RASHOMON NA SUÍÇA

19 fev

Cartaz do SVP: promessa de segurança expulsando ovelhas negras - os estrangeiros.

Cartaz do SVP: promessa de segurança expulsando ovelhas negras - os estrangeiros.

 

Muito ainda precisa ser explicado, numa Suíça em que o fascismo ganha as ruas nos cartazes neonazistas do SVP que, pintando os estrangeiros como ovelhas negras e corvos, conquistou 30% das cadeiras do Congresso em 2007, antes que a polícia suíça, que desde o primeiro dia pressiona o “corvo”, a “ovelha negra” Paula Oliveira (tratada como uma prostituta e uma mentirosa; interrogada sem a presença de um advogado; obrigada a assinar uma confissão de não gravidez no Hospital Universitário de Zurique, onde estaria supostamente traumatizada; difamada pela imprensa suíça como “Paula O.”, em alusão à personagem masoquista “O.” da famosa novela pornográfica, etc.), me convença da hipótese da “autoflagelação”, mais fantasiosa que a versão da vítima, que declarou ter sido agredida por três skinheads, tendo seu corpo ferido a faca, marcado com a sigla do SVP, e estando grávida de gêmeos havia três meses, sofrido então um aborto. Quem eram os três “elementos suspeitos” que a polícia deteve nas imediações e depois libertou por falta de evidências? Por que o diretor do Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, Walter Bär, afirmou numa coletiva à imprensa que, a partir de exames de legistas e ginecologistas, sua conclusão era de que a brasileira não estava grávida e teria feito os ferimentos em seu corpo, durante uma investigação inconclusa que deveria correr em segredo?

Há inúmeras perguntas sem resposta. E, no entanto, apesar do clima de conspiração que dá o tom às investigações numa Suíça suspeita de infiltrações do SVP em toda sociedade, surgiu um dado novo que poderia constituir a peça que faltava ao quebra-cabeça. Com o intuito de reforçar a hipótese policial da “autoflagelação”, a revista suíça Die Weltwoche lembrou que as vítimas de violência na Suíça recebem consideráveis quantias de indenização (entre 50 a 100 mil francos suíços), com agravante se a vítima está grávida e perde os filhos. Bem, como golpe financeiro, a “autoflagelação” até ganha algum sentido, embora eu imagine, neste caso, um golpe planejado com o namorado suíço. O rapaz, que garantiu ser a versão da garota totalmente verdadeira – foi ele quem, no dia 9 de fevereiro, acionou, após um telefonema de Paula Oliveira do banheiro da estação de Stettbach, a patrulha da polícia que encontrou a brasileira ferida – seria então seu cúmplice: ele é quem teria feito os ferimentos no corpo da namorada (dificilmente alguém se corta tão fria e geometricamente), sob consentimento, o que explicaria seu sumiço (declarou precisar desaparecer com medo dos neonazistas que continuavam à solta).

De qualquer forma, nenhuma das versões (ataque neonazista, autoflagelação, golpe financeiro) foi comprovada, e todas podem sofrer reviravoltas. Enquanto isso, o silêncio que a brasileira mantém desde que foi internada, e mesmo após ter recebido alta, já em seu apartamento, onde foi vista apenas olhando furtivamente através da janela, continua pesando como chumbo. “Ela só diz bom dia”, declarou o zelador do prédio, um bloco de cimento frio, cinzento, deprimente. Tudo isso, somado ao fato de apenas o pai da jovem dar entrevistas, lançando frases dúbias à imprensa mistificada, só torna o caso ainda mais envolvente e misterioso. Um enigma em suspenso que, na comprovação de qualquer uma das hipóteses aventadas, traz a marca do sinistro que percorre O homem de areia, e sustenta um enredo digno de Rashomon. 

Cartaz do SVP: Suíça devorada por corvos - pelos estrangeiros.

Cartaz do SVP: Suíça devorada por corvos - pelos estrangeiros.

2 Respostas to “RASHOMON NA SUÍÇA”

  1. Alexandre Martins 19/02/2009 às 12:42 #

    Muito estranho este caso da brasileira na Suiça. Parece aqueles
    roteiros de filmes com muitos pontos de virada. Nada é o que
    parece ser, até surgir a solução definitiva surpreendendo a todos! Abraços, Alexandre.

  2. James Strougo 25/02/2009 às 22:51 #

    A Europa passa por uma grave crise de identidade. Está entre o crescimento do islamismo neste continente que prega contra os valores ocidentais sem respeitar os códigos dos anfitriões e o surgimento de grupos fascistas. Deixa de tomar decisões com medo de desagradar o grupo que em alguns anos será maioria e em contrapartida permite o crescimento de grupos fascistas. Muitos falam em anti-americanismo mas esquecem que a Europa é um continente hipócrita, que se diz civilizado e adota políticas baseadas em interesses próprios muitas vezes não mencionados na mídia.

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