ISRAEL É A NOSSA INFELICIDADE

27 fev
Capa da revista 'IstoÉ'
Capa da revista ‘IstoÉ’
Capa da revista 'Veja'
Capa da revista ‘Veja’

Levanta-se novamente o clamor contra Israel. Em toda parte, em todas as mídias, vozes de protesto proclamam a conversão do Estado Judeu ao Apartheid Sul-Africano, ao Nazismo Alemão, ao Terrorismo de Estado. As capas das nossas grandes revistas nacionais, ao destacar criancinhas palestinas mortas e mães palestinas desesperadas, sugerem que a guerra de Israel ao terror do Hamas é uma alegação falsa, que Israel deseja apenas bombardear, por pura maldade e vilania, os inocentes palestinos. A imprensa liberal fica, assim, cada vez mais parecida com a propaganda totalitária de nosso movimento antissemita global, que prega o fim do Estado Judeu. Conseguimos, finalmente, penetrar no âmago das democracias, depois de contaminar a ONU, os movimentos sociais, os movimentos anti-racistas e suas conferências de Durban, os partidos de esquerda, os Fóruns Sociais Mundiais e os campi universitários, como em nossa gloriosa Semana do Apartheid Israeli, onde doutrinamos a juventude em formação em todo o mundo pregando o boicote a Israel enquanto Exterminador de Criancinhas. Em sua crônica radiofônica semanal, a brilhante escritora Inês de Castro fez ecoar nossa propaganda com suas corajosas lamúrias de alma sensível, baseadas única e exclusivamente em seus próprios sentimentos: Nada justifica que uma inocente criança palestina tenha lentamente seu sangue esvaído, até morrer, massacrada num cruel ataque israelense! (Rádio Bandeirantes, 17 jan. 2009).

Já com base em frias e complexas análises ideológicas de fundo marxista cristão, nosso Partido dos Trabalhadores emitiu, a 4 de janeiro de 2009, a mais contundente nota oficial sobre o conflito no Oriente Médio, assinada por Ricardo Berzoini, seu Presidente nacional; e Valter Pomar, seu Secretário de Relações Internacionais: Os ataques do exército de Israel contra o território palestino, que já causaram milhares de vítimas e centenas de mortes, além de danos materiais, só podem ser caracterizados como terrorismo de Estado. Não aceitamos a “justificativa” apresentada pelo governo israelense, de que estaria agindo em defesa própria e reagindo a ataques. Atentados não podem ser respondidos através de ações contra civis. A retaliação contra civis é uma prática típica do exército nazista: Lídice e Guernica são dois exemplos disso. O governo de Israel ocupa territórios palestinos, ao arrepio de seguidas resoluções da ONU. Até agora, conta com apoio do governo dos Estados Unidos, que se realmente quiser tem os meios para deter os ataques. Feitos sob pretexto de “combater o terrorismo”, os ataques de Israel terão como resultado alimentar o ódio popular […]. O Partido dos Trabalhadores soma sua voz à condenação dos ataques […] e convoca seus militantes a engrossarem as manifestações contra a guerra e pela paz que estão sendo organizadas em todo o Brasil e no mundo. O PT reafirma, finalmente, seu integral apoio à causa palestina.

Naturalmente, a Confederação Israelita do Brasil e a Federação Israelita do Estado de São Paulo protestaram, estranhando a importação desse conflito – e apenas desse – ao Brasil. De fato, o PT jamais engajou sua militância em protestos ativos contra as matanças no Congo (400 civis assassinados em apenas dois dias) ou contra os massacres de Dafur (de 100 mil a 300 mil mortos), por exemplo. O Centro Simon Wiesentahl recordou o exótico convênio assinado pelo PT com o Partido Baath Árabe Socialista da Síria – país que acolheu o criminoso nazista Alois Brunner (auxiliar de Adolf Eichmann na implementação da ‘Solução Final’) – e não estranhou o teor da nota. Essa foi completada com a declaração pessoal de Valter Pomar ao jornal Haaretz  contra a cooperação assinada entre a PUC-RJ e a Universidade de Tel Aviv, por considerar Israel um regime de apartheid sul-africano. Nenhuma novidade nisto: nosso bravo companheiro Pomar apenas segue a campanha mundial de boicotes acadêmicos e comerciais a Israel pregados pelas nossas turbas antissemitas já instaladas nas universidades, ali fazendo campanhas de boicote ao Estado Judeu desde 2005, inspiradas nas ações das S.A. e da Juventude Hitlerista, nos velhos boicotes do Partido Nazista aos judeus. Apenas modernizamos a prática e o discurso: agora pregamos protestos humanitários (que geralmente terminam pacificamente com o espancamento de judeus, a vandalização de sinagogas e a dessacralização de cemitérios judaicos). E pregamos o boicote generalizado a acadêmicos, esportistas e mercadorias do Estado Judeu, isto é, seu isolamento total, desejando que ele seja pressionado até o limite, até que aceite nossas resoluções universais justiceiras, nossas imposições globais honestas. E que ninguém nos acuse de apartheid! O apartheid é de Israel…

