A HILARIANTE RESISTÊNCIA AO TERROR

23 fev

É crível que a dimensão humorística subsista em sociedades sob ameaças extremas? É possível rir de um homem-bomba? São as vítimas do terrorismo ainda capazes de fazer piada de atentados e parodiar a cultura da morte? Um país difamado pelas mídias mundiais consegue ainda satirizá-las? Por incrível que pareça as respostas a todas essas questões é “sim”. Com um humor sarcástico, dois programas realizados com sucesso, um em Israel, outro no Iraque, revelam que sociedades em guerra são capazes de rir das situações extremas que enfrentam. Dois quadros – postados no YouTube como Have a nice war – BBC coverage of Israel e Israeli-Palestinian BBC Newscast! Best Political Satire! – do popular programa israelense Eretz Nehederet (o primeiro, com certeza; o segundo, sem créditos, pode ser de outro programa, mas com o mesmo tipo de humor) satirizaram de modo contundente a cobertura parcial da guerra em Gaza por repórteres desvairados da BBC, que relatam os fatos deturpando-os em versões inteiramente subjetivas, deformadas pelo parti-pris contra Israel:

 

 

 

Também na inteligente animação – infelizmente sem créditos  – postada no YouTube sob o título What the fuck?!, vemos uma série de foguetes Qassan sendo lançados sobre Paris, Berlim e Londres, deixando enlouquecidos honestos cidadãos desses países – os mesmos honestos cidadãos que em grande proporção acusaram duramente Israel de “alegadamente” defender-se com pesados bombardeios contra os “palitos de fósforo do Hamas”, de uma maneira inteiramente desproporcional e, portanto, inaceitável:

 

 

Já o esquete do programa humorístico de maior sucesso no Iraque, Jihad Suicide Hotline, com três episódios postados no Youtube, consegue extrair comicidade da realidade absurda, imaginando uma linha de emergência para desestimular o desejo de viver de homens-bombas quando assaltados por alguma fraqueza pessoal – amor à vida, erotismo exagerado, ambigüidade sexual – que os torna vulneráveis e inaptos à Jihad. Altamente motivado, verdadeiro entusiasta da causa, o simpático atendente da Jihad Suicide Hotline tenta em vão convencer os recalcitrantes desesperados (homem-bomba indeciso, homem-bomba gay, mulher-bomba sexy) a não desistirem de suas missões suicida-homicidas:

 

 

 

 

Existe também uma produção de humor nas sociedades dominadas pela cultura da morte, mas parece que o único humor que floresce nessas sociedades totalitárias, de extrema repressão moral, é aquela tingida pelo sadismo. Ri-se aí das humilhações a que os outros são submetidos, confunde-se a graça com a violência sofrida pelas vítimas das “piadas”. A inteligência é identificada com a força bruta sorrateira, com o domínio físico feroz. Indícios disso podem ser vistos no perturbador clipe intitulado Enquanto isso na faixa de Gaza e Hamas, postado no YouTube, sem maiores informações, e onde “brincadeiras” tenebrosas e francamente criminosas parecem irromper nas sociedades dominadas pela cultura da morte (em Gaza sob a AP, no Iraque sob Saddam). Nas sociedades democráticas, esse humor totalitário, desumano, também é encontrado em franjas extremistas, como nas festividades de grupos neonazistas, torcidas organizadas e trotes universitários. É um humorismo que geralmente resulta em atos criminosos. Mas há ainda outra categoria de humor estragado pelo grotesco exagerado, como o que se encontra no quadro Achmed The Dead Terrorist, de Jeff Dunham, onde a sátira adquire tons mórbidos e a agressividade compromete toda a graça, ainda que o público ria, demonstrando identificação com a grosseria.

 

 Finalmente, uma sátira de caráter amadorístico, mas não de todo ruim, foi postada no YouTube por um grupo de atores americanos desprovidos de patrocínio, mostrando os terroristas fazendo trapalhadas e mulheres de burka se “liberando selvagemente” (mostrando a testa, o pé, a mão). No quadro Terrorist Bloopers: The World’s Wildest Terrorist Video Bloopers, estes jovens atores do Brooklyn, que não possuem um programa na TV, tratam de situações extremas com um humor ácido, mas que não cai nos exageros grotescos de alguns profissionais:

 

 

 

 

Diante deste rápido panorama do humorismo produzido como reação vital à cultura da morte e ao terror de massa, pode-se perceber que suas vítimas encontram motivos para rir do extremismo que as aterroriza. E rindo de situações extremas, as sociedades ameaçadas não permitem que o terror tenha a última palavra, fazendo – pelo menos por alguns momentos em que o riso perdura –, pouco caso das ameaças de morte, exaltando a liberdade de um estilo de vida que reconduz o terror ao que ele, para além de sua assustadora realidade aparente, no fundo também é: algo de caricato, absurdo e ridículo, em sua cega, repugnante, violenta repressão dos instintos vitais.

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