MEMÓRIAS DO GPD

26 jul
Fotomontagem de John Heartfeld: Como na Idade Média

Fotomontagem de John Heartfeld: Como na Idade Média

Entre 1995 e 1998, coordenei, a convite de Rifka Berezin, o Grupo de Pesquisa da Discriminação (GPD), criado através de um convênio entre o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) e o Centro de Estudos Judaicos (CEJ), no Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP). Os pesquisadores Adélia Dimantas, Alcebíades Diniz Miguel, Alicia Salama, Elaine Mansano, Rachel Mizrahi, Suzana Santos e Túlio Kahn integravam a equipe.

O GPD mantinha um banco de dados amplo e sistemático sobre discriminação, intolerância, racismo, antissemitismo, extremismo e terrorismo no Brasil e no mundo. Cruzando e analisando informes sobre a discriminação contra minorias (negros, índios, judeus, homossexuais, travestis, ciganos, mulheres, idosos, crianças, loucos, intelectuais); monitorando as mídias de consumo (revistas, jornais e outros meios de comunicação de massa); montando um arquivo de recortes, panfletos, revistas e boletins de ocorrências, o GPD editou entre 1995 e 1998, para informar outros grupos de pesquisa, instituições e universidades, 16 boletins O Estado da Sociedade, com 04 páginas cada um e nos quais as informações coletadas eram colocadas em contexto mais amplo, retirando a ornamentação de neutralidade que o tratamento jornalístico dota as informações urgentes sobre intolerância.

O Conselho Editorial d’O Estado da Sociedade – título que refletia bem nossas pesquisas, e era ainda uma ironia comparativa com o Estado de S. Paulo, um dos gigantes da mídia, ante nossa completa ausência de recursos materiais – reunia alguns dos mais renomados doutores da USP: Anita Novinsky, Izidoro Blikstein, Jacó Guinsburg, Paulo Sérgio Pinheiro e Rifka Berezin. No trajeto do GPD as reflexões foram férteis, não limitando os pesquisadores à coleta de materiais: ensaios, seminários e projetos de exposições estão entre suas realizações. Alguns desses projetos não puderam ser realizados.

Concebemos, por exemplo, o que seria um primeiro Museu do Holocausto no Brasil. Imaginamos a formação de um Arquivo de Documentação da Discriminação, com uma biblioteca contendo memórias, testemunhos, depoimentos orais e manuscritos, romances, novelas, contos e poemas de autores que sobreviveram ou sucumbiram ao Holocausto; histórias e análises do nacional-socialismo e dos campos de concentração; estudos sobre imigração judaica, totalitarismo, antissemitismo, racismo, sexismo, movimentos integralistas, fascistas e neonazistas no Brasil e no mundo; literatura de propaganda antissemita, racista, sexista; periódicos e hemeroteca especializados. Um arquivo eletrônico conteria um banco de dados informatizado, com acesso aos dados de outros centros no Brasil e no exterior e interface na Internet. A seção audiovisual abrigaria fototeca e videoteca com filmes de ficção e documentários nacional-socialistas e sobre o Holocausto; material gravado de televisões e instituições. O Arquivo editaria uma revista periódica sobre temas relacionados ao Holocausto, promovendo exposições informativas e artísticas em colaboração com o Museu Yad Vashem, o Museu do Holocausto de Washington e o Jewish Museum (o Museu da Shoah de Paris ainda não existia).

Outro projeto, concebido para um evento sobre Direitos Humanos em 1997, coordenado por Renato Janine Ribeiro, no Centro Universitário Maria Antonia da USP, que reabrira em 1993, foi planejado, mas não aprovado, e os motivos para essa censura discreta nunca foram explicados. Tratava-se de uma exposição intitulada As ruínas da modernidade. A montagem visava despertar uma reflexão crítica sobre a natureza totalitária do novo terrorismo e alertar para os perigos de sua crescente difusão através das novas tecnologias, como TV a cabo e a Internet, cuja implantação massiva tentava compensar, como pretensa panacéia universal, o fracasso das ideologias humanistas. A exposição consistiria num “panorama” (à maneira dos panoramas do século XIX, precursores do cinema), para evocar a destruição causada pelo terror moderno, deslocando o público para um mundo onde a segurança não existe mais.