Na imprensa, nosso estimado ideólogo Frei Betto endossa (“faço minhas as palavras de meu querido amigo”) a poderosa “Carta aos judeus” de Maurício Abdalla, seu companheiro no Movimento Fé e Política e professor de Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo: Por mais que o governo de Israel e todos os que o apóiam tentem, não irei odiar a vocês, irmãos judeus. Ainda que as tropas israelenses matem centenas de crianças e pessoas inocentes, não vou desejar a morte de suas crianças nem jogar a culpa na totalidade de seu povo. Mesmo que manchem a Faixa de Gaza com o sangue de um povo […] não vou revoltar-me contra nenhuma etnia nem julgar que há raças melhores ou com mais direitos que outras, como quer nos fazer acreditar o governo israelense […] não deixarei de condenar os que se calaram diante do holocausto judeu. E, mesmo que tomem à força a terra do povo árabe, não vou jamais apoiar o confisco dos bens do povo judaico, praticado há tempos pelo governo nazista. […] Por mais que o governo de Israel e todos que o apóiam traiam a tradição hebraica dos grandes profetas que clamaram por justiça e paz, ainda quero manter viva a esperança que eles anunciaram. Mesmo que joguem sua memória na lata de lixo, faço dos profetas do antigo Israel os meus profetas, pois o anúncio da justiça não distingue credos, nações ou etnias. Sei que muitos de vocês […] não apóiam o massacre dos árabes palestinos e gostariam que o governo de Israel respeitasse as decisões da ONU e o clamor da comunidade internacional pelo cessar-fogo imediato. […] Mesmo que sejam deploráveis todos os antissemitas, o silêncio dos judeus diante do massacre perpetrado pelo país que ostenta a estrela de Davi na bandeira pode ser usado como reforço para os argumentos torpes da superioridade racial. […] Não deixem o governo de Israel fazer esquecer o quanto vocês sofreram como vítimas só porque agora ele é algoz e está protegido pela maior potência mundial, os EUA. Não permitam que a ação de Israel faça parecer que, apesar das manifestações mundiais de condenação, seu Estado se acredita o único que possui razão, pois era assim que o governo alemão pensava no tempo do nazismo. […] não vou ceder à tentação do pensamento racista; não vou apagar da minha memória a catástrofe do nazismo […] não vou pensar que há povos que não merecem nação e que devem ser eliminados […] jamais quero me igualar aos governantes de Israel e àqueles que o apóiam (Jornal Correio Braziliense, 9 jan. 2009).

Aqui o brado contra o governo nazista de Israel converte-se em ladainha de grande autoridade moral. Cada negativa esconde uma vontade secreta, inconfessável e pulsante, quase a saltar da garganta, mas ainda dominada pelo uso consciencioso das palavras, de odiar os judeus, até que todos eles morram. Cada palavra é pesada e medida antes de ser proferida como um dardo, de modo a atingir apenas os judeus “maus”, aqueles que apóiam o nazismo de Israel. Os judeus “bons”, aqueles do passado, sejam os profetas da Bíblia ou os mortos no Holocausto, são reverenciados, uma vez que já estão todos mortos. Cabe aos judeus “bons” que por ventura existirem o dever moral de condenar Israel: só assim se redimirão de seu nazismo, seguindo o exemplo edificante dos judeus da Bíblia ou do Holocausto, todos mortos.

