeros remédios, vacinas, curas, soluções tecnológicas, médicas, de irrigação, telecomunicação, saneamento, eletricidade, entre tantas coisas boas, que o povo israelense dá ao mundo, mesmo sendo perseguido e ameaçado de morte dia e noite por todos seus vizinhos e mais recentemente pelo resto do mundo hipócrita. Tudo porque um bando de inúteis que tiveram a chance de criar o Estado Palestino inúmeras vezes preferiram o terrorismo. Os palestinos foram e ainda são ludibriados por seus irmãos de fé, que nada fazem por eles a não ser usá-los como massa de manobras para desviarem as luzes de seus governos autoritários, assassinos e corruptos. Já dizia Golda Meir: “Prefiro as críticas às condolências.” Que assim seja. Dane-se o que pensam os outros. Israel é mais! Abs. Ariel.

  6. LuCa Pereira 18/06/2010 às 08:53 #

    Luiz, acho que um homem ou um povo, está onde se coloca! acompanho seus esclarecedores artigos, sou o que se poderia chamar de “senso comum”, acho que a idéia de que os palestinos são loucos homicídas, tais quais cães incontroláveis, que se forem soltos das correntes, saem dilacerando pobres e inocentes passantes, é bem mais difundida pela mídia internacional!!! É tudo muito confuso, acho que todos temos demônios internos, oportunistas e travestidos de negociadores humanitários, e acho que são esses demônios é que estão encarregados de negociarem uma solução, huuummm, será que esses são realmente os melhores representantes de cada lado? Amigo, desculpe o simplismo, mas acho que assim como os Palestinos, o povo de Israel também deveria votar em um governo mais comprometido com a Paz e a Liberdade! Um abraço!

    • Luiz Nazario 18/06/2010 às 10:36 #

      Bem, LuCa Pereira, não sei que mídia internacional você lê. Nunca li nas mídias internacionais – nem mesmo na israelense – que “os palestinos são loucos homicidas”. Sobre os palestinos, leio sempre, em todas as mídias, que sua causa é justa, apoiada pelo mundo inteiro, inclusive pela maioria dos israelenses. Todos apóiam a causa palestina – ainda que ninguém saiba extamente o que ela implica, onde ela começa e onde termina, pois nunca se viu um projeto estruturado de Estado Palestino. Sobre os israelenses, leio que são os novos nazistas, que oprimem e massacram o povo palestino, que o Hamas não é terrorista, mas um interlocutor válido e democraticamente eleito e que, portanto, Israel deveria dialogar com ele, mesmo que ele não reconheça a existência de Israel (um diálogo entre o soco e a boca?). Essa é a posição de Khaled Hroub em “Hamas – um guia para iniciantes” (Editora Difel, Rio de Janeiro, 2008). Já Yohanan Manor, em “Les manuels scolaires palestiniens: une génération sacrifiée” (Berg International Éditeurs, Paris, 2003), mostra como os livros escolares adotados pela AP ensina as crianças palestinas a negar a existência de Israel e a se tornarem mártires para libertar a Palestina dos “ocupantes” judeus. Os vídeos dos homens-bombas são os mais populares nas locadoras de Gaza… Você pode responsabilizar a “Ocupação” (Israel) pela existência de palestinos suicidas-assassinos (sua “conseqüência natural”, como quer Hroub) ou responsabilizar essa educação para a morte. Se hoje não há mais palestinos se explodindo em Israel isso se deve apenas ao odiado Muro que o mundo inteiro condenou. Como eleger “governos comprometidos com a Paz e a Liberdade” (seja lá o que você entende por isso) enquanto crianças palestinas continuam a ser educadas para a “glória do martírio”, que consiste em matar judeus – comparados em discursos e caricaturas palestinas a aranhas e ratos, a cães e macacos?

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