AS CRIANÇAS MÁRTIRES

9 fev

Podemos perdoar vocês por matarem nossos filhos. Mas jamais os perdoaremos por nos fazer matar os seus. Não haverá paz enquanto vocês nos odiarem mais do que amam suas crianças.

Golda Meir a Anwar Saddat, antes das negociações de paz.

 

As pessoas normais não sabem que tudo é possível.

David Rousset, em L’Univers concentrationnaire.

 

Desde os filmes de Sergei Eisenstein, imagens de criancinhas são usadas pela propaganda de guerra para comover os ingênuos a fim de favorecer regimes freqüentemente sanguinários. Os tiranos mostram-se amorosos com criancinhas em fotos e filmes, enquanto exterminam friamente seus opositores e “inimigos objetivos”, aos quais acusam de matar crianças inocentes. Quem poderia ficar indiferente à cena de Stachka (“A greve, 1925), em que o menino que brincava de soldado durante a repressão à greve operária de 1912 tem seu corpinho suspenso pelo cossaco e jogado do alto do alto do cortiço, até espatifar-se no chão? Ou à cena de Bronenosets Potyomkin (“O encouraçado Potenkim”, 1925), em que o cossaco de 1905 esmaga com seu fuzil o garotinho que rola num carrinho de bebê escadaria de Odessa abaixo? Ou à cena de Aleksandr Nevskiy (“Alexandre Nevski”, 1938), em que a criança é lançada viva à fogueira pelo tirano teutônico que invade a Rússia do século XIII?

 

Essas “corajosas” críticas de Eisenstein dirigiam-se, contudo, à Rússia czarista anterior à Revolução de 1917 e à Alemanha do “presente enquanto passado” (os teutônicos do século XIII representando os nazistas de 1938). Ou seja, as críticas reduziam-se a uma propaganda do Estado: suas imagens de criancinhas martirizadas serviam para encobrir os horrores do regime soviético. O próprio Stalin não hesitou em segurar no colo a risonha menina Guelia Markizova, de seis anos de idade, cujos pais ele mandou fuzilar, promovendo com essa foto sua imagem de “amigo das criancinhas”. Também Adolf Hitler, responsável pelo assassinato de cerca de 1.500.000 crianças judias e de milhares de crianças ciganas, gostava de ser filmado e fotografado recebendo buquês de flores de criancinhas ou afagando cães, sendo admirado pelo povo alemão por seu amor aos animais e aos pequeninos; pioneiro da política ecológica de “desenvolvimento sustentável”, ele proibiu a vivisseção de animais, ao mesmo tempo em que permitiu aos médicos nazistas realizarem suas “experiências” em judeus e ciganos. Durante a Guerra Fria, os anticomunistas acusavam os comunistas de “comer criancinhas”, num eco da “caça às bruxas” dos tempos da Inquisição, quando os judeus eram freqüentemente acusados de sacrificar criancinhas cristãs para usar o sangue delas na preparação de suas matzot de Pessah, pelo que eram linchados pelas multidões piedosas ou queimados vivos pelo próprio Estado, então “braço secular” da Igreja.

 

Nos dias atuais, as mídias de consumo repetem como papagaios eletrônicos a propaganda totalitária espalhada pelo terror a respeito do “holocausto” das crianças de Gaza. Inumeráveis manifestos clamam pela destruição de Israel a fim de impedir que esse “monstro genocida”, esse “vampiro sanguinário”, esse “pequeno Satã” drene e beba todo o sangue das criancinhas palestinas. Não apenas militantes extremistas, mas também comentaristas, jornalistas, acadêmicos, escritores e filósofos assumem esse anti-israelismo, pregando boicotes ao Estado Judeu e comparando, sem qualquer constrangimento, os sionistas aos nazistas, Israel à Alemanha Hitlerista, as IDF às tropas S.S., o Muro de Proteção ao Gueto de Varsóvia, Gaza a Auschwitz. O antissemitismo retorna como antissionismo, numa escalada global de perigosas distorções da realidade, que ameaçam repetir a História em farsa de proporções gigantescas e conseqüências imprevisíveis.

A escalada que levou ao novo surto de antissemitismo/antissionismo remonta à retirada israelense de 2005. Gaza passou a ser controlada pelo Hamas, que trucidou seus rivais do Fatah e transformou o território numa Salò islâmica. Um instantâneo desse horror podia ser visto num vídeo que mostrava os homens do Hamas abatendo a tiros dezenas de homens supostamente ligados ao Fatah, em 2007. Era um registro ilustrativo da natureza do Hamas e de seus métodos de matança: os palestinos supostamente ligados ao Fatah eram obrigados a deitar em fila ao longo de um muro, à luz do dia, num arrabalde da cidade, para serem fuzilados. Notem bem: não eram colocados contra o muro, como se espera de uma execução sumária, mas deitados diante do muro: os mascarados do Hamas atiravam, então, seguidamente, a certa distância, em seus corpos, mirando as cabeças, mas obviamente custando a acertar, fazendo assim a agonia dos fuzilados se prolongar ao máximo. Se esse vídeo foi censurado por razões “humanitárias”, alguns exemplos da barbárie do Hamas ainda podem ser acessados como este registro do terror das milícias islâmicas do Hamas contra palestinos a cantar músicas do Fatah a 10 de outubro de 2007: no clipe Hamas crime against people in Gaza city, os mascarados chegam atirando para o alto, destroem as mesas colocadas na calçada e espancam violentamente os “rivais” que pareciam festejar um casamento.

Numa retrospectiva do totalitarismo palestino, o 12 de novembro de 2007 em Gaza será futuramente comparado, pelos historiadores do conflito, guardadas as devidas proporções, à Noite das Facas Longas, com o Hamas esmagando – não na calada da noite, mas em plena luz do dia – seus rivais do Fatah durante uma festa terrorista em homenagem a Yasser Arafat. O acontecimento foi registrado pela TV EuroNews no clipe Gaza City – Gaza Strip – EuroNews – No Comment, postado em duas partes: na primeira parte, pode-se apreciar a festa terrorista do Fatah; na segunda parte, tem início a razzia do Hamas, cuja violência transforma a festa terrorista, em comparação, numa festa infantil. A selvageria que marcou, de lado a lado, a tomada do poder pelo Hamas em Gaza também foi registrada pela CNN neste clipe postado no YouTube sob o título Hamas in Control of Gaza. Essa razzia foi exaltada numa animação postada no YouTube sob o título de Cartoon by Hamas, produzida pelo Hamas, e na qual estropiadas Ratazanas (representando os homens do Fatah), armadas e corrompidas pelos EUA, perturbam a digestão do Leão (o Hamas), que rói um osso duro (Israel). Quando as Ratazanas atacam uma mesquita, o Leão decide largar o osso (suspender seu “programa de resistência”) para esmagar as Ratazanas, que partem então em debandada para a Cisjordânia, enquanto Gaza volta a florescer sob a bandeira do Hamas:

 

 

Finalmente, com a aprovação pelo Conselho Legislativo Palestino das “leis corânicas” (a Sharia) em Gaza, penas de chibatada, amputação das mãos, enforcamento e crucificação foram adotadas para eliminar qualquer desvio de comportamento, e suprimir toda liberdade de expressão e de opinião. A seção 84 da lei declara, por exemplo, que: “Qualquer um que beba vinho, possua ou produza vinho será punido com 40 chibatadas se ele for muçulmano; e qualquer um que beba vinho, ou perturbe outra pessoa (com vinho), ou cause nele estresse por estar bebendo vinho em público; ou vá a algum lugar público bêbado, será punido com não menos que 40 chibatadas e encarcerado por pelo menos três meses”. E a seção 59 estabelece que “punições capitais serão usadas contra palestinos que intencionalmente […] enfraquecerem o espírito da força de resistência do povo; ou espionar contra os palestinos, especialmente durante a guerra” [Al-Arabiya, 24 dez. 2008; Al Hayat, Londres, 24 dez. 2008].