Na mesma linha moral, o jornalista Cesar Vanucci escreveu no artigo “Mundo velho de guerra”: Durante a Segunda Guerra Mundial, em instantes considerados dos mais tenebrosos da história humana, a poderosa máquina de guerra germânica foi utilizada, repetidamente, para arrasar prédios, quarteirões inteiros de cidades densamente povoadas […] que supostamente estivessem abrigando cidadãos judeus marcados para morrer na odienta perseguição racista promovida pelos sinistros adeptos da suástica. Nos dias atuais, noutro momento aterrorizante da história, a poderosa máquina de guerra de Israel, cuspindo fogo mortífero pra tudo quanto é lado, vem reduzindo a escombros residências, prédios públicos, escolas, hospitais, com gente dentro, em regiões densamente povoadas na Faixa de Gaza. A alegação é de que tais lugares, misturados com crianças, velhos, enfermos […] acham-se escondidos belicosos militantes do grupo extremista Hamas, inimigo declarado do povo judeu. Muitos – entre eles figuras exponenciais da cultura e inteligência judaica – vêem nos dois acontecimentos, deplorando o dolorido contrassenso histórico da comparação, fortes traços de similitude (Diário do Comércio, Belo Horizonte, 22 jan. 2009).

De fato, não há mal em conceder quinze segundos aos judeus para escaparem com vida dos inofensivos dez mil Qassam lançados pelo Hamas nos últimos oito anos ao sul de Israel. Não há mal em obrigar esses judeus que moram nas vizinhanças de Gaza a correr para um buraco a fim de sobreviverem nos tranqüilos três mil dias de inocentes ataques do Hamas que antecederam os cruéis ataques israelenses. Cada vez mais estimulados pelo nosso silêncio cúmplice, os “ativistas”, os “militantes”, os “resistentes” (como gostamos de chamá-los) já começavam a lançar foguetes Grad, mais potentes, com capacidade de atingir populações a 40 km da fronteira. Com isso, o Hamas convertia – graças a Alá – milhares de judeus em Anne Frank. E é assim que tem de ser! Vivemos felizes com isso! Vivemos em paz com isso! O Hamas apenas fazia sua lição de casa, mantendo Israel na linha. E todos nós vivíamos em perfeita harmonia.

Despertamos de nosso torpor sempre que o Estado Judeu sai da linha. Temos de obrigá-lo, em todo caso, a um cessar-fogo imediato. Precisamos ter paz novamente, o mais rápido possível! Devemos poupar o Hamas, cuja missão é destruir o único Estado em todo o mundo que nos infelicita. Queremos voltar a chorar com nossas telenovelas, descobrindo quem é filho de quem, odiando os vilões mais inteligentes que os mocinhos, que só se redimem no último capítulo, quando todos se acasalam felizes e contentes! Precisamos voltar a vibrar com nossos treinos de Ronaldinho, a nos escandalizar com nossos políticos corruptos, a sonhar com nossas mulheres melancias e nossas globelezas, sem ter de ver no Jornal Nacional o sangue das criancinhas palestinas se esvaindo até a morte em cruéis ataques israelenses!

Aquele Pequeno Satã precisa voltar pra ratoeira. Só assim somos felizes, só assim temos paz! Por isso respeitamos os terroristas. Só eles combatem aquele poderoso exército, aquela poderosa máquina de guerra. Os terroristas nos enchem de medo, mas também nos exaltam ao matar os judeus por nós. Eles nos deixam menos infelizes com o poderoso lobby judaico. Os terroristas islâmicos só nos assustam quando saem também da linha e não matam apenas judeus em Tel Aviv, Jerusalém ou Buenos Aires. Mas logo também nos acostumamos com os monstruosos atentados em Nova York, Londres, Madri, Moscou, Cairo, Taba, Breslan, Bagdá, Karbala, Riad, Kandahar, Karachi, Colombo, Casablanca, Bali, Istambul, Mumbai… Confundimos a Jihad com as catástrofes naturais. Após o choque, o esquecimento, que nos embala até o próximo susto. Só rezamos para que o terremoto seguinte passe longe daqui.