A forma do “panorama” inspirava-se também no misterioso cromeleque de Stonehenge, formado por gigantescos monólitos de 1,5 a 6 metros de altura, pesando até 30 toneladas cada um, erigidos em estrutura circular quatro mil anos atrás, comportando ao centro a Pedra de Altar. A idéia era associar visualmente o novo terror (capaz de destruir edifícios inteiros, fazendo centenas de vítimas) às formas mais primitivas do culto ao sacrifício. A instalação consistiria de um círculo formado por 10 painéis de 1,80 metros de altura por 90 cm de comprimento, com imagens de edifícios, locais e veículos destruídos por atentados, plotadas de fotos de imprensa; intercalados a 10 painéis menores, de 55,5 cm X 34,5 cm, contendo textos sobre a essência do novo terror e a 10 monitores de TV transmitindo seqüências em looping de implosão de edifícios.

No centro se ergueria um Altar de Sacrifícios de 1,80 m por 1,80 m e com 65 cm de altura sobre um suporte de 1,90 m por 1,90 m, recoberto pela fotomontagem de John Heartfeld intitulada Como na Idade Média, onde um homem é martirizado numa suástica. A base do Altar seria “decorada” por centenas de manchetes de atentados cometidos nos últimos anos, a maioria deles em conexão com grupos de extrema-direita e de fundamentalistas islâmicos. O espaço circundante seria recoberto de latas, vidros, pedras e destroços de todo tipo, como se a própria sala tivesse sofrido um atentado a bomba.

O GPD foi também o primeiro Grupo de Estudo na Área de Ciências Humanas na USP a criar um sítio na Internet, estando suas páginas on line desde 1995, com apresentação e histórico do grupo; todos os números do boletim; interatividade para que os visitantes pudessem manifestar opiniões, registrar ocorrências documentadas de discriminação e obter dados para suas pesquisas. O sítio foi criado por Túlio Kahn, doutor em Ciências Políticas. A editoração gráfica estava a cargo de Alcebíades Diniz Miguel, com revisão de Elaine Mansano. Adélia Dimantas, Alicia Salama, Rachel Mizrahi e Suzana Santos coletavam matérias.

O GPD desenvolveu pesquisas de caráter histórico, sociológico e pedagógico abordando o racismo e a discriminação, objetivando incentivar a produção científica e ampliar o fórum de discussões nos meios acadêmicos e em instituições interessadas em debater temas como: Revisionismo, Negação do Holocausto; Terrorismo; Manipulação “Antissionista” nas Mídias; Fundamentalismo Islâmico; Neonazismo; Racismo na Internet – temas cuja discussão tornou-se hoje candente foram, assim, pioneiramente tratados nos boletins, ensaios e projetos do GPD.

Testemunhando decisivas mudanças históricas, esse material apresenta um approach original para assuntos que somente depois de 11 de setembro de 2001 passaram a ser objeto de discussão nas mídias de consumo. O Banco de Dados sobre discriminação, implantado em 1994, com mais de 300 registros sobre manifestações de intolerância, permitia uma troca de informações com centros semelhantes em todo o mundo, como o The International Association of Jewish Lawyers and Jurists, que oferece suporte legal através de cópias de pareceres e sentenças de casos julgados no mundo inteiro; o The International Council Against Anti-Semitism (IPCAA), sediado em Londres; o CEJI, na Bélgica, que atua em instituições da Comunidade Européia. Hoje, sobretudo depois de 11 de setembro de 2001, inúmeros centros desenvolvem pesquisas semelhantes.

O acervo do GPD, montado por Túlio Kahn, e alimentado com material secundário, recuperava os principais incidentes raciais e discriminatórios ocorridos no país desde 1992. Podiam-se fazer buscas por local da ocorrência, tipo de vítima, tipo de causador, data, fonte, natureza do incidente e outras variáveis. Cada registro contava com um breve resumo do caso e referências para uma pesquisa mais completa. O sistema utilizava a linguagem Paradox.

A cobertura, limitada pelos nossos recursos pessoais, reduzia-se aos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Notícias Populares, O Globo, Jornal do Brasil, Resenha Judaica, Jerusalem Post, Le Monde, La Nacion e Comunidades, às revistas Veja, Istoé, Manchete, A Hebraica, Conib, Shalom, Israel, Herança Judaica, além de outras fontes coletadas de forma não-sistemática. O GPD não tinha a intenção de atuar diretamente no âmbito judicial contra manifestações discriminatórias, mas de fornecer subsídios aos que militavam na área.