 

Ao mesmo tempo, entendendo a retirada israelense de Gaza como “sua” vitória, e depois de lançar 10 mil foguetes Qassan contra Israel, ao longo dos últimos oito anos, o Hamas obteve do Irã e da Síria foguetes Grad, de fabricação chinesa e russa, capazes de atingir cidades a 40 km da fronteira, colocando em risco quase 1 milhão de israelenses. O Hamas usou a precária “trégua”, interrompida em dezembro, para rearmar-se, dentro da tradição islâmica de oferecer tréguas quando os combatentes muçulmanos estão em pequeno número ou falta-lhes munição, ou ainda quando se espera que o inimigo se converta ao Islã. Segundo um manual de jurisprudência islâmica, Umdat al-Salik (“A confiança do viajante”), certificado pela Universidade Al-Azhar, uma trégua pode durar até dez anos – tempo previsto no Tratado de Hudaibiya, acordado entre o profeta Maomé e os Quraysh de Meca. Durante a trégua, Maomé assaltou caravanas, comprou armas, conquistou aldeias, comercializou escravos e aumentou seus combatentes: pode assim romper a trégua acordada após apenas dois anos e conquistar Meca. Quanto a acordos firmados, eles podem ser quebrados a qualquer momento, uma vez que aos islamitas é permitido mentir aos “infiéis”. Seguindo essas tradições, o Hamas ignorou os apelos do Fatah para renovar a “trégua” com Israel, sentindo-se talvez já forte o suficiente para “destruir a entidade sionista” com seus novos foguetes. Foi quando Israel decidiu bombardear os lançadores em Gaza, vitimando centenas de terroristas e seus escudos humanos.

 

Como sempre, os pacifistas condenaram Israel, exigindo um cessar-fogo imediato. Teriam crédito se tivessem exigido antes o mesmo do Hamas. Enquanto só israelenses sofriam, não se via manifestação pacifista, só pactos de silêncio com o terror. Quando o Hamas foi atacado, os pacifistas ergueram suas vozes em coro para oferecer ao terror uma nova chance – a de obter e lançar foguetes mais potentes contra Israel. Ora, o terror não cede à diplomacia. É preciso, pois, destruir sua infra-estrutura. Contudo, a violência, mesmo justificada, pode gerar mais violência. A verdadeira solução – o fim do terror – só viria com a reeducação das populações palestinas doutrinadas no sonho do martírio. Mas como realizar essa reeducação sem antes destruir a infra-estrutura do terror? Ninguém consegue decifrar esse enigma que, em forma de círculo vicioso, devora as crianças palestinas. Além disso, o mundo assiste com indiferença e até com respeito à educação para a morte que essas crianças recebem de seus pais e mestres.

 

A educação para a morte é tão contrária à natureza humana que cria, na alma palestina, uma humanidade paradoxal, que vive uma dupla moral, de incrível hipocrisia. É notável, por exemplo, que, como podemos ver no clipe Gazan Woman Sends her Hamasnik Son to Hell, uma mãe palestina possa abençoar o envio de seu filho Hamasnik para a morte com uma alegria indisfarçável, esperando que seu pimpolho assim atinja o “nível 100” e mereça entrar no sétimo céu e receber as 72 virgens que ali o aguardam; e que ela mesma, através desse martírio, obtenha a maior glória que uma mãe pode alcançar; e que, quando Hamasnik torna-se esse mártir que ela tanto desejou, essa mesma mãe procure as câmaras de TV para chorar e berrar como uma louca de tragédia grega – em paródia palestina –, como se fosse uma mãe normal, pobre e desgraçada, que acabou de perder seu bebezinho crescido, sua criança inocente, que ela jamais imaginou pudesse vir a morrer de uma forma tão violenta, massacrado pelo inimigo sionista; contra o qual, no entanto, ele foi, de livre e espontânea vontade, explodir-se, com a sua benção:

 

 

O Ocidente assistiu passivo e respeitoso à inquietante formação da nova geração de crianças terroristas pelo Hamas. Essa nova geração substituiu a anterior, já bastante perniciosa, mas menos radical, formada pelo Fatah, constituída por crianças atiradoras de pedras. Essa geração de “crianças da intifada” é simbolizada pela heroína de uma animação assinada por “Nazarpour”, postada como Palestine Cartoon, em que vemos uma inocente menina catando pedras e sendo ameaçada por um tanque israelense; no estúdio da TV americana, um soldado israelense com galo na cabeça e olho roxo reclama por ter sido atingido por dois “terroristas palestinos”. A TV americana é cúmplice do soldado, pois não mostra ao público os cadáveres das duas crianças palestinas que jazem nas imediações ensanguentadas com seus pobres estilingues. Com sua mãe, diante de uma vitrina repleta de brinquedos, a menina escolhe um bonequinho de “intifada”, com estiligue. Em seguida, ela vê a Tenebrosa Morte segurando um bonequinho de soldado israelense, caminhando em sua direção, ampliando cada vez mais o “tenebroso” símbolo da Estrela de Davi; decide então lançar pedras nos soldados israelenses. Mais tarde, ela vê um desses soldados martelando uma enorme Estrela de Davi no centro da bandeira palestina; ela se enfurece e atira uma pedra no símbolo judaico, que desaba sobre o soldado, deixando-o estonteado. A menina ri com vontade, feliz e contente:

 

 

Essa geração de crianças ativistas foi ainda mais radicalizada pelo Hamas, para servir de carne para canhão. A sua missão não é mais a lapidação de soldados israelenses, mas o martírio. Após o Fatah, o Hamas atualizou o uso que o nazismo fez das crianças alemãs, engajando-as na Juventude Hitlerista e, mais tarde, criando exércitos de crianças para lutar no front; e também o uso que o Exército Vermelho fez das crianças russas, sob Stalin, como se viu em Ivanovo Detstvo (“A infância de Ivan”, 1961), de Andrei Tarkovski; e no documentário russo “Crianças da guerra”, sobre a criação dos Acampamentos dos Pioneiros, onde crianças, muitas das quais órfãs de guerra, eram treinadas para usar armas e atravessar a linha de fogo com mensagens e munições. Mas os palestinos não adotaram simplesmente as técnicas de guerra total (incluindo a atualização dos kamikazes japoneses na figura dos homens-bombas) como também as aperfeiçoaram. Basta lembrar que a doutrinação nazista das crianças, se tinha início nas Escolas de Adolf Hitler, só era efetivada com o ingresso dos adolescentes a partir dos treze anos de idade nas Juventudes Hitleristas. Já a doutrinação do Hamas começa literalmente no berço, no jardim da infância, quando as crianças palestinas têm apenas dois anos de idade, sendo desde então uniformizadas e armadas pelos próprios pais e mestres para propagandas, manifestações e festividades. Na TV Al-Aqsa o programa infantil semanal Os Talentosos, que “vasculha a Palestina de norte a sul para descobrir crianças talentosas e criativas, com idéias espantosas e grandes projetos, a fim de tornar o povo palestino aquele com a mais desenvolvida e avançada cultura”, apresentou a 3 de setembro de 2007 um especial de início de ano escolar com “o talentoso Ahmad”: um menino de dois anos abençoado por Alá com tal amor patriótico que já sabia tudo sobre como tornar-se Shahid (mártir) na Jihad (guerra santa) contra os “terroristas que ocupam a Palestina”. Assim o vemos no vídeo Hamas Indoctrinating Toddlers arrastando seu corpinho em uniforme do Hamas, metralhadora em punho, espreitando o inimigo entre as folhagens, treinando para o martírio:

 

 

Como a Wehrmacht fez com sua Juventude Nazista; e como o Exército Vermelho fez com seus Pioneiros, os terroristas palestinos usam suas crianças talentosas, seus Pioneiros do Amanhã, para abrir caminho a terroristas armados e informar-lhes sobre a movimentação das tropas inimigas, como se pode ver no vídeo This Is How The Palestinians Using Their Children, que inclui o registro de um menino-bomba desarmado pelas IDF; o de outro, detido quando preparava seu atentado; além de cenas de propaganda ingênua sobre o “lado humano” dos soldados israelenses e das crianças palestinas: uma menina palestina ferida com pedradas tratada em hospital israelense; um soldado israelense despedindo-se de crianças palestinas; e outro ensinando passos de dança a crianças palestinas do outro lado do muro.