Não damos a mínima para os milhares de mortos no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão, na Turquia, na Tchetchênia, no Congo, no Sudão… Nem nos revolta a queima de igrejas no Iraque, onde, como relatou Tawfik Hamid, autor de Inside Jihad, no artigo Gaza solution is in the hands of Palestinians, milhares de cristãos fogem da Shari’a que os obriga a se converterem ao Islã ou pagarem a jizzia para não serem mortos. Nunca nos preocupamos com outros conflitos na Terra. Nossa paz só é perturbada quando os judeus resolvem defender seu odioso Estado. Somente este conflito nos inspira a escrever artigos raivosos na imprensa. Somente esta guerra nos estimula a sair à rua para queimar bandeiras em frente a embaixadas. Somente esta questão internacional nos incita a dar entrevistas em programas políticos na TV. Sempre que o Estado Judeu ousa reagir ao terror a fim de sobreviver, agimos de imediato, organizadamente. Nossa energia moral está toda reservada para condenar Israel. Mesmo nosso amor aos palestinos é condicionado ao nosso ódio aos judeus. Não ousamos protestar quando, em Gaza, o Hamas abate às dezenas seus rivais do Fatah. Problema deles. Os palestinos não nos interessam em si. Não nos incomodamos quando pobres criancinhas palestinas se esvaem em sangue até a morte em cruéis rixas entre o Hamas e o Fatah: essas criancinhas só nos despertam comoção quando vitimadas por Israel. Aí sim a morte delas nos excita. Porque a nossa infelicidade é Israel.  Como pintou Angeli, em A colecionadora de ossos (Folha de S. Paulo, 11 jan. 2009), a Morte ceifa em Gaza, apenas ali ela coleciona ossos.

Israel é o nosso bode expiatório. Somos anti-semitas, mas não vamos, por enquanto, admitir isso. Ainda não chegou a hora de mandar os judeus de volta para as câmaras de gás, como pediram, apressadamente, aqueles nobres deputados socialistas na Holanda. Não somos racistas, quer dizer, não queremos passar por racistas. Então dizemos que racistas são os judeus, quer dizer, os sionistas. Às vezes os termos certos nos escapam… Mas não podemos nunca nos esquecer desse truque: distinguir sempre os judeus dos sionistas. Atacamos estrategicamente apenas os judeus sionistas, os judeus “maus”, para que os judeus não sionistas, os judeus “bons”, nos ajudem a eliminar aqueles, antes de serem eles também eliminados. Por isso comparamos sem escrúpulo os judeus aos nazistas: para criar entre aqueles judeus mais fracos, mais ingênuos, mais sentimentais, mais esquerdistas, um sentimento de culpa forte o bastante para que se transformem em nossos aliados na luta secreta que travamos contra a judaiada (como preferimos chamar os judeus na intimidade).

Infestamos o mundo com nosso sofisticado antissemitismo, tão sofisticado que passa como uma tomada de posição política progressista. Ele ganha, dessa forma, uma intensidade muito maior do que aquele velho antissemitismo de Hitler, pois o nosso é global, ao mesmo tempo em que se afirma contra a globalização. Vejam como ele funciona perfeitamente. Primeiro, nós, a chamada comunidade internacional, obrigamos o Estado Judeu a agir desproporcionalmente para defender sua existência. Depois, acusamos esse Estado Judeuzinho de agir desproporcionalmente, sugerindo ser ele cruel, brutal, sanguinário, genocida por natureza. E enquanto todo um coro de vozes autorizadas carrega nas tintas na imprensa, nas TVs, nas rádios e na Internet exibindo em todo mundo imagens chocantes de inocentes criancinhas palestinas mortas por cruéis bombardeios israelenses, pontificamos que, com suas ações terroristas e nazistas, o Estado Judeuzinho Sujo está manchando sua imagem. Ah, como é divertido ser antissemita, quer dizer, antissionista, há, há, há! Claro que sabemos inexistir qualquer semelhança entre as ações que Israel é obrigado a tomar para defender sua população de terroristas fortemente armados, e cuja ação é apoiada e protegida por um sem número de Estados, movimentos e organizações internacionais, e os massacres nazistas, perpetrados contra judeus desarmados e isolados do mundo. Mas aqueles a quem nos dirigimos nada sabem de História, nem imaginam a complexidade das questões em jogo no Oriente Médio. Aliás, nem nós, mas adoramos escrever sobre isso, só para malhar os judeus! O público engole facilmente nossas desinformações cheias de sabedoria moral.