Na Europa, notificavam-se desde os anos de 1980 inúmeros atentados contra estrangeiros, numa violência crescente entre bandos juvenis. Nos Estados Unidos, os conflitos raciais intensificavam-se. Do Canadá ao Brasil, grupos neonazistas fortaleciam-se através das redes eletrônicas de comunicação. Fenômeno marginal – diziam os sociólogos e psicólogos que se ocupavam da delinqüência juvenil. Contudo, aquela marginalidade não desembocava numa revolta “esquerdista” contra o establishment; ela assumia a forma da violência contra o mais fraco. O jovem infeliz agregava-se a bandos para atacar os diferentes; a suástica transformava-se em “símbolo de protesto”, e seu significado, carregado de horror, tornava-se o ideal dos novos rebeldes.

Os modernos meios de comunicação e transporte transformavam a sociedade humana num conglomerado, onde o que acontecia num quadrante repercutia imediatamente nos outros – fatos, vírus, idéias, costumes, tudo passou a ser irradiado sob a forma de epidemias: atentados, modismos, tudo era imediatamente globalizado. A intimidade dos indivíduos, o mistério da sexualidade, a singularidade dos caracteres e a particularidade das culturas tendem a desaparecer sob o impacto dessa massificação sem paralelo. Engolfados no oceano de informações e incapazes de comunicar entre si, os homens enlouquecem de tanta solidão.

Sobretudo os jovens sentem-se perdidos, num mundo que lhes parece natural e sem História, funcionando no modo de um presente contínuo. Passam a sentir uma atração irresistível pelo crime, pelo mal, pela perversidade. Acostumados à degradação dos corpos pela publicidade, pela pornografia e pelo cinema, deixam-se tatuar e mutilar, cedendo a rituais primitivos de iniciação. Das chicotadas da Madonna e da Tiazinha aos monstros sedutores dos quadrinhos, o sadomasoquismo transbordava na cultura de massa. O Eros nazista foi assimilado pela sociedade de “bem-estar”, acrítica por excelência. O sadomasoquismo é uma fonte de energia em expansão, através da música “Oi”, da propaganda revisionista, dos atentados a bomba, celebrado pelas mídias “democráticas”, irradiado do centro mesmo do poder.

No International Seminar on Methods of Struggle Against Anti-Semitism, realizado em janeiro de 1995, na Universidade de Tel-Aviv, coordenado por Dina Porat, propôs-se que o antissemitismo não fosse mais tratado como manifestação entre outras do racismo, da xenofobia, do extremismo, mas entendido em sua singularidade e combatido com métodos e leis específicas, em cada país. É do interesse da comunidade judaica e da sociedade brasileira como um todo manterem-se informadas da escalada de antissemitismo, da propaganda revisionista, da vandalização dos monumentos judaicos e dos memoriais do Holocausto, do terrorismo de massa em todo o mundo, para agir adequadamente diante da formação e do crescimento de grupos extremistas e da propagação do antissemitismo.

A organização do GPD decorria, pois, da necessidade de se encontrar caminhos adequados ao combate das novas formas de propaganda de massa (games, vídeos, Internet) que disseminava e continua a disseminar, cada vez mais intensamente, a intolerância de maneira instantânea, em redes planetárias. A criação do fax 24 horas Hot Line (41-22-917-0092, à época), para reportar violações de direitos humanos em todo o mundo, por iniciativa de José Ayala Lassa, da Alta Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, era então um exemplo que nos inspirava.

A especificidade do antissemitismo ainda não foi plenamente contemplada pela ONU, deixando em aberto a questão da difusão das ideologias extremistas, freqüentemente disfarçadas de religiosidade, e permitidas pela legislação que garante a liberdade de expressão. É o caso dos CDs e vídeos nazistas comercializados pela Internet em sites nazistas localizados nos EUA. Coletar informações e dar encaminhamento a denúncias é uma decorrência do preceito de “pensamento global e ação local”, do qual compartilhamos. A discriminação baseia-se na generalização. Ela nasce quando se atribui a um indivíduo características supostamente pertencentes a um grupo, ou quando se estende a um grupo características negativas – ou mesmo positivas – de um integrante desse grupo. Não quer dizer que não existam características de grupo passíveis de serem atribuídas aos seus membros.

A discriminação opera, contudo, uma naturalização dessas características que são, quando reais, históricas e culturais. A discriminação emerge de frustrações e ressentimentos, independente da posição social dos que a praticam, e trabalha no atacado, simplificando violentamente o mundo: os fenômenos observados em sociedade são apreendidos como naturais, imutáveis, eternos. Ela funciona como compensação psicológica para a repressão das potencialidades do indivíduo. Aquele que discrimina inferioriza quem não pertence ao seu grupo. As características diferentes são consideradas “vícios” ou “defeitos”.