 

Também A luta do Hamas contra Israel na Faixa de Gaza (é preciso confirmar a idade no site para ver o clipe que possui imagens de violência gráfica) mostra como as crianças palestinas são usadas como robôs humanos, movidos por controle remoto pelo Hamas, que as enviam à morte enquanto mantêm suas próprias vidas protegidas. Sob a falsa aparência de sua pouca idade e de sua inocência, essas crianças são usadas como para servirem de olheiros na frente de combate; resgatar armas de combatentes mortos, brincar em áreas de lançamento de foguetes e assim deter ataques israelenses; transportar armas; e carregar explosivos em suas mochilas escolares para se explodirem nas proximidades de israelenses. O resultado é que, na guerra do Hamas contra Israel, um número excepcional de crianças foi vitimado: “combatentes” menores de idade, aquartelados nos alvos estratégicos para se tornarem “mártires”; arrastados para esses locais pelos líderes terroristas; ou orgulhosamente conduzidos por seus pais e mestres. Os palestinos condenam Israel pelo massacre de suas “crianças inocentes” e as mídias ocidentais, em mais uma recaída no antissemitismo cristão, acusam os judeus de “massacre”, “genocídio”, “limpeza étnica” e “holocausto”. Nenhuma força ocidental impediu o Hamas de integrar as crianças palestinas à sua infra-estrutura de terror. Nos debates, artigos, análises e noticiários da guerra, foram deliberadamente ignorados os fatos monstruosos produzidos pelo Hamas para que se pudesse lançar contra Israel acusações de “crime de guerra”, “crime contra a humanidade”, “massacre”, “genocídio”, “limpeza étnica” e “holocausto”. Quando, entre outubro de 2000 e janeiro de 2005, 123 crianças israelenses foram, em sucessivos atentados, trucidadas por homens-bombas palestinos dentro de Israel, em ônibus, pizzarias, residências, longe de qualquer alvo militar, os noticiários evitaram com o máximo cuidado o uso de termos como “crime de guerra”, “crime contra a humanidade”, “massacre”, “genocídio”, “limpeza étnica” e “holocausto”. O politicamente correto oblige, já que a nova “ética jornalística” ensina que os repórteres devem ser sempre duros e parciais com Israel, e ao mesmo tempo mitigar toda e qualquer mazela perpetrada pelo “sofrido povo palestino”. Isso implica em jamais nomear os membros do Hamas como terroristas, designando-os apenas por eufemismos como “militantes”, “ativistas”, “milicianos”, “guerrilheiros”; e em colocar sob suspeita qualquer informe israelense, cujas autoridades devem estar sempre alegando e jamais afirmando, declarando, explicando; enquanto as autoridades palestinas estão sempre afirmando, declarando, explicando, e jamais alegando. Um programa humorístico israelense fez, a propósito, paródia exemplar sobre o comportamento irracional da imprensa mundial mostrando como a BBC, em sua cegueira voluntária, pendia sempre para o lado dos palestinos, ignorando propositadamente a realidade “do lado de lá”, no mais patético antissemitismo.

 

A 2 de janeiro de 2009, uma semana após o início das operações militares em Gaza, o Hamas convocou um “dia de ódio” contra os bombardeios. Israel reforçou a segurança em Jerusalém Oriental e impôs restrições ao movimento dos palestinos da Cisjordânia. Os preparativos para a ofensiva por terra foram finalizados, tanques e soldados concentraram-se na fronteira. Várias famílias palestinas deixaram a área e o Exército israelense liberou a saída de estrangeiros da Faixa de Gaza, ao mesmo tempo em que impediu a entrada de jornalistas, declarando a área zona militar fechada. Nizar Rayyan, um dos principais líderes do Hamas em Gaza, foi morto em um bombardeio. Indiferente aos apelos de cessar-fogo, o Hamas voltou a lançar foguetes, declarando que só estudaria a possibilidade de uma trégua se Israel suspendesse o bloqueio à Faixa de Gaza. Mais tarde, o chefe do Hamas, Khaled Mechaal, de seu confortável exílio, bem longe de Gaza, na abertura de uma reunião árabe sobre a guerra em Doha, declarou: “Apesar de todas as destruições em Gaza, não aceitaremos as condições de Israel em vista de um cessar-fogo porque a resistência em Gaza não foi vencida” (Le Monde, 16 jan. 2009).

 

Graças à pressão da comunidade internacional, que obrigou Israel a declarar um cessar-fogo unilateral, o terrorismo palestino pode ainda cantar vitória entre as ruínas, ganhando um novo fôlego. Moralmente derrotado, Israel passou novamente à História (de acordo com a opinião pública) como o vilão do conflito: acusado de “crimes de guerra”, de uso de “armas proibidas” e de um inominável “massacre” de 1400 palestinos. Contudo, o próprio Hamas estimou o contingente de seus combatentes em 40 mil, ou seja: considerando as supostas 400 mortes de civis inocentes, 1000 das 1400 vítimas oficiais seriam membros do Hamas, o que nos remete ao dado mais inquietante da guerra: o cessar-fogo teria garantido vida e liberdade total para 39 mil terroristas do Hamas, preservando 99% de seu contingente de combatentes. Seis milhões de alemães – 10% da população da Alemanha – tiveram de ser mortos até que os nazistas decidissem assinar a capitulação e a Europa se libertasse do nazismo e da guerra. Preferindo uma remota aparência de “paz” em Gaza, o mundo pretende ignorar a inexistência de claras manifestações de repúdio da parte da população civil de Gaza ao terror do Hamas (a despeito das críticas veladas à condução da luta, das reclamações de perda de suas casas próprias, usadas pelos terroristas para esconder explosivos, etc.); o que significa que a “inominável” destruição causada em Gaza não foi suficiente para abalar o totalitarismo palestino. Para muitos analistas, inclusive, a presença do Hamas na região teria sido até reforçada…

 

Com toda sua perversidade, os nazistas alemães ainda simulavam uma vida normal, produzindo e consumindo um estilo de vida tradicional para as massas, que incluía, dentro de seu totalitarismo, além do militarismo e do terror, a manutenção de um espaço – naturalmente manipulado – para o prazer e a diversão. Já os islamitas radicais impõem em suas sociedades totalitárias uma vida sem qualquer espaço para a diversão e o prazer. Com a proibição do álcool, com a submissão das mulheres, com a condenação do “dia dos namorados”, com a criminalização da homossexualidade, etc. toda a energia vital da população é canalizada para a conversão do fiel em mártir na jihad. Assim pode um clipe musical do Hamas vangloriar a opção de uma mãe por carregar no seu colo não mais sua filha, mas uma bomba: “a bomba é mais importante que eu” – constata a filha rejeitada, mas feliz com a descoberta, já decidida a seguir a mãe após seu martírio, ao qual ela assiste pela TV.

 

Para as mídias ocidentais, embaladas em sua dramaturgia cristã, tradicionalmente antissemita, as crianças judias, por serem consideradas as vítimas “ricas e poderosas” do conflito, podem continuar a ser aterrorizadas por foguetes e eventualmente mortas, só merecendo ser choradas pelos seus. Desejavam mais mortes em Israel para tornar a guerra “proporcional”, desapontados com o fato de que essas não ocorram com mais freqüência num país que preza a vida e protege sua população, judia ou não, provendo as residências de bunkers e as cidades de abrigos em toda parte. Já as crianças palestinas, por serem consideradas as vítimas “pobres e oprimidas”, devem ser choradas por todos, mesmo quando voluntariamente expostas ao perigo de morte e convertidas pelo Hamas em crianças-terroristas, tendo sua inocência abusada e violentada, até serem colocadas a serviço de uma causa monstruosa – o “fim da entidade sionista” – conforme a Carta do Hamas. Ora, essa meta só poderia ser alcançada sob o cadáver de toda a população israelense (incluindo um milhão de árabes palestinos), sob bombardeio atômico, com morte radioativa colateral para todos os “refugiados palestinos” em Gaza e na Cisjordânia: a visão islamita da “causa palestina” encobre, de fato, um desejo de morte coletiva. Razões de economia política misturam-se a violentos distúrbios psíquicos produzidos por uma educação religiosa extremada que, ao sufocar Eros, libera Tânatos. Um irracionalismo doentio irrompe no mundo político.