Nosso eminente José Arthur Giannotti, por exemplo, chegou a declarar no artigo intitulado de “Estados terroristas”: Não me sinto à vontade escrevendo sobre a horrenda situação do Oriente Médio; não acompanho os acontecimentos nos pormenores nem conheço os meandros da luta que ali se desenvolve. Mas me sinto moralmente obrigado a deixar público meu claro repúdio aos horrores que ali têm ocorrido […]. Não posso continuar calado, mergulhado em minhas obsessões, como se fundamentalistas palestinos e israelenses não estivessem se matando e emporcalhando a dignidade de dois povos (Folha de S. Paulo, 1º fev. 2009). Mesmo confessando nada entender do assunto, nosso grande philosophe não hesita em escrever sobre “a horrenda situação do Oriente Médio” – só para igualar Israel ao Hamas, sugerindo a abolição desses dois “Estados terroristas” para dar lugar a dois povos felizes e contentes! Ah, como é bom deixar de lado nossas obsessões, que a poucos interessam, para dar uma paulada em Israel, que a tantos infelicita!…

Também gostamos de comparar fotografias dos judeus nos campos de concentração nazistas com fotografias dos palestinos de Gaza, forçando semelhanças entre os judeus de hoje e os nazistas de ontem, entre os palestinos de hoje e os judeus de ontem. Como se houvesse qualquer semelhança! Mas é um jogo pra lá de divertido e os idiotas caem nele direitinho, pois não se dão conta das diferenças, quer dizer, os judeus na Segunda Guerra não tinham ONU, BBC, CNN, Al-Jazeera, TV Hamas, TV Hezbollah, TVs árabes, TVs européias, Globo News etc. a defender sua causa; não dispunham de um único Estado (enquanto os palestinos árabes estão cercados por 22 Estados árabes); não tinham milhões de militantes berrando nas mídias, nas Universidades, em todas as praças do mundo a seu favor; não tinham foguetes e morteiros fornecidos pela Síria e pelo Irã; não contavam com grupos terroristas (OLP, Fatah, Hamas, Hezbollah, Al Qaeda, Brigadas Islâmicas, etc.) agindo em toda parte em seu nome; não possuíam canhões antitanque, fuzis e metralhadoras contrabandeadas através de túneis; não criavam homens-bombas para se explodirem; e não eram apoiados pelos discursos, pelas marchas, pelas mídias etc. do mundo islâmico hoje formado por 55 países com cerca de 2 bilhões de fiéis.

Sabemos que, sob o nazismo, os judeus foram perseguidos por serem judeus. Não disputavam territórios com os alemães, não os explodiam em atentados, não lançavam foguetes nas suas cidades. Já os palestinos, que não são perseguidos por serem palestinos, matam e morrem voluntariamente no que eles chamam de resistência. Nessa guerra crônica, territorial na origem, são eles tão vítimas quanto algozes. No Gueto de Varsóvia, os judeus, ali confinados por serem judeus, morriam de fome e de doenças, sem qualquer ajuda humanitária de parte alguma. Em Gaza, os palestinos, que gostamos de pintar como pobres e desesperados refugiados cujos lares foram roubados pelos malvados israelenses, não abraçaram o terror nem por pobreza nem por desespero: vivem hoje melhor que nossos favelados – bem instalados não nos famosos campos de refugiados, mas em casas de alvenaria, recebendo auxílios, bolsas, doações e ajudas humanitárias provenientes do mundo inteiro. E até de Israel, que também lhes fornece a maioria de seus empregos, pelo que muitos daqueles que imigraram para o Brasil não conseguiram adaptar-se ao nosso estilo de vida, imaginando talvez que contariam aqui também com bolsas, auxílios, doações e ajudas humanitárias, além de empregos fáceis. Protegidos por dezenas de organizações da ONU instaladas em Gaza, centenas de ONG’s que zelam pelo seu bem-estar, pelos países árabes e muçulmanos, incluindo os mais ricos do mundo, que financiam organizações terroristas palestinas e pró-palestinas, os chamados territórios possuem – como observou Marx Golgher – um IDH mais alto que o da Síria, o do Paquistão, o do Egito. Por isso ali sobra dinheiro e energia para um desenvolvimento sustentável do terrorismo, com aquisição de armamentos pesados, telefones celulares, computadores, produção de programas de TV totalitários, etc.