Num estágio extremo, a discriminação leva à formação de grupos de perseguição que, culpando o Outro por todos os males da sociedade, organizam caçadas e linchamentos e, no poder, instituem leis raciais, campos de concentração e extermínio. Para evitar esses extremos, devemos prestar atenção às formas embrionárias da discriminação. Como escreveu Hannah Arendt, “o racismo pode destruir não só o mundo ocidental, mas toda a civilização humana”. Denunciar e combater a discriminação, a intolerância e o racismo são condições imprescindíveis da convivência democrática. Vivendo plenamente, aceitando o Outro nos outros e em nós mesmos, talvez possamos melhorar o estado da sociedade.

Não se filiando a nenhum partido político, uma vez que a discriminação é um fenômeno que percorre todas as relações humanas e todos os grupos de interesse, o GPD pretendeu estudar as diversas formas de discriminação. Adotou os métodos mais modernos de análise da intertextualidade do discurso, identificando as expressões de intolerância, as imagens preconceituosas e as idéias segregacionistas nas tendências antidemocráticas que circulam nas mídias, nos grupos de pressão, nos movimentos políticos e sociais.

A proposta do GPD era mais abrangente que a de outros grupos, pois propunha denunciar o racismo e a discriminação em qualquer segmento da sociedade, contra qualquer grupo ou indivíduo. Assinalamos todos os fenômenos de exclusão social e intolerância, motivados por religião, orientação sexual, sexo, etnia, cor, cultura, assim como as manifestações preconceituosas que partem das próprias minorias discriminadas. Desse modo, procuramos manter a autonomia em relação a grupos de pressão, partidos políticos e militantes.

O GPD foi citado em diversas matérias pelo Jornal da USP e convidado pela EDUSP para divulgar O Estado da Sociedade na feira do livro de 1995 na Associação A Hebraica. Organizamos na B’nai B’rith um painel sobre Ameaças Globais aos Sistemas Democráticos. Enviamos cartas, boletins e press release para os principais jornais de São Paulo e Rio de Janeiro, organizações e publicações judaicas de todo o Brasil e para o jornal Comunidades, de Buenos Aires. Obtivemos a divulgação do GPD na Federação Israelita do Estado de São Paulo conforme ata da reunião do conselho deliberativo do dia 19 de março de 1996. Nesse ano, participamos do Seminário sobre Antissemitismo na América Latina, promovido pela CONIB, onde distribuímos O Estado da Sociedade aos líderes das comunidades judaicas das Américas.

A Biblioteca do Congresso de Washington solicitou o envio dos nossos boletins. E o The Project for Study of Anti-Semitism, do Stephen Roth Institute for the Study of Contemporary Anti-Semitism and Racism, da Tel Aviv University, passou a utilizar os dados do GPD como fonte sobre o Brasil para a elaboração de seus relatórios anuais Anti-semitism Worldwide Report. O Grupo de Pesquisa da Discriminação foi, enfim, um laboratório precursor dos atuais laboratórios dedicados ao tema na USP: o Laboratório de Estudos da Intolerância (LEI) e o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER), constituindo uma referência básica para as reflexões sobre as mais diversas formas da discriminação e o estado da sociedade contemporânea.

Admitido em concurso na UFMG, em 1997, ainda tentei dar continuidade ao GPD e por alguns anos mantive reuniões com os membros do grupo em viagens a São Paulo, em agradáveis tertúlias em casa de Rachel Mizrahi ou no Café Viena do Conjunto Nacional, de três a quatro vezes por ano; mas nenhum dos pesquisadores do GPD conseguiu fazer carreira na USP e cada qual seguiu seu próprio caminho na luta pela sobrevivência, sem tempo para produzir novos boletins, que davam mesmo muito trabalho. Sem qualquer apoio, acabamos desistindo.

Pessoalmente, ainda mantenho um compromisso que herdei do GPD: a elaboração, em parceria com Graciela Ben-Dror, responsável pela América Latina, do relatório anual sobre o Brasil para o Anti-Semitism Worldwide Report, editado por Dina Porat e Roni Stauber, relatório que também, desde 2006, não é mais publicado em papel, e disponível agora apenas on line. Apesar dos inevitáveis lapsos de tradução nos meus informes (do português para o espanhol, do espanhol para o inglês, do inglês de volta para o português e assim por diante), este relatório permanece o mais acurado e completo banco de dados sobre o tema.

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