 

Resta, então, às IDF a dura tarefa de defender seu povo, sob o achincalhe das multidões antissemitas, contra agressores patológicos que, abençoados por seus sacerdotes, sonham em “varrer Israel do mapa”, nas palavras genocidas do Presidente do Irã, dos líderes do Hamas, dos grupos de extrema-esquerda, dos neonazistas, dos pacifistas. “Viva o Hamas, judeus na câmara de gás”, gritaram dois deputados na Holanda durante uma manifestação, sendo paradoxalmente advertidos por Ahmed Aboulatb, muçulmano praticante, nascido no Marrocos e atual prefeito de Roterdã: “Nesta cidade não serão admitidos esses slogans”, afirmou.

 

Os palestinos passaram a exibir então os cadáveres de suas crianças para as mídias internacionais. Imediatamente, em diversas capitais do mundo, manifestantes agitaram bonecas enroladas em lenços palestinos respingados de tinta vermelha para demonstrar que Israel dedicava-se a massacrar crianças em Gaza. Horrorizado com este “genocídio” (mais um…) do povo palestino, o mundo entregou-se a manifestações assustadoras, grotescas, alegres, antissemitas, vibrantes, fascistas. Como a de São Francisco a 10 de janeiro de 2009, que congraçou terroristas palestinos e judeus anti-semitas, mulheres de burka e travestis politizados, palestinos homofóbicos e gays sadomasoquistas, todos felizes e contentes a gritar slogans como “Esmaguem o Estado Terrorista de Israel” ou “Israel, Estado Monstro Sedento de Sangue”; e a expor raivosamente loiras bonecas americanas ensangüentadas representando as massacradas crianças palestinas…

 

Enquanto divulgava diariamente, com grande destaque, em todas as mídias, as altas taxas da mortandade infantil na ofensiva israelense em Gaza, o Ocidente consumista insistia em ignorar que os lançamentos dos foguetes do Hamas eram feitos a partir das áreas urbanas densamente povoadas de Gaza, com o objetivo mesmo de potencializar o número das vítimas no contra-ataque. Vídeos ilustrativos podem ser vistos na Página das IDF no You Tube: um deles, censurado após mais de 10 mil acessos, mostra terroristas carregando um caminhão lançador de foguetes antes de serem cuidadosamente mirados e atingidos por um míssil israelense; outro registro aéreo para Download, datado de 29 de outubro de 2007 (ou seja, durante a “trégua”) flagra terroristas do Hamas lançando foguetes contra Israel a partir de uma escola controlada pela ONU. Também ilustrativo é o registro da TV Al-Aqsa, do Hamas, de 6 de janeiro de 2009, mostrando lançamentos a partir de uma área urbana, no clipe Launching mortar bombs from an UNRWA elementary school.

 

Consciente da estratégia “quanto mais mortos melhor” do Hamas, e prevendo que um contra-ataque vitimaria um grande número de civis, o Exército de Israel, em operação militar inédita na história, alertou a população palestina através de milhares de telefonemas aos seus celulares, além de lançar panfletos com antecedência suficiente para salvar suas vidas – e claro, apenas suas vidas. O dado novo foi desconsiderado pelas mídias, interessadas apenas em registrar cadáveres de “civis inocentes” e rostos chorosos de injuriados palestinos culpando Israel, os EUA, a ONU, e todos os ocidentais pelas suas desgraças, menos eles próprios.

 

Numa matéria sobre “telefones móveis usados por ambos os lados para aterrorizar o inimigo”, um repórter descreve como militantes do Hamas enviaram mensagens aos israelenses dizendo que eles seriam atacados; e como oficiais israelenses enviaram mensagens aos palestinos sobre os locais que seriam bombardeados. Ora, o uso do celular pelos dois lados não significa que os dois lados usaram o celular para “aterrorizar o inimigo”: uma coisa é enviar à população civil mensagens sobre iminentes ataques aleatórios, apenas para que ela sofra mais; outra é alertar uma população civil sobre iminentes ataques determinados, para que ela possa afastar-se dos alvos e salvar suas vidas. O uso da telefonia traz nos dois casos angústia e sofrimento; ninguém quer ter a privacidade invadida, ainda mais com mensagens terroristas ou militares, mas não há equivalência moral no uso do celular pelo Hamas e pelo Tsahal: uma coisa é causar terror pelo prazer de causar terror, outra é tentar reduzir as “casualidades de guerra”.

 

Também esta tentativa israelense de preservar o humanismo em plena guerra ao terror não apenas falhou em seus objetivos como foi usada pelo terror para intensificar a catástrofe palestina: os alertas serviram para que o Hamas apinhasse os locais visados com escudos humanos voluntários, potencializando, ao invés de reduzir, o número de vítimas, numa prática escabrosa que remonta a ataques anteriores documentados pelos próprios palestinos. Podemos ver no clipe Terrorists Using Civilians as Human Shields, em gravação da TV libanesa ANB, como, na iminência de um ataque israelense à sua “residência”, em 20 de novembro de 2006, Wa’el Rajab, Chefe da Força Policial do Hamas, convocou civis para escudos humanos. Igualmente Abu Bilal al-Já’abeer, no nordeste da Faixa de Gaza, notificado por celular sobre o bombardeamento iminente de sua residência, telefonou para seus conhecidos, que mobilizaram uma multidão de amigos e vizinhos, que ali compareceram para desafiar o inimigo com sua presença no alvo, evitando assim as bombas, mas demonstrando ao mesmo tempo estarem dispostos a morrerem ali bombardeados, no clipe Gaza children – human shield.

 

 

Essa estratégica de suicídio coletivo é outro fato novo a ser considerado. Ela demonstra claramente que a população colabora com o terror, seja espontaneamente, seja sob a pressão do coletivo aterrorizado. Além disso, se nem todos os civis são terroristas, todos os terroristas são civis. Não existe exército formal de terroristas. A luta contra o terrorismo será sempre uma luta entre militares (do Estado ameaçado) e civis (membros do grupo armado e treinado militarmente, sem constituir Exército formal). Assim, quando a impressa alardeia, na luta de Israel contra o Hamas, a “morte de civis inocentes” em “reações desproporcionais” de um Estado bem armado contra terroristas (felizmente!) mal armados, está a encobrir propositadamente a complexidade da situação real: os “civis inocentes” mortos nos ataques israelenses incluem tanto civis mais ou menos inocentes quanto terroristas nada inocentes. Esses fatos novos são minimizados e distorcidos deliberadamente. Assim um bon vivant jornalista brasileiro não hesitou em comentar o conflito nestes termos:

 

Não há diferenças fundamentais entre os seres humanos. Vítimas de ontem podem perfeitamente ser os algozes de amanhã. […] Dizem que o Hamas usa os civis como escudos para a resistência. Se um bandido usasse uma criança como escudo, o leitor atiraria? Harry, o sujo, atirou. Israel também […] O homem não amadureceu […] continua nos primórdios da história. As conquistas ainda se impõem pela força. Até pelo genocídio. (EDITORIAL. Os Vencidos. O Tempo, Belo Horizonte, 11 jan. 2009).

 

No editorial, certas palavras carregadas de sentidos subentendidos (“vítimas de ontem”, “algozes de amanhã”, “Harry, o sujo”, “genocídio”) são usadas calculadamente para distorcer a realidade. Confunde-se aí o uso de civis como “escudos humanos” por terroristas que lançam foguetes contra outros civis com o uso de “reféns” por bandidos em fuga ou encurralados pela polícia. Tudo no intuito de sugerir que Israel cometeu em Gaza um novo Holocausto, e que o terrorismo é apenas um espantalho com que Israel justifica seu “belicismo” (“Dizem que o Hamas usa os civis como escudos para a resistência…”. Dizem? Como assim? O jornalista não tem acesso ao YouTube e às dezenas de evidências registradas pelos próprios palestinos?). Essas distorções da realidade, antes testadas apenas em discursos islâmicos antissemitas, panfletos revisionistas, sites neonazistas e pasquins neo-stalinistas, migraram de modo integral para as mídias liberais, como bem observou Robert Kurtz, em seu artigo “A guerra contra os judeus” (Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, São Paulo, 11 jan. 2009). Exemplo disso é a capa da revista liberal IstoÉ sobre o conflito em Gaza em que Israel é estigmatizado como “Estado terrorista” sobre um clichê de mãe chorosa simbolizando a “tragédia palestina”, supostamente causada pelos “terroristas” israelenses.

 

O discurso do “terrorismo de Estado”, lançado pelos simpatizantes dos grupos terroristas para paralisar os Estados democráticos sempre que eles, após um ataque, reagem com a força necessária (seja alvejando homens-bombas e seus líderes; seja bombardeando os lançadores de foguetes que alvejam as populações civis; seja tentando destruir, através de operações militares, o aparato do terror) também foi agora adotado pelas mídias de consumo. Nesse discurso, fica implícita a legitimidade do terror e a ilegitimidade de seu combate. Em outras palavras: ainda que condenável, o terrorismo é considerado humano, uma vez legitimado pela “opinião pública” (ou pelas mídias de consumo) como uma “resistência”, devendo ser tolerado e combatido apenas na mesma proporção, isto é, com humanidade. Assim, Israel deve sofrer os ataques condenáveis, mas humanos, do Hamas, acatando as perdas e danos de seus cidadãos sem reagir. E ocorrendo, contra essa expectativa da “comunidade internacional”, uma resposta militar de Israel, tal reposta torna-se imediatamente desproporcional, ou seja, um “terrorismo de Estado”. É essa ideologia libertária cristã que está na base, por exemplo, do artigo do jornalista Robert Fisk, “Geografía da propaganda israelense”:

 

NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS FORAM 600 OS MORTOS PALESTINOS E 20 OS ISRAELENSES.

Após vinte dias de ofensiva en Gaza, as vítimas palestinas superam as 900 e em torno de 13 as israelenses […] Não nos damos conta do horror das 12 (agora 20) mortes de israelenses em 10 anos, dos milhares de foguetes e do inimaginável trauma e estresse de viver perto de Gaza. Esqueçamos os 600 palestinos mortos ali nesse lapso… […] [Mas] como nos sentiríamos se […] estivéssemos sob o fogo de aviões supersônicos e tanques Merkava e milhares de soldados cujos projéteis e bombas fazem voar em pedaços 40 mulheres e crianças […] e que, numa semana, mataram 200 civis e causaram lesões a 600. Na Irlanda, minha justificação favorita deste banho de sangue proveio de meu velho amigo Kevin Myers: ‘A quota de mortes em Gaza é, por suposto, estremecedora, aterradora, indescritível’, deplorou, ‘Entretanto, não se compara com a quota mortal de israelenses se o Hamas lograsse seus objetivos.’ Entenderam? O massacre em Gaza justifica-se porque Hamas faria o mesmo se pudesse, ainda que não o faça porque não pode. Foi preciso Fintan O’Toole, filósofo de plantão no Irish Times, para dizer o indizível: ‘Quando expira o mandato de vitimização?’, perguntou, “Em que ponto o genocídio nazista dos judeus na Europa deixa de desculpar o Estado de Israel ante as demandas do direito internacional e do direito comum da humanidade?” […] No momento em que mencionei que 600 palestinos mortos por 20 israelenses mortos em Gaza em 10 anos era algo grotesco, os escutas pró israelenses condenaram-me por dar a entender (coisa que não fiz) que só 20 israelenses pereceram em todo Israel em 10 anos. Claro que morreram centenas de israelenses fora de Gaza nesse tempo, mas o mesmo ocorreu com milhares de palestinos. […] Os jornalistas deveríamos estar do lado dos que sofrem… Se cobríssemos a libertação de um campo de concentração nazista, não daríamos igualdade de tempo aos queixumes das SS. Ao que um periodista do ‘Jewish Telegraph’ de Praga respondeu que ‘as Forças de Defesa de Israel não são Hitler’. Claro que não. Mas quem disse que eram? (FISK, Robert. Geografía de la propaganda israelí. Página 12, Buenos Aires, 14 jan. 2009. Tradução do autor).

 

Manipulando estatísticas “com pegadinhas” em comparações numéricas capciosas para criar confusão no leitor e forçá-lo a dirigir sua indignação moral para um alvo pré-definido; pontificando que os judeus que vivem perto de Gaza deveriam sofrer muito mais antes e morrer em muito maior quantidade antes de se considerarem vitimados ou agredidos; acusando as IDF de banhos de sangue através de argumentos de amigos imbecis; e escorando seu antissemitismo no antissemitismo de um “filósofo” que condena Israel com argumentos “indizíveis” subitamente tornados “dizíveis”, Robert Fisk trai-se ao afirmar que “os jornalistas deveríamos estar do lado dos que sofrem”. Ora, jornalistas deveriam estar do lado dos fatos objetivos mais relevantes, transmitindo-os aos leitores distantes dos mesmos sem parcialidade, isto é, com um mínimo de interferência de seus juízos de valor pessoais, permitindo aos leitores, justamente, formarem seus próprios juízos. Se devessem estar do lado dos que sofrem, ao cobrir a libertação de Auschwitz os jornalistas seguidores da ética proposta por Fisk deveriam apiedar-se das S.S. e dedicar maior espaço aos queixumes dos carrascos nazistas: eram as S.S., afinal, que, derrotadas, sofriam agora com as conseqüências de sua imoralidade, sendo obrigadas a carregar até as valas comuns a imensa quantidade de corpos de judeus que haviam massacrado; eram as S.S. que agora sofriam a prisão nos cárceres aliados; e que logo mais sofreriam o julgamento de seus crimes no Tribunal de Nuremberg, esse “injusto tribunal de vencedores” na visão dos revisionistas. Ao se engajarem “do lado dos que sofrem”, os novos jornalistas – Fisk e os de sua laia – abdicam do dever profissional de informar objetivamente e de transmitir, sem deturpar, os fatos que testemunham arrastando os leitores para a “causa” que abraçaram através de montagens tendenciosas de fatos e estatísticas, em jogos perversos de palavras e distorções da realidade. Tudo isto feito em nome de seu engajamento nacausa dos sofredores” – sempre os palestinos, jamais os israelenses, como se numa guerra apenas um lado sofresse; e como se o lado (mais) sofredor estivesse com a razão, a verdade, a justiça…

 

O antissemitismo insinua-se especialmente nas manipulações das informações naqueles espaços das mídias onde a autoria é indefinida. O diabo não mora mais nos detalhes: ele se mudou para as manchetes. Os exemplos são inumeráveis. As mais recentes distorções da realidade pelas lentes do antissemitismo nas mídias de consumo foram facilitadas pelo número superlativo de crianças mortas nas operações israelenses em Gaza. Excluídas as delirantes fantasias anti-semitas da “maldade dos judeus” embutidas na visão de um Exército israelense alvejando propositadamente mulheres e crianças inocentes para ganhar a condenação mundial por seus crimes de guerra; fantasias que as mídias incutiram sutilmente na população mundial com a dramaturgia cristã de seus “relatos objetivos” de piedade para com os “pobres oprimidos”, vitimados pelos vilões “ricos e poderosos”, resta saber por que as crianças, as principais vítimas de toda e qualquer guerra moderna, morreram em maior quantidade nesta guerra, inquietando e até calando muitos dos simpatizantes de Israel. Segundo fontes diversas, foram vitimadas entre 25% e 30% de crianças de um total estimado de 1400 palestinos mortos na operação destinada a destruir a máquina de terror do Hamas. Imaginando as IDF concentradas em sua missão militar, mirando terroristas e sua infra-estrutura, qualquer leigo pode perceber que há aí algo de errado. Considerando-se a reconhecida habilidade do Exército de Israel (“um dos exércitos mais poderosos do mundo”, segundo o delírio dos antissemitas), a razão da alta mortandade infantil em Gaza não pode ser atribuída, como o foi oficialmente, a falhas de mira. A razão deve ser procurada, a meu ver, na própria estrutura da sociedade palestina que o Hamas montou em Gaza, isto é, uma estrutura inteiramente voltada para o terror. Para além das sempre infelizes “casualidades de guerra”, muitas crianças vitimadas o foram depois de terem sido arrastadas à força pelos terroristas, quando não conduzidas pelos próprios pais, entusiastas da “causa”, aos locais visados pelo Exército israelense. Um exemplo encontra-se no depoimento de uma jovem palestina que perdeu o irmão menor na explosão de um míssil israelense, e que, mesmo assim, culpa o Hamas pela tragédia:

 

 

Matar e morrer matando, para depois explorar hipocritamente esse martírio procurado, desejado, junto aos ocidentais que prezam a vida, e a boa vida, tornou-se parte da cultura da morte incutida na população palestina por líderes e autoridades, pais e mestres. Vídeos com as mensagens finais de mártires, gravados pouco antes de seus atentados, sempre estiveram entre os mais vendidos nas locadoras de Gaza. O “tornar-se mártir” converteu-se na principal aspiração das crianças palestinas, que ganharam “programas de resistência infantis” produzidos pela TV Al Aqsa, do Hamas, como “Os Pioneiros do Amanhã”. Nesta série, a apresentadora Saraa, uma menina “sábia”, entrevista super-heróis terroristas para a petizada. O primeiro de desses ídolos, visto no clipe Hamas Mickey Mouse Teaches Terror to Kids, foi Farfur, o “Mickey palestino”, que pregava a guerra aos “infiéis”, e especialmente aos judeus:

 

 

Encarregado da missão de retomar Tel-Aviv, que pertenceria a seu avô, Farfur é por isso “martirizado ao vivo”, no clipe The Fall of Farfur, espancado até a morte por um “soldado israelense” interpretado por um negro, estimulando nas crianças palestinas tanto a adesão ao terror quanto a um duplo racismo: contra os judeus e os afro-descendentes:

 

 

O racismo islâmico foi assimilado dos Protocolos dos sábios de Sião e dos panfletos nazistas, fontes permanentes de inspiração para os caricaturistas palestinos e pró-palestinos. Uma suposta militância política “antissionista” leva-os ao antissemitismo de fato, não hesitando em conspurcar de todas as maneiras a Estrela de Davi, pintando judeus como ratos, serpentes, polvos, aranhas, monstros, demônios, etc. como no concurso iraniano de “Caricaturas do Holocausto”, promovido pela República Islâmica do Irã, em 2006, com ampla participação de artistas brasileiros. Este racismo está patente na minissérie produzida e transmitida em dezembro de 2004 pela TV iraniana Sahar 1, Por ti, Palestina ou Os olhos azuis de Zahra. Nesta minissérie filmada em persa com locações em Israel, Judéia e Samaria, e traduzida depois para o árabe, uma menina palestina tem seus lindos olhos azuis – “arianos” – cobiçados e extirpados num hospital israelense para serem implantados em Theodore, o filho sem rins e paralítico do fictício primeiro ministro israelense, Yitzhak Cohen, comandante militar da região, que discursa: “Nós somos a melhor raça do mundo. Nossas terras devem se estender do Nilo ao Eufrates. O Petróleo está entre o Eufrates e o Nilo.” É mencionado um carregamento naval “cheio de fetos” e revela-se que o atual Presidente de Israel só se mantém vivo graças aos órgãos roubados das crianças palestinas. Essas vão alegres serem vacinadas por médicos da ONU, na verdade agentes sionistas disfarçados, tendo assim os olhos arrancados, conforme transcrições do Projeto Memri. O diretor da minissérie, Ali Derakhshni, ex-ministro da educação do Irã, declarou que sua intenção era apenas fazer “um programa sobre crianças”, embora ele mesmo admitisse à TV iraniana que Theodoro – o menino sem rins e paralítico – “simboliza Israel” (El Reloj). A propósito deste seriado, José Roitberg lembrou que José Arbex Jr, em 1997, na revista Caros Amigos, publicou uma matéria acusando os israelenses de inocularem nas crianças palestinas um novo vírus, bastante discriminatório, que “só mataria os árabes”.

 

Enfim, morto o rato Farfour, logo surgiu na TV do Hamas a gorda abelha Nahoul, que, como se pode ver no clipe Flinging Cats by the Tail on Hamas TV, ensinava crianças a torturar gatos e, em seguida, a jogar pedras em leões, numa clara analogia com a intifada. Contudo, Nahoul dava as costas aos leões e estes alcançavam seu corpo com as patas. Saraa observa que muitas crianças palestinas faziam isso, repreendendo o comportamento de Nahoul. Mas não era a crueldade de Nahoul que a sábia menina censurava, mas uma intifada descuidada, que dava as costas ao inimigo, deixando o flanco desprotegido. Já se propunha, então, um “programa de resistência infantil”, que substituía o lançamento de pedras nas intifadas estimuladas pelo Fatah pelo treinamento militar de crianças terroristas educadas para a morte pelo Hamas:

 

 

No clipe Hamas Children Show Teaches: Jews are Murderers vemos a abelha Nahoul conclamando as crianças palestinas a matar os “perversos judeus criminosos” e, junto com Saraa, vibrando com o desejo manifestado pelo garoto Sabah, que assistia ao programa, de tornar-se jornalista quando crescer. “Uau, precisamos de jornalistas. Sabe por que, Nahoul?”, pergunta Saraa, e Nahoul responde, com toda a hipocrisia que os palestinos aprendem a ter: “Ah, para fotografar os judeus quando eles matam Farfour e as criancinhas?” “Sim, Nahoul!… Vamos todos para a Jihad quando crescermos!”:

 

 

Nahoul também morria martirizada no episódio transmitido a 2/9 de fevereiro de 2008, como se vê no clipe Hamas’ Children TV with a Terrorist Jew-Eating Rabbit, porque, estando ferida, os “judeus” a impediam de ser conduzida a um hospital no Egito. Mas a cadeia dos ídolos mártires mirins não terminaria aí: seu irmão, o coelho Assud jurou vingança e prometeu partir para a tomada de Jerusalém. Perguntado por que, sendo coelho (“Arnoub”), ele trazia o nome de Assud (“Leão”), ele explicava que “coelho não é bom, é um covarde, mas eu, Assud, vou exterminar os judeus, se Alá quiser, e vou comê-los, se Alá quiser!”. A frase era acompanhada de um terno efeito de vídeo fechando a imagem na forma de um coração. Saraa, a “sábia” menina apresentadora, elogiando o martírio, encerra confirmando existirem “muitos, muitos soldados dos ‘Pioneiros do Amanhã’ que, se Alá quiser, ajudarão a libertar nossa Palestina”, sendo ela mesma a primeira a partir para a imolação de si mesma a fim de “libertar Al-Aqsa daqueles perversos sionistas”:

 

 

No episódio de 22 de fevereiro de 2008, que pode ser visto no clipe Muslim Palestinians Teach Children To Hate In Cartoons 1, a menina Saara e o coelho Assoud discutem a questão das caricaturas de Maomé, que consideram “heréticas” (como se os dinamarqueses – e o mundo inteiro – devessem seguir a religião islâmica e seus dogmas medievais, cuja transgressão é paga com a morte). Eles pedem o boicote aos produtos dinamarqueses e, sobretudo, aos produtos israelenses, e sonham com a conquista de toda a Palestina, para que os palestinos possam atravessar livremente, em seus carros, todas as fronteiras, do Egito à Arábia Saudita. O coelho Assoud já se imagina morrendo como um mártir dessa causa, sendo então substituído por um Leão nos próximos programas:

 

 