Por que Israel deveria abrir suas fronteiras para Gaza, se o Hamas que ali governa não reconhece a existência daquele Estado, tendo fixado como meta a destruição do que chama de entidade sionista? Para permitir a entrada de homens-bombas, desativados com sucesso com a construção do Muro, que tanto criticamos? Os palestinos de Gaza podiam ir trabalhar em Israel: só quando alguns deles passaram a se explodir em mercados, ônibus e praças é que o país que os sustentava fechou-lhes as fronteiras. Não caberia ao Egito prover Gaza do que reclamamos de Israel? Bem, não seremos nós a sugerir tal coisa… Poderíamos igualmente justapor as imagens dos palestinos bombardeados pelo poderoso exército de Israel com as imagens dos nazistas bombardeados pelos poderosos exércitos da Rússia, dos EUA, da Inglaterra. Existe tanta coisa atrás das imagens! Mas os que acreditam tolamente que todos os homens se irmanam em Cristo não vão além das aparências… Por isso criamos o conto da carochinha do judeu nazista: era uma vez um monstro chamado Sharon-Hitler que massacrou pobres palestinos inocentes em Sabra e Chatila; era uma vez um monstro chamado Nazisrael, que isolou do mundo os pobres palestinos inocentes com um novo Muro da Vergonha, criando em Gaza um novo Gueto de Varsóvia; era uma vez um monstro chamado IDFSS, que massacrou pobres palestinos inocentes em Jenin-Buchenwald. Era uma vez um monstro chamado Isarelixo, que perpetrou um novo genocídio de pobres palestinos inocentes em Gaza-Auschwitz

Estamos cientes de que os pobres palestinos inocentes que escolheram terroristas para os liderarem morrem como morrem soldados e civis em qualquer guerra moderna, e sempre que cometem atentados e lançam bombas, foguetes e morteiros contra um Estado moderno, bem armado, que não aceita ter sua população agredida. Assim, se usamos a expressão “genocídio” no caso desse conflito, que sabemos ser alimentado por terroristas que usam civis como escudos humanos para atacar a população civil de Israel, é só para humilhar os judeus. Pelo mesmo motivo comparamos Israel à Alemanha de Hitler, já que ainda não encontramos uma ofensa maior que essa para lançarmos ao povo judeu. É de plena consciência que humilhamos e ofendemos os judeus em todas as mídias. Mas é por pura hipocrisia que nos sentimos magoados e melindrados quando somos chamados à atenção por isso. Dizemos então que não se pode criticar Israel, pois logo nos acusam de antissemitismo, fazendo conosco uma intolerável chantagem. Cuspimos nos judeus, mas não queremos que nos cuspam de volta!

Enviamos com gosto, discretamente, sem qualquer comentário, para nossas listas de e-mail, toda propaganda que profana a estrela de Davi com a cruz gamada e conclama ao boicote de acadêmicos israelenses nas universidades e de produtos israelenses nos mercados – propagandas catadas em sites de extrema-esquerda e de extrema-direita. Divulgamos tudo isso só para tomar o pulso dos nossos conhecidos. Será que eles vão reagir? Será que já passaram para o nosso lado? Será que já podemos assumir…? Sabemos que racismo é crime no Brasil, e por isso somos cuidadosos. Já perdemos uma batalha no STF quando tentamos provar, no caso de Siegfried Ellwanger Castan, manipulando descaradamente palavras e conceitos, que antissemitismo não é racismo já que ‘judeu’ não é raça… Mas não vamos nos privar desse prazer em nossos e-mails pessoais. Afinal, não existe censura em caixa postal e todos podem mandar – todos mandam – o que quiser para quem quiser… O mesmo vale para nossos blogs, nossos sites de relacionamento pessoal, nossas cartas às redações, nossos comentários nos fóruns dos sites noticiosos na Internet… Estamos em toda parte…

Como no blog de Georges Bourdoukan, nosso especialista em Caros Amigos para as questões do Oriente Médio. Recentemente, ele postou dois comentários interessantes pelo sentido contraditório de inconfessável fundo antissemita (o termo correto seria antijudaico, sentimento que remonta à formação da SS islâmica, fruto da aliança do Mufti de Jerusalém com Hitler: daí a confusão dos dois conceitos). No primeiro post, “Os números do genocídio”, ele enumera com uma precisão implacável: Repito mais uma vez que os números não sensibilizam, mas valem como registro para se ter idéia do que sucedeu durante a milésima invasão israelense aos territórios palestinos.[…]: Mortes – 1454, entre as quais 492 crianças, 265 mulheres, 116 velhos. Feridos – 6.500 feridos, dos quais 1.850 crianças e 557 mulheres. Mais de 20 mil casas e edifícios destruídos […].

Já no segundo post, “Afinal, o holocausto é um fato histórico ou um dogma?”, os números referentes ao genocídio do povo judeu não servem sequer de “registro para se ter idéia do que sucedeu”: [O] bispo William Richardson […] não acredita em câmaras de gás, nem em fornos crematórios. De acordo com suas pesquisas, teriam “sofrido durante a Segunda Guerra algo em torno de 300 mil judeus”. […] sejamos honestos. Se até a existência de Deus é questionada, por que não o holocausto? Será que faz diferença se morreram seis milhões, 300 mil ou um? Há discussão mais irrelevante? Ao invés da preocupação com os números macabros, por que não se preocupar com os responsáveis por tais crimes? Afinal, eles […] continuam matando. Pela fome, pela exclusão e pelas armas. Na África. Na Ásia. No Oriente Médio. […] vamos ao que interessa. Quem eram os empresários que forneceram o armamento para que seres humanos, que sequer se conheciam, se matassem uns aos outros? Quem eram os banqueiros que financiaram a guerra? […].

Sugerindo vagamente – sem precisar explicitar velhas teorias da conspiração familiares ao seu público – que o mesmo inimigo oculto – o poderoso lobby judaico-americano – seria responsável pelo Holocausto (real) dos judeus na Alemanha e pelo Holocausto (virtual) dos palestinos em Gaza, Bourdokan revela-se nosso maior arauto da gloriosa resistência do Hamas. Em seu blog, ele intercala sabiamente imagens de criancinhas mortas ou sobreviventes risonhas com vasos de flores nas mãos em meio às ruínas com poemas de sentimentalismo raivoso, como este intitulado “Quem chora por Gaza”, encharcado daquele peculiar humanismo palestino que pinta Israel como monstro perverso e satânico: […] Quem chora pelas crianças palestinas? // Por que os israelenses não reagem contra seus dirigentes?/ Por que não se repugnam contra o altar dos sacrifícios? / Terão perdido sua humanidade? / Gente de imunda hipocrisia que não poupa sequer os hospitais. // Eles exibem com orgulho o progresso que o demônio realizou. / Satânicos, querem provar que o diabo é mais poderoso que Deus. […] Eis uma sociedade decadente e doente que vive na idade das trevas. […] Seus governantes praticam o ideal da perversidade. // São energúmenos perturbados. / São os filhos do abismo. / Eles se odeiam e têm horror de si mesmos. / Até quando Jerusalém, até quando? […].

Conseguimos, assim, dirigir nossos raios para caírem, todos, sempre, no mesmo lugar. Obrigamos os judeus a se odiarem na mesma medida em que os odiamos, igualando-os àqueles que os odiaram até o genocídio, escondendo nossa simpatia por estes, aos quais nos igualamos lá no fundo de nós mesmos, disfarçando o que somos sob a máscara do bom-mocismo. Que cômodo, isso! Como uma bomba de fragmentação, nosso ódio passa a agir de forma independente dentro de nossas vítimas. E enquanto queimamos os judeus no fogo lento dessa fobia refinada, sutilmente destacada de nós, passamos por progressistas, por humanitários, por pacifistas. Como somos canalhas! Como somos espertos! Se ontem queimávamos os judeus nas fogueiras da Inquisição e nos crematórios de Auschwitz, hoje só precisamos dizer que eles são os novos nazistas; que o Primeiro Ministro de Israel é o novo Hitler; que o exército de Israel é a nova S.S.; que o Muro de Proteção é o novo Gueto de Varsóvia; que Gaza é o novo Auschwitz; que os palestinos são os novos judeus. Os homens-bombas, os foguetes Grad e Qassam, a futura bomba atômica iraniana encarregam-se do resto. Ao terror, o trabalho sujo. Mostramos ao mundo como somos altamente morais condenando o Estado Judeu à morte, enquanto gozamos nossa boa vida. E aguardamos a destruição de Israel para sermos, enfim, completamente felizes.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: