SHYLOCK HOLMES

20 fev

Ferdinand Marian como Süss Oppenheimer

Mark Strong como Lord Blackwood
 

Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, EUA, 2009, 128’, cor, suspense). Direção: Guy Ritchie. Roteiro: Michael Robert Johnson, Anthony Peckham, Simon Kinberg. Com Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes), Jude Law (Dr. John Watson), Rachel McAdams (Irene Adler), Mark Strong (Lorde Blackwood), Eddie Marsan (Inspetor Lestrade), Robert Maillet (Dredger), Geraldine James (Mrs. Hudson), Kelly Reilly (Mary Morstan).

Se nas obras de Arthur Conan Doyle o esguio e lépido Sherlock Holmes mostra-se mais ativo e frenético que o gordinho e lento doutor Watson, no filme Sherlock Holmes (Sherlock Holmes, 2009), de Guy Ritchie, os papéis se invertem. Na relação homossexual que os dois mantêm (vivem juntos, emprestam-se roupas, dividem contas, possuem o mesmo cachorro, etc.), o Watson de Jude Law é o mais enérgico e ativo, ainda que o Sherlock de Robert Downey Jr. descarregue seus impulsos reprimidos numa selvagem luta de boxe: mas ele só a vence depois de gozar uma boa surra, e menos pela força física que pelo uso de um implacável raciocínio lógico. Sherlock mostra-se, enfim, mais apaixonado que Watson: teme ser abandonado e tudo faz para impedir que o médico se case com a insossa noiva Mary, vivida por Kelly Reilly.

Sherlock não quer abrir mão do amado, mas não percebe que seus ciúmes só denotam um puro egoísmo, já que não se importa em ostentar, enquanto tenta impedir o compromisso de Watson com Mary, sua atração mal extinta e algo mórbida por Irene Adler, vivida por Rachel McAdams. Talvez porque avalie bem essa mulher exótica como a única à sua altura, enquanto superestima o amigo burguês, a quem supõe será, um dia, capaz de acompanhá-lo até as nuvens. Percebendo essa fraqueza do amigo, Watson, envaidecido, não consegue deixar de amá-lo mesmo quando se mostra furioso com as manipulações dele, reservando para si um sorriso subjetivo (visto só pelo espectador) de quem está seguro na relação e pode continuar mantendo seu amor a salvo de qualquer romantismo.

O filme traz três vilões, embora o primeiro deles, a já mencionada Irene Adler, seja eventualmente uma aliada: femme fatale de inteligência e destreza espantosas, ela encarna o estereótipo da “bela judia”. Surgida no conto “A Scandal in Bohemia” (Um escândalo na Boêmia), de Doyle, aqui ela presenteia o suposto ex-amante Sherlock com especiarias que traz do Oriente Médio. A fascinante personagem, secundária no universo literário da série Sherlock, foi desenvolvida aqui como protagonista, trabalhando em parceira com o tradicional casal de heróis-detetives, mantendo, contudo, até o final, sua ambigüidade de caráter: mesmo quando parece assumir o papel da heroína, ela pratica ações criminosas a serviço do temível Professor Moriarty.

Moriarty é o segundo vilão, um gênio do crime, que já dera trabalho a Sherlock nos contos de Doyle, inclusive o levando à morte (aparentemente) e que, no filme, permanece oculto do começo ao fim. Até que ponto a misteriosa Irene Adler comprometeu-se com o maligno Professor Moriarty, que roubou dispositivos que lhe darão, em futuro próximo, o poder de acionar ameaçadores mecanismos por controle remoto? A questão permanece em aberto no roteiro estilo blockbuster, que já planta na própria trama do sucesso programado os germes de uma próxima, inevitável, seqüência.

O terceiro vilão é um temível satanista: Lorde Blackwood, encarnado pelo extraordinário Mark Strong. Pura invenção dos roteiristas, ele é o “adversário depravado” (segundo o cartaz oficial), o mal encarnado que precisa ser eliminado, pois irrecuperável. Seu plano é “dominar o mundo”, tomando o poder no Parlamento britânico para ocupar a ex-colônia norte-americana, estabelecendo um “Reich de mil anos”. Esse projeto de tirania soa como um eco do ‘Terceiro Reich’ de Adolf Hitler, mas a associação induzida verbalmente pelos roteiristas é enganosa, ou melhor, cumulativa. Pois antes da verbalização do projeto, Lorde Blackwood já fora visualmente moldado na imagem do vampiro de Nosferatu (Nosferatu, 1922), de Friedrich Murnau, no qual Mel Brooks, numa entrevista para a divulgação de seu Dracula: Dead and Loving It (Drácula: morto, mas feliz, 1995), percebera uma caricatura antissemita: as garras ameaçadoras, o nariz adunco…

Essa dimensão “sobrenatural” de Lorde Blackwood está representada pelo simbólico corvo da morte (alusivo a Poe) que sempre o acompanha, como os ratos acompanhavam Nosferatu. Contudo, ele se aproxima mais do personagem “realista” do judeu Süss Oppenheimer da corte do Duque de Württemberg, em Jud Süss (O judeu Süss, 1940), de Veit Harlan: na propaganda nazista de formato realista, o estereótipo não tem garras (ou as tem simbolicamente, através de seu desejo manifesto de “dominar o mundo”), mas mantém o nariz adunco, acrescido do olhar sedutor e depravado.

Carregando a escuridão em seu sobrenome; vestindo um imponente casaco preto de abas de lãs retorcidas, que evoca a figura de um membro da Gestapo ao mesmo tempo em que emoldura seu rosto como os peiotes e a barba do judeu Süss; dominando a prática da pretensa magia negra de sua “maçonaria”, agora no poder, simbolizada pela estrela de cinco pontas do Ocultismo, que se presta à confusão com a Estrela de Davi, de seis pontas, do Judaísmo, à maneira das práticas secretas do personagem do cientista louco de Metropolis (Metropolis, 1927), de Fritz Lang, Lorde Blackwood é bem um “vilão judeu”.

Assim como o judeu Süss morre enforcado, depois de ser desmascarado, seu corpo pendendo da gaiola à vista de toda a cidade de Stuttgart, embelezada pela neve, também Lorde Blackwood, esse “intruso” no Parlamento inglês, que se infiltrou no governo e agora pretende testar a nova arma química de destruição em massa, que inventou para “dominar o mundo”, é punido por sua louca ambição: lutando com Sherlock na Tower Bridge em construção, enrola-se acidentalmente nas correntes de um guindaste e termina enforcado diante da cidade de Londres, numa azulada noite de inverno.

A tendência “racialista” (para não dizer racista) do diretor Guy Ritchie já havia se manifestado em Snatch (Porcos e diamantes, 2000): um ladrão judeu (Benicio Del Toro com carregado sotaque iídiche) levava de Londres a Nova York um gigantesco diamante para o chefe de sua organização criminosa de judeus que decoravam com uma Menorah sua loja suspeita, numa trama que também envolvia ciganos irlandeses estereotipados [1]. Em Sherlock Holmes, essa tendência acentuou-se na apresentação de vilões que parecem saídos de filmes nazistas que, nos anos de 1940, projetavam nas telas judeus sedutores corrompendo os alemães, enquanto, na vida real, os alemães deportavam os judeus para campos de extermínio.

Paradoxalmente, Guy Ritchie foi indiretamente ameaçado pelo “outro lado”: em 2009, um suposto líder da Frente Popular Palestina postou uma mensagem na Internet afirmando que se encontrasse Madonna em seu caminho “teria a honra de decapitá-la”, impedindo-a, assim, de continuar a “espalhar a cultura satânica contra o Islã”. Madonna, que aderiria à Cabala e não se intimidara com os boicotadores de Israel, incluindo este país no tour de seus shows, contratou guarda-costas israelenses para garantir sua segurança e a de sua família, incluindo seus três filhos e o ex-marido Guy Ritchie, que corria, por tabela, o risco de ser vitimado pelos fanáticos do Islã. Talvez o cineasta – em seu primeiro filme de grande sucesso, depois de uma série de fracassos – imagine servir à “boa causa” fustigando com associações simbólicas os “maus judeus” (“os sionistas, os novos nazistas”, que Blackwood e Moriarty parecem evocar), preservando momentaneamente os “bons judeus” (como a “bela judia” Adler) que poderão ser dissuadidos, pelo terror combinado com a propaganda, a colaborar na destruição de Israel.


 [1] Cf. GERMANN, André. ‘Snatch – Schweine und Diamanten’: Was Guy Ritchie über ‘Zigeuner’ weiß. In: KALKUHL, Christina; SOLMS, Wilhelm (orgs.). Antiziganismus heute. Gesellschaft für Antiziganismusforschung e.V. (Beiträge zur Antiziganis-musforschung, vol. 2), p. 135-140. 

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