A BONDADE DO HAMAS

12 set
Hamas em Gaza

Hamas em Gaza

Em seu artigo “Das cinzas de Gaza”, o escritor paquistanês Tariq Ali, globetroter do neo-stalinismo de fundo islâmico, acusou os EUA, a União Européia e toda a “comunidade internacional” de perseguir o Hamas, que só lançou contra Israel “alguns rojões de quintal”. A seu ver, o Hamas só fez coisas boas: “construiu clínicas, escolas, hospitais, ofereceu programas de assistência social. Os líderes e quadros dirigentes do Hamas vivem frugalmente. Os ataques armados a Israel […] são respostas de retaliação à ocupação muito mais mortal”. Para ele, “na escala dos massacres perpetrados pelo exército de Israel, a reação dos palestinenses é rara e sempre é muito menos violenta”.

Como “a Autoridade Palestina e os Estados árabes suspenderam o fluxo de ajuda financeira às iniciativas sociais do Hamas e, em setembro de 2003, a União Européia incluiu o Hamas na sua relação de ‘organizações terroristas’”, parece que o mundo não entende mesmo que o Hamas se distingue por “uma espécie superior de disciplina”. Apesar de sua “competência” em “implantar o cessar-fogo […] apesar das provocações de Israel […]”, o Hamas é, para Tarik Ali, de uma bondade ímpar: “nem que quisessem os palestinos matariam na escala em que os israelenses matam” já que, na célebre fantasia, “o exército de Israel é o mais modernamente armado exército de ocupação que há no mundo […] o mais fortemente armado exército de ocupação de toda a história moderna.” Caberia perguntar: e se fossem os palestinos a possuir o exército de ocupação mais modernamente armado no mundo, o mais fortemente armado exército de ocupação da história moderna? Será que ainda provocariam “tão pouco” Israel? Seriam ainda tão “frugais” em sua matança de judeus?

Para Tariq Ali, EUA e União Européia têm um sério problema: a “oposição obcecada ao Hamas”. Devido a este terrível problema, eles impõem “calamidades” aos palestinos. O escritor reclama que ninguém se esforçou em “negociar com as lideranças políticas eleitas na Palestina”, embora ele mesmo afirme: “Duvido muito que o Hamas se deixasse rapidamente subordinar aos interesses israelenses e ocidentais”, inexistindo “caminho para fora do abismo”. Ele espera mesmo que o Hamas não se torne “palatável para a opinião pública ocidental”. Se estivesse no lugar do Hamas, seria ainda mais radical e “dissolveria a Autoridade Palestina” para “acabar com a encenação”.

Assim Tariq Ali colocaria a causa palestina em “bases adequadas para exigir que o território e seus recursos sejam partilhados proporcionalmente entre populações assemelhadas em quantidade – não com 80% para os israelenses e 20% para os palestinenses, uma violência tão grande que, no longo prazo, nenhum povo jamais a aceitará”. Para ele, a “única solução aceitável é um único Estado, para israelenses-palestinenses”, ou seja, o fim do único Estado Judeu no mundo e a criação de mais um Estado árabe entre dezenas de outros e “no qual os crimes do sionismo possam afinal ser reparados”. Para ele, “não há outra possibilidade. Só essa”.[1] Ele não vê nisso nenhuma violência…

Também para Sara Roy, filha de sobreviventes do Holocausto que se especializou nas matérias “Economia de Gaza” e “Movimento Palestino Islâmico” na Universidade de Harvard, não há “possibilidade de dúvida” de que foi Israel quem rompeu a trégua com o Hamas, embora afirme em seguida, no artigo “Se Gaza cair…”, que “os dois lados tenham violado antes o acordo”. Mas foi somente a 5 de novembro de 2008, reafirma a acadêmica contra os fatos, que “o Hamas respondeu com foguetes”. Para ela, os objetivos do sítio de Israel a Gaza são claros: 1. Reforçar a idéia de que os palestinos são problema exclusivamente humanitário, sem reivindicações políticas; 2. Impingir a questão de Gaza ao Egito. É por isso, a seu ver, que “os israelenses toleram as centenas de túneis que há entre Gaza e o Egito”.

Não sei como Sara Roy consegue encaixar a demolição das casas dos palestinos que contrabandeiam armas pelos túneis cavados dentro delas na sua teoria de “tolerância israelense aos túneis”. Mas ela prossegue impassível afirmando que o bloqueio de Israel estrangula Gaza, cujo abastecimento é mantido apenas pela UNRWA (Agência de Ajuda Humanitária da ONU para os Refugiados Palestinos e o Oriente Médio) e a WFP (Programa Alimento para o Mundo), que alimentam 750 mil palestinos, que dependem do que recebem. Falta de gás, morte de milhares de frangos, única fonte de proteína para 70% dos palestinos; bancos fechados por ausência de numerário; produção de livros e cadernos paralisada por escassez de papel, tinta e cola; interrupções diárias do fornecimento da energia elétrica… “Está acontecendo aí, ante nossos olhos, a destruição de toda uma sociedade – e nenhum clamor se ouve”. Como se vê, Sara Roy é surda aos clamores internacionais, cega às centenas de manifestações anti-Israel em todo o mundo.

Coerente com a cegueira voluntária e a surdez dissimulada dos defensores da bondade do Hamas, Sara Roy conclui seu emocionado discurso: “Por que, como, em que sentido, negar alimento e remédios à população de Gaza ajudaria a proteger os israelenses? Por que, como, em que sentido, o sofrimento das crianças de Gaza – mais de 50% da população são crianças! – beneficiaria alguém? A lei internacional – e a decência humana – exigem que essas crianças sejam protegidas”[2].

Sim, mas por que Sara Roy não lança seus anátemas ao Hamas? Se Gaza vive uma tragédia humanitária é porque essa organização terrorista democraticamente eleita recusa qualquer interação com o Estado de Israel, negando-lhe existência. Embora Gaza dependa do Estado Judeu para tudo, como a autora provou em seu artigo, que para cúmulo destaca, em tom de reclamação infantil, que o envio de 25 milhões de dólares pelo ministro da Defesa de Israel, Ehud Barak são “insuficientes para pagar o mês de salários atrasados dos 77 mil funcionários públicos de Gaza”.

Ora, se Gaza recusa reconhecer Israel que mantém sua economia funcionando e lança foguetes contra a população que majoritariamente emprega seus cidadãos, é justo que tenha suas fronteiras com aquele país fechadas. Cabe ao Egito abrir suas fronteiras com Gaza (parte de seus territórios) e cuidar do abastecimento  dos árabes palestinos. Por que, como, em que sentido, o Egito mantém fechadas suas fronteiras e nega ajuda humanitária a seus irmãos? A lei internacional – e a decência humana – exigem que o Egito aja com humanidade neste caso. Israel já presta demasiada ajuda humanitária aos palestinos, que escarram na mão que os alimenta, educados para destruir quem os mantém. Se Gaza cair, é porque escolheu ser governada pelo bondoso Hamas, preferindo morrer gloriosamente lutando contra a fantasmagórica “entidade sionista” a viver simplesmente em paz com seus vizinhos.


[1] ALI, Tariq. Das cinzas de Gaza (originalmente publicado em The Guardian). Carta Maior, 31 dez. 2008. URL: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15453.

[2] ROY, Sara. If Gaza falls…, London Review of Books, 28 dez. 2008. URL: http://www.lrb.co.uk/v31/n01/roy_01_.html. Se Gaza cair… Tradução: Caia Fittipaldi, em: AZENHA, Luiz Carlos. Blog: Vi o Mundo, 1° jan. 2009. URL: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/sara-roy-se-gaza-cair/.

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