Considerando que o termo “criança” é aplicado a todos os menores de idade, o dado novo que os analistas bon vivants recusam considerar, é que, além de escudos humanos morreram na guerra de Gaza “inocentes” crianças-terroristas formadas pelo Hamas. Os cidadãos do Ocidente preferem fechar os olhos a essa realidade monstruosa e derramar suas lágrimas de crocodilo pelas crianças palestinas, “monstruosamente massacradas por Israel”. Eles imaginam aquelas crianças como seus próprios inocentes pimpolhos, que nada sabem sobre política extremista, luta armada, treinamento militar, ódio antissemita e martírio na jihad. Todos fingem ignorar que as fileiras do Hamas estão repletas de crianças terroristas, cuja formação foi documentada fartamente em fotos, vídeos e programas da própria TV do Hamas, hoje mundialmente acessível através do Projeto Memri, de permanente monitoramento das mídias do Oriente Médio, com os momentos mais significativos gravados e traduzidos em diversas línguas. O documentário O outro lado da guerra, de José Roitberg, postado no YouTube em duas partes. Na primeira parte, podemos constatar o impressionante estado da arte da propaganda terrorista, incluindo exemplos marcantes da educação para a morte das crianças palestinas extraídos do filme Obsession e de programas da TV Palestina, incluindo o pavoroso Comercial do Hamas, gravado pelo Projeto MEMRI a 24 de dezembro de 2008, na TV Al-Aqsa. Nesse anúncio sinistro, que antecedeu a ofensiva de Israel, o narrador terrorista sintetiza, com voz gutural, distorcida por entonações sadistas, a cultura da morte do Hamas, em ameaças medonhas, nas quais o foguete Qassan assume o principal papel simbólico-material, eroticamente adorado, evocado e cultuado como um deus, um Grande Falo dotado de potência capaz de despedaçar os judeus e reduzir Israel a cinzas.

 

 

Na segunda parte, os clichês jornalísticos sobre a guerra em Gaza são contestados, mostrando dois exércitos com valores diametralmente opostos. Retomando o clipe Forças Aéreas de Israel evitando atingir civis inocentes gravado pelas IDF, mostra, através de registros aéreos dos mísseis, como pilotos israelenses evitam ao máximo a morte de civis ao mirar lançadores de foguetes; em contraste, fica patente a crescente fusão da população civil palestina na infra-estrutura terrorista do Hamas, com populares desfiles do Hamas exibindo lançadores múltiplos de mísseis, rifles, metralhadoras, bombas e foguetes Qassan; toda a “indústria da morte” palestina pronta para imolar-se; túneis cavados dentro de residências para esconder e transportar armas, explosivos e munições. Retomando o clipe Mesquita ou depósito de armas?! gravado pelas IDF, e que revela como o Hamas fez de uma mesquita um depósito de foguetes, explosivos e canhão antiaéreo, o documentário conclui-se com a entrevista de uma professora inteiramente coberta pelo véu muçulmano, explicando que as crianças de seu jardim de infância, destinadas a unir-se ao Hamas, aprendem desde cedo que o martírio e o uso do véu são as suas “missões” na Terra:

 

 

Enquanto o regime palestino doutrinava as crianças palestinas para se tornarem mártires da causa da destruição de Israel, o mundo permanecia calmo e silencioso. Quando crianças palestinas começaram a ser mortas em Gaza, o mundo despertou de seu torpor e os antissemitas apressaram-se a acusar Israel por crimes de guerra. Muitos insistiram então que os foguetes do Hamas não passavam de rojões, sendo a reação israelense “desproporcional” e seu bombardeio de crianças inocentes um verdadeiro Holocausto. Afinal, os inocentes terroristas só desejavam estraçalhar impunemente o maior número de judeus com bombas e foguetes, e dar graças a Alá. Os desígnios do Altíssimo são, aliás, insondáveis, mas às vezes um fiel é recompensado por Alá com uma viagem a jato para o Paraíso, ao encontro das 72 virgens que ali o esperam para serem defloradas, como neste vídeo estarrecedor, e que seria cômico se não fosse trágico:

 

 

Todos desejam condenar Israel por crimes de guerra, quando caberia condenar, obviamente, o Hamas. Apenas humanistas dignos deste nome assinarão a Petição que exige da hipócrita ONU o reconhecimento dos inúmeros crimes de guerra abertamente praticados pelo Hamas, entre os quais o uso das crianças palestinas como carne para canhão. Uso denegado pelos críticos de Israel, mas publicamente admitido e exaltado pelo militante palestino Fathi Hammad em discurso gravado e transmitido pela Al-Aqsa TV, do Hamas, a 28 de fevereiro de 2008, e que merece entrar para os anais do totalitarismo. Fathi Hammad aí exalta o uso de crianças, mulheres e idosos como escudos humanos, com o consentimento, e mesmo com o entusiasmo das vítimas (após longa doutrinação), numa verdadeira perversão da natureza humana: “[Os inimigos de Alá] não sabem que o povo palestino desenvolveu [seus métodos] de morte e de matança. Para o povo palestino, a morte se tornou uma indústria, onde mulheres se sacrificam assim como todo o povo desta terra: os idosos se sacrificam, os lutadores da Jihad se sacrificam, e as crianças são sacrificadas. Assim, criamos um escudo humano de mulheres, crianças, idosos e lutadores da Jihad contra a máquina de bombas sionista, como se eles estivessem dizendo ao inimigo sionista: – Nós desejamos a morte, assim como vocês desejam a vida”:

 

 

O uso que o Hamas fez das crianças palestinas como carne para canhão foi documentado pelos próprios palestinos, orgulhosos de praticarem impunemente seus crimes de guerra enquanto acusam Israel de praticar crimes de guerra “matando inocentes crianças palestinas”. Essa situação inusitada merece uma análise mais profunda, que as mídias de consumo parecem incapazes de oferecer. Imagens de programas de TV da Autoridade Palestina e da TV do Hamas, arquivadas pelo Projeto MEMRI e postadas aqui e ali no YouTube revelam a extensão da catástrofe palestina, como no clipe Chindren of Hamas (prejudicado pela piegas e precária trilha sonora). Ou no registro intitulado El otro lado, em que vemos homens mascarados do Hamas apanhando crianças palestinas na rua e arrastando-as brutalmente para servirem de carne para canhão:

 

 

Ao serem treinadas para o martírio, as crianças palestinas tornaram-se poderosas armas no arsenal de propaganda do terror do Hamas. Em Gaza, após torturar e liquidar a tiros dezenas de rivais do Fatah, o Hamas conseguiu conquistar milhões de idiotas no Ocidente com a propaganda de suas crianças mártires. As imagens pornográficas dos corpos das crianças palestinas martirizadas, como a da menina ensangüentada nos braços do pai ou a de uma mãozinha infantil saindo cadavérica dentre os escombros são imagens-choques, que se sobrepõem a qualquer discurso de justificação da guerra, tornando irrelevante o entendimento do conflito. O emocional legitima a versão terrorista da História, dando lugar ao irracional, que se autojustifica. No clipe exageradamente intitulado Holocaust in Gaza pode-se contar um morto e cinco feridos – todo um “genocídio”; em outro, Children of Gaza!!!, a dor de mães teatralmente histéricas com a perda dos filhos é capitalizada pelos terroristas do Hamas, que comunicam sua determinação de jamais desistir do “programa de resistência”…

 

Há uma lógica perversa que vai da procura do martírio pelos palestinos ao uso do martírio obtido pelos palestinos para culpar Israel do martírio dos palestinos… Diante da propaganda hardcore palestina, a propaganda soft israelense, ao produzir formas superadas de fotografias idílicas de soldados das IDF confraternizando com inocentes crianças palestinas, soa estridentemente falsa e ingênua, recaindo em clichês empregados hoje apenas em campanhas eleitorais; como na imagem-símbolo da campanha da reeleição de Lula à Presidência em 2006, que analisamos em Mil Olhos.

 

As encenações eisensteinianas de crianças assassinadas, assim como os edulcorados instantâneos nazistas, fascistas, stalinistas, populistas de criancinhas presenteando líderes carismáticos com buquês de flores tornaram-se incapazes de mobilizar as massas. Pelo seu ridículo involuntário, as imagens de propaganda das IDF servem apenas às associações sádicas que as imagens ingênuas permitem fazer – e que antissemitas não se cansam fazer – entre soldado-israelense-com-criancinha e Hitler-com-criancinha (e por que não Stalin-com-criancinha ou Lula-com-criancinha?). É mesmo notável que a ética judaica consiga resistir, apesar do bombardeio moral dos judeus em quase todas as mídias, e em nome de um bem maior que a própria sobrevivência de Israel, à única propaganda que se mostra hoje eficiente.

 

Convém também distinguir – tarefa cada vez mais complexa – as imagens produzidas deliberadamente com fins de propaganda das imagens autenticamente fotojornalísticas, que informam e documentam, sem chocar pela procura intensamente elaborada, ideologicamente orientada, de certos detalhes e ângulos. As imagens gráficas que todos conhecemos do Holocausto, por exemplo, foram realizadas pelos Exércitos Aliados, e exibidas apenas no fim da guerra, quando seu poder de mobilização não era mais eficiente para os judeus, que já estavam mortos ou sendo libertados dos campos. O mundo comoveu-se e ainda se comove com essas imagens, fundamentais para a consolidação de Israel após o Holocausto.

 

Hoje, contudo, as imagens de violência gráfica do Holocausto (que não foram registradas pelos judeus dos campos, desprovidos de qualquer meio de comunicação, mas por soldados fotógrafos e cinegrafistas – alemães e aliados, em circunstâncias diversas); essas imagens cujo uso Claude Lanzmann rejeitou em seu documentário Shoah (“Shoah”, 1985), e que outros diretores, como Alain Resnais, em Nuit et brouillard (“Noite e brumas”, 1955), entenderam necessário rever; e outros, como Steven Spielberg, em Schindler’s List (“A lista de Schindler”, 1993), entenderam necessário encenar; essas imagens que marcaram a consciência do século XX hoje se desgastaram (seja por sua excessiva exposição, seja por sua superação em imagens de horrores registradas com técnicas mais avançadas) não têm mais força para mobilizar o mundo atual senão através de seu uso perverso e distorcido pelos antissemitas. Esse uso é hoje realizado sistematicamente a fim de destruir Israel e negar o Holocausto, através de justaposições insanas com as imagens contemporâneas do “sofrimento palestino” – que deve ser mantido entre aspas, pelo que apresenta de real e de imaginário, de verdadeiro e de forjado simultaneamente. De fato, o mundo não conhece ainda toda a dimensão da chamada Pallywood:

 

 

Neste sentido, é notável o exemplo de dignidade oferecido pela concepção do monumento às crianças vitimadas no Holocausto no Museu Yad Vashem, em Jerusalém: ali não se vê nenhuma imagem das crianças judias mortas, nenhuma exploração de seu sofrimento, de sua morte física, apenas a luz de seis velas acesas na escuridão, refletidas por espelhos que as multiplicam ao infinito, enquanto são recitados os nomes das crianças mortas de uma lista sem fim. Já os terroristas palestinos descobriram a força da propaganda totalitária hardcore, muito mais poderosa que as imagens dos martírios infantis encenados por Eisenstein e das poses floridas de crianças junto a ditadores ou populistas.

 

Gênios goebbelianos do marketing maquiavélico, os palestinos divulgam as imagens que o mundo de hoje quer ver: as de suas crianças sendo treinadas para matar e morrer; e as imagens subseqüentes de seus pequenos cadáveres embrulhados em panos. Os palestinos tornaram-se um sucesso de mídia encarregando os paparazzi internacionais de fotografar essas crianças mártires em tempo real. Primeiro momento: “treinando para o martírio”. Segundo momento: “destroçadas no campo de batalha”. É só isso que as mídias precisam transmitir, é só isso que os militantes da causa precisam martelar, para que o terror palestino se veja mundialmente legitimado. Em Gaza, a propaganda terrorista suplantou a propaganda totalitária das representações sangrentas e festivas, criando a propaganda gore da exibição de crianças reais abusadas por pais e mestres, que as treinam para matar e morrer, entregando, em seguida, seus corpos trucidados à sanha dos paparazzi de criancinhas mortas. Essas imagens hardcore, difundidas em massa, sem resquícios de ética, seja da parte dos palestinos, seja da parte das mídias de consumo, revelaram-se uma forma de propaganda capaz de mobilizar as massas mais heterogêneas. Imagens das crianças mártires são eficazes, populares, ansiadas, excitantes, fomentadas, aplaudidas. O mundo de hoje só se comove e se deleita com imagens reais de violência gráfica e pornográfica.

 

Já Israel é um fracasso na guerra de propaganda, pois não dá ao mundo o que ele deseja nesse campo. Não permitiu, por exemplo, que o mundo se comovesse com as imagens (sonegadas) das 123 crianças israelenses explodidas pelos homens-bombas palestinos entre outubro de 2000 e janeiro de 2005, em sucessivos atentados. Bloqueados por uma ética que o mundo há muito superou, os israelenses frustram as consciências antenadas com a não-exibição das imagens pornográficas de suas crianças trucidadas, e o mundo não perdoa esse tipo de boicote ao seu gozo piedoso, obtido através do contato visual com o sofrimento alheio mais rasgado, mais sangrento. Já a causa palestina ganha um sem número de adeptos porque não se acanha diante do inominável, conquistando corações e mentes com os pequenos cadáveres de Gaza. As mídias de consumo reservam às crianças mártires palestinas um espaço privilegiado em detrimento de milhares de outras, sacrificadas em tantos outros conflitos silenciados – 400 mil mortos e 2,5 milhões de refugiados em Darfur; 4 milhões de mortos ou destituídos de suas casas no Congo; 200 mil mortos e um terço da população desalojada pelo exército russo na Chechênia… Preocupadas apenas em obter a mais ampla audiência, comovendo a qualquer preço a desgastada, frouxa, empedernida sensibilidade contemporânea, as mídias de consumo descobriram que o coro é maior quando elas se aliam ao terror palestino, explorando e satisfazendo o mais antigo e duradouro prazer mórbido das massas, arraigadamente antissemitas.

4 Respostas to “AS CRIANÇAS MÁRTIRES”

  1. James Strougo 25/02/2009 às 22:56 #

    A maior ameaça à paz mundial hoje é a aliança de correntes esquerdistas que dominam a mídia com o fundamentalismo islâmico. Todas as religiões dizem que é pecado tirar a sua ou a vida de alguém. É inadmissível o culto à morte. Não vejo hoje na mídia nenhuma crítica a esse aspecto do fundamentalismo islâmico. Na verdade nem vejo entidades islâmicas moderadas se posicionando contra essa prática.

  2. James Strougo 27/02/2009 às 01:07 #

    Desde a época de Arafat que se educa as crianças a odiarem os Judeus. Ainda virão várias gerações com esse ódio. É um legado de longo prazo deixado por Arafat que perdeu a grande chance de fazer a paz no Governo de Ehud Barak.

  3. Rafa 03/05/2009 às 04:43 #

    Violência justifica mais violência. É o agir pelo não-agir. Obviamente que a Palestina tem os líderes bem errados e metendo os pés pelas mãos, mas os que possuem a cabeça no lugar não deviam agir diferente? Boa sorte!

    • Luiz Nazario 03/05/2009 às 14:07 #

      Israel age diferente, pois partindo do mesmo deserto palestino é um dos países mais desenvolvidos do mundo. Quando atacado, se defende, com toda a força necessária. Depois que o Holocausto eliminou um terço do povo judeu, os milhares de sobreviventes do nazismo que ficaram após a guerra confinados nos campos DP na Alemanha, sem ter para onde ir, não ficaram explodindo bares e restaurantes, matando alemães, nem educando seus filhos para a morte: eles reconstruíram suas vidas onde puderam e, com a Partilha da Palestina determinada pela ONU com votos da maioria de seus países membros em 1947, construíram seu próprio Estado em 1948. Os palestinos escolheram outro caminho desde o momento em que recusaram a Partilha da ONU, negando a si próprios um futuro Estado na Palestina, porque preferiam não ter Estado nenhum a conviver com um Estado judeu. Escollheram o caminho da intolerância, da judeufobia, do terrorismo, a opção, enfim, pela morte própria e alheia, culpando Israel por suas desgraças e tentando envolver o mundo inteiro na sua causa insana. E é incrível como são bem sucedidos. Boa sorte!